sábado, fevereiro 14, 2015

Todo o apoio ao povo grego!

1.
A vitória do Syriza na Grécia significa uma derrota da política de austeridade levada a cabo pela União Europeia.
Pela primeira vez em toda a Europa, desde que o brutal ataque às classes trabalhadoras foi desencadeado em 2010-2011, as forças partidárias que habitualmente representavam as classes dominantes foram derrotadas e afastadas do governo.
2.
O Syriza apresentou-se às eleições de 25 de Janeiro defendendo o fim da austeridade e a melhoria das condições de vida da população trabalhadora e dos mais pobres; e preconizou o alívio do garrote da dívida pública como passo para o desenvolvimento da economia grega.
Fez frente, deste modo, às imposições com que as potências dominantes da UE estrangulam os países economicamente mais débeis e mais dependentes — como são, além da Grécia, Portugal, a Espanha e a Irlanda. Com isso, pôs também em causa as políticas de ataque ao trabalho que, mesmo nos países economicamente mais fortes, degradam as condições de vida da população assalariada.
Foi precisamente por o Syriza ter prometido lutar pelo fim dessas políticas que a maioria dos eleitores gregos lhe deu a vitória. E é pelas mesmas razões que as populações trabalhadoras de UE olham com atenção e esperança o que se vai passar na Grécia.
3.
Contra todos os que, inclusive trabalhadores, ao longo dos últimos anos têm desvalorizado o papel das lutas de massas, das greves, das greves gerais, dos simples protestos locais — é preciso mostrar que a viragem política verificada agora na Grécia é fruto de todas essas movimentações. É preciso mostrar a todos os trabalhadores que só lutar compensa.
Os gregos sofreram as mais duras das sanções, com efeitos materiais e sociais devastadores, mas não as suportaram nem pacificamente nem com resignação: desde 2010, realizaram dezenas de greves gerais e greves de grande amplitude, sempre acompanhadas de maciços protestos de rua e, muitas vezes, de enfrentamento da violência policial.
4.
Por muito moderado que seja o programa do Syriza à vista das reais necessidades e dos legítimos direitos das classes trabalhadoras, o resultado eleitoral expressa uma deslocação do voto popular para a esquerda que pode abrir um novo rumo às lutas dos trabalhadores na Grécia e na Europa. É este o ponto que interessa agora considerar. Tudo depende do que se seguir.
5.
Não pode haver dúvidas de que as forças imperialistas europeias vão querer matar no ovo a ousadia dos gregos.
Os sinais vieram logo antes das eleições, com todas as pressões que foram exercidas para tentar influenciar os eleitores. E desde então, apesar das cautelas e dos trejeitos diplomáticos, o fundo de todas as declarações não engana: as maiores potências da UE, com a Alemanha à cabeça, querem que a política de austeridade prossiga e que a dívida seja paga até ao último cêntimo. É essa a condição para manterem as classes trabalhadoras e os países mais fracos na sua dependência. Admitirem o contrário seria suicídio, porque facilitaria a propagação da actual rebeldia grega.
Não será, pois, seguramente, a habilidade negocial do governo grego só por si que fará ceder os interesses imperialistas que estrangulam a Grécia. Tudo dependerá da força política posta no confronto. Apenas o medo obrigará os espoliadores representados na Troika a recuar — medo da firmeza da população grega em não se deixar roubar mais, medo que o exemplo de resistência grego se estenda aos trabalhadores dos demais países europeus.
6.
As garantias do novo governo grego de que vai cumprir as promessas eleitorais são a única maneira de o caminho agora iniciado não ter o fim trágico que o poder capitalista de toda a Europa lhe roga.
Acorrer às necessidades dos mais pobres e aplicar medidas de fomento do emprego, permitirá não só assegurar o apoio dos eleitores que confiaram no Syriza como será a única via para alargar a base de apoio do novo governo.
Será esse também o caminho para continuar a enfraquecer a base social dos partidos da direita e para tirar adeptos à extrema-direita, que tem capitalizado apoios e votos com a desgraça das massas populares, nomeadamente espicaçando o ódio aos imigrantes.
Será esse ainda o caminho para que o exemplo dos gregos seja acolhido pelos trabalhadores de outros países da UE como prova de que as políticas de austeridade não são inevitáveis nem são imparáveis.
7.
A viragem verificada na Grécia, a possibilidade de alteração no quadro eleitoral espanhol, o repúdio da população portuguesa pelo governo Coelho-Portas, a instabilidade que se vive na Itália ou em França, sem excluir a receptividade à experiência grega das populações dos demais países da UE vitimadas pela crise do capitalismo, são sinais de que as classes trabalhadoras europeias podem virar a seu favor o balanço de forças com o poder — balanço que lhes é desfavorável e que tem permitido ao capital eternizar as políticas de austeridade e de ataque ao trabalho.
A experiência de cinco anos de austeridade mostra aos trabalhadores europeus que os enormes sacrifícios que lhes são impostos não só são insuportáveis como inúteis. O arrastamento, sem fim à vista, da crise capitalista exige uma mudança de rumo que empurre os custos para cima do capital. A prática mostra que não há ganhos para ambos os lados entre capital e trabalho.
8.
No centro das contradições que se vivem na UE, está o confronto capital-trabalho. A luta de classes entre estes dois campos vai portanto agudizar-se.
Isso mesmo fica evidente na forma como os centros capitalistas da UE unem forças para defender a continuação das políticas de austeridade, dirigidas, como todos sabem, contra a massa dos assalariados.
Por isto, é neste momento ainda mais decisivo que em todos os países europeus se desenvolvam os movimentos contra a austeridade e contra o pagamento da dívida e se declare o pleno apoio ao povo grego na nova situação que enfrenta.
Não será segredo para ninguém que só com um forte apoio interno, assente nos trabalhadores e nos mais pobres, e com um forte apoio externo da parte dos trabalhadores de outros países europeus, poderá o governo grego ter força e autoridade para enfrentar as chantagens e as pressões da UE.
Está nas mãos do governo grego assegurar esse apoio, tudo dependendo da firmeza com que enfrente o imperialismo europeu e defenda os interesses dos trabalhadores gregos. Está nas mãos dos trabalhadores europeus prestar todo o apoio internacionalista que o povo grego merece e de que precisa mais ainda neste momento.
9.
A presente situação na Europa é favorável a um incremento da luta de massas contra a austeridade.
As eleições gregas mostraram, num grau mais terminal que noutros países, a dissolução gradual que vem sofrendo a base de apoio dos partidos que têm exercido o poder.
Contra o que diz a maioria dos comentadores — que focam sobretudo o efeito eleitoral, mas ignoram o fundo do problema — a perda de peso de muitos dos partidos tradicionais do quadro do poder na Europa é um resultado directo da crise do sistema capitalista.
Com efeito, as forças do poder foram durante décadas suportadas pelas classes médias e pelas camadas superiores do proletariado, criadas e mantidas por um capitalismo em crescimento. O fim do crescimento, com a consequente perda de posição social e a incerteza sobre o futuro, leva tais classes a descrer do actual sistema partidário e a procurar saídas à esquerda ou à direita, descalçando os partidos do “centro”.
O arrastamento da crise, que todas as previsões apontam, acentuará este desgaste e abre por isso perspectivas de crises no poder.
Neste sentido, o novo quadro de forças criado pela vontade do povo grego, para além de pôr em causa, aos olhos de todos os povos europeus, o rumo até agora dominante na UE, bem como os agentes partidários que o têm levado a cabo — tem o valor político mais geral de abrir campo a uma luta de ruptura com o capitalismo e o imperialismo.