sexta-feira, março 04, 2011

Aumento do Custo de Vida

Degradação das condições económicas e sociais para a generalidade dos portugueses

O ano de 2011 é marcado por um acentuado aumento do custo de vida, concretizado pela subida da generalidade dos preços dos e bens e serviços acompanhado da redução do rendimento das famílias.

A partir de cálculos da CGTP-IN com valores, podemos afirmar que, a não serem revistas as medidas do Governo, a quebra no poder de compra será superior a 120€ mensais e a 1.440€ anuais.

Aumento dos preços

A saída da crise, ao invés da apregoada mudança e de "que nada seria igual" após o colapso do sistema económico e financeiro, traz para 2011 o aprofundamento da principal causa da presente situação, ou seja, o acentuar da redução do poder de compra das famílias, plasmada numa acentuada quebra da parte da riqueza que é distribuída sob a forma de salário, com consequente aumento da retribuição do capital.

O aumento do custo de vida em 2011, por via da acção do Governo, atingirá a maioria das famílias, com um conjunto significativo de preços de bens e serviços a sofrer um aumento superior ao da inflação.

quinta-feira, março 03, 2011

O NEGRO E O VERMELHO

TEOLOGIA PROUDHONIANA

“A sociedade francesa não tem nem princípios nem crenças… O edifício inteiro do espírito humano, da consciência humana é reconstruir: A quem enviar esta reedificação? Duas autoridades apresentam-se: a Revolução e a Igreja. Qual delas seguir? Será possível uma conciliação?
É esta questão, que é aquela de uma vida, que pretende responder a obra de 1858, como o seu mesmo título o deixa prever: Da Justiça na Revolução e na Igreja. Ela está decidida no cardial arcebispo de Besançon, Mgr Mathieu, “meu” bispo, precisa Proudhon (1). Concorda-se a lá ver a sua obra “principal”; ele é quem em todo o caso quer compreender a sua singular “teologia”. Ele foi no século XIX o breviário do anti-clericalismo o mais decidido e o mais inteligente.
A entrada em jogo, Proudhon encara o feito religioso ao nível da sua eficácia social e procura acima de tudo na religião, como os seus mestres no catolicismo, um princípio de ordem social: é preciso que os povos “acreditem em algo” e sejam animados por uma “força de justiça”, se se quiser evitar a decadência (2). É o primeiro postulado deste partidário do não-governo, deste an-anarquista, moralista, socialista e “feitor da ordem” (assim se qualifica ele).
Mas existem duas maneiras, segundo ele, de conceber esta indispensável “força de justiça”: ou bem representa “como uma pressão do redor exercida sobre mim” e modelando o homem do exterior; ou bem faz-se surgir “de uma faculdade minha que, sem sair do seu foro íntimo, sentiria a sua dignidade na pessoa, e encontraria assim, conservando toda a sua individualidade, idêntica e adquada a ser mesmo colectiva (3)”. O primeiro sistema, o mais antigo, é o da Transcendência: é aquele de todos os que “ficam fiéis ao princípio da subordinação externa”, que este princípio seja Deus, a Sociedade, o Grande-Ser, ou “toda a outra Soberania, mais ou menos visível ou respeitável (4)”.
Mas a Transcendência encontrou a sua expressão mais elaborada e mais perfeita no catolicismo, numa espécie de sorte que este está convencido de errar, tudo se aniquila. Quanto ao outro sistema, “radicalmente oposto ao primeiro”, é o da Imanência, ou seja, inacto da justiça no homem e na sociedade; ele tem ainda todo o apreço do fruto verde, e o seu porta-voz chama-se a Revolução (5).
Na “hipótese católica”, a justiça é “comunicada” noa altos (sacramentos), “intimidada” do exterior ao sujeito (Revelação, Tradição, magistério), a tal ponto que o individuo não pode encontrar a sua saudação renunciando a todo o próprio julgamento, a toda a autonomia. Desligado por si próprio de toda a moralidade e de todo o “proncípio de justiça”, ele é normal, como o afirma a Escola católica (Maistre, Bonald, La Mennais, Donoso-Cortès), que ele seja “sem direitos”; ele só tem “deveres”, ou acima de tudo um único dever: o de obter no seu deus e aos seus representantes sob a terra (Rei, clero, nobreza). Por via de consequência, a ordem segundo o direito divino será necessariamente uma ordem autoritária, hierárquica e imutável (6), uma ordem “desumana”, que não atende nada ao homem, sacrifica toda a interioridade às exigências da sociedade (Bonald) e ignora o progresso. Nesta perspectiva, o valor moral do acto depende essencialmente da sua conformidade ou da sua não-conformidade a um direito puramente exterior; quanto às disposições do “assunto”, sabe preocupar-se pouco (ele reenvia aqui à prática religiosa ”forçada” pelos colégios da Restauração).
Tudo se reduz a uma questão de “disciplina”. Assim se explica, prossegue Proudhon, a aliança da monarquia do direito divino e da Igreja, do absolutismo e do catolicismo, do poder e do hissope: “Será ele bom? Pergunta o general a propósito de um militar acusado de violação. –Sim. –Sejam indulgentes”. “É o significado da Igreja: Ele vai À missa? –Sim. –Sejam indulgentes (7)”.
De onde a sua conclusão: este género de moralidade é o cúmulo da imoralidade; é um insulto permanente à dignidade humana.
Na segunda hipótese, ele vai pelo contrário. Dotado de um “sentido moral”, de uma “faculdade de justiça”, o homem encontra em si mesmo o seu principio de justificação, mesmo se este não possa desenvolver-se e expandir-se em toda a vida social. A sua composição, isso seria mais desonrá-lo do que fazer depender a sua moralidade de uma Soberania estranha. Toda a sua justiça descança sob “uma espécie de ordem secreta de si próprio para si próprio”; uma espécie que ele não a considerará como “boa” o que é confessado pela sua consciência, e como o “mal” que lhe é apresentado como tal pela sua consciência (8). Por via da consequência, a ordem segundo o direito humano será uma ordem fundada sob a dignidade inabalável da pessoa, e soberania respeitadora das suas exigências fundamentais. Por outro lado, como a personalidade é essencialmente a mesma junto de todos, isso será uma ordem de tendências igualitária e libertária (purificando o significado de toda a nuance perjurativa ou anti-moral), que procurará em todas as ocasiões a adesão intíma, reflectora, cordial do cidadão, e que fará sem dúvida apelo à sua participação e à sua responsabilidade.
Com efeito, a “faculdade justiceira” na qual o homem está prevenido para isso de particular para ela ultrapassa todo o individualismo: ela entra em jogo antes do ser humano, qualquer que ele seja; uma espécie de homem, à diferença do animal, prova À VEZ “a obrigação de respeitar-se em toda a circunstância, e de respeitar o próximo, como [ele] queria ser respeitado [ele mesmo], se ele estivesse no seu lugar (9)”. Noutros termos, “o que faz com que eu respeite o próximo […] é a sua qualidade do homem (10)”: e, “o que é mais extraordinário, eu ofendo-me a mim mesmo ofendendo-o (11)”. Brevemente, pela sua consciência, o homem “tem a faculdade de sentir a sua dignidade na pessoa da sua semelhança como na sua própria pessoa, de afirmar-se à vez como o indivíduo e espécie (12)”.
A “lei suprema” de toda a justiça é portanto a lei de reciprocidade: “Faz aos outros o que tu queres que te façam a ti. Não faças aos outros o que tu não queres que te façam (13)”.
Desenvolvendo esta norma graças à qual “a distinção do bem e do bem é feita, consequentemente a lei editada por todos os degraus de civilização e todos os casos possíveis (14)”, obtêm-se esta amplificação majestosa: “A justiça é o respeito, espontaneamente aprovada e reciprocamente garantida, da dignidade humana, em alguma pessoa e em alguma circunstância que ela se compromete, e a qualquer risco que nos expõe a sua defesa (15)”.
Tais são, segundo ele, as duas formas antinómicas de representar-se a Justiça e portanto a ordem na sociedade. A escolha é clara: ou a Transcendência, o catolicismo, o direito divino – ou a Imanência, o direito humano, a ideologia dos direitos do homem e a Revolução. “Lá existe a nossa vida moral, a nossa saúde eterna, como diz a Igreja, e nem a questão mais alta o fazia subelevar-se entre os homens (16)”. Noutras palavras, “a questão está entre a Revolução e a Igraja (17)”.
Nós conhecêmo-lo bastante para saber qual é a resposta… É um jogo para ele de “provar” de seguida a sua tese à ocasião de todos os grandes problemas que assustam a humanidade: desprezo sistemático da pessoa no “sistema católico” fundado sobre o pecado original e a perda de todo “sentido moral” junto do homem perdido; “insulto hierárquico”; educação visando a formar de “bons sujeitos”, tal que lhe falta para o poder absoluto; “penitenciária aflitiva e infamante” (ele nomeia Saint-Acheul); pobre de instrução das massas (Maistre, Bonald, Donoso-Cortès); disciplina rigorosa das ideias, Santo-Oficio, Santa-Inquisição; “dogma” da desigualdade providencial e dos estados de vida; oposição a tudo o que desenvolve o sentido crítico, como a ciência, a indústria mecânica, hostilidade do príncipio às “luzes da razão”; etc. “Aqueles de 89”, pelo contrário, e mais geralmente aqueles que acreditam na Imanência, pregam “o respeito igual e recíproco”, não somente pelo Céu, mas desde neste mundo, e entre todos os homens, quaisquer que sejam a sua origem social, a sua situação, ou a côr da sua pele. Por isso, eles não procuram fazer da criança “uma cerca aroeira”, eles querem “colar_____ nas veias; ao “sujeito dócil”, eles preferem “o homem digno ao cidadão confiar os seus direitos e seus deveres; eles não reduzem a “ventilação das ideias”, eles organizam-na; eles não governam pelo atractivo das recompensas ou pela pena do castigo (céu, inferno), mas eles acreditam que existe uma justiça imanente e que a sanção nasce no acto como a flor do caule: “Tudo se deleita no homem, na sociedade, na natureza, quando a Justiça é observada; tudo sofre e morre, quando se é violada (18)”. Enfim, as verdadeiras “justiças” não enganam o povo pregando-lhe uma igualdade “celestial”, eles querem que, desde esta terra, para todos os homens, a reciprocidade do respeito, proclamada entre as pessoas, conduz à reciprocidade dos Serviços e à equivalência das condições: é todo o socialismo pelo menos ao que ele atende (19).
Tais são algumas das “certezas” que ele diz ter ____” ao mais profundo da [sua]consciência”… depois do que nós tinhamos dito sobre a sua infância, sua adolescência, suas humilhações, suas leituras será preciso insistir mais? A oposição da Transcendência e da Iminência, é o “duelo fantástico” da “muito católica restauração”, o antagonismo dos ultra e dos liberais, o afrontamento das suas ideologias “absolutista” e “progressista” (20), onde nunca se reclamava os direitos de Deus e na outra os direitos do homem. A sua “teologia” não é mais que a sistematização, por vezes genial, mas sempre abusiva, dos feitos e das cenas da sua juventude, que ele explica a si mesmo, interpreta, aumenta, deforma e retorna à luz dos seus “autores”.
Ele escreve, é verdade, em 1855-1858, muito tempo depois da idade da ordem da "aliança do trono e do altar”; mas por uma parte as suas “autoridades” (Bergier, Maistre, Bonald e seus discípulos) permanecem as teologias indiscutidas da corrente católica maioritária; por outro lado, depois do
Teu Deus que acompanhou a proclamação do Império, depois da inflexibilidade do Piedoso IX, o “cliché afectivo” da Restauração joga de novo (21), e a sua sensibilidade exacerbada reduz mais ainda uma “Segunda Restauração”. Assim também, para justificar o seu anti-catolicismo sistemático, não é somente ao tempo da sua juventude que ele nos reenvia, mas a numerosos feitos actuais. Lê-se por exemplo na Justiça continuada:
“A Igreja está encarregada de pregar as missas, para os seus 40.000 tribunas, os grandes princípios da autoridade, da hierarquia, do poder absoluto, da nobreza hereditária, da desigualdade providencial, da servidão e da razão, e outros, que a reacção do 2 Dezembro misturou na ordem do dia, e contra os quais protesta com energia a consciência pública. A Igreja é a única moral que domina a nação, e a nação não quer mais (22)”.

De onde a necessidade de uma “nova espiritualidade”, de uma “nova moral”, “que deixará longe a última moral e espiritualidade cristãs (23)”: aquelas do direito humano, por oposição ao direito divino (24). Ele é verdadeiramente, neste sentido, um dos pais da “moral laica (25)”.
Todavia, a “questão social”, a miséria das classes operárias, a atitude da Igreja face ao proletariado nascente, tudo isso pesa também com um grande peso sobre o seu comportamento anti-religioso. Ele não esquece os seus companheiros de infortunio, nem o “sermão (26)” que ele tinha feito em 1838 de “melhorar a condição física, moral e intelectual da classe mais numerosa e mais pobre (27)”. Mas como imaginar uma real promoção das massas populares no “sistema da desigualdade natural e providencial”, que não para de pregar a Igreja em toda a ocasião?



NOTAS:


1 Proudhon escreve ora Matthieu, ora Mathieu. A boa grafia é Mathieu. Nascido em Paris a 17 Janeiro de 1796 (seu pai, depois de ter sido sedoso em Lion, estabeleceu-se na capital onde ele tinha um escritório de negócios). Césaire Mathieu acaba os estudos de direito e torna-se advogado em 1815. Ele entra pouco depois para Saint-Sulpice e é ordenado padre na capela de Carmes em 1823 aos 27 anos. Em 1829, ele é vigário geral de Paris, abade de Madeleine em 1831, bispo de Langres em 1832, aos 36 anos. Ele é transferido para a sé de Besançon a 11 Junho de 1834, onde morreria quarenta e um anos depois, em 1875. Cf.Besançon, Vida da sua Iminência Mgr o cardeal Mathieu, arcebispo de Besançon, 2 vol., Bray e Retaux, 1882. Escreve no estilo de então, este estudo, pouco científico, dá lugar a uma missa no ponto polémico de J.-F.Bergier, Suplemento à vida do Cardial Mathieu, no seu viver, arcebispo de Besançon, Besançon, Bonvalot, 1883. Sob a Monarquia de Julho, Mgr Mathieu foi uma forte influência sobre as nominações episcopais, devido aos seus laços muito estreitos com Mgr Garibaldi, internúncio. Cf.Paul Poupard, correspondência inédita entre Mgr Antonio Garibaldi, internúncio em Paris e Mgr Césaire Mathieu, arcebispo de Besançon, Boccard, Paris, 1961.
2 Justiça, t.I, p.251 a 254, 284, 324.
3 Justiça, t.I, p.316.
4 Ibid.
5 Justiça, t.I, p.316 e 317.
6 Estas são as três notas as quais Bergson, nas Duas Fontes…, utilizará para caracterizar o ideal de uma sociedade não democrática.
7 Justiça, t.II, p.228; ver também t.I, p.319 à 321; t.II, p.473; t.III, p.334, 651. Justiça continuada, p.223,273,275, etc.
8 Justiça; t.I, p.326. Adiante, p.25.
9 Justiça, t.III, p.360.
10 Justiça, t.I, p.426.
11 Justiça, t.I, p.418,419.
12 Ibid., t.I, p.423.
13 1ª Memória, p.143, 144. Justiça, t.I, III, p.355. Esta “lei” reencontra-se em todos os seus escritos, sem nenhuma excepção. Ele observa que é a lei do Evangelho, mas que ela é-lhe muito anterior. É portanto a lei “natural”, “absoluta”, “suprema”. Cf.Introdução, p.13. A sua formulação da lei moral faz pensar em Kant na qual ele tinha lido e anotado as obras, traduzidas pelo seu amigo Tissot, professor em Dijon.
14 Justiça, t.III, p.355.
15 Ibid., t.I, p.423.
16 ibid., t.I, p.292.
17 Ibid., t.I, p.271; é o título de um desenvolvimento.
18 Justiça, t.IV, p.352. Em letras maíusculas no texto.
19 Desenvolverei os aspectos positivos do seu pensamento numa outra obra.
20 O termo é corrente do século XIX e designa todo o partidário do progresso.
21 Adiante, p.116.
22 Justiça continuada, p.310 –Este escrito é uma defesa na qual ele procura justificar-se das graves acusações retidas contra si. O assunto ía terminar em três anos de prisão e uma forte multa.
23 Criação da ordem, p.459 (1843).
24 Justiça, t.I, p.323 e s.
25 É assim que Chaudey, seu advogado, qualificaria a sua koral, por oposição à “moral religiosa”. (Justiça continuada, carta de 8 Maio de 1858, p.328).
26 Carnet VII (inédito); Corr., t.I, p.32, 57.
27 1ª Memória, p.119.

APACI DANSI - HASAN BABA !

A melhor maneira de entreter putos!O artista é turco mas vive na Alemanha. Proposta do Anovis!!!

Mãos ao ar lacaio da boa vida!!!


Depois de trabalhar como um cão, o descanso do guerreiro...


Edições Negras Tormentas está lançando seu primeiro livro: “Eco de Liberdade”


Comunicado:

É no espírito da Revolução Espanhola que damos luz à Edições Negras Tormentas, uma editora autogerida, "vinculada" ao Coletivo Ativismo ABC que entre outras atividades gere a quase sete anos o espaço libertário Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa", localizado na cidade de Santo André (SP).

Criar uma cooperativa de publicação de saberes é a maneira que encontramos de incentivar a propagação de pensamentos rebeldes diante de uma realidade neoliberal, onde a apatia e o conformismo são herdeiros e reprodutores da ideologia burguesa vigente na política, na economia, na ciência, na educação, nas artes, nas mentes e corpos.

A primeira publicação “Eco de Liberdade”, é um texto inédito, que deixa a reclusão empoeirada de uma biblioteca particular, para ser socializada a qualquer pessoa que tenha curiosidade no tema. Outras publicações já estão sendo planejadas, traduzidas e produzidas, dando assim continuidade ao projeto de publicar textos inéditos na língua portuguesa.

"Ecos de Liberdade” surge a partir do interesse em pesquisar experiências pedagógicas libertárias, que buscavam e buscam incentivar o livre pensamento e transformar indivíduos em livres pensadores, aptos a pensarem por si, a serem solidários e seres humanos.

Por isso, neste livro encontraremos a base da educação libertária a partir das experiências de Paul Robin e Francisco Ferrer y Guardia e como o pensamento destes dois rebeldes e pedagogos influenciaram o mundo, chegando ao Brasil.

Um trabalho que se complementa aos outros estudos sobre as Escolas Modernas em São Paulo e ao papel importante que ela desempenhou para àquela sociedade revolucionária, contribuindo para nossa atualidade.

E para finalizar esta breve apresentação, cabe dizermos, que todas nossas publicações estarão em breve disponíveis também na internet, e que todas nossas obras serão pautadas pelo CopyLeft, ou seja, é livre a reprodução de qualquer obra da Edições Negras Tormentas, desde que, não seja para fins lucrativos e que a fonte seja mencionada.

Não acreditamos na propriedade intelectual ou em qualquer tipo de propriedade, pois o conhecimento deve estar disponível a todos que queiram.

Assim, damos luz a mais uma editora anarquista. Que se propõe a divulgar os ideais anarquistas através dos livros!

“Eco de Liberdade” 80 págs. R$ 15,00

Mais infos: negrastormentas@riseup.net

agência de notícias anarquistas-ana

Pode ser um cão polícia mas é sempre um cão!

Kadafi continua o seu delírio...


e os bombardeamentos sobre os opositores.


A malta assiste impotente à subida dos preços do crude...


As promessas dos veículos eléctricos e a realidade do Peak Oil

O governo português anunciou alto e bom som o lançamento do seu projecto Mobi-E, um acrónimo de "mobilidade eléctrica". Com grande orgulho, os seus responsáveis declararam que este é o único projecto de veículos eléctricos (VEs) do mundo efectuado a uma escala nacional.

Em primeiro lugar, deve-se notar a audácia do governo português em lançar um projecto de VEs nesta escala quando mais ninguém o fez. Admitindo que este grande projecto tenha sido estudado maduramente em todos os seus aspectos, convém verificar se o Mobi-E pode atingir um dos seus objectivos: a redução da factura petrolífera nacional.

Como se sabe, o principal problema energético português é a extrema dependência do petróleo, a qual tem fortíssimas implicações macroeconómicas. Em 2009 Portugal importou 14,8 milhões de toneladas de petróleo, a um custo total de 4,8 mil milhões de euros (ou 6,7 mil milhões de dólares). O valor das importações de petróleo corresponde a cerca de 27% do défice da balança comercial portuguesa.

Esta dependência extrema do petróleo importado tem graves consequências e não é por simples acaso que os chamados países PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Spain ) são exactamente aqueles que estão mais dependentes do petróleo.

Poderá o Ocidente aprender?

Está a realizar-se em Dakar o XI Fórum Social Mundial (FSM). É a segunda vez que se reúne em África (a primeira foi em 2007 em Nairobi), o que revela o interesse dos seus organizadores em chamar a atenção para os problemas africanos e para o impacto que eles terão no mundo. Mal podiam supor que, ao tempo da realização do Fórum, o Norte de África estivesse no centro dos noticiários mundiais e os protestos sociais contra a crise económica e as ditaduras apoiadas pelo Ocidente fossem tão vigorosos, tão contagiantes e tão assentes num dos princípios básicos do FSM, o da radicalização da democracia como instrumento de transformação social.

quarta-feira, março 02, 2011

O NEGRO E O VERMELHO

Proudhon: O Regicídio ou a inutilidade da violência na História

A 24 de Setembro de 1855, Proudhon anota no seu caderno: “Asseguraram-me que uma tentativa de assassinato sobre a pessoa do Imperador foi realmente feita por um dos seus guardas. Este homem, naquele dia de serviço, tinha entrado no quarto do Imperador, e depois de ter falhado, teria estabelecido uma luta con ele. O Imperador que não reapareceu em público, teria sido ferido; o culpado fuzilado no campo”. Depois a 28: “Eu compareci diante do juíz de Instrução pelo atentado de 24. Eu devia desde logo fazer uma declaração diante do comissário da polícia. Diante estas duas autoridades, pareceu-me que uma certa benevolência cercava o assassíno. Rejeita-se a sua origem nas más doutrinas”.
A leitura dos cadernos de Proudhon mostra-nos o homem muito preocupado com a questão dos regicídios, particularmente quando, como é este o caso, as autoridades não querem nos seus escritos uma incitação ao assassínio. Também cada atentado inspira-lhe novas reflexões, - reflexões antes de mais lançadas “à pressa” nos seus Cadernos, depois finalmente reunidas e organizadas na Justiça na Revolução e na Igreja. Perante este olhar, é a similitude impressionante observada entre a “teneur” dos cadernos (particularmente a 29 Julho de 1846 ) e os desenvolvimentos da Justiça… ( redigidos depois do atentado de Orsini, a 14 Janeiro de 1858 ), que decidiu o tema da nossa contribuição nos Arquivos proudhonianos. Entre estas duas datas, nós assistimos ao nascimento e à evolução de um pensamento, de um raciocínio que se estrutura; mas ele permanece sobretudo surpreendido ao constactar quantos, desde Julho de 1846, o eixo da sua análise está desde logo presente – não deixando finalmente mais tempo para fazer a sua obra, e em alimentar a substância.
É no XII estudo da Justiça… que Proudhon tem naturalmente inserido os seus desenvolvimentos sobre o regicídio, vendo neste acto a última do opressor. Se a definição que ele dá não tem nada de inédito, o autor reivindica em contrapartida a novidade, a “ousadia” do seu julgamento. Ele opta efectivamente por uma via mediana, a meio-caminho entre um suporte absoluto e uma condenação à priori do regicídio 7, defendendo-se sobretudo ao apresentar uma teoria de valor universal. Com efeito, se o seu método é feito de análise histórica e de observação dos factos, não é essencialmente para libertar uma lei invariável, mas bem mais para subsitituir os actos no seu contextos, ora do qual eles não podem explicar-se. esta percepção da história não era um fim mas um meio: “outra coisa é fazer do passado um objecto de estudo, outra coisa é fazer do conhecimento do passado, a mesma ciência da humanidade” 1
Contudo, se a matéria é efectivamente abundante – Proudhon ilustrando o seu propósito de uma loucura de exemplos tirados da história – parece-lhe tirar um julgamento finalmente invariável: “O regicídio é por vezes desculpável; o regicídio é razoável, nunca”. 2
Retomamos os motivos desta sentença, para determinar a capacidade, e eventualmente destacar as insuficiências.
A análise do regicídio articula-se à volta dos eixos. Num primeiro tempo, Proudhon prende-se a remontar até à primeira causa do assassinato político – o que reconduz à constituição da sociedade. Posto isto, ele passa então a uma explicação mais pragmática que, demonstrando a mesma estrutura do regicídio, vai colocar em destaque as responsabilidades que ele engana.
A primeira etapa do raciocínio apresenta-nos o regicídio como sendo o efeito de uma causa na qual o ampliador é tal, que ela acusa, ela própria, toda a incapacidade deste gesto.
Esta causa não se encontra numa “perversidade” inata do homem, Proudhon recusando a análise angustiante da natureza pecadora do homem depois da queda. Mas o regicídio não se explica mais por um “risco” constitutivo da essência do poder.
A verdadeira razão encontra-se no que Proudhon chama uma “patologia social” – antigamente dita como um estado ”deviant” da sociedade, provocada pela cisão vinda inesperada entre os seus elementos constitutivos. O regicídio é um dos sintomas desta patologia, ele não é o remédio; ele é “o acto de uma sociedade dividida, em revolta contra ela mesma, e que se nega a pessoa do seu representante” 3.
A sociedade é a reunião de indivíduos sob a bandeira de um mesmo espírito, o qual funda a autoridade das instituições que eles dão para as dirigir. Num bem frequente sob a sua pluma, Proudhon vê lá uma analogia com a família, a qual, além da autoridade do pai, caracteriza-se pelos laços que unem os seus membros. Num e noutro caso, este cimento moral é necessário, pois Proudhon nomeia, for a de toda a aceitação religiosa, o “espiritual”. Sem ele, a autoridade do chefe ( “o temporal” ) não está mais fundada, a obdiência não lhe é mais assegurada, não lhe deixando mais outra escolha que o recurso à força. O grande reconforto de ilustrações históricas, Proudhon destaca este fastio do espiritual, no qual a consciência reside na alternância “fatal” de tiranias e de tiranos.
A passagem deste ciclo encontra-se desde logo numa reabilitação do espiritual na sua plenitude, a qual não pode ser o facto de algum “voluntarismo”. Numa óptica que se pode qualificar de “espontânea”, Proudhon anuncia que esta reabilitação só pode sair de um processo em acção na sociedade e na história, sem que ele tenha a necessidade de alguma impulsão determinada. Ele parece então que o propósito esteja bem próximo desta corrente iniciada por Montesquieu depois Burke, e no qual a escola do direito histórico de Savigny 1 apresenta-se no século XIX em França, e ele é verosímil que Proudhon tome conecimento dos seus teóricos, em particular pelos seus tenentes franceses, Lerminier e Laboulaye. Esta corrente de pensamento insiste à partida sobre os fenómenos históricos colectivos, que escapam ao voluntarismo do homem ( do legislador em particular ). A concepção da sociedade é organizadora, na qual as diversas realidades apresentam-se como o fruto de uma actividade contínua do povo; a actividade arbitrária dos indivíduos é transcendente por esta espontaneidade criadora 2 do povo na história, que sozinho pode restaurar a sua unidade fundamental.
Esta análise da causa primeira dos regicídios, que explica a superveniência ao mesmo tempo que ela acusa toda a inutilidade, permite também observar a realidade. É sobre esta base que Proudhon vai em seguida atacar a julgar a “moralidade” dos regicídios. A análise vai ser mais pragmática, essencialmente concentrada sobre o regime de Napoleão III. mas se o propósito parece principalmente o eixo sobre o casal “assassínio-assanino”, todo o último plano parece-nos pleno de uma só intenção: a de colocar em destaque a responsabilidade do povo. É aqui um novo episódio da relação apaixonada de Proudhon com os seus contemporâneos, esta multidão à qual ele confessa todo o seu trabalho, e no qual portanto, ele não deixa de estigmatizar as cobardias 3.
Para melhor colocar em evidência este jogo de responsabilidades, parece-nos indispensável individualizar bem cada um dos termos constitutivos do regicídio.
Proudhon anuncia que o regicídio não é desculpável, só se se provar a culpalidade do principe. Ora, o que é a tirania? O autor ridiculariza os socialistas, para qeu Napoleão III é uma tirano “porque ele não é nem vermelho, nem socialista, nem revolucionário! Não é uma boa definição!… 4. Mas ele próprio não é mutio explícito. Nós não encontramos junto dele alguma teoria exaustiva, algum sinal completo do tirano, sobre a base da qual os sujeitos poderiam reclamar contra ele. Mais geral por vezes, Proudhon não se interroga sobre a “legitimidade” do príncipe não fazendo alguma diferença entre um príncipe legítimo que teria ultrapassado a sua função, e o individuo que teria usurpado o poder supremo ( qualquer que seja em seguida a maneira na qual ele assume o exercício ). Isto não se reencontra particularmente na análise que ele faz do assassinato de Napoleão III, que o golpe de Estado de 2 Dezembro não dá aos seus olhos mais usurpadores que os plebescistas sucessivos não chegarão a dar-lhe a meia legitimidade. Em relação à primeira parte do seu desenvolvimento, parece finalmente que Proudhon não vê na tirania mais que um feito, definitivamente também necessário que o regicídio, e todo sintomático desta cisão da sociedade.
As notas e esclarecimentos… são apenas mais precisos, não trazendo a distinção entre o soberano “coroado” ( qualquer que seja portanto a sua legitimidade ) e o sobernano “caído” ( não dispondo mais dos atributos do poder público ). Isto conota dois níveis de responsabilidade do príncipe: a responsabilidade”política”, que Proudhon recusa ver posta em causa, sob pena de viciar fundamentalmente o exercício de todo o poder. Em contrapartida, ele apoia uma responsabilidade “penal” e à posteriori do princípe, que deve justificar as infracções do direito comum, comprometidas sob a sua autoridade.
Contudo, nem num nem noutro caso, o assassínio do príncipe não é aceite, e isso, mesmo se a sua atitude é tal que “a tirania pode parecer em príncipio legítima” 1. Mas, mesmo então, oregicídio é negado pelo recurso ao mesmo tempo argumento legal: é preciso poder justificar a culpabilidade pretendida do príncipe, sem “lei, crime” 2.este argumento evoca a legalidade dos delitos e das penas que reivindicavam, sob a implusão de Beccaria e Voltaire, os homens de 89. Ao fazer eco, Proudhon reclama pois a inscrição ao código penal do crime da tirania, melhor forma de lutar contra “o arbitrário decapitações e a reciprocidade do assassinato” 3. Ora parece-nos que uma tal reivindicação releva a simples declaração do príncipe, na qual Proudhon parece ter admitido a gratuidade, aprofundando outra medida à análise. Imagina-se mal efectivamente o princípio legislador sobre esta questão, admitindo num texto o direito positivo, tudo o que o seu poder encobre na possibilidade de arbitrário, fundando no direito da capacidade dos seus assuntos a prosseguir! Aqui, por vezes, implicaria que seja instituída, abaixo do soberano, uma instância diante da qual ele teria de prestar contas, o que é a mesma negação da soberania. Nós regressaremos ulteriormente a esta questão, que no sosso sentido tem em conta uma solução nas Declarações dos direitos de 1789 e 1793. Acrescentemos simplesmente que o feito de codificação, o crime de regicídio estava então inscrito no código penal e expõe o seu comentador na mesma pena que para o parricídio.
Como é que Proudhon considera o criminal convencido de regicídio? Na primeira edição de A Justiça…, ele só se interessa com a forma individual do regicídio, mas a sua obra enriquecerá pelo seguimento de reflexões dando forma colectiva a um tal acto.
No primeiro caso, a condição de exclusividade é que o autor seja “sem aproximação” 4. Numa certa medida, este está bastante próximo da análise desenvolvida por Mariana 1, para que o regicídio deva ser heróico, animado por motivos virtuosos com quais os nomes ele vai riscara sua existência. Apesar de tudo, mesmo se o acto testemunha uma opressão realmente sofredora que pode desculpar o gesto, Proudhon recusa fazer alguma justificação do assassínio do opressor. O regicídio é confessado, e desde logo incapaz do recuo necessário a uma decisão razoável, e esta confissão torna-o no mais egoísta dos homens: “ele coloca o seu sentido privado no lugar da razão das coisas, causa o seu fanatismo abaixo da vontade geral” 2 – é assim que “Poltrot é uma das causas da Saint-Barthélémy” 3.
Esta confissão do indivíduo, que denuncia todo o perigo do regicídio, existe ao nível do grupo, desta minoria na qual Proudhon exige o direito de julgar a maioria? Os seus desenvolvimentos sobre a forma colectiva do regicídio são então abertamente anti-democratas “há mais oportunidade da razão se reencontrar numa minoria de elite do que na multidão vulgar. Depois disso, pode-se dizer que a soberania contêm, do direito racional, sobretudo a minoria que a massa” 4. Mais marcante aqui das paixões nefastas que habitam o individuo e o ameaçam com impasses temíveis, mas uma opinião reflectida, engana da deliberação do grupo. Ora, sobre este fundamento, Proudhon imagina que o grupo faça seceção com o resto da população, afilando a sua diferença. Profila-se aqui uma re-colocação em causa do contrato fundador no qual a saída de toda a organização política e social, cercam à volta dos homens o estado que precede “a existência convencional da sociedade” 5. Desde logo, num racíocinio próximo daquele dos teóricos ingleses do contrato social ( Hobbes, Locke ), cada um reintegra os direitos nos quais ele jogaria ao estado pré-social, no qual o principal é o direito de [ se fazer ] justiça. Mas aqui acompanha-se desde logo a perda de toda a segurança jurídica, já que mais nenhuma autoridade 6 está instituída para arbitrar os conflitos jamais necessários entre os individuos procurando impôr os seus direitos.
Proudhon não evoca aqui o caso do conflito entre minoria e maioria; mas esta primeira cisão consumada, não vê o que podia impedir outros e, num regresso infinito, pode-se prever uma atomização da comunidade, finalmente dissolvida numa ostentação de individuos. Parece bem que Proudhon tinha percebido este perigo, e a hipoteca na qual ele agrava a sociedade. Também, num movimento de racuo, ele sugere que a minoria – mesmo no seu bom direito – dobrar-se ao fazer maioritária, e ao aceitar o incómodo atendendo à confissão da Justiça. Nós reencontramos de novo este processo histórico fatal, evocado precedentemente, e sobre o fundamento do qual Proudhon justifica este incómodo temporário.
O benefício minoria-maioria, sobre o qual Proudhon baseia a forma colectiva do regicídio, ameaça-nos a evocar o último termo da trilogia constitutiva do regicídio: o papel imprórpio à população, esta maioria na qual nós tinhamos visto o autor prende-se ao preservar os direitos, mas face à qual ele se mostra intransigente.
Porque a tirania é a passagem certa da maioria. Evocando o 2 de Dezembro, Proudhon considera que “o povo foi desleixado, mais desleixado que o governo derrubado por ele em 1848; como uma manhã ele foi tomado de raiva feroz para a liberdade, de desprezo pela constituição e de adoração pela força! (…) Nada menos democrata, no fundo, que o povo. As suas ideias trazem sempre para a autoridade de um só” 1. Só, o tirano não teria podido chegar ao poder, e só, ele não saberia lá manter-se – a tal ponto que finalmente, “o tirano não existe por si só; ele é o produto, o gerente da situação, ele é último em todo o mundo” 2.
A Boétie no seu tratado de A Servidão voluntária (1548) não desenvolve uma ideia diferente, demonstrando a estrutura da tirania, ele mostra que se na cabeça do Estado ele não se encontra bem com uma só pessoa, a autoridade desta última descança de facto sobre um vasto conjunto de suportes que apoiam e a sua vontade, formando uma pirâmide com uma base taõ larga que ela acaba por recobrir a quase totalidade do Estado. De alto a baixo, isso não é mais que uma aceitação submissa das ambições pérfidas de um homem, sem que lhe seja necessário recobrir o incómodo exterior, nem mesmo justificar legalmente a sua autoridade. Tudo vai assegurar o suporte da população pela concessão de algumas arraias-miúdas compensações; em definitivo, é menos a inércia da população na qual ele se profila, do que a sua “avidez”.
Nesta condições, nunca o assassínio do tirano impunharia a tirania, e Proudhon livre desta sentença de um grande poder: “vós não seréis livres pois vós sóis maus; vós adorais um mestre e vós o aborrecéis, adorando-o, e vós o matais. Mas vós o matais em vão, porque este monstro, sois vós; e o que quer que ele tenha feito, vós não o matavéis sem crime, porque o verdadeiro culpado, sois vós” 3. Tal afirmação desencadeia duas consequências: uma pela certeza que ele está em vão a bater no tirano; “é preciso, para ser consequentes e justos, eis o corolário da tirania” 4. Ora a massa de cúmplices é tão importante, que na tal proscrição equivaleria ao suicídio puro e simples da comunidade – situação que Proudhon não pode caucionar. Mas por outro lado, esta afirmação entende suscitar uma reacção. A massa deve tomar toda a medida da sua força e sair da sua servidão, recusando sustentar o príncipe. Esta esperança permanece contudo, carregada de uma grande lucidez histórica, a experiência indicando que a sociedade não colocará no movimento mas sim no seu próprio chefe, ninguém pode impor-lho. Perante este olhar, portanto, nunca o regicídio poderá provocar uma tal onda de choque que a população corta o seu caminhar em direcção à liberdade. Bem do lado oposto, a desordem sucedendo-lhe é tão grande que se vê a sociedade quase a atordoar-se de novo nos braços do primeiro homem “provinciano” capaz de lhe dar uma calma artificial. Só o efeito do regicídio não é portanto mais do que atrasar ainda o acontecimento da Justiça. A alternativa à tirania reside finalmente numa tentativa histórica na qual a saída longínqua não saberia ser vã: “a experiência completa do príncipio de autoridade servirá de educação à humanidade. Desta plenitude de evolução política surgirá, no fim, a hipótese oposta; o governo usando tudo só, enfrentará, como o seu postulado histórico, o socialismo” 1.
No momento de conclusão deste estudo, uma última nota deve ser feita sobre a análise das Declarações dos direitos 2. Proudhon revelou, com justo título a dificuldade inerente ao trabalho dos constituintes: “ Para se garantir a insegurança popular, é-se obrigado, no sistema dos fundadores de 89, a aumentar a força do poder, no mesmo momento onde se toma uma outra posição das preocupações contra de (…). Estranho sistema onde o povo não pode exercer a soberania sem se expor a separar o governo, nem o governo usar da sua prerrogativa sem caminhar no absolutismo 3. Mas ele não colocou bem longe esta reflexão, não vendo em quê, precisamente, as Declarações permitiriam ultrapassar este aprente paradoxo. Assim, sobre a questão que nos ocupa, a que concepção está cheia de uma grande incerteza.
Primeiramente, ele parece não reter das Declarações que o artigo 35 do texto de 1793 (dever de insurreição 4, submentendo sob este conceito a forma individual do regicídio que, a nosso ver, encontra-se antes de mais fundado no direito de resistência do artigo 2 do texto de 1789 e artigo 33 do texto de 1793.
Mas p’além desta imprecisão terminológica, existe uma outra confusão de um outro ampliador: Proudhon denuncia a priori tais direitos de Constituição 1. Ora, precisamente, os constituintes são bem guardados de uma tal inscrição ; pois foi-lhes negado, nós tinhamos visto, a organização política ao mesmo tempo que era fundada, e pretende o mesmo momento dirigir as tendências que a nega.
Parece, em definitivo, que Proudhon perde-se numa interpretação muito imediata e contingente, limitando-se a um nível de leitura muito pragmático para lhe permitir enganar o valor. Pois abaixo de um apelo ao assassínio e à revolta, ele parece-nos que os direitos de resistência e dever de insurreição devem analizar-se como um apelo à vigilância cinstante dos cidadaõs, face a um poder no qual admite-se a possível fabilidade. Uma tal leitura, que conota uma responsabilidade dos cidadaõs. Coloca-se como o suspenso “optimista” de tal engano por Proudhon. O erro do autor doi finalmente pensar que a presença destes direitos nas Declarações chamar necessariamente a sua efectividade. Tal não deve ser o caso. Nós partilhamos o que plenamente a análise em todos os pontos esclarecendo a Srª simone Goyard-Fabre, a qual permite entrar os obstáculos nos quais Proudhon e tantos outros são perdidos:” Estes direitos não são um privilégio que cada um, ao seu grau, poderia usar e abusar. Eles designam os valores sem os quais a humanidade não pode ser reconhecida. Eles são inseparáveis da normatividade que inscreve sobre um horizonte de esperança. Eles impõem portanto ao homem uma tarefa infinita. A ilusão é crer que esta idea é objctivamente realizável na história e na política. Pelo contrário, a força da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão era situar os Direitos do homem na luz “nouménale” da idea que é o principio regulador 2

Proudhon P.-J. Cadernos XI, p. 176. Biblioteca Nacional, departamento dos manuscritos.
Ibid (nós sublinhamos ).
Ibid. Ver sobretudo p. 230 ( 20 Março de 1856 ) e p. 404 ( 17 Janeiro de 1858 ) para o desconto dos regicídios.
Proudhon P.-J. A Justiça na Revolução e na Igreja, Paris, Garnier, 1858.
Proudhon P.-J. Cadernos, ed. M. Rivière, 1960, p. 273.
A Justiça… saírá a 22 Abril de 1858, o que prova que apesar da eferverscência que precede a publicação, Proudhon procura ainda enriquecer a sua obra de reflexões suscitadas pela actualidade.
7 Proudhon faz aqui mentir Emile Bréchier que na sua História da filosofia considera que não é do homem que seja menos “justo meio”.
1 Lerminier E. Filosofia do direito (1831), p. 18.
2 Proudhon P.-J. Cadernos, op. cit., p. 273.
3 Proudhon P.-J., A Justiça… op. cit., p. 560.
1 Para um exame dos teóricos desenvolvidos por esta escola, nós não saberíamos recomendar bem a obra de Alfred Dufour, Direito do homem, direito natural e história, Paris, Puf, 1991.
2 Proudhon P.-J., A Jutiça… op. cit., p. 559 – Criação espontânea, que vêm não sei de onde, coloca-se não sei como, desenvolve-se sem que a vejamos, e de grau ou de força se faz seguir”.
3 Proudhon P.-J. A Justiça na Revolução e na Igreja, ed. M. Rivière, t. IV, 1935, notas e esclarecimentos do décimo-segundo estudo; p. 485: “Eu continuo à espera da maioria dos franceses, mas eu deconfio das suas oscilações”.
4 Proudhon P.-J. A Justiça… op. cit., p. 568.
1 A Justiça…, p. 565 ( nós sublinhamos ). Assim em Maio de 1855, seguido de um atentado no qual foi vitíma o imperador, Proudhon indignava-se pois a polícia secreta tinha brutalizado o autor do gesto: “Ele defende-se no tirano. Como os conselheiros de Napoleão III não lhe fazem remarcar este sistema de segurança justificada ou (…) os atentados” ( in Cadernos XI, p. 109 ).
2 Proudhon P.-J. A Justiça…, op. cit., p. 565.
3 Ibid.
4 Proudhon P.-J., Notas e esclarecimentos…, op. cit., p. 478.
1 Mariana, A instituição do reino e da rainha (1590).
2 Proudhon P.-J., A Justiça…, op. cit., p. 573.
3 Proudhon P.-J., Cadernos XI, p. 230.
4 Proudhon P.-J., Notas e esclarecimentos…, op. cit., p. 487.
5 Ibid.
6 Ibid. “Cada partido retirara-se sob a sua tentativa, o príncipe e o juíz perdem, pelo facto, de mandato que eles tinham recebido da minoria”.
1 ProudHon P.-J., Napoleão III, Paris, 1900; p. 246-247.
2 Proudhon P.-J., A Justiça, op. cit., p. 568.
3 Ibid., p. 571-572.
4 Ibid.
1 Proudhon P.-J., Napoleão III, 1900, p. 67.
2 Recordemos que a justiça está presente pelo seu autor como “um simples comentário da Declaração dos Direitos do homem e do cidadão, espécie de plano de uma filosofia da revolução “(T.I, p.43).
3 Proudhon P.J. , Napleão III; op. ct., p.25
4 Proudhon P.J., “A justiça …, op. ct., t.I, p. 515: Declaração Robespierre, ameaça de incapacidade”
1 Proudhon P.J. A justiça … t.I, p.516:”Semelhante/garantia nunca deu de pena de desmentido, figurada na constituição”.
2 Goyard-Fabre S. , “ uma filosofia de esperança “. in Revista Direitos (nº8), A declaração de 1789;p. 52 e seguintes.

Será que estes aparelhos dão mesmo resultado?...


Uma ideia de felicidade...


E ele não tem frio?


STOP em que língua?


É ele o big brother?


O artista é um animal...


Gafes do Kadaffi








Cavaco e a mudança de sexo


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Ateus

Opiniões a toque de caixa


A que ficará a dever-se esta mania de convidar Generais para fazerem de comentadores políticos em televisões, rádios e jornais? Será porque são os melhores especialistas em “generalidades”?
Seja como for... a moda está para durar. Um General ainda faz muitos quilómetros, mesmo depois de chegar à “reserva”.

O petróleo envenena a humanidade

Uma coisa que se torna clara quando lemos o Crude World: The Violent Twilight of Oil é que o subtítulo é enganador. Um crepúsculo violento? O leitor pode julgar que vai ser levado ao terreno do escritor James Kunstler, que defende que a escassez global de petróleo, que se avizinha, vai virar do avesso as nossas vidas que assentam no petróleo, e fazer com que as famílias, desamparadas, fiquem dependentes das suas hortas para sobreviver.

Mas, na verdade, em Crude World, o jornalista americano Peter Maass está a transmitir uma mensagem diferente. Tal como Kunstler, parece que Maass acredita na teoria do Pico do Petróleo, ou seja, acha que os dias de petróleo relativamente barato estão a chegar ao fim. Mas, em vez de considerar esse crepúsculo como um desastre, parece que Maass o considera uma bênção salvadora. Vai forçar-nos a acabar com a nossa dependência de uma substância que tem envenenado o nosso meio ambiente e a nossa política, e tornado a vida muito pior para milhões de pessoas.

Para Maass, o petróleo é uma maldição. Esta parece ser uma afirmação bastante justa, pelo menos sob certos aspectos. Pouca gente afirmará que o petróleo e os seus subprodutos não são destrutivos para o ambiente, por exemplo. Mas Maass vai mais longe, e segue em direcções inesperadas, para mostrar que – a partir do momento em que é extraído do solo, durante toda a cadeia até ao momento em que é despejado no enorme tanque de gasolina de um veículo utilitário – o petróleo é um autêntico veneno.

A LÍBIA, O MERCADO DE PETRÓLEO E O FANTASMA DO PEAK OIL

As recentes revoltas populares na Tunísia e no Egipto pouco afectaram o mercado de petróleo (a primeira nunca foi exportadora e o Egipto havia deixado de sê-lo pois o seu petróleo esgotara-se há vários anos). Mas o mesmo não se passa em relação à Líbia. A redução das exportações líbias (1,6 milhão de barris/dia) pode ter um impacto significativo. O facto de as empresas petrolíferas que operam na Líbia estarem a retirar o seu pessoal do país sugere que a redução poderá prolongar-se no tempo.

No imediato, os stocks armazenados na Europa asseguram o abastecimento. A questão crucial é se, após o consumo dos stocks existentes, haverá suficiente capacidade de reserva no resto do mundo para produzir o petróleo adicional necessário — por um período que pode durar semanas ou meses. Pode-se por um ponto de interrogação às declarações tranquilizadoras da OPEP. E falta saber se a Arábia Saudita tem toda a capacidade de reserva que diz ter e em que medida quer utilizá-la.

Em Julho de 2008 o preço do barril atingiu os US$147,27. Se algo semelhante acontecer outra vez é mais que certo um agravamento imediato da recessão mundial. O não reconhecimento do Pico Petrolífero pelos governos da UE e dos EUA tem efeitos perversos.

O NEGRO E O VERMELHO

PROUDHON E KANT - A ANTINOMIA PROUDHONIANA

Proudhon conheceu Kant em boa hora, e melhor que Hegel. Ele mantinha-se em correspondência sempre 1 com Tissot, que era então o especialista e o tradutor. Perto de 1839-1840, ele crê nas suas cartas a Bergmann e a Pérennès, lê “todos os dias 2”. Ele falará com respeito da “dialéctica fundada por Kant” e até ao início daquele será para si ”o venerável Kant 3”. Num artigo da Voz do Povo, de 5 Novembro de 1849, ele declara-o “também marcável mais para a sua profunda piedade do que pelo incomparável poder da sua reflexão 4”, e diz ainda na Justiça: “aquele que nenhum filósofo nunca igualara, o imortal Kant 5”.
Tal estima, mais suave do que aquela que ele tinha por Hegel, não o impede de falar para o criticar. Desde 3 Março de 1842, ele escrevia a Tissot: “Eu impaciento-me de vos ver tão obstinado, e ele faz com que eu vos arranco a Kant6. Ele começava então a preparar a sua primeira grande obra, com o sentimento que o seu pensamento chegava à maturidade e que ele vinha fazer enfim uma obra séria e positiva. Ele redigia nas disposições do espírito anti-kantiano. “ A minha metafísica está feita, escreve ele a Flenry a 3 de Abril de 1842; é qualquer coisa de curioso e de extraordinário, que vai colocar-me todos os Kantistas sobre os braços 7”. E pouco depois, a 23 Maio, a Ackermann: “Eu nego pura e simplesmente toda a psicologia e toda a metafísica de Kant8.” A Criação da Ordem aparecia em Setembro de 1843. Proudhon fala do “impasse onde a crítica de Kant tinha lançado os espíritos”, e ele marca, numa atenção prejorativa, que as categorias kantistas, “sistematizadas, eu diria quase cristalizadas num quadro imóvel, são independentes uma da outra, sem nenhuma ligação, sem génese9”.
Mas o que ele censura sobretudo em Kant, no fundo, será o não ser demasiado fiel a si mesmo. Isso será querer reconstruir depois de ter destruído, de ter tentado reintroduzir uma metafísica que a sua crítica tinha tornado impossível, e ter continuado a tentar o seu pensamento em direcção a um Absoluto que esta crítica teria eliminado sempre. “Fazendo profissão de livre pensamento”, Kant não retrocedeu menos “nos dados de experiência aos sonhos do absoluto”. Ele tinha, na Razão pura, “revolucionado a metafísica”: “De qual direito vem ele, na sua Razão prática, afirmar todo um mundo de absolutos, contra partida do mundo fenomenal, e postulado da consciência e da liberdade1?”.
Nós teremos de ver se não é precisamente isso mesmo, ou alguma coisa semelhante, que constitui a aventura intelectual de Proudhon. Constatemos somente pelo instante que estas aproximações confirmam à sua maneira a influência exercida sobre si pelo kantismo. Influência sobretudo negativa, e de ordem muito geral. Ele tinha uma aversão instintiva perante todo o sistema e de toda a ontologia. Num artigo do seu jornal o Povo, artigo redigido sob a forma de Carta aos cidadãos redactores do Popular, ele escreve, a 21 Março de 1849: “Do sistema, eu não sei; eu repugno formalmente a suposição. O sistema da humanidade só será reconhecido no fim da humanidade… O que me interessa, é reconhecer o seu caminho, e, se eu posso, assimilá-la 2”. E a 20 Agosto de 1852, abrindo-se a Boutville um projecto de revista no qual ele devia ser o director:
Apesar dos secretários, invejosos ao excesso do seu dogma e das suas fórmulas, não admitem, como os teólogos, que a verdade que eles fazem e nos termos que eles escolhessem, nós procuraremos as nossas ideias na expressão espontânea das instituições, das escolas e dos pensadores. Existe lá, parece-me, para uma revista revolucionária, uma oportunidade imensa de sucesso 3.
A leitura de Kant tinha fornecido a Proudhon a justificação racional deste espírito espontâneo. Na Revolução social, ele dá uma expressão mais teórica, adoptando uma posição na qual poder-se-à marcar a semelhança, mas também a diferença com a das famosas Teses sobre Feuerbach que são como a carta do marxismo:
Depois do Novo Orgão e a Crítica da razão pura, não existe, não pode lá haver um sistema de filosofia. Se é um verdade que deve ser reputada adquirida, depois os esforços recentes de Fichte, de Schelling, de Hegel, dos eclécticos, dos neo cristãos, etc., estão lá. A verdadeira filosofia, é em saber como e porquê nós filosofamos, de várias formas e sobre que matérias nós podemos filosofar, a qual especulação filosófica recorrer. Do sistema, nada existe, e é uma prova de mediocridade filosófica, do que procurar hoje uma filosofia4.
Proudhon foi portanto marcado, profundamente marcado pela crítica kantiana, como a imensa maioria dos pensadores do seu século, sobretudo “graças a esta transmissão surda que se faz por mil canais diversos5, mas sem se tornar ele próprio kantiano6. O seu agnosticismo teórico é menos radical, pois até a Crítica da razão pura não o desejava. De resto, ele não está no meio do mundo um filósofo da escola. Também não foi difícil revelar as inferioridades técnicas. Ter-se-ia uma grande injustiça, contudo, de ter pretexto para tratar o seu pensamento com desdém. O seu procedimento fundamental ora todo concreto, todo indutivo. Era uma reflexão sobre os dados da experiência comum e da vida jornaleira, sem deixar de ser sustentada pela realidade social. Ele estimava que toda a filosofia, mesmo aquela que se cria dedutiva, não fez nunca, bem ou mal, “ao sintetizar a experiência 1 e que, por ter oportunidade de fazê-lo bem, ele quer dar conta. Ele não ia da teoria à prática, mas da prática à teoria, e a sua teoria permanecia mesmo prática. É isso que ele explica a um dos seus correspondentes, Huet, a 25 Dezembro de 1860:
Bordas, como Decartes, Leibnitz, mesmo Kant, parecia-me ter ido além da filosofia especulativa à filosofia prática: ele passa pela metafísica para ir à moral, e ele não duvida que esta marcha não seja seguida nos séculos seguintes. No cristianismo, a teologia dogmática precede também a teologia moral; a religião está inteiramente fundada neste dado. Eu, por outro lado, apanhei de imediato a ideia moral, a justiça, o facto de consciência (eu não tomo aqui significado no sentido puramente psicológico), e uma vez em possessão do direito, da ideia moral, eu sirvo-me como que de um critério para a metafísica. A minha filosofia prática antecede a minha filosofia especulativa, ou pelo menos serve-lhe de base e de garantia.
E Proudhon compara o seu método “ao de Jesus e ao de Sócrates”, que ele opõe ao “idealismo de Platão” e à “teologia do Santo Paulo 2”. Quaisquer que sejam as suas comparações, vê-se que este método, tão inimigo que ele foi com a abstracção metafísica, era o oposto de um empirismo. Ele era igualmente elogiado pelo positivismo de Auguste Comte e do materialismo histórico de Marx. Apesar de Proudhon detestar o significado, ele era também, de alguma forma, um “idealismo”. E não seria impossível de encontrar-lhe um parente com o moralismo de Kant3:
Para mim, diz ele, a moral existe por si mesma; ela não revela nenhum dogma, nenhuma teoria. A consciência está junto da faculdade principal do homem, o poder soberano, ao qual os outros servem de instrumentos e de serventes… Isso não é metafísica, nem poesia, nem outra teodicidade onde eu deduzo as regras da minha vida e da minha sensibilidade; é ao contrário do ditado da minha consciência que eu deduzirei sobretudo as leis do meu entendimento4.
Contudo, é certo que os históricos de Proudhon insistem no comum mesmo falando da sua dependência em favor do kantismo. Constatando que a dialéctica proudhoniana está fundada sobre a noção de antinomia, eles acreditam poder acrescentar que é Kant que lhe terá fornecido esta noção. Assim desde já Karl Marx, sobre Proudhon “primeira maneira”:
Nos capítulos que ele mesmo considerava como os melhores, ele imita o método antinómico de Kant, o único filósofo alemão que ele conhecia então pelas traduções, e ele deixa uma forte impressão que para si, como para Kant, as antinomias só se resolvem “para além” do entendimento humano, ou seja, que o seu entendimento é incapaz de os resolver1.
Negligenciamos a ironia final. Permanece a afirmação inicial, em seguida retomada, e que tinha desde logo formulado Saint-René Taillandier em 1848: “Proudhon serve-se de instrumento de Kant, a antinomia2.” Proudhon parece ter dito primeiro. Ele não escrevia a Tissot, a 13 Dezembro de 1839: “Ao ler as antinomias de Kant, eu tinha visto não a prova da fraqueza da minha razão, nem um exemplo de subtil dialéctica, mas uma verdadeira lei da natureza e do pensamento 3?”
Todavia, há que olhar de perto, que este texto contém outra coisa para além de confissão que se crê ler nele. Ele prova que desde 1839, ano vivido sob o signo de Kant, Proudhon compreendia-o, ou interpretava-o livremente, à sua maneira, que não era nada kantiano. Ele poderá bem escrever a 2 Julho de 1846, a Ackermann: “Eu faço o sistema das antinomias da Sociedade, um pouco como Kant tinha feito a crítica das antinomias da razão 4”; ele poderá ainda, respondendo a Renouvier na Justiça, dizer que esta filosofia teria de se ter dado para “analisar este fenómeno do entendimento que desde Kant é apelidado de antinomia e sobre o qual, eu o confesso, tudo ainda não parece ter sido dito5: não é menos verdade - e estes dois textos têm um testemunho - que a sua antinomia não é certamente a de Kant, e que ele tem perfeita consciência. Ele não tem junto a si, em resumo, que o emprego de um significado kantiano, para designar um fenómeno mais vasto do que aquele que Kant aplicava, e desde logo mais ou menos conhecida antes dele. A sua referência é, por outro lado, a invocação de um patronato, a indicação de uma insuficiência, a qual se propõe remediar. Não é por rudeza de escrever que, na sua carta a Ackermann, ele fala uma vez crítica e outra sistema, e confessará que as “antinomias da sociedade” na qual Proudhon quer fazer o sistema, não são a mesma coisa que as “antinomias da razão”, na qual Kant faz a crítica.
De uns para outros, a carta a Tissot tinha desde já colocado em relevo as diferenças essenciais, que são duas. As antinomias kantianas são, não no ser, mas na razão; as de Proudhon estão na razão e no ser. As antinomias kantianas aparecem como um esforço de pensamento, elas marcam um resultado negativo, um insucesso, elas são uma espécie de muro no qual finalmente a razão se choca; para Proudhon, as antinomias são as leis do pensamento em marcha, elas acompanham-no em todo o seu percurso, modelam-na, e fornecem-lhe um método.
Sabe-se que Kant fala de antinomias na Crítica da razão pura, na secção da “Dialéctica transcendental”, que trata da cosmologia racional. No seu esforço em vias de construir esta cosmologia, o entendimento chega a quatro antinomias, ou seja, a quatro pares de teses contraditórias: parece-lhe igualmente exigido, segundo o ponto de vista sobre o qual ele se coloca, que o mundo seja finito e infinito; que tudo no universo seja composto de pares simples e que nenhum elemento seja simples; que o mundo dependa de uma causa livre e que não haja tal causa; enfim, ele coloca invencível um ser necessário que, não menos invencível, o repugna. Estas antinomias são o signo que o entendimento funciona fora do seu domínio e, não criticando sobre o real, não opera somente nas demarcações “dialécticas”, ou seja, ilusórias. Tal é uma das veias por onde se encontra condenada a metafísica como ciência, e fundado o agnosticismo em relação ao mundo transcendente.
A antinomia segundo Proudhon é outra coisa. Ela é sobretudo no espírito, porque ela é primeiramente sobretudo no ser, sobretudo na natureza, sobretudo no mundo físico e no mundo social. Porque as leis do mundo, e “a moral humana é parte integrante da ordem universal ”: um tal marxismo toma o seu mais estóico ou mais tomista que kantista. “O homem e as coisas, diz ainda Proudhon, a civilização e o universo, e reino moral e o reino da natureza” formam, provavelmente, “um todo homogéneo, solidário”, e “mais cedo ou mais tarde” deve aparecer como consequência ”a identidade das duas razões, a minha e a do mundo2”. Compreende-se também que o significado de antinomia, que não pertence a Kant como uma parte da teoria do conhecimento, resume junto de Proudhon toda uma visão do universo, visão à qual ele faz constantemente alusão nas suas obras, e onde ele mantém a fé exprimida e defendida com tanto calor como de clareza:
Nada subsiste, diziam os antigos sábios, tudo muda, tudo flui, tudo se forma. Por conseguinte, tudo se tem e se encadeia; ainda por conseguinte, tudo é oposição, balança, equilíbrio no universo. Não existe nada, nem ao redor, nem dentro desta dança eterna; e o ritmo que a comanda, forma pura das existências, ideia suprema à qual nenhuma realidade não saberia responder, é a concepção mais alta que possa atender a razão1.
A esta concepção da realidade das coisas responde uma lógica que lhe está acordada. Segundo esta lógica, bem diferente daquela que se aprende nas classes, “o dilema, reputado como o mais forte dos argumentos”, não tem mais valor que aquele que lhe é dado. Ele não deve ser mais olhado “como uma arma de má fé, o punhal do brigadeiro que vos ataca no ombro”, tanto que ele não foi “rectificado pela teoria da antinomia, forma mais elementar e composição mais simples do movimento 2”. Efectivamente, não existe de um lado a verdade e de outro, o erro, pelo menos nesta forma de dizer muito inadequada:
O que é o erro? Uma mutilação da verdade. O mal? Uma inversão do bem. A injustiça? A negação da equivalência entre pessoas, serviços e produtos. Qual a proporção particular na filosofia da natureza e da humanidade talvez chamada verdade? Nenhuma; a oposição, o antagonismo, a antinomia manifestam, sobretudo. A verdadeira verdade é: 1º no equilíbrio, coisa que a nossa razão concede maravilhosamente, e que constitui a mais elevada e a mais fundamental das suas categorias, mas que não é nenhum beneficio; 2º no conjunto, que nós não saberíamos nunca abraçar3.
Prevê-se ainda todo o sentido do título que Proudhon dá a uma das suas obras: Sistema das contradições económicas. Estas não são aos seus olhos um caso particular, o caso próprio ao Mundo da economia, um fenómeno que se reencontra em todas as partes do ser e em todos os domínios da ciência. Eles verificam uma lei universal. Será preciso associar, escreve ele mesmo a Charpentier, “as contradições da filosofia, da política, da religião e do direito4.” De resto, acrescenta, “este significado de contradição não deve tomar-se no sentido vulgar de um homem que se diz e se deduz. Ele agita-se ao contrário de uma oposição inerente a todos os elementos, a todas as forças que constituem a sociedade, e que faz com que estes elementos e estas forças se combatam e se destruam se o homem, por sua razão, não encontra o meio de os compreender, de os governar e de os manter em equilíbrio…”
Será portanto em vão censurar Proudhon, como o fez por exemplo Arthur Desjardins, as suas perpétuas contradicções5. Como todos os que reflectiram ao longo de um período bastante longo, é-lhe chegado, em alguns assuntos, de mudar de notícia, ou pelo menos do ponto de vista, e de deslocar o acento que ele colocava sobre as coisas. Ele próprio é uma espécie de acusado, ou justificado, à noite da sua existência, respondendo a Clerc, um oficial retratado dos seus discípulos, que era o comovente da sua obra sobre a Guerra e a Paz. Ele esforça-se para fazer notar ao seu correspondente “esta mobilidade perpétua da verdade, que os meios filósofos tomam por um engano, seja da natureza ou da Providência, seja do nosso próprio entendimento, e que não é outro senão a incessante revelação e polimorfo da mesma verdade”. Apesar de admirável, desde logo, esta nossa verdade seja o preço de um longo trabalho e que ela exige ensaios em diferentes sentidos? “Ela tem diversas faces, seguidamente ela parece contradizer-se; é porque nós somos muito mais expostos ao deformar querendo colocar-vos sempre de acordo, do que dizendo bem, cada dia e sobre cada coisa, o que nós pensamos e o que nós queremos.” Também Proudhon confessa que não quer nunca “um autor sujeito a contradizer-se, dotado para o fazer de boa fé e não por disparate”, e no que lhe diz respeito, pessoalmente, ele inquieta-se pouco com as contradições, aparentes ou mais, que podem reencontrar-se nas diversas publicações1. Este razoado é de boa psicologia. É suficiente para nos assegurar que Proudhon não nos remete à escola dos sofistas, “que apoiavam, no geral, o pró e o contra com uma benevolência igual2.” Mas, por outro lado e mais que psicologia, ele agita-se aqui na metafísica. Novo Heraclito, Proudhon professa uma concepção agnóstica do universo e da sociedade, na qual crê que um pensamento muito preocupado de coerência não seja suficiente a dar uma ideia falsa. “Ele poderia muito bem fazer com que a sociedade fosse governada por regras todas diferentes daquelas indicadas e chamá-la como de costume de sentido comum3.” Toda a coisa tem uma “dupla face”, e é necessário desconfiar das razões muito simples, que arriscam sempre esclarecer uma em detrimento de outra. Se não se tomar consciência, “mais um homem tem precisão nas ideias e rectidão no coração, ele corre risco de ser simplório e absurdo”. Os intelectuais estão todos lá, mais ou menos, como o povo; ora “o povo ama as ideias simples, e ele a razão: infelizmente esta simplicidade que ele procura só se reencontra nas coisas elementares, e o mundo, a sociedade, o homem são compostos de elementos irredutíveis, de princípios antitéticos e de forças antagónicas 4”. Com efeito, “todos os nossos mal-entendidos políticos, religiosos, económicos, etc”, não vêem eles “da contradição inerente às coisas 5”?
Contradição real, ou ainda “antinomia natural 6”, que ele não confunde com a contradição lógica pura e simples. Esta é estéril como um nada, o outro é fecundo como a vida. A primeira é análoga, em resumo, á identidade morna de toda a verdade pluralidade. “O mundo moral como o mundo físico descansa sobre uma pluralidade de elementos irredutíveis e antagónicos, e é da contradição destes elementos que resultam a vida e o movimento do universo 1”. Esta frase da Teoria da propriedade é uma daquelas que definem melhor o pensamento de Proudhon. Pode-se comentá-la numa página da Justiça:
Ele agita-se para saber se todas as espontaneidades nas quais se compõe a criação, acordam entre si ou se combatem; se, seja pela lei da sua constituição, seja por ordem superior, elas formam uma ronda de perfeito amor ou se elas se entregam a uma batalha imensa; se a ordem, quem sabe, e se descobre nesta mistura, proveniente do concerto de instrumentos acordados como os tubos de um orgão, ou se não é acima de tudo um efeito de equilíbrio entre forças antagónicas. Quanto a mim, minha opinião não seria duvidosa: o que torna a criação possível, a oposição dos poderes. É ter uma ideia muito falsa da ordem do mundo e da vida universal do que fazer uma ópera. Eu vejo sobretudo as forças em luta; eu não descubro nenhuma parte, eu não posso compreender esta melodia do grande Todo, que acreditava entender Pitágoras .
Tal era bem a ideia na qual as Contradições económicas proponham uma primeira e desde logo uma vasta aplicação. Tal será ainda ideia da última grande obra da maturidade, a Guerra e a Paz. Ela resume-se no significado de Escritura citado em exergo: “O Eterno é um guerreiro”. Para o instante nós não a julgaremos, nós somente constataremos a permanência e a força através da obra de Proudhon. Acima de tudo, afirma-se a mesma ideia de luta universal. A Guerra e a Paz desenvolve-a ex professo, como o sujeito a trazia:
O jogo das forças não se assemelha à dança das musas… É preciso que elas se entrechoquem, que elas se entre devorem, nesta condição somente elas produzem… A guerra tem raízes profundas, a pena ainda entrevista, o sentimento religioso, jurídico, estético e moral dos povos. Poder-se-à mesmo dizer que ela tem a sua fórmula abstracta na dialéctica. A guerra, é a nossa história, nossa vida, vossa alma por inteiro. Ainda uma vez mais, é tudo. Falam-nos em abolir a guerra, como se ela agitasse concessões e as alfândegas. E não se vê que se faz abstracção da guerra e das ideias que lá se associam, nada permanece, absolutamente nada, do passado da humanidade, e nem um átomo para a construção do seu futuro… A guerra abolida, como vós concebeis a sociedade?... No que é que se torna, a sua cesta eterna, o género humano ?
A simples aproximação destas últimas passagens sofrerá sem dúvida em mostrar o quanto artificial é a oposição que alguns intérpretes estabeleceram entre a Justiça e a Guerra e a Paz. De um lado e de outro, e pelo mesmo facto como “uma das categorias da razão 1”. Desde já, prevê-se por isso que, não só a dialéctica transcendental de Kant, a dialéctica proudhoniana não saberia assemelhar-se à dialéctica de Hegel ou de Marx. Disse-mo muito bem: “Ler Proudhon, é viver com ele na angústia da contradição2.” Se existe aqui uma semelhança, ela é, num contexto também mais diferente que possível, com Kierkegaard. Em relação às ambições do pensamento hegeliano, o pensamento do místico dinamarquês e daquele do socialismo francês têm uma significação paralela.
Contudo, a angústia da contradição não é nenhum desespero ou uma demissão sem apelo. Nem tão pouco o que Kierkegaard, Proudhon dizem aqui no seu último significado.



NOTAS


1 Sem verdadeiro valor de amizade: a Ackermann, 9 Setembro 39, e a Pérennès, 16 Dezembro (t. 1, p. 150 a 164).
2 A Pérennès, 16 Dezembro 39: “As minhas jornadas passam-se entre Reid e Kant” (t. 1, p. 163).
3 Justiça, t. 3, p. 231.
4 Reproduz como prefácio à 3ª Edição das Confissões de um revolucionário.
5 Justiça.
6 T.2 , p.22 . Desde de já, a 16 de Dezembro de 39, ele confia a Pérennès um projecto de uma “ incrível audácia” ; o “nunca colocar na reforma “, e resume assim a moral Kantiana : “ Eu sou obrigado porque sou obrigado, o que não é nada bem demonstrativo”(t.1, p.163).
7 T. 2, p. 26.
8 T. 2, p. 46.
9 Criação da ordem, p. 262 e 269.
1 Justiça, t. 3, p. 231.
2 Misturas (Euvres, t. 17).
3 T. 4, p. 340.
4 Revolução Social, p. 141-142.
5 Renouvier, As escolas contemporaneas da moral em França, na Crítica filosófica, t. 1 (1873-74), p. 41.
6 Numa nota da Justiça, ele resume, por outro lado desajustadamente, a capacidade da obra de Kant, dizendo: Kant tem “dado às gerações modernas “ uma “iniciação anti-absolutista, anti-religiosa” (t. 6, p. 52).
1 Filosofia popular, 4: “A metafísica do ideal não aprendeu nada com Fichte, Schelling, Hegel: quando estes homens, nos quais a filosofia se honra com bom direito, imaginam-se deduzir à priori, não fazem, por seu desconhecimento, sintetizar a experiência” (Justiça, t. 1, p. 198).
2 T. 10, p. 257.
3 Também assim, numa certa medida, com a moral tradicional no cristianismo. Cf. Yves de Montchevil, Deus e a vida moral, em Construir, VI, nomeadamente p. 42-46.
4 Justiça, t. 4, p. 492 e 493: “…A noção do justo estando toda na fé, nos meus olhos, ideia e sentimento, e sendo o sentimento a primeira manifestação e a força principal da minha alma, o lar da minha liberdade, em redor da qual eu não encontro vergonha e miséria, parece-me lógico derrubar o ensino que eu tinha recebido desde a infância, e, em vez de fazer depender o meu dever e o meu direito de estado mais ou menos precário da minha razão, de subornar pelo contrário a minha razão, as minhas opiniões, no sentimento que eu tive do meu dever e do meu direito.”
1 No Social-Democrata; Janeiro de 1865 (Miséria da filosofia, nova ed., p. 247).
2 Loc. cit., p. 302.
3 T. 2, p. 232.
4 T. 2, p. 207.
5 Justiça, t. 3, p. 452.
Justiça, t. 2, p. 389. “Espécie que, apesar algumas dissonâncias, mais aparentes que reais, que a ciência deve aprender a conciliar, as leis de uma são as leis de outra.”
2 Justiça, t. 4, p. 431-32: “Então, a ideia de uma harmonia universal na minha alma: eu digo-me (a mim próprio) que entre o mundo da natureza e o mundo da justiça, lei, força, substância, tudo é idêntico; assim, como a ordem é perfeita entre as esferas que percorrem o espaço, a proporção imutável entre os elementos nos quais se compõe toda a criatura, ele deve estar mesmo entre os homens. E o facto vem de imediato confirmar a hipótese. A economia, a política, a organização do atelier, a Razão pública, resolvem um sistema de ponderações ou de balanços: nesta analogia de legislação entre o Cosmos e o Anthrôpos aparece a identidade do espírito que os acima, latente no primeiro, livre no segundo.”

1 Filosofia do progresso, prefácio (obras, t. 20, 1868, p. 14). Pode-se comparar esta ideia do ritmo universal à ideia bergsoniana do movimento puro; A percepção da mudança, no Pensamento e no Pensamento, p. 185: “Existem mudanças, mas não existem, sob a mudança, coisas que mudam, etc.”
2 Filosofia do progresso, primeira carta (ibid., p. 31-32).
3 Teoria do imposto (Obras, t. 15, 1868, p. 226-227).
4 24 Agosto 56 (t. 7, p. 116-117).
5 Op. cit., t. 1, p. 53: “Até ao seu último fôlego, ele não deixará de contradizer-se.” Mesmo M. René Gonnard, História das doutrinas económicas, p. 491: “Proudhon está perto de uma contradicção.”
1 A M. Clerc, 4 Março 63 (t.12, p. 338-39 e 342).
2 Desjardins, t. 1, p. 82.
3 Teoria da propriedade (1866), p. 207. A Villiaumé, 24 Janeiro 56: “Tudo na sociedade é primeiro um paradoxo.” (t. 7, p. 13).
4 Teoria do imposto, p. 234.
5 Miséria, t. 2, p. 397. Cf. p. 258: “É estranho, porque eu passo a minha vida a demonstrar esta contradicção da nossa natureza, quer seja eu acusado de contradicção!”
6 Cf. França e Reno (nova edição, 1868), p. 124: “É uma contradicção pura. Se fosse uma antinomia natural, teria lugar uma balança: mas não, não existe nada.”
1 Teoria da propriedade, p. 213; cf. p. 229. Teoria do imposto, p. 234: “Quem diz o organismo, diz complicação; quem diz pluralidade, diz contrariedade, oposição, independência. O sistema centralizador é muito bom em grandeza, simplicidade e desenvolvimento; só lhe falta uma coisa; é que o homem não se tem mais, não se sente, não vive, não existe.” Confissões, p. 316: “Qualquer transformação que eles tenham que subir, os elementos (governo, propriedade, etc) subsistirão sempre, pelo menos na sua virtualidade; afim de imprimir sem parar o mundo, pela sua contradicção essencial, o movimento.” Cf. Miséria, t. 2, p. 323: “Como conceber um bem que a dor não irrita, não estimula?”
Justiça, t. 3, p. 212.
Guerra e Paz, p. 71-72, etc.; cf. p. 55.
1 Op. cit., p. 33; e p. 38: “A guerra, como o tempo e o espaço, como o bom, o justo e o útil, é uma forma da nossa razão, uma lei da nossa alma, uma condição da nossa existência.”
2 Augé-Laribé, no “que é a propriedade?” p. 118. Cf. Torsten Bohlin, Kierkegaard, p. 87: “Kierkegaard acentua muito e sem parar o carácter combativo da vida e da personalidade. A tese de Héraclito sobre a discórdia engendava todas as coisas passadas na concepção kierkegardiana do dever e das condições vitais da personalidade.”

terça-feira, março 01, 2011

Estudante de matemáticas aplicadas!


Desculpe, importa-se de repetir?


Uma família...


Proibições, proibições!


Cavacadas...


Vêm aí novos cortes


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A noite dos Óscares


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O dito cujo!...



Óscares - “Inside Job” (A verdade da crise)


A cerimónia de entrega dos Óscares deste ano teve vários momentos interessantes. Se fosse crítico de cinema teria matéria para umas boas páginas; não sendo o caso, fico-me por um pequeníssimo “pormenor” da festa que, dado o limitado “glamour” dos documentários no meio de tal aglomerado de estrelas, poderia passar despercebido.
O Óscar para melhor documentário foi atribuído a "Inside job", de Charles Ferguson e Audrey Marrs, um trabalho que pretende ser um retrato do lamaçal, da podridão, da pulhice e dos crimes que estão na origem da “crise financeira” que ainda atravessamos e sofremos.
Antes de agradecer a toda a gente, como é norma nestas alturas, Charles Ferguson optou por começar o seu discurso dizendo: «Perdoem-me, mas eu preciso começar dizendo que, três anos após a horrível crise financeira causada por uma grande fraude, ainda nenhum executivo foi para a cadeia. E isso está errado!»
Claro que alguns dos presentes o ovacionaram, outros fizeram de conta... mas isso não altera a crua verdade do que ele disse: não há condenados, se exceptuarmos o caso particular de Bernard Madoff, que não passando de um ladrão comum, curiosamente, diz que os bancos - e logo, os seus gestores - foram seus “cúmplices”.
Seja como for, gostei!

Não queremos a vossa economia

Num momento em que o capitalismo se revela como crise e esta serve de pretexto à dissolução das últimas garantias do Estado social, numa altura em que dinheiros públicos pagam a bancarrota de bancos e seguradoras perdidos nas aventuras dos mercados, e onde o capital desbasta recursos naturais em prol do benefício de muito poucos, num tempo em que a democracia procura sobreviver à crescente perda de legitimidade representada pela corrupção no seio do poder político ou pelas elevadas taxas de abstenção nos actos eleitorais, num contexto de generalização do uso de dispositivos de segurança, controlo e mercadorização da palavra e do corpo, nós, como outros em todo o mundo, escolhemos organizar-nos.

Ocupamos um espaço fora da política institucional. Não pretendemos representar ninguém, nem nos orientamos por uma lógica programática. Não nos junta uma direcção, mas uma afinidade que se encontra mais numa rejeição óbvia do capitalismo do que em eventuais proximidades ideológicas. Entregamos em exclusivo a uma assembleia, horizontal, aberta e informal, todos os momentos de decisão. Uma assembleia em que todos podem a todo o tempo tudo decidir.

As Jornadas anticapitalistas são a proposta que apresentamos. O seu programa permanece e permanecerá sempre em aberto e outras acções, que com ela se identifiquem ou solidarizem, poderão e deverão ter lugar. Este documento é, por isso, também um apelo à mobilização de todos os anticapitalistas e antiautoritários.

Propomos um conjunto de diferentes actividades e acções a decorrer no período de 1 a 8 de Março, que conte com acções de rua, debates, visionamento de filmes, jantares e festas, entre outros, e que proponham saídas para este modo de vida ou que critiquem de forma radical e directa o sistema capitalista. Estamos de acordo que não queremos esta ou qualquer outra economia capitalista e, nessa recusa, criamos um terreno comum, onde os contributos acompanham as diferentes sensibilidades num processo colectivo de discussão, decisão e acção.

Jornadas Anticapitalistas

Jornadas Anticapitalistas ( 1 a 8 de Março) começam amanhã em Lisboa


Vivemos numa sociedade onde a política se tornou profissional e estes profissionais já não mais são que gestores da crise do capitalismo. Vivemos numa sociedade do trabalho, onde para sermos considerados cidadãos de plano direito somos sujeitos a processos de selecção, que nos dão a escolher entre o recibo-verde, falso ou não, ou o desemprego, e no qual as mulheres são sempre as mais penalizadas. Vivemos numa sociedade onde, do nosso corpo à nossa vida, tudo se tornou mercadoria, descartável a qualquer momento.

Vivemos numa sociedade onde o estado social administrador da crise dissolve, dia após dia, as suas últimas garantias sociais. Vivemos numa sociedade onde a nossa liberdade e autonomia apenas é reconhecida enquanto for rentável, estável e calculável. Vivemos numa sociedade onde a administração autoritária da crise se revela na promessa de mais vigilância, afirmando de forma paternalista ser para “nossa” segurança. Vivemos numa sociedade onde a legitimação dessa repressão é feita pelos discursos mediáticos cúmplices ou reféns da lógica do poder.

Não queremos a economia, não queremos o estado, não queremos a política.

Não queremos esta merda.

Não queremos pagar por aquilo que não decidimos: das quantias maiores da dívida pública, as dívidas pequenas à segurança social. Não queremos viver em cidades onde o espaço desenha fronteiras, cria guetos e nos divide segundo a conta bancária. Não queremos que nos impinjam como responsabilização moral individual a salvação do planeta numa versão mais verde do capitalismo, enquanto recursos naturais continuam a ser arrasados.

Por isso, o único sim que podemos dizer reside exactamente na forma de dizer NÃO: em conjunto, horizontalmente, sem intermediários, representantes ou vanguardas.

Pensamos estas jornadas anti-capitalistas enquanto meio de criar uma discussão e uma prática que não se cinja a comités centrais, tácticas parlamentares, políticos profissionais, ortodoxias ideológicas e sectarismos fossilizados. Propomos um espaço de encontro, de reflexão e de acção, no qual possamos começar a pensar em como nos vamos organizar para reclamar as nossas vidas e os nossos espaços.

Uma outra crise é possível.

A Líbia no grande jogo da nova partição da África

Fogem da Líbia não apenas famílias que temem pelas suas vidas e imigrantes pobres de outros países norte-africanos. Há dezenas de milhares de "refugiados" que estão a ser repatriados pelos seus governos por meio de navios e aviões: são principalmente engenheiros e executivos de grandes companhias de petróleo. Não só a ENI, a qual realiza cerca de 15 por cento das suas vendas a partir da Líbia, mas também outras multinacionais europeias – em particular, a BP, Royal Dutch Shell, Total, BASF, Statoil, Repsol. Centenas de empregados da Gazprom foram também forçados a deixar a Líbia e mais de 30 mil trabalhadores chineses da sua companhia de petróleo e de construção. Uma imagem simbólica de como a economia líbia está interconectada com a economia global, dominada pelas multinacionais.

Luta épica em Wisconsin

A mobilização popular junto ao Capitólio de Madison, estado de Wisconsin, Centro-Leste dos EUA, continua cheia de vigor. Esta luta começou quando o governador de direita, Scott Walker, membro do Tea Party, apresentou o seu “orçamento rectificativo”, que não só reduz drasticamente as regalias, mas também elimina os direitos consagrados em convénios colectivos de 175 mil trabalhadores do sector público daquele estado.

Desde 14 de Fevereiro, milhares de trabalhadores ocuparam o Capitólio para impedir a aprovação desta lei que constitui um atentado à organização laboral. Falando no sábado, 19, perante a maior concentração desta semana, com 100 mil pessoas, Mahlon Mitchell, do Sindicato dos Bombeiros Profissionais de Wisconsin (PFW), disse: «O momento é agora. Não podemos esmorecer porque estamos na estaca zero, e aquilo que acontecer irá afectar toda a gente. Temos de ser fortes, uma frente unida.» Mitchell tornou-se em Janeiro o primeiro presidente afro-americano do PFW. Delegações de bombeiros juntaram-se aos protestos num assinalável acto de solidariedade, uma vez que não são afectados pela lei Walker. Foram acolhidos com entusiasmo pela multidão, tal como já o tinham sido os jovens e os estudantes.