O segredo holandês de Pinochet
O projecto de realojamento de Roterdão para trabalhadores reformados da RDM parece um quadro impressionista de meados do século XIX. Localizado perto dos maiores estaleiros do mundo, o distrito de Heyplaat é um lugar pacífico: as ruas são alinhadas por árvores e cheias de pássaros canoros; as mulheres idosas tricotam à sombra das árvores enquanto os homens se juntam em clubes para jogar bilhar.
Os moradores mais velhos são algumas das 5.000 pessoas que costumavam trabalhar para a Rotterdamse Droogdok Maatschappij [Companhia de Docas Secas de Roterdão ou RDM]. Eles são os sortudos que atingiram a idade da reforma quando a companhia ainda era viável. Milhares foram dispensados quando a companhia “rebentou” em 2004. No seu auge, a companhia valia mais de dois mil milhões de dólares e o seu presidente Joep van den Nieuwenhuyzen era chamado de mágico financeiro ou o médico da companhia devido ao seu dom para comprar companhias defuntas, cuidando-as para que voltassem a ter saúde financeira, e depois vendendo‑as com um largo lucro.
Em meados deste Verão, no entanto, Nieuwenhuyzen irá a julgamento por ter conduzido a RDM à falência.
Nieuwenhuyzen também vive em bonitas redondezas à sombra das árvores. Mas as árvores dele são as eternamente verdes que salpicam a Suíça onde ele mantém a sua mansão no topo da montanha e as palmeiras que oscilam nas brisas de Curaçao, a maior das ilhas das Antilhas Holandesas nas Caraíbas.
«Qualquer pessoa que queira ter uma residência permanente nesta ilha tem de ter pessoal doméstico de pelo menos três locais», aconselha ele à Corpwatch, com rum e cola à mão.
Nieuwenhuyzen é um dos exilados de impostos de Curaçao. Eles têm uma escolha: ou pagam 5% do seu rendimento mundial ou antecipam 30.000 euros. Nieuwenhuyzen, com um valor bruto estimado em 3,1 mil milhões de euros, escolhe seguramente pagar o valor fixo.
A fácil impunidade de Nieuwenhuyzen enfurece Cindy de la Fuente. Advogada na Halley, Blaauw & Navarro em Willemstad, Curaçao, ela afirma que Nieuwenhuyzen deve 3,2 mil milhões de dólares ao seu cliente, a IBCOL, um distribuidor alemão de helicópteros.
A IBCOL é apenas um dos muitos associados de negócios zangados que o acusam de lhes ter preparado um mau negócio. Outro é a força policial do Chile, que está a investigar subornos pagos pela sua antiga ditadura militar e a descobrir que a sucessão de provas leva ao mágico financeiro.
DE SUCATEIRO A NEGOCIANTE DE ARMAS
Nieuwenhuyzen iniciou a sua carreira como sucateiro. Subiu a comprar e a vender companhias defuntas através da empresa Begeman. Do Brasil à Índia, da Rússia à Coreia do Norte e à Malásia ele comprava, reestruturava negócios e vendia‑os com enormes lucros, frequentemente deixando montes de trabalhadores de mãos vazias.
Em 1995, a Begerman foi declarada falida e foi nesta altura que Nieuwenhuyzen tomou conta da RDM, uma companhia holandesa que remonta à década de 1920 quando construía e vendia submarinos, que também tinha caído em tempos duros. O governo vendeu-lha por apenas 20 milhões de dólares, mas ele apercebeu‑se de que podia usá-la para fazer ainda maiores negócios devido à sua história e reputação.
A RDM era uma peça chave de um grandioso sistema de produção de armas que fabrica barcos de guerra, electrónica, munições e peças soltas para aviões – tudo exportações bastante apoiadas pelo governo. De facto, para um país que não está envolvido em operações militares de grande escala, a Holanda ocupa um espectacular sétimo lugar na lista mundial dos países exportadores de armas.
Nieuwenhuyzen rapidamente expandiu a operação de negócio militar da RDM – vendeu armas para veículos blindados que valiam mais de um milhão de dólares cada à Jordânia e teve encomendas firmes para outras armas de países que incluíam a Áustria, o Canadá, a Noruega e os Emiratos Árabes Unidos.
Depois as coisas começaram a abanar para Nieuwenhuyzen. Os seus negócios com o Chile, Israel, África do Sul e Tailândia para o submarino da classe Moray, afundaram-se. Um negócio com a Lockheed Martin para a construção do retentor do seu caça Joint Strike (o mecanismo que detém o caça quando aterra a bordo de um porta‑aviões) nunca arrancou.
FAZENDO NEGÓCIO COM PINOCHET
Um negócio com o Chile revela claramente como Nieuwenhuyzen fez algum do seu dinheiro. A 11 de Setembro de 1973, quando o General Pinochet arrancou o poder dos esquerdistas do Chile, o governo socialista da Holanda cortou quase todas as suas ligações com o novo regime fascista. A política de Hague da altura era banir toda a venda de armas a Santiago.
No entanto, sem conhecimento do público em geral, em 1995, dois ambiciosos burocratas holandeses reuniram‑se secretamente com oficiais do exército chileno em Santiago e ofereceram‑lhes 202 tanques Leopard 1V a 50.000 dólares cada, não incluindo munições e peças soltas.
Boukje Boukens, um empregado reformado da RDM em Heyplatt, que vive num dos apartamentos da RDM para antigos empregados, recorda o negócio. Ele é um velho homem robusto que trabalhou no departamento de assuntos sociais da companhia.
A cara dele enruga-se enquanto conta a história à Corpwatch: «Eles foram convidados pelos oficiais do exército chileno directamente sob Pinochet, que está agora a ser acusado e exposto como um dos maiores envolvidos em fraude, lavagem de dinheiro e como um negociante de armas corrupto».
Como a proibição ainda se encontrava em vigor e os dois responsáveis holandeses não estavam autorizados a fechar o negócio, então os tanques foram vendidos à RDM de Nieuwenhuyzen ao preço ridiculamente baixo de 18.500 dólares cada. Foram inscritos como ferro‑velho.
A companhia de Nieuwenhuyzen voltou-se então para Pedro del Fierro, um consultor e negociante que se encontrava na lista de procurados da Interpol por vender e entregar armas à Croácia. Ele é também um antigo general dos serviços secretos do exército chileno, que foi acusado de incontáveis mortes, desaparecimentos e tortura.
A favor da RDM, del Fierro ofereceu os mesmos tanques aos mesmos oficiais de topo do exército chileno, para serem entregues à FAMAE (Fabrica y Maestranzas del Ejército de Chile), o departamento de compras de armas do exército chileno.
«As autoridades da Justiça em Santiago descobriram documentos que revelam os planos de Pinochet para fazer negócios com a RDM e não com o governo holandês, uma vez que eles tinham condenado o seu golpe de 11 de Setembro de 1973, matando tantas pessoas e derrubando uma experiência socialista», disse Evert van der Schee, outro empregado reformado da RDM. Ele é um antigo membro do sindicato da RDM que escreveu um livro sobre o episódio.
Nessa altura, o ministro da defesa Joris Voorhoeve, gostava de pensar que a RDM detinha o negócio de uma vida. Numa carta datada de 29 de Outubro de 1997 que ele enviou ao seu colega e Ministro dos Negócios Estrangeiros Hans van Mierlo, ele dava as boas vindas ao plano de negócios da RDM: «O governo ganha nesta construção porque as negociações entre nós e os chilenos podem ser evitadas».
A ideia de venderem e entregarem tanques ao regime de Pinochet era sensível para o governo holandês, que não esquecera as fotografias do cerco de Santiago de 11 de Setembro 1973 quando tanques haviam destruído o centro da cidade.
O ministro Van Mierlo sublinha que havia uma condição para o acordo: «A Defesa queria ver-se livre do equipamento militar. Aceitámos o acordo do governo chileno depois de ele (o General Pinochet) ter renunciado como Comandante Supremo. Penso que depois de tudo, agora penso que não deveríamos ter permitido qualquer negócio com o Chile».
Mas Van Der Schee aponta que este não foi um erro da parte dos chilenos. «Agora sabemos que Pinochet nunca levou o governo holandês a sério e que ele precisava da RDM para receber os seus subornos. Ele nunca obteria esses subornos do governo em Hague», diz ele à Corpwatch.
«Apesar de nós na RDM termos pago quantias enormes para subornos, fizemos uma fortuna vendendo aqueles tanques por 77 milhões de dólares. Nós pagámos sempre uma comissão. Isso é uma prática comum. Ao todo pagámos 9 milhões de dólares aos oficiais do Exército Chileno e aos seus associados para fecharmos o negócio», afirmou ele.
Há mais. «Antes dos contratos serem assinados, outro consultor [Oscar Aitken] ligou para a RDM identificando‑se como conselheiro pessoal do general Pinochet», disse Boukens. A RDM verificou para ter a certeza de que ele estava mesmo a representar Pinochet, e então pagou outros três porcento do valor do seguro ou quase 2 milhões de dólares.
O pagamento foi feito por uma companhia das Antilhas Holandesas, a Holding NV da RDM, outra companhia de Nieuwenhuyzen, à Cornwall Overseas Corporation, uma filial gerida por Aitken, a qual foi usada para pagar ao secretário e conselheiro pessoal de Pinochet. Um segundo general foi pago através da Eastview Finance, um negócio offshore do general Augusto Pinochet.
Interessantemente, o parlamento holandês e os registos públicos mostram que os tanques Leopard foram vendidos à RDM Technology Holding BV, um abrigo de impostos nas Antilhas Holandesas. Mesmo assim, o negócio foi tecnicamente legal porque nessa altura pagar subornos a burocratas estrangeiros era uma despesa legítima de negócios. Desde essa altura, os subornos tornaram-se ilegais.
JULGAMENTOS DE UM EXÍLIO DE IMPOSTOS
Hoje, Nieuwenhuyzen passa a maioria do seu tempo num avião a viajar entre África, Europa, América do Norte e do Sul, e Extremo Oriente, dando entrada em aeroportos internacionais pelo menos uma vez por semana, uma vez que ele trabalha com os seus negócios complicados e vive dos lucros que estes geram.
Pára ocasionalmente em Amsterdão onde fica no Hotel Amstel. «É um lugar excepcionalmente acolhedor e amistoso onde têm uma suite especial e um guarda-fatos para mim com o meu nome impresso num robe», afirma. Na verdade, ele gaba-se de ter mais guarda-fatos em outros hotéis de cinco estrelas e lugares à volta do globo.
«Os homens dos impostos não me permitem ter uma residência no meu próprio país, mas não querem proibir a minha estada», acrescenta.
De volta a Roterdão, sentados debaixo de árvores com sombra num dia quente em Heyplaat, alguns reformados da RDM tomam conhecimento de que o seu antigo patrão pagou 9 milhões de dólares de suborno ao regime de Pinochet no Chile. Limpando o suor das suas testas, dizem que a alta temperatura deste Verão não é nada quando comparada com o que Nieuwenhuyzen experimentará em tribunal. «Vai ser mais quente do que o Inferno», avisou um deles.
(Actualização de 25 de julho de 2006:)
Joep van den Nieuwenhuyzen enfrenta presentemente múltiplas acusações acerca das suas práticas de negócios.
Um dos primeiros casos a ir a tribunal foi a falência da SP Aerospace, uma companhia que construía e reparava veículos blindados Fennek para o Departamento de Defesa Holandês mas que faliu em 2004.
Em meados de Julho de 2006, um Juiz de Roterdão afirmou que Nieuwenhuyzen depositou vários milhões de euros da SP Aerospace noutra das suas companhias com sede em Curaçao. Ele ordenou ao controverso homem de negócios que devolvesse ao encarregado da SP Aerospace a soma de 12 milhões de euros.
«Ele é culpado de falir premeditadamente as suas companhias com o único propósito de se enriquecer a si próprio. Deliberadamente roubou nos pagamentos e prejudicou os seus credores», disse o Juiz.
Nieuwenhuyzen planeia apelar do veredicto enquanto aguarda outros julgamentos.
A VENDA HOLANDESA DE ARMAS HOJE
A Holanda é o sétimo maior exportador de armas do mundo. Os críticos acusaram a Holanda de lucrar com a venda de armas para países que provavelmente as usarão para violações de direitos humanos.
Um país problemático que se provou ser muito rentável para a indústria naval holandesa é a antiga colónia holandesa, a Indonésia. Por exemplo, em 2003, a marinha indonésia encomendou 4 fragatas no valor de quase mil milhões de euros.
Os dois primeiros navios eram para ser construídos na Holanda no estaleiro Royal Schelde em Vlissingen e, depois de terem treinado indonésios na construção de barcos, os outros dois seriam construídos nos estaleiros indonésios de Surubaya. Como os contratos mudaram, todos os barcos estão agora a ser construídos na Holanda.
A venda de navios de guerra à Indonésia é uma questão sensível na Holanda devido ao fraco registo de direitos humanos da Indonésia. Os proponentes disseram que os navios de guerra seriam usados apenas para tarefas de guarda costeira, propósitos anti-pirataria e anti-contrabando.
Num memorando ao governo holandês, a Amnistia Internacional disse que seria provável que os barcos fossem usados apenas para operações militares como aquelas contra os rebeldes anti‑governamentais em Aceh.
Isto surgiu face às alegações do governo holandês de que previne a exportação de equipamento que possa ser usado para repressão interna, agressão internacional ou contribuir para a instabilidade regional.
O governo holandês também olhou para o outro lado na importação-exportação de armas estrangeiras através dos mares e aeroportos holandeses. Por exemplo, em 2002, aproximadamente metade das licenças de trânsito comercial holandesas foram sob a forma de licenças de exportação para Israel no valor de 1,46 milhões de euros. As licenças foram autorizadas para bens sob a categoria A2, que são aquelas ligadas com veículos blindados, apesar dos relatos consistentes de organizações de direitos humanos de que as forças de segurança israelenses usaram esse equipamento para empreender guerras.
Anton Foek
http://infoalternativa.org/mundo/mundo179.htm
Os moradores mais velhos são algumas das 5.000 pessoas que costumavam trabalhar para a Rotterdamse Droogdok Maatschappij [Companhia de Docas Secas de Roterdão ou RDM]. Eles são os sortudos que atingiram a idade da reforma quando a companhia ainda era viável. Milhares foram dispensados quando a companhia “rebentou” em 2004. No seu auge, a companhia valia mais de dois mil milhões de dólares e o seu presidente Joep van den Nieuwenhuyzen era chamado de mágico financeiro ou o médico da companhia devido ao seu dom para comprar companhias defuntas, cuidando-as para que voltassem a ter saúde financeira, e depois vendendo‑as com um largo lucro.
Em meados deste Verão, no entanto, Nieuwenhuyzen irá a julgamento por ter conduzido a RDM à falência.
Nieuwenhuyzen também vive em bonitas redondezas à sombra das árvores. Mas as árvores dele são as eternamente verdes que salpicam a Suíça onde ele mantém a sua mansão no topo da montanha e as palmeiras que oscilam nas brisas de Curaçao, a maior das ilhas das Antilhas Holandesas nas Caraíbas.
«Qualquer pessoa que queira ter uma residência permanente nesta ilha tem de ter pessoal doméstico de pelo menos três locais», aconselha ele à Corpwatch, com rum e cola à mão.
Nieuwenhuyzen é um dos exilados de impostos de Curaçao. Eles têm uma escolha: ou pagam 5% do seu rendimento mundial ou antecipam 30.000 euros. Nieuwenhuyzen, com um valor bruto estimado em 3,1 mil milhões de euros, escolhe seguramente pagar o valor fixo.
A fácil impunidade de Nieuwenhuyzen enfurece Cindy de la Fuente. Advogada na Halley, Blaauw & Navarro em Willemstad, Curaçao, ela afirma que Nieuwenhuyzen deve 3,2 mil milhões de dólares ao seu cliente, a IBCOL, um distribuidor alemão de helicópteros.
A IBCOL é apenas um dos muitos associados de negócios zangados que o acusam de lhes ter preparado um mau negócio. Outro é a força policial do Chile, que está a investigar subornos pagos pela sua antiga ditadura militar e a descobrir que a sucessão de provas leva ao mágico financeiro.
DE SUCATEIRO A NEGOCIANTE DE ARMAS
Nieuwenhuyzen iniciou a sua carreira como sucateiro. Subiu a comprar e a vender companhias defuntas através da empresa Begeman. Do Brasil à Índia, da Rússia à Coreia do Norte e à Malásia ele comprava, reestruturava negócios e vendia‑os com enormes lucros, frequentemente deixando montes de trabalhadores de mãos vazias.
Em 1995, a Begerman foi declarada falida e foi nesta altura que Nieuwenhuyzen tomou conta da RDM, uma companhia holandesa que remonta à década de 1920 quando construía e vendia submarinos, que também tinha caído em tempos duros. O governo vendeu-lha por apenas 20 milhões de dólares, mas ele apercebeu‑se de que podia usá-la para fazer ainda maiores negócios devido à sua história e reputação.
A RDM era uma peça chave de um grandioso sistema de produção de armas que fabrica barcos de guerra, electrónica, munições e peças soltas para aviões – tudo exportações bastante apoiadas pelo governo. De facto, para um país que não está envolvido em operações militares de grande escala, a Holanda ocupa um espectacular sétimo lugar na lista mundial dos países exportadores de armas.
Nieuwenhuyzen rapidamente expandiu a operação de negócio militar da RDM – vendeu armas para veículos blindados que valiam mais de um milhão de dólares cada à Jordânia e teve encomendas firmes para outras armas de países que incluíam a Áustria, o Canadá, a Noruega e os Emiratos Árabes Unidos.
Depois as coisas começaram a abanar para Nieuwenhuyzen. Os seus negócios com o Chile, Israel, África do Sul e Tailândia para o submarino da classe Moray, afundaram-se. Um negócio com a Lockheed Martin para a construção do retentor do seu caça Joint Strike (o mecanismo que detém o caça quando aterra a bordo de um porta‑aviões) nunca arrancou.
FAZENDO NEGÓCIO COM PINOCHET
Um negócio com o Chile revela claramente como Nieuwenhuyzen fez algum do seu dinheiro. A 11 de Setembro de 1973, quando o General Pinochet arrancou o poder dos esquerdistas do Chile, o governo socialista da Holanda cortou quase todas as suas ligações com o novo regime fascista. A política de Hague da altura era banir toda a venda de armas a Santiago.
No entanto, sem conhecimento do público em geral, em 1995, dois ambiciosos burocratas holandeses reuniram‑se secretamente com oficiais do exército chileno em Santiago e ofereceram‑lhes 202 tanques Leopard 1V a 50.000 dólares cada, não incluindo munições e peças soltas.
Boukje Boukens, um empregado reformado da RDM em Heyplatt, que vive num dos apartamentos da RDM para antigos empregados, recorda o negócio. Ele é um velho homem robusto que trabalhou no departamento de assuntos sociais da companhia.
A cara dele enruga-se enquanto conta a história à Corpwatch: «Eles foram convidados pelos oficiais do exército chileno directamente sob Pinochet, que está agora a ser acusado e exposto como um dos maiores envolvidos em fraude, lavagem de dinheiro e como um negociante de armas corrupto».
Como a proibição ainda se encontrava em vigor e os dois responsáveis holandeses não estavam autorizados a fechar o negócio, então os tanques foram vendidos à RDM de Nieuwenhuyzen ao preço ridiculamente baixo de 18.500 dólares cada. Foram inscritos como ferro‑velho.
A companhia de Nieuwenhuyzen voltou-se então para Pedro del Fierro, um consultor e negociante que se encontrava na lista de procurados da Interpol por vender e entregar armas à Croácia. Ele é também um antigo general dos serviços secretos do exército chileno, que foi acusado de incontáveis mortes, desaparecimentos e tortura.
A favor da RDM, del Fierro ofereceu os mesmos tanques aos mesmos oficiais de topo do exército chileno, para serem entregues à FAMAE (Fabrica y Maestranzas del Ejército de Chile), o departamento de compras de armas do exército chileno.
«As autoridades da Justiça em Santiago descobriram documentos que revelam os planos de Pinochet para fazer negócios com a RDM e não com o governo holandês, uma vez que eles tinham condenado o seu golpe de 11 de Setembro de 1973, matando tantas pessoas e derrubando uma experiência socialista», disse Evert van der Schee, outro empregado reformado da RDM. Ele é um antigo membro do sindicato da RDM que escreveu um livro sobre o episódio.
Nessa altura, o ministro da defesa Joris Voorhoeve, gostava de pensar que a RDM detinha o negócio de uma vida. Numa carta datada de 29 de Outubro de 1997 que ele enviou ao seu colega e Ministro dos Negócios Estrangeiros Hans van Mierlo, ele dava as boas vindas ao plano de negócios da RDM: «O governo ganha nesta construção porque as negociações entre nós e os chilenos podem ser evitadas».
A ideia de venderem e entregarem tanques ao regime de Pinochet era sensível para o governo holandês, que não esquecera as fotografias do cerco de Santiago de 11 de Setembro 1973 quando tanques haviam destruído o centro da cidade.
O ministro Van Mierlo sublinha que havia uma condição para o acordo: «A Defesa queria ver-se livre do equipamento militar. Aceitámos o acordo do governo chileno depois de ele (o General Pinochet) ter renunciado como Comandante Supremo. Penso que depois de tudo, agora penso que não deveríamos ter permitido qualquer negócio com o Chile».
Mas Van Der Schee aponta que este não foi um erro da parte dos chilenos. «Agora sabemos que Pinochet nunca levou o governo holandês a sério e que ele precisava da RDM para receber os seus subornos. Ele nunca obteria esses subornos do governo em Hague», diz ele à Corpwatch.
«Apesar de nós na RDM termos pago quantias enormes para subornos, fizemos uma fortuna vendendo aqueles tanques por 77 milhões de dólares. Nós pagámos sempre uma comissão. Isso é uma prática comum. Ao todo pagámos 9 milhões de dólares aos oficiais do Exército Chileno e aos seus associados para fecharmos o negócio», afirmou ele.
Há mais. «Antes dos contratos serem assinados, outro consultor [Oscar Aitken] ligou para a RDM identificando‑se como conselheiro pessoal do general Pinochet», disse Boukens. A RDM verificou para ter a certeza de que ele estava mesmo a representar Pinochet, e então pagou outros três porcento do valor do seguro ou quase 2 milhões de dólares.
O pagamento foi feito por uma companhia das Antilhas Holandesas, a Holding NV da RDM, outra companhia de Nieuwenhuyzen, à Cornwall Overseas Corporation, uma filial gerida por Aitken, a qual foi usada para pagar ao secretário e conselheiro pessoal de Pinochet. Um segundo general foi pago através da Eastview Finance, um negócio offshore do general Augusto Pinochet.
Interessantemente, o parlamento holandês e os registos públicos mostram que os tanques Leopard foram vendidos à RDM Technology Holding BV, um abrigo de impostos nas Antilhas Holandesas. Mesmo assim, o negócio foi tecnicamente legal porque nessa altura pagar subornos a burocratas estrangeiros era uma despesa legítima de negócios. Desde essa altura, os subornos tornaram-se ilegais.
JULGAMENTOS DE UM EXÍLIO DE IMPOSTOS
Hoje, Nieuwenhuyzen passa a maioria do seu tempo num avião a viajar entre África, Europa, América do Norte e do Sul, e Extremo Oriente, dando entrada em aeroportos internacionais pelo menos uma vez por semana, uma vez que ele trabalha com os seus negócios complicados e vive dos lucros que estes geram.
Pára ocasionalmente em Amsterdão onde fica no Hotel Amstel. «É um lugar excepcionalmente acolhedor e amistoso onde têm uma suite especial e um guarda-fatos para mim com o meu nome impresso num robe», afirma. Na verdade, ele gaba-se de ter mais guarda-fatos em outros hotéis de cinco estrelas e lugares à volta do globo.
«Os homens dos impostos não me permitem ter uma residência no meu próprio país, mas não querem proibir a minha estada», acrescenta.
De volta a Roterdão, sentados debaixo de árvores com sombra num dia quente em Heyplaat, alguns reformados da RDM tomam conhecimento de que o seu antigo patrão pagou 9 milhões de dólares de suborno ao regime de Pinochet no Chile. Limpando o suor das suas testas, dizem que a alta temperatura deste Verão não é nada quando comparada com o que Nieuwenhuyzen experimentará em tribunal. «Vai ser mais quente do que o Inferno», avisou um deles.
(Actualização de 25 de julho de 2006:)
Joep van den Nieuwenhuyzen enfrenta presentemente múltiplas acusações acerca das suas práticas de negócios.
Um dos primeiros casos a ir a tribunal foi a falência da SP Aerospace, uma companhia que construía e reparava veículos blindados Fennek para o Departamento de Defesa Holandês mas que faliu em 2004.
Em meados de Julho de 2006, um Juiz de Roterdão afirmou que Nieuwenhuyzen depositou vários milhões de euros da SP Aerospace noutra das suas companhias com sede em Curaçao. Ele ordenou ao controverso homem de negócios que devolvesse ao encarregado da SP Aerospace a soma de 12 milhões de euros.
«Ele é culpado de falir premeditadamente as suas companhias com o único propósito de se enriquecer a si próprio. Deliberadamente roubou nos pagamentos e prejudicou os seus credores», disse o Juiz.
Nieuwenhuyzen planeia apelar do veredicto enquanto aguarda outros julgamentos.
A VENDA HOLANDESA DE ARMAS HOJE
A Holanda é o sétimo maior exportador de armas do mundo. Os críticos acusaram a Holanda de lucrar com a venda de armas para países que provavelmente as usarão para violações de direitos humanos.
Um país problemático que se provou ser muito rentável para a indústria naval holandesa é a antiga colónia holandesa, a Indonésia. Por exemplo, em 2003, a marinha indonésia encomendou 4 fragatas no valor de quase mil milhões de euros.
Os dois primeiros navios eram para ser construídos na Holanda no estaleiro Royal Schelde em Vlissingen e, depois de terem treinado indonésios na construção de barcos, os outros dois seriam construídos nos estaleiros indonésios de Surubaya. Como os contratos mudaram, todos os barcos estão agora a ser construídos na Holanda.
A venda de navios de guerra à Indonésia é uma questão sensível na Holanda devido ao fraco registo de direitos humanos da Indonésia. Os proponentes disseram que os navios de guerra seriam usados apenas para tarefas de guarda costeira, propósitos anti-pirataria e anti-contrabando.
Num memorando ao governo holandês, a Amnistia Internacional disse que seria provável que os barcos fossem usados apenas para operações militares como aquelas contra os rebeldes anti‑governamentais em Aceh.
Isto surgiu face às alegações do governo holandês de que previne a exportação de equipamento que possa ser usado para repressão interna, agressão internacional ou contribuir para a instabilidade regional.
O governo holandês também olhou para o outro lado na importação-exportação de armas estrangeiras através dos mares e aeroportos holandeses. Por exemplo, em 2002, aproximadamente metade das licenças de trânsito comercial holandesas foram sob a forma de licenças de exportação para Israel no valor de 1,46 milhões de euros. As licenças foram autorizadas para bens sob a categoria A2, que são aquelas ligadas com veículos blindados, apesar dos relatos consistentes de organizações de direitos humanos de que as forças de segurança israelenses usaram esse equipamento para empreender guerras.
Anton Foek
http://infoalternativa.org/mundo/mundo179.htm




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