terça-feira, abril 14, 2015

O populismo: um novo campo político?

Nos cenários, contas e previsões para as próximas legislativas, e particularmente para a eleição presidencial, há um factor que falta em muitas análises: o voto populista.

Na eleição presidencial de 2011, 580 mil cidadãos votaram em Fernando Nobre e 190 mil em José Manuel Coelho, cerca de 18,6% dos votos. À época, muitos não entenderam a novidade do facto, mas houvera quase tantos votantes no segundo candidato mais votado quanto em dois candidatos que escapavam à lógica esquerda/direita e que correspondiam a um sentimento populista, anti-partidos ou até anti-sistema. Nas europeias de Maio passado, a candidatura de Marinho e Pinto teve 7% (230 mil votos), corporizando um fenómeno semelhante. É portanto natural que nas legislativas, e principalmente na eleição presidencial, o habitual jogo de cálculos esquerda/direita e centro/extremos seja perturbado por este novo campo político.

Em comum, os candidatos populistas têm a priorização do «combate à corrupção», indesligável do apelo ao «cidadão comum» (inevitavelmente «honesto» e «decente») contra a «classe política», a «dinastia», os «corruptos» ou a «casta» (uma massa indistinta culpada de todos os males, incluindo a crise financeira internacional) e uma desideologização aparente que os leva até a rejeitar (mais ou menos explicitamente conforme os casos) a distinção esquerda/direita. Em comum, também, necessitam de uma liderança carismática e sonora (de preferência vinda «de fora» da política). O mais grave é não terem qualquer solução a apresentar para os problemas que apontam (e até os poderem agravar, como o mostra o desprezo com que Marinho e Pinto trata o seu mandato no Parlamento Europeu).

Os partidos já existentes pouco podem fazer: este protesto é contra todos eles (tenham estado no poder ou não), contra a ideologia, contra a corrupção enquanto «percepção difusa» e não enquanto crime concreto, e o eleitorado populista só vota em quem coloca a corrupção não em primeiro mas em único destaque do seu programa. Mas, dadas as contradições do próprio fenómeno com as expectativas que cria, é bem provável que o resultado de cada candidato populista dificilmente se repita, e que portanto cada eleição queime um ou dois destes personagens. O que não significa que este eleitorado não cresça.