domingo, julho 19, 2009

O eixo do caos

A exportação dos seus problemas é uma das características da estratégia imperial dos EUA. É o complemento indispensável da “missão civilizadora” que se atribui como potência pelo mundo afora. Não houvesse um mundo selvagem fora, não se poderia justificar a acção “civilizatória” que os EUA reivindicam.

Em Janeiro de 2002, George W. Bush, então presidente dos EUA, anunciou a existência de um “eixo do mal”, que promoveria o terrorismo, os ajudaria a obter armas de destruição em massa, etc., etc.. Três países seriam os membros mais importantes desse eixo: Irão, Iraque e Coreia do Norte. As duas “guerras infinitas” em que se meteram os EUA fundavam-se nesse enfoque: invasões do Afeganistão e do Iraque.

Agora, sem que se tenha fechado esse período, os ideólogos da doutrinas das “guerras preventivas” apontam para um novo eixo: o “eixo do caos”. É o que anuncia Niall Ferguson, intelectual orgânico da estratégia norte-americana, na edição espanhola do Foreign Policy. Esse novo eixo contaria com «pelo menos nove membros e talvez mais». Estariam unidos «pela perversidade das suas intenções assim como pela sua instabilidade, que a crise financeira só faz piorar a cada dia».

Segundo Ferguson, a «turbulência brutal» que caracterizaria o mundo actual teria três causas primárias: a desintegração étnica, a volatilidade económica e o declínio dos impérios. No Oriente Médio os três factores estaria fortemente concentrados, justificando, segundo ele, a sua situação explosiva.

A revista selecciona três casos dessa lista “caótica”: Somália («a anarquia interminável»), Rússia («o novo estilo agressivo») e México («as misérias causadas pela guerra do narcotráfico»). São três casos de uma lista de nove membros do suposto eixo do caos.

Gaza, a partir da frustrada ofensiva militar de Israel, viu piorar as suas condições económicas e sociais, ao mesmo tempo que fortaleceu o Hamas e enfraqueceu as forças consideradas moderadas – como o Fatah e o Egipto –, ao mesmo tempo que favoreciam a eleição de um governo de direita radical em Israel, dificultando mais ainda qualquer nova iniciativa de paz na região.

Claro que o Irão faz parte também desta lista, porque apoiaria as forças desestabilizadoras na região – Hezbollah no Líbano, Hamas na Palestina –, possuindo armamento nuclear, enquanto sofre os efeitos da crise económica internacional e da baixa do preço do petróleo.

O Afeganistão, evidentemente, seria outro pivô do eixo do caos, agora fazendo um casal inseparável com o Paquistão. Os governos dos dois países estariam «entre os mais fracos que existem», envolvidos entre taliban e armamento nuclear.

Outros membros do eixo seriam a Indonésia, a Turquia e a Tailândia, onde a crise exacerba os conflitos internos. Mas usar estes critérios permite estender a lista muito mais, então fala-se da pirataria na Somália, na guerra na República Democrática do Congo, na violência em Darfur e no Zimbabwe. E ameaça-se: «Não é arriscado dizer que a lista vai aumentar ainda este ano». O diagnóstico remeteria para três factores, que se articulariam entre si: «a volatilidade económica, mais a desintegração étnica, mais um império em declive: a combinação mais letal que existe em geopolítica». O que apontaria para o início de uma «era do caos».

Os casos escolhidos servem como exemplos. A Somália seria «o lugar mais perigoso do mundo», um «Estado governado pela anarquia, um cemitério de fracassos em política externa que só conheceu seis meses de paz nos últimos vinte anos», onde «o caos interminável do país ameaça devorar toda uma região».

Na Rússia, «Putin baseou o seu apoio popular num Estado autoritário que fez crescer as rendas mais altas e devolveu à Rússia o orgulho de grande potência. Mas a crise está a ameaçar tudo. E o que se avizinha pode ser pior». Já o México estaria num «estado de guerra», em que os narcotraficantes «se converteram numa autêntica insurgência. Só no ano passado a violência cobrou mais vidas do que estadunidenses mortos no Iraque. E o fim parece próximo».

Da mesma forma que ocorria quando se anunciou “o eixo do mal”, nenhum diagnóstico global para definir o que a globalização, a dominação imperial estadunidense, os modelos económicos neoliberais têm a ver com isso. Naturaliza-se o caos. Ele não seria uma das consequências da “ordem global”, da “ordem imperial”, da “ordem estadunidense” no mundo.

O terror combatia-se com “guerras infinitas”. E esse suposto “caos”?, quando os centros do sistema, eles mesmos, geram caos, insegurança, instabilidade, miséria, concentração ainda maior de poder e riqueza, indústrias bélicas em crescente expansão? Somente outra ordem, outro mundo, pode diagnosticar e superar o caos – tanto nas periferias, quanto nos centros agonizantes do sistema financeiro global.

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