domingo, fevereiro 15, 2015

O que não fazer no Dia dos Namorados

No Dia dos Namorados mas sobretudo quinze dias antes, as revistas e os blogues desatam a sugerir imensas coisas para se fazer. Jantares românticos, noites escaldantes, compras exóticas, filmes eróticos e passeios deslumbrantes. Tudo para os pombinhos serem felizes. Pelo menos naquela noite.
Não há, no entanto, quem sugira o que não fazer neste Dia dos Namorados e por isso eu quero preencher essa lacuna, admitindo todo o amor que não tenho por este dia tão especial. É que o Dia dos Namorados é um absurdo a todos os níveis e ninguém me tira da ideia de que terá sido inventado por um restaurante que queria vender um menu paupérrimo mas caríssimo, pois graças ao vinho e sobretudo à líbido, sabe-lhes tudo a pato.
Há quem defenda, porém, que isto anda tudo à volta do São Valentim. Nesse caso, esse senhor havia de fazer um workshop de marketing – e já agora fazia também um de social media só porque está muito em voga. É que a existência de um Dia dos Namorados é uma péssima promoção do amor, na medida em que se infere logicamente que se há um dia que é dos namorados, há 364 que são dos solteiros. Ou seja, enquanto os namorados têm um dia só deles, para jantar fora e fazer o amor pela noite dentro, os solteiros fazem isso 364 dias por ano e provavelmente também celebram o Dia dos Namorados, porque o solteiro é um animal que não respeita nada nem ninguém. O solteiro deixa o carro a ocupar dois lugares ou em cima do passeio, passa à frente nas filas, fala alto e ri ainda mais alto. Porquê? Porque para o solteiro, o mundo é todo dele, enquanto para os namorados, o mundo é todo dela ou dele.
Afinal de contas, o que é ao certo o Dia dos Namorados? É para o casalinho ir jantar? Então mas o casalinho ficava em jejum se ninguém tivesse inventado isto? Já sei, é um jantar especial! Então e nos outros dias, é uma sopa, um papo seco e cama? Cama, mas atenção, só para repousar, pois cambalhotas é só no dia 14 de Fevereiro e se calha estarem com gripe fica para o ano.
Pode dar-se o caso, vamos ser justos, de o Dia dos Namorados servir para os namorados à distância, aqueles que nem sequer têm o mesmo código postal ou pelo menos aqueles três números diferem. Mas até para esses, o Dia dos Namorados é muito mais aquele em que se entra a meio da noite pela janela e jamais este dia em que o mundo inteiro está com um sorriso maroto.
Mas vamos às sugestões. Então, neste Dia dos Namorados, que tal não levar a cara metade a jantar a lado nenhum, muito menos à luz das velas, nem a passear, nem a um spa, nem oferecer presente algum? E essas mãos, vamos não dá-las? Só se deve dar as mãos para ajudar alguém a subir uma ladeira. Dar as mãos, portanto, é um gesto de pânico. Só se lança a mão quando alguém está em perigo de cair. Agora pensem se querem ir para os restaurantes dar as mãos, como quem teme que o outro se balde.
Resumindo, a existência de um Dia específico de Namorados é contrário à lógica intemporal do amor e à chama constante que o deve preservar. E a ver por esta pirosice da chama que acabo de escrever, é também uma coisa que se pega.