A Nação:
Pelo agrupamento das forças individuais e pela ligação entre os grupos, a nação inteira forma corpo, é um ser real. (Justice, L'Êtat.)
Uma nação é algo de diferente duma colecção de indivíduos, é um Ser sui generis, uma Pessoa viva...
O que procuro pois, compreende-o agora, Senhor, é a demonstração deste grande ser, são as leis da sua vida, as formas da sua razão, é, numa palavra, a sua psicologia...
Eu, o homem menos místico que existe no mundo, o mais realista, o mais afastado de toda a fantasia e de todo o entusiasmo, creio estar já em condições de afirmar - e prová-lo-ei - que uma nação organizada como a nossa constitui um ser tão real, tão dotado de vontade e de inteligência própria como os indivíduos que a compõem; e ouso dizer que está ai, sobretudo, a grande revelação do século XIX. A História da Revolução, feita sob este ponto de vista, é a melhor preparação que eu poderia desejar para os meus leitores. Depois de terem visto, na narração, pensar, agir, sofrer, combater o ser colectivo, ficarão com melhor disposição para compreender as leis da sua formação, do seu desenvolvimento, da sua vida, do seu pensamento, e da sua acção... (Lettre à Michelet, 11 de Abril de 1851.)
Eu sei de que maneira pensaram representar a permanência do progresso na humanidade (a sua incorruptibilidade) ao mesmo tempo que defendiam a degenereseência das nações; imaginaram o progresso, ou a virtualidade social, como um fluido que percorre cada raça de sua vez, indo de Oriente a Ocidente, ao contrário do sol; dos Indianos aos Bactrianos, dos Bactrianos aos Assírios, destes aos Gregos, dos Gregos aos Romanos, depois aos Celtas, e finalmente as Americanos. Nodier exclamava no fim da sua vida: a América já está velha, para a China...
É fácil notar certos factos históricos, que nos aparecem como decadências ou corrupções de sociedades particulares... basta lembrar, como mais conhecidos, os da Grécia, de Roma, da França...
A virtualidade na nação não é a soma das virtualidades individuais; antes, é de natureza diferente, e pode existir à parte; sem dúvida que estas devem harmonizar-se; mas, podem também combater-se. Se alguma coisa for susceptível de constituir obstáculo, quer a uma quer a outra, será quando, por efeito do preconceito que constitui a essência da velha democracia, a soma das individualidades, supondo-se soberana, usurpar o lugar da sociedade, usurparão funesta, e que é expressa nesta frase pública: levantar-se como um homem...
A causa primeira, orgânica, perseverante, da destruição da sociedade romana foi o hábito adquirido desde o começo da república, da suspensão da vida social, por aquilo que se chamava: a Roma dictator... Em Roma, como no Oriente, como na Rússia, o povo gostava sobretudo destas individualizações da acção colectiva, que permitem realizar maravilhas e que, para o vulgo, manifestam melhor a força pública que as instituições e as estatísticas. O Triunfo, tão querido para os Romanos, era verdadeiramente a imolação da sociedade pela exaltarão do sentimento individual generalizado em detrimento da virtualidade puramente social. Era bem preciso que um dia o triunfador se fixasse permanentemente; que o ditador se tornasse absoluto; então, seria o fim da sociedade romana. O povo, como os Jacobinos e comunistas dos nossos dias, não concebia nada de mais belo que esta unidade: unidade morganática e que é sinónimo de morte social!...
P, o que acontece quando o povo, tomando a acção em massa como acção social; a uniformidade disciplinar por unidade orgânica; o prestígio monárquico, ditatorial, triunfal, a riqueza, a grandeza e a glória, acaba por atribuir-se depositário do seu pensamento e do seu poder, por destruir o seu próprio organismo e por se reduzir, segundo a expressão de Napoleão, ao estado de poeira!...
Este destino da democracia foi o de todos os povos da antiguidade: a coisa era inevitável...
Hoje, uma semelhante solução já não é possível; a condição das nações civilizadas já não permite, nem a exploração das raças vencidas, em proveito duma só, nem o regresso à antiga escravatura... A experiência do governo directo das massas destruiu o erro grosseiro que levava a tomar a generalidade duma opinião por uma ideia social, e a acção em globo pela acção da sociedade. Ainda que todos oc, franceses o quisessem, a ditadura é incompatível com a sua situação económica...
É verdade que, sendo a época presente aquela em que, pela primeira vez, a civilização começa a ter consciência dessa lei, a inquietação apodera-se de todas as classes, e seria necessário um esforço supremo para fazer voltar os povos atrás. Loucura de intriguistas, de militares fanfarrões e de hipócritas... O organismo económico mata o despotismo militar e sacerdotal... (Lettre à M. X...., 27 de Set. de 1853.)
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