O guião que aqui deixei, ontem pela manhã, foi seguido à risca, umas horas mais tarde. “A vossa mãe não morreu, mas partiu os braços, as pernas e algumas costelas”. À hora marcada, ontem à noite, José Sócrates leu ao país o teleponto com as excelentes notícias. Não disse que a mãe ficará paraplégica por muitos anos, demasiados mesmo, mas isso pouco importa. O mais importante é que não morreu, e todos a davam como morta.
O pai pensionista, que andou uma vida inteira a descontar para ter direito a uma velhice decente, vai pagar pelas parcerias público-privadas que, ao engordarem longe da sua vista a um ritmo alucinante, deixaram e continuarão a deixar a mãe impossibilitada de andar. A filha, que não andou a saquear o tal banco que deu o estouro por tanta rapina, vai ser castigada com três anos de congelamento do seu salário , cortado no episódio anterior desta morte anunciada. O filho, que pagava a protecção social para prevenir situações de desemprego involuntárias, vai ver essa protecção diminuída no valor e na duração, apesar de continuar a descontar o mesmo. E os bancos, esses velhos amigos, cujo aumento da mesada produziu a péssima notícia ontem tão felizmente desmentida, vão vê-la aumentada ainda mais, em muitos milhões. Os encargos são ainda desconhecidos, mas já se sabe que são para distribuir por toda a família. Entre todos, não custa nada.
Mais coisa, menos coisa, até 5 de Junho, ficaremos assim. Depois, haverá total liberdade para tratar da saúde à mamã. Já sabem? Ela, afinal, não morreu.
Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
quarta-feira, maio 04, 2011
“O meu estado psicológico resume-se em exaustão”
“Também eu trabalho num call center da TMN, e realmente sinto que ninguém faz ideia do que é trabalhar lá. Das coisas que ouvimos dos clientes, da forma como nos tratam, e ainda o que ouvimos dos superiores só porque naquele dia não conseguimos vender nenhum serviço.
Simplesmente não têm ideia do que é estar 9 horas, sim porque são raras as vezes que faço 8 horas, a ouvir clientes a lamentar as suas vidas e a despejar a fúria sobre nós só porque não conseguem enviar SMS.
Sou também licenciada, e tenho uma série de adjectivos que conseguem definir o meu estado psicológico neste momento, mas resume-se em exaustão.
E, apesar de falar 9 horas por dia, sinto que não estou a ser ouvida e, pior ainda, sinto que o nosso trabalho não é digno, nem ninguém se interessa e muito menos fazem ideia do que é trabalhar num sítio como estes, em que trabalhamos fins de semana, sim porque só quem está lá há mais de 3 ou 4 anos é que tem direito a fins de semana e a um horário diurno, não sabem o que é trabalhar no dia de Natal, na véspera de Natal e todos os feriados, porque nem isso é rotativo.
Há muito trabalho precário, mas sem duvida que este é um dos piores. Fica aqui o meu desabafo.”
Simplesmente não têm ideia do que é estar 9 horas, sim porque são raras as vezes que faço 8 horas, a ouvir clientes a lamentar as suas vidas e a despejar a fúria sobre nós só porque não conseguem enviar SMS.
Sou também licenciada, e tenho uma série de adjectivos que conseguem definir o meu estado psicológico neste momento, mas resume-se em exaustão.
E, apesar de falar 9 horas por dia, sinto que não estou a ser ouvida e, pior ainda, sinto que o nosso trabalho não é digno, nem ninguém se interessa e muito menos fazem ideia do que é trabalhar num sítio como estes, em que trabalhamos fins de semana, sim porque só quem está lá há mais de 3 ou 4 anos é que tem direito a fins de semana e a um horário diurno, não sabem o que é trabalhar no dia de Natal, na véspera de Natal e todos os feriados, porque nem isso é rotativo.
Há muito trabalho precário, mas sem duvida que este é um dos piores. Fica aqui o meu desabafo.”
terça-feira, maio 03, 2011
O NEGRO E O VERMELHO
O SOCIALISMO PROUDHONIANO DE ANTERO DE QUENTAL
Jacques Alibert depois de recordar as previsões do "mal social" do século XX feitas por Proudhon e Antero, conclui:
"A nossa época será salva no dia em que quiser voltar os olhos para aquele que, em França, desprezaram, tratando-o de utopista, e para o homem que em Portugal, desenvolveu a ideia do seu Mestre. Seja como for, o certo é que os nomes de Proudhon e de Antero de Quental ficarão para sempre ligados na História do Pensamento Humano.
Em Outubro último teve lugar em Ponta Delgada o Congresso Anteriano Internacional que durante quatro dias, terá animado a Universidade dos Açores, realizado para comemorar o centenário da morte do autor das prosas da época de Coimbra. O próprio reitor da dita Universidade terá avançado que "não é possível estudar o século XIX em Portugal sem estudar a o obra de Antero". Terá também inclusivamente dito que "Antero é a sua obra".
Nesses quatro dias de Congresso foram apresentadas algumas dezenas de comunicações sobre vários aspectos da obra de Antero, mas não deixa de ser significativo que nenhuma delas (pelo menos daquelas que publicamente foram anunciadas) se tenha referido à influência de Proudhon, influência essa que pretendemos mostrar que foi decisiva. Tão decisiva que se é verdade que Antero é a sua obra é igualmente verdade que a sua obra não é só Antero...
Seria aliás relativamente fácil citarmos alguns excertos de estudos dedicados ao filósofo português onde se apresenta esta ligação umbilical com o filósofo francês. Vejamos alguns exemplos para a nossa exposição ser mais facilmente compreensível: "Antero tinha tal entusiasmo por Hegel e Proudhon que escrevia e dizia: Cristo, Proudhon e Hegel ! Ao proferir estes nomes, assumia um aspecto grave e os olhos exprimiam certa beatitude" (Bulhão Pato, Memórias) ou de José Bruno Carreiro na sua obra de 1948, Antero de Quental, onde a páginas tantas diz que: "Proudhon é citado em 17 páginas das Prosas, em 10 das Cartas, em 10 das Cartas Inéditas a Oliveira Martins e em 2 das Cartas a A.A. Castelo Branco. Na carta da página 15, contemporânea do primeiro escrito em que alude a Proudhon (1865) Antero dizia sentir-se como uma alma proudhoniana, capaz de dizer as verdades todas do sistema solar... quanto mais a este gentio nacional!"
Vejamos agora o que o próprio Antero de Quental diz de Proudhon: "O que me alegra intimamente é vê-lo por o pé na grande e sólida estrada da escola proudhoniana; por esse caminho vai-se direito e sente-se o terreno cada vez mais firme. Há oito anos que estudo Proudhon, e cada dia acho mais que aprender nele. Não fala só à inteligência, fala-me a todas as minhas potências humanas. Na convivência dum tal Mestre não se ficará tão sábio (quero dizer tão erudito, etc) como nas dos outros; mas adquire-se, como em nenhuma outra escola, a inteira compreensão do que é a grande verdade humana, social, nacional e efectiva.
Ora isto é que é o essencial, não lhe parece? Assim, pois, na comunhão da grande escola proudhoniana, saúdo-o, meu caro Magalhães Lima, e digo-lhe avante! Como a um irmão nas crenças. (carta de Antero de 1873 a Sebastião de Magalhães Lima).
António Sérgio dedicou muitas das suas páginas a Antero e a Proudhon. Vejamos alguns excertos significativos: "O revolucionarismo de Antero foi sempre de fundamentação ético-voluntarista, como o de Proudhon (com base na ideia de Justiça, em Proudhon; na ideia de Justiça e no Amor, em Antero) e não de fundamentação histórico-automático-dialéctica, como o de Carlos Marx." E também:
"A nota mais constante, no Proudhon e no Antero, fica sendo sempre a da afirmação moral - a do revolucionarismo ético, voluntarista, apriorista, Kanteano: - o contrário do que sucede na doutrinação do Marx, onde o tom fundamental é o do argumento histórico, empirista, dialéctico-naturalista, heteronomista, fundado numa lei histórica que não é uma lei da consciência". E mais ainda:
"Proudhon, mestre de Antero, não concebe o socialismo como um conceito puramente económico: é a sua doutrina uma espécie de cúpula das concepções jurídicas da Democracia. Para Proudhon, os homens não precisam unicamente de acção organizadora e colectiva: requerem, outros sim, liberdade e cultura, - e não ao cabo de muito tempo, mas desde já. Dir-se-ia que o materialismo de Carlos Marx só aquela necessidade tomou em conta; Proudhon viu as duas, e Antero de Quental seguiu Proudhon."
Por estas citações e por mais uma mão cheia que ainda poderíamos apresentar, podemos desde já dizer que quando agiu, ou quando pensou sobre a realidade, Antero foi um proudhoniano. Foi Proudhon o principal agente da sua libertação ideológica, seguiu sempre com ele na acção e no pensamento, mesmo quando a síntese hegeliana se lhe apresentou.
Daí podermos concluir que no campo político nunca houve o embate de Hegel com Proudhon, o primeiro apologista do estado prussiano, o segundo do radicalismo e do socialismo realizados pela "Federação Democrática".
É na presença de Proudhon que o arrasta para fora das angústias religiosas e das perplexidades especulativas, que brotam os seus primeiros contactos com a filosofia.
Na nota final que escreve para as Odes Modernas, sobre a Missão Revolucionária da Poesia, Proudhon surge já então com toda a pujança. Está aí claramente proclamado "o ateísmo social e anarquismo individual" que emergiam sobretudo da Création de l'Ordre dans l'Humanité, de Révolution Sociale demonstré par le Coup d'État e sobretudo do De la Justice dans la Révolution et dans l'Église, as obras de Proudhon que até então mais o deviam ter influenciado, embora sempre acompanhado de outras leituras de outros escritores revolucionários do tempo.
A concepção de arte de Proudhon está expressa com clareza na Nota Final das Odes Modernas, pois "a missão revolucionária da poesia" é apenas uma consequência do destino social da arte de Proudhon. Antero diz: "A poesia que quiser corresponder ao sentido mais fundo do seu tempo, hoje tem forçosamente de ser uma poesia revolucionária."
A acção académica de Antero já teve a direcção ideológica de Proudhon. Ao terminar o seu curso de Direito, Antero já era um socialista militante, ele próprio o reconhecia em carta a Anselmo de Andrade, datada de 1866. A vertente idealista proudhoniana colocava a doutrina e a ordem moral como a última etapa duma revolução, que partindo do cataclismo, da desordem e da confusão só depois de acções e reações sem conta, é que poderia ser realizada como grande renovação da Humanidade.
Quer dizer, em Antero eram a doutrina e a ordem que constituiam simultaneamente a cúpula e a base de toda a acção socialista, que partindo de um ideal devia realizar outro ideal. A sua experiência de operário foi um duro golpe no seu idealismo, mas ele continuou sem vacilar a luta pelo seu ideal socialista, isto é, pela doutrina e pela ordem moral. Ao regressar a Portugal ele vinha mais ainda fiel ao seu mestre, ao "grande Proudhon", como ele escrevia ao seu mais íntimo amigo, Germano Meireles, o cúmplice das Odes Modernas.
De regresso dos Açores, escreve o panfleto, "Portugal perante a Revolução de Hespanha", onde defende a Democracia Ibérica. Continua a demonstrar-se um proudhoniano convicto. Para Antero a "unidade" matava a "liberdade", a "delegação" a "iniciativa", a "organização unitária e republicana", a "república democrática". Para evitar a "República Unitária e Indivisível". À cabeça dos partidários da "República Democrática Federativa" como forma ideal de governo, estava Proudhon.
As causas que Antero aponta como as provocadoras da Decadência são: o catolicismo de Trento, o absolutismo e a questão económica, que surge como uma sequência das duas primeiras - emergem da filosofia proudhoniana. O ataque ao catolicismo é mais ou menos aquele que resulta De la Justice dans la Revolution et dans l'Église embora se encontre também a influência de outros autores.
O combate ao absolutismo é o combate ao poder unitário - republicano ou monárquico - que se opõe ao federalismo de Proudhon. O combate à estagnação económica, tem também, nitidamente a marca de Proudhon, ou melhor, é precisamente aí que o Proudhonismo de Antero salta mais evidente. O conceito de "concorrência" coincide num e no outro. Para Proudhon "Elle est l'impression de la spontaneité, l'embleme de la democratie, mas elle conduit au monopole que est anti-social." Para Antero " ela é espontânea - expressão de origem proudhoniana - mas é também anti-social e também conduz ao monopólio. Quer dizer, Antero é partidário do trabalho livre, a industria do povo, pelo povo e para o povo, "não dirigida ou protegida pelo Estado", e é tal concepção de origem proudhoniana, que se opõe à anarquia de livre concorrência."
Onde, no entanto, se pode ver mais claro do que em qualquer outro escrito, o socialismo proudhoniano de Antero, é no panfleto "O que é a Internacional". É quase totalmente, uma exposição ortodoxa da filosofia e do socialismo de Proudhon. Lá está a concepção colectiva da propriedade opondo-se à concepção individual, o que resulta da célebre premissa proudhoniana "La propriété c'est le vol". Lá estão os conceitos proudhonianos de naturalidade e de cooperação. Lá está o que Proudhon sustentou com mais veemência no seu livro De la Capacité Politique des Classes Ouvrières considerando o seu testamento político, sobre a luta de classes, isto é, a divisão da sociedade em dois grupos antagónicos, burgueses e proletários. Lá está a concepção proudhoniana do Banco do Povo, como chave de uma economia transformadora. Lá está a concepção da História e da conciliação ou pelo menos de que as classes trabalhadoras agindo pela Internacional devem ir procurando dirigir a evolução dos factores no sentido do seu socialismo. Isto é, no panfleto de Antero encontra-se tudo o que caracterize o colectivismo de Proudhon, eis porque ele o define: "Daqui o nome de "colectivismo" dado à doutrina. Não é comunismo, porque admite e garante a propriedade individual, a liberdade do trabalho, e o debate nos preços dos produtos. Não é também o individualismo estreito e egoísta, que em nome da liberdade Industrial, serve de máscara à profunda anarquia e injustiça de regime actual. É simplesmente o direito económico na sua realidade: o direito do individuo garantido pelo direito de sociedade. A cada um que é seu."
Antero não escreveu, poder-se-à refutar, um panfleto onde expusesse as suas ideias políticas, pois, como ele próprio afirma, o seu panfleto era apenas um resumo das discussões e resoluções dos Congressos da Internacional em Genebra (1866), Lausanne (1867), Bruxelas (1869), e em tais Congressos, sobretudo neste três primeiros, foi grande a influência dos Proudhonianos, o que de resto era licito esperar dele dadas as bases da sua cultura política.
Em todo o panfleto O que é a Internacional, Antero não sita sequer o nome de Marx ou de Engels e era natural que o fizesse, visto já nessa altura a concepção marxista do socialismo combater até nos próprios Congressos da Internacional, as concepções federalistas do socialismo. Inquieto como intelectual, insatisfeito como artista, Antero encontrou nas teorias proudhonianas, na sua veemente filosofia sociológica, um mundo de concepções, capaz de preencher os seus permanentes cepticismos metafísicos.
Nem o pensamento anteriano, nem muito do seu procedimento de militante socialista, poderão ser devidamente compreendidos pelas novas gerações, se não forem analisados em confronto com os de Proudhon. Quanto mais se conhecer Proudhon, melhor se compreenderá que Antero é a sua melhor tradução em português.
Jacques Alibert depois de recordar as previsões do "mal social" do século XX feitas por Proudhon e Antero, conclui:
"A nossa época será salva no dia em que quiser voltar os olhos para aquele que, em França, desprezaram, tratando-o de utopista, e para o homem que em Portugal, desenvolveu a ideia do seu Mestre. Seja como for, o certo é que os nomes de Proudhon e de Antero de Quental ficarão para sempre ligados na História do Pensamento Humano.
Em Outubro último teve lugar em Ponta Delgada o Congresso Anteriano Internacional que durante quatro dias, terá animado a Universidade dos Açores, realizado para comemorar o centenário da morte do autor das prosas da época de Coimbra. O próprio reitor da dita Universidade terá avançado que "não é possível estudar o século XIX em Portugal sem estudar a o obra de Antero". Terá também inclusivamente dito que "Antero é a sua obra".
Nesses quatro dias de Congresso foram apresentadas algumas dezenas de comunicações sobre vários aspectos da obra de Antero, mas não deixa de ser significativo que nenhuma delas (pelo menos daquelas que publicamente foram anunciadas) se tenha referido à influência de Proudhon, influência essa que pretendemos mostrar que foi decisiva. Tão decisiva que se é verdade que Antero é a sua obra é igualmente verdade que a sua obra não é só Antero...
Seria aliás relativamente fácil citarmos alguns excertos de estudos dedicados ao filósofo português onde se apresenta esta ligação umbilical com o filósofo francês. Vejamos alguns exemplos para a nossa exposição ser mais facilmente compreensível: "Antero tinha tal entusiasmo por Hegel e Proudhon que escrevia e dizia: Cristo, Proudhon e Hegel ! Ao proferir estes nomes, assumia um aspecto grave e os olhos exprimiam certa beatitude" (Bulhão Pato, Memórias) ou de José Bruno Carreiro na sua obra de 1948, Antero de Quental, onde a páginas tantas diz que: "Proudhon é citado em 17 páginas das Prosas, em 10 das Cartas, em 10 das Cartas Inéditas a Oliveira Martins e em 2 das Cartas a A.A. Castelo Branco. Na carta da página 15, contemporânea do primeiro escrito em que alude a Proudhon (1865) Antero dizia sentir-se como uma alma proudhoniana, capaz de dizer as verdades todas do sistema solar... quanto mais a este gentio nacional!"
Vejamos agora o que o próprio Antero de Quental diz de Proudhon: "O que me alegra intimamente é vê-lo por o pé na grande e sólida estrada da escola proudhoniana; por esse caminho vai-se direito e sente-se o terreno cada vez mais firme. Há oito anos que estudo Proudhon, e cada dia acho mais que aprender nele. Não fala só à inteligência, fala-me a todas as minhas potências humanas. Na convivência dum tal Mestre não se ficará tão sábio (quero dizer tão erudito, etc) como nas dos outros; mas adquire-se, como em nenhuma outra escola, a inteira compreensão do que é a grande verdade humana, social, nacional e efectiva.
Ora isto é que é o essencial, não lhe parece? Assim, pois, na comunhão da grande escola proudhoniana, saúdo-o, meu caro Magalhães Lima, e digo-lhe avante! Como a um irmão nas crenças. (carta de Antero de 1873 a Sebastião de Magalhães Lima).
António Sérgio dedicou muitas das suas páginas a Antero e a Proudhon. Vejamos alguns excertos significativos: "O revolucionarismo de Antero foi sempre de fundamentação ético-voluntarista, como o de Proudhon (com base na ideia de Justiça, em Proudhon; na ideia de Justiça e no Amor, em Antero) e não de fundamentação histórico-automático-dialéctica, como o de Carlos Marx." E também:
"A nota mais constante, no Proudhon e no Antero, fica sendo sempre a da afirmação moral - a do revolucionarismo ético, voluntarista, apriorista, Kanteano: - o contrário do que sucede na doutrinação do Marx, onde o tom fundamental é o do argumento histórico, empirista, dialéctico-naturalista, heteronomista, fundado numa lei histórica que não é uma lei da consciência". E mais ainda:
"Proudhon, mestre de Antero, não concebe o socialismo como um conceito puramente económico: é a sua doutrina uma espécie de cúpula das concepções jurídicas da Democracia. Para Proudhon, os homens não precisam unicamente de acção organizadora e colectiva: requerem, outros sim, liberdade e cultura, - e não ao cabo de muito tempo, mas desde já. Dir-se-ia que o materialismo de Carlos Marx só aquela necessidade tomou em conta; Proudhon viu as duas, e Antero de Quental seguiu Proudhon."
Por estas citações e por mais uma mão cheia que ainda poderíamos apresentar, podemos desde já dizer que quando agiu, ou quando pensou sobre a realidade, Antero foi um proudhoniano. Foi Proudhon o principal agente da sua libertação ideológica, seguiu sempre com ele na acção e no pensamento, mesmo quando a síntese hegeliana se lhe apresentou.
Daí podermos concluir que no campo político nunca houve o embate de Hegel com Proudhon, o primeiro apologista do estado prussiano, o segundo do radicalismo e do socialismo realizados pela "Federação Democrática".
É na presença de Proudhon que o arrasta para fora das angústias religiosas e das perplexidades especulativas, que brotam os seus primeiros contactos com a filosofia.
Na nota final que escreve para as Odes Modernas, sobre a Missão Revolucionária da Poesia, Proudhon surge já então com toda a pujança. Está aí claramente proclamado "o ateísmo social e anarquismo individual" que emergiam sobretudo da Création de l'Ordre dans l'Humanité, de Révolution Sociale demonstré par le Coup d'État e sobretudo do De la Justice dans la Révolution et dans l'Église, as obras de Proudhon que até então mais o deviam ter influenciado, embora sempre acompanhado de outras leituras de outros escritores revolucionários do tempo.
A concepção de arte de Proudhon está expressa com clareza na Nota Final das Odes Modernas, pois "a missão revolucionária da poesia" é apenas uma consequência do destino social da arte de Proudhon. Antero diz: "A poesia que quiser corresponder ao sentido mais fundo do seu tempo, hoje tem forçosamente de ser uma poesia revolucionária."
A acção académica de Antero já teve a direcção ideológica de Proudhon. Ao terminar o seu curso de Direito, Antero já era um socialista militante, ele próprio o reconhecia em carta a Anselmo de Andrade, datada de 1866. A vertente idealista proudhoniana colocava a doutrina e a ordem moral como a última etapa duma revolução, que partindo do cataclismo, da desordem e da confusão só depois de acções e reações sem conta, é que poderia ser realizada como grande renovação da Humanidade.
Quer dizer, em Antero eram a doutrina e a ordem que constituiam simultaneamente a cúpula e a base de toda a acção socialista, que partindo de um ideal devia realizar outro ideal. A sua experiência de operário foi um duro golpe no seu idealismo, mas ele continuou sem vacilar a luta pelo seu ideal socialista, isto é, pela doutrina e pela ordem moral. Ao regressar a Portugal ele vinha mais ainda fiel ao seu mestre, ao "grande Proudhon", como ele escrevia ao seu mais íntimo amigo, Germano Meireles, o cúmplice das Odes Modernas.
De regresso dos Açores, escreve o panfleto, "Portugal perante a Revolução de Hespanha", onde defende a Democracia Ibérica. Continua a demonstrar-se um proudhoniano convicto. Para Antero a "unidade" matava a "liberdade", a "delegação" a "iniciativa", a "organização unitária e republicana", a "república democrática". Para evitar a "República Unitária e Indivisível". À cabeça dos partidários da "República Democrática Federativa" como forma ideal de governo, estava Proudhon.
As causas que Antero aponta como as provocadoras da Decadência são: o catolicismo de Trento, o absolutismo e a questão económica, que surge como uma sequência das duas primeiras - emergem da filosofia proudhoniana. O ataque ao catolicismo é mais ou menos aquele que resulta De la Justice dans la Revolution et dans l'Église embora se encontre também a influência de outros autores.
O combate ao absolutismo é o combate ao poder unitário - republicano ou monárquico - que se opõe ao federalismo de Proudhon. O combate à estagnação económica, tem também, nitidamente a marca de Proudhon, ou melhor, é precisamente aí que o Proudhonismo de Antero salta mais evidente. O conceito de "concorrência" coincide num e no outro. Para Proudhon "Elle est l'impression de la spontaneité, l'embleme de la democratie, mas elle conduit au monopole que est anti-social." Para Antero " ela é espontânea - expressão de origem proudhoniana - mas é também anti-social e também conduz ao monopólio. Quer dizer, Antero é partidário do trabalho livre, a industria do povo, pelo povo e para o povo, "não dirigida ou protegida pelo Estado", e é tal concepção de origem proudhoniana, que se opõe à anarquia de livre concorrência."
Onde, no entanto, se pode ver mais claro do que em qualquer outro escrito, o socialismo proudhoniano de Antero, é no panfleto "O que é a Internacional". É quase totalmente, uma exposição ortodoxa da filosofia e do socialismo de Proudhon. Lá está a concepção colectiva da propriedade opondo-se à concepção individual, o que resulta da célebre premissa proudhoniana "La propriété c'est le vol". Lá estão os conceitos proudhonianos de naturalidade e de cooperação. Lá está o que Proudhon sustentou com mais veemência no seu livro De la Capacité Politique des Classes Ouvrières considerando o seu testamento político, sobre a luta de classes, isto é, a divisão da sociedade em dois grupos antagónicos, burgueses e proletários. Lá está a concepção proudhoniana do Banco do Povo, como chave de uma economia transformadora. Lá está a concepção da História e da conciliação ou pelo menos de que as classes trabalhadoras agindo pela Internacional devem ir procurando dirigir a evolução dos factores no sentido do seu socialismo. Isto é, no panfleto de Antero encontra-se tudo o que caracterize o colectivismo de Proudhon, eis porque ele o define: "Daqui o nome de "colectivismo" dado à doutrina. Não é comunismo, porque admite e garante a propriedade individual, a liberdade do trabalho, e o debate nos preços dos produtos. Não é também o individualismo estreito e egoísta, que em nome da liberdade Industrial, serve de máscara à profunda anarquia e injustiça de regime actual. É simplesmente o direito económico na sua realidade: o direito do individuo garantido pelo direito de sociedade. A cada um que é seu."
Antero não escreveu, poder-se-à refutar, um panfleto onde expusesse as suas ideias políticas, pois, como ele próprio afirma, o seu panfleto era apenas um resumo das discussões e resoluções dos Congressos da Internacional em Genebra (1866), Lausanne (1867), Bruxelas (1869), e em tais Congressos, sobretudo neste três primeiros, foi grande a influência dos Proudhonianos, o que de resto era licito esperar dele dadas as bases da sua cultura política.
Em todo o panfleto O que é a Internacional, Antero não sita sequer o nome de Marx ou de Engels e era natural que o fizesse, visto já nessa altura a concepção marxista do socialismo combater até nos próprios Congressos da Internacional, as concepções federalistas do socialismo. Inquieto como intelectual, insatisfeito como artista, Antero encontrou nas teorias proudhonianas, na sua veemente filosofia sociológica, um mundo de concepções, capaz de preencher os seus permanentes cepticismos metafísicos.
Nem o pensamento anteriano, nem muito do seu procedimento de militante socialista, poderão ser devidamente compreendidos pelas novas gerações, se não forem analisados em confronto com os de Proudhon. Quanto mais se conhecer Proudhon, melhor se compreenderá que Antero é a sua melhor tradução em português.
A esquerda deles
Em seis meses, 645.559 crianças deixaram de receber abono de família no país mais envelhecido da Europa e oitavo da OCDE com maior taxa de pobreza infantil. Ao mesmo tempo, no mesmo país, um fluxo de sentido contrário fazia chover milhões nas contas bancárias da Associação Portuguesa de Bancos, Automóvel Clube de Portugal, Mota-Engil, Parkalgar e Colecção Berardo, entre outras entidades com necessidades especiais de enriquecimento. Números são números, não são de esquerda, nem de direita. Ao contrário da governação PS. A esquerda deles é perene, sempre esquerda, independentemente do tamanho das injustiças que vão alimentando com o dinheiro dos contribuintes.
O CRIADOR MATA A CRIATURA
Com pompa e circunstância, o império anuncia a morte do sr. Bin Laden.
É caso para dizer que o criador mata a sua criatura.
O sr. Bin Laden era um dos "activos" da CIA.
A sua Al Qaeda foi organizada, financiada e armada pelos serviços secretos dos EUA.
Operacionais da Al Qaeda treinados pela CIA foram utilizados nas guerras da Jugoslávia e da Chechenia.
Mas a desinformação é tamanha que continuam a atribuir àquele indivíduo os atentados de 11/Setembro/2001.
Esquecem-se cuidadosamente de dizer que na vespera, dia 10 de Setembro, o sr. Bin Laden estava internado num hospital militar americano .
É caso para dizer que o criador mata a sua criatura.
O sr. Bin Laden era um dos "activos" da CIA.
A sua Al Qaeda foi organizada, financiada e armada pelos serviços secretos dos EUA.
Operacionais da Al Qaeda treinados pela CIA foram utilizados nas guerras da Jugoslávia e da Chechenia.
Mas a desinformação é tamanha que continuam a atribuir àquele indivíduo os atentados de 11/Setembro/2001.
Esquecem-se cuidadosamente de dizer que na vespera, dia 10 de Setembro, o sr. Bin Laden estava internado num hospital militar americano .
A segunda morte de Osama bin Laden
Se hoje fosse 1º de Abril e não 2 de Maio, podíamos ignorar como uma brincadeira a manchete desta manhã de que Osama bin Laden foi morto num combate armado no Paquistão e rapidamente lançado ao mar. No actual estado de coisas, devemos considerar isto como prova adicional de que o governo estado-unidense tem uma fé ilimitada na credulidade dos americanos.
Pense nisso. Quais são as probabilidades de uma pessoa que alegadamente sofre dos rins e precisa de diálise, e que além disso é afligido por diabete e baixa tensão arterial, sobreviva em esconderijos na montanha durante uma década? Se bin Laden fosse capaz de adquirir o equipamento de diálise e os cuidados médicos que as suas condições requeriam, será que o despacho do equipamento de diálise não apontaria a sua localização? Por que foram precisos dez anos para encontrá-lo?
Considere também as afirmações, repetidas pelos media triunfalistas dos EUA a celebrarem a morte de bin Laden, que "bin Laden utilizou seus milhões para financiar campos terroristas no Sudão, nas Filipinas e no Afeganistão, enviando 'guerreiros sagrados' para fomentar a revolução e combater com forças fundamentalistas muçulmanas no Norte da África, Chechénia, Tajiquistão e Bósnia". Isso é um bocado de actividade para ser financiado por uns meros milhões (talvez os EUA devessem tê-los colocado na conta do Pentágono), mas a questão principal é: como é que bin Laden foi capaz de movimentar o seu dinheiro de um lado para o outro? Que sistema bancário o ajudou? O governo estado-unidense tem êxito em apresar os activos de povos de países inteiros, sendo a Líbia o mais recente. Por que não os de bin Laden? Estaria ele a carregar consigo US$100 milhões em moedas de ouro e a enviar emissários para distribuir os pagamentos das suas operações dispersas por lugares remotos?
Pense nisso. Quais são as probabilidades de uma pessoa que alegadamente sofre dos rins e precisa de diálise, e que além disso é afligido por diabete e baixa tensão arterial, sobreviva em esconderijos na montanha durante uma década? Se bin Laden fosse capaz de adquirir o equipamento de diálise e os cuidados médicos que as suas condições requeriam, será que o despacho do equipamento de diálise não apontaria a sua localização? Por que foram precisos dez anos para encontrá-lo?
Considere também as afirmações, repetidas pelos media triunfalistas dos EUA a celebrarem a morte de bin Laden, que "bin Laden utilizou seus milhões para financiar campos terroristas no Sudão, nas Filipinas e no Afeganistão, enviando 'guerreiros sagrados' para fomentar a revolução e combater com forças fundamentalistas muçulmanas no Norte da África, Chechénia, Tajiquistão e Bósnia". Isso é um bocado de actividade para ser financiado por uns meros milhões (talvez os EUA devessem tê-los colocado na conta do Pentágono), mas a questão principal é: como é que bin Laden foi capaz de movimentar o seu dinheiro de um lado para o outro? Que sistema bancário o ajudou? O governo estado-unidense tem êxito em apresar os activos de povos de países inteiros, sendo a Líbia o mais recente. Por que não os de bin Laden? Estaria ele a carregar consigo US$100 milhões em moedas de ouro e a enviar emissários para distribuir os pagamentos das suas operações dispersas por lugares remotos?
O NEGRO E O VERMELHO
António Sérgio, Pensador Libertário?
Eles esquecem... que não estão de modo algum a combater o mundo existente quando combatem apenas as frases deste mundo.MARX-ENGELS
Foi através de análises concretas das realidades sociais portuguesas que se afirmou a concepção sociológica de Sérgio. Sociológica, e não simplesmente histórica, à maneira tradicional. A verdade é que António Sérgio foi o introdutor na cultura portuguesa da história sociológica. Inclusivamente os seus trabalhos reputados de "históricos" e nos quais se dão aos fenómenos económicos e da luta de classes particular realce são fundamentalmente análises sociológicas, pois se situam àquele nível do conhecimento social que busca investigar os fenómenos sociais totais. António Sérgio só acidentalmente explanou os princípios que norteiam a sua prática sociológica o que provocou dúvidas em certos pontos da sua doutrina e certa incompreensão de base nas interpretações que por via de regra têm sido proposta para o seu pensamento, atribuindo-lhe uma significação que se lhe não coaduna. Para Sérgio como para Marx o económico é não só o factor capital, mas determinante da história em todas as suas esferas, sem exclusão do mundo das ideias. O facto é que, neste ponto como em tantos outros, foi a doutrina de Sérgio muito mal percebida por uma parte considerável dos seus leitores. Dá-se o caso que os que se inclinaram a considerar da mesma espécie as concepções da história de Sérgio e de Marx desentenderam radicalmente uma e outra. Em parte, porém, não é porventura de excluir que de princípio certas afirmações de Sérgio o tenham por vezes levado demasiado longe neste rumo, para melhor salientar o que lhe era particular no modo de conceber a história portuguesa. Mais tarde, Sérgio foi naturalmente impelido a marcar mais incisivamente o que o distanciava da doutrinação em voga, e bem assim a repulsar intenções que desacertadamente lhe haviam atribuído. Com efeito, reiteradas vezes Sérgio se opôs resolutamente ao que, na época em que ideou os seus primeiros escritos de matéria histórico-sociológica, se entendia em geral por determinismo económico e isto apesar de todos os seus ensaios histórico-sociológicos estarem organizados em função dos problemas chave da economia do país, sob o duplo aspecto do condicionalismo económico-social e da consciente finalidade económica das descobertas marítimas e das conquistas portuguesas. É fora de dúvida, e sob mais de um aspecto, que as investigações de Sérgio neste domínio são por completo estranhas às categorias do materialismo histórico. Ele próprio o disse sem rodeios: "Em mim, as interpretações económicas dos aconteceres históricos não têm coisa alguma de materialistas; para mim, os sucessos resultam das ideias dos homens (embora ideias sobre vantagens económicas). De resto, o de que se convenceu "foi disto e só disto: que as acções da política (da política, note-se: não me refiro às ciências, ou à filosofia, ou às artes) têm sido dominadas, na maioria dos casos, pela ideia de se conseguirem umas determinadas vantagens, a que cabe a designação de materiais-económicas, entendido este termo numa acepção bem larga." A filosofia implícita nos seus escritos da história sociológica é sempre de facto uma filosofia idealista. Em Sérgio, o reconhecimento dos motivos económicos da acção guerreira, e em geral da acção política, solidário da convicção que se não se deve considerar a estrutura económica como anterior à política, mas sim como contemporânea e inseparável dela. Sérgio recusa as categorias de base económica e de superestrutura: o seu modo de ver não considera a actividade social-económica como infraestrutura, de que a actividade social política fosse a superestrutura; vê-as a ambas como dois aspectos "coincidentes", "contemporâneos" (inseparáveis e correlativos): Alega que se a estrutura jurídico é uma regulamentação da vida económica, a economia, por consequência, não pode proceder a estrutura política, não lhe pode servir de pedestal. É porém minha convicção que se esta tem sido sempre a teoria histórica de Sérgio, a sua análise concreta dos problemas históricos não poucas vezes inculca a noção contrária, e que é a seguinte: que a actividade económica é anterior, e serve de base, à organização política de uma sociedade. Ao que supomos foi por terem atentado mais na obra histórica de Sérgio do que na sua teoria da história que os leitores, em regra geral , foram levados a admitir - erroneamente - que Sérgio aceitava os princípios do materialismo histórico. Alguns até, viam nisso uma contradição entre um materialismo histórico implícito e uma explícita orientação filosófica geral idealista. Por tudo o que se disse, Sérgio afirma sem equívoco a sua oposição de princípio à filosofia do marxismo-leninismo. Não queremos entrar em pormenores nem queremos agora e aqui, discutir se as hipóteses alvitradas por Sérgio para a Inteligência do surto da nacionalidade e dos seus motivos, co condicionamento das navegações, da conquista de Ceuta ou da crise social de 1383-1385 e da relação de forças de classe, por exemplo, são, ou não de aceitar, como não vem tão pouco ao caso aqui até que ponto as suas análises histórico-sociológicas contradizem efectivamente os princípios teóricos da concepção materialista da história e as suas consequências práticas. Indique-se simplesmente que nesses ensaios, como noutros, - Sérgio insistiu neste ponto - o que sobrevela ( em oposição a certa história então em voga, ocamente retórica ou de pura erudição arquivística) são a desconfiança em relação às formulações simplistas, o apego à norma da dúvida metódica, do espírito crítico ensaístico, da objectividade indagadora em exame das coisas, a atitude interrogativa, numa palavra, a atitude filosófica da problemática. É a introdução da temática social-económica, das relações de classe e dos conflitos de classe, a perspectiva sociológica, digamos assim, em que coloca os sucessos. O que sobreleva são as virtualidades pedagógicas, é o método racionalista. Ele mesmo o disse: "o que vale sobretudo (nos meus escritos históricos) é o operar da análise, o espírito ensaístico (...); depois, é o feixe de luz de positividade sociológica a que a operação do analista fez observar os factos; e a conclusão particular é o que importa menos." A este propósito é necessário ter presente as relações que António Sérgio manteve ao longo de vários anos, com o orgão da C.G.T. desde o seu aparecimento até à sua ilegalidade pelo Estado Novo. É verdade que António Sérgio que chegou a ser Ministro da Educação em 1924 (Ministro da Instrução Pública como se designava então) foi fortemente criticado pela Batalha no artigo do seu suplemento semanal intitulado "Palavras, Palavras e ... Palavras. A Obra do Sr. António Sérgio, Ministro da Instrução. Com esta Nova Experiência Política, o Grupo Seara Nova é mais uma Ilusão que se Desfez". O Título é amplamente significativo do seu conteúdo. Aqui fica uma passagem ilustrativa: "...Afinal, o que é que podemos concluir do trabalho do Sr. António Sérgio, ministro? Palavras, palavras e... palavras. Prometimentos banais, lugares-comuns, e muito personalismo. Ia fazer, ia reformar, ia ...etc. Ora isto todos têm dito; todos os trinta e um ministros da Informação Pública que temos tido deram-nos o mesmo molho de pasteleiro..." No entanto, António Sérgio tinha sido o primeiro intelectual convidado por A Batalha logo no seu primeiro número para uma entrevista acerca de um dos grandes problemas nacionais que mais preocupava o pedagogo - o da Educação. Esta circunstância podia-se explicar pela simpatia dos militantes sindicais em relação ao ensaísta que, tal como eles, criticou os partidos burgueses, fossem eles republicanos ou monárquicos. Essa simpatia continuou a seguir à publicação da entrevista em que António Sérgio afirma que : "O parasitismo da Escola é o reflexo parasitário da nossa sociedade" em consequência da reacção negativa de alguns professores. Essa simpatia transforma-se mais tarde em antipatia quando A Batalha critica abertamente a acção da Seara Nova, à qual Sérgio pertencia, devido ao facto dos princípios de independência política terem sido quebrados quando a sua intervenção apenas teórica se transformou em responsabilidades práticas governativas por parte de alguns dos seus membros. É nesse sentido que A Batalha se refere quando afirma: "Nunca atacámos, no Dr. António Sérgio, o pedagogo. Referimo-nos em discordância, mas ao ministro." O problema que se coloca aqui é o do não complemento entre a atitude prática e o envolvimento teórico. E será que esta questão se coloca unicamente a António Sérgio ou não será antes problema fundamental que com acuidade se põe a todos nós?
Eles esquecem... que não estão de modo algum a combater o mundo existente quando combatem apenas as frases deste mundo.MARX-ENGELS
Foi através de análises concretas das realidades sociais portuguesas que se afirmou a concepção sociológica de Sérgio. Sociológica, e não simplesmente histórica, à maneira tradicional. A verdade é que António Sérgio foi o introdutor na cultura portuguesa da história sociológica. Inclusivamente os seus trabalhos reputados de "históricos" e nos quais se dão aos fenómenos económicos e da luta de classes particular realce são fundamentalmente análises sociológicas, pois se situam àquele nível do conhecimento social que busca investigar os fenómenos sociais totais. António Sérgio só acidentalmente explanou os princípios que norteiam a sua prática sociológica o que provocou dúvidas em certos pontos da sua doutrina e certa incompreensão de base nas interpretações que por via de regra têm sido proposta para o seu pensamento, atribuindo-lhe uma significação que se lhe não coaduna. Para Sérgio como para Marx o económico é não só o factor capital, mas determinante da história em todas as suas esferas, sem exclusão do mundo das ideias. O facto é que, neste ponto como em tantos outros, foi a doutrina de Sérgio muito mal percebida por uma parte considerável dos seus leitores. Dá-se o caso que os que se inclinaram a considerar da mesma espécie as concepções da história de Sérgio e de Marx desentenderam radicalmente uma e outra. Em parte, porém, não é porventura de excluir que de princípio certas afirmações de Sérgio o tenham por vezes levado demasiado longe neste rumo, para melhor salientar o que lhe era particular no modo de conceber a história portuguesa. Mais tarde, Sérgio foi naturalmente impelido a marcar mais incisivamente o que o distanciava da doutrinação em voga, e bem assim a repulsar intenções que desacertadamente lhe haviam atribuído. Com efeito, reiteradas vezes Sérgio se opôs resolutamente ao que, na época em que ideou os seus primeiros escritos de matéria histórico-sociológica, se entendia em geral por determinismo económico e isto apesar de todos os seus ensaios histórico-sociológicos estarem organizados em função dos problemas chave da economia do país, sob o duplo aspecto do condicionalismo económico-social e da consciente finalidade económica das descobertas marítimas e das conquistas portuguesas. É fora de dúvida, e sob mais de um aspecto, que as investigações de Sérgio neste domínio são por completo estranhas às categorias do materialismo histórico. Ele próprio o disse sem rodeios: "Em mim, as interpretações económicas dos aconteceres históricos não têm coisa alguma de materialistas; para mim, os sucessos resultam das ideias dos homens (embora ideias sobre vantagens económicas). De resto, o de que se convenceu "foi disto e só disto: que as acções da política (da política, note-se: não me refiro às ciências, ou à filosofia, ou às artes) têm sido dominadas, na maioria dos casos, pela ideia de se conseguirem umas determinadas vantagens, a que cabe a designação de materiais-económicas, entendido este termo numa acepção bem larga." A filosofia implícita nos seus escritos da história sociológica é sempre de facto uma filosofia idealista. Em Sérgio, o reconhecimento dos motivos económicos da acção guerreira, e em geral da acção política, solidário da convicção que se não se deve considerar a estrutura económica como anterior à política, mas sim como contemporânea e inseparável dela. Sérgio recusa as categorias de base económica e de superestrutura: o seu modo de ver não considera a actividade social-económica como infraestrutura, de que a actividade social política fosse a superestrutura; vê-as a ambas como dois aspectos "coincidentes", "contemporâneos" (inseparáveis e correlativos): Alega que se a estrutura jurídico é uma regulamentação da vida económica, a economia, por consequência, não pode proceder a estrutura política, não lhe pode servir de pedestal. É porém minha convicção que se esta tem sido sempre a teoria histórica de Sérgio, a sua análise concreta dos problemas históricos não poucas vezes inculca a noção contrária, e que é a seguinte: que a actividade económica é anterior, e serve de base, à organização política de uma sociedade. Ao que supomos foi por terem atentado mais na obra histórica de Sérgio do que na sua teoria da história que os leitores, em regra geral , foram levados a admitir - erroneamente - que Sérgio aceitava os princípios do materialismo histórico. Alguns até, viam nisso uma contradição entre um materialismo histórico implícito e uma explícita orientação filosófica geral idealista. Por tudo o que se disse, Sérgio afirma sem equívoco a sua oposição de princípio à filosofia do marxismo-leninismo. Não queremos entrar em pormenores nem queremos agora e aqui, discutir se as hipóteses alvitradas por Sérgio para a Inteligência do surto da nacionalidade e dos seus motivos, co condicionamento das navegações, da conquista de Ceuta ou da crise social de 1383-1385 e da relação de forças de classe, por exemplo, são, ou não de aceitar, como não vem tão pouco ao caso aqui até que ponto as suas análises histórico-sociológicas contradizem efectivamente os princípios teóricos da concepção materialista da história e as suas consequências práticas. Indique-se simplesmente que nesses ensaios, como noutros, - Sérgio insistiu neste ponto - o que sobrevela ( em oposição a certa história então em voga, ocamente retórica ou de pura erudição arquivística) são a desconfiança em relação às formulações simplistas, o apego à norma da dúvida metódica, do espírito crítico ensaístico, da objectividade indagadora em exame das coisas, a atitude interrogativa, numa palavra, a atitude filosófica da problemática. É a introdução da temática social-económica, das relações de classe e dos conflitos de classe, a perspectiva sociológica, digamos assim, em que coloca os sucessos. O que sobreleva são as virtualidades pedagógicas, é o método racionalista. Ele mesmo o disse: "o que vale sobretudo (nos meus escritos históricos) é o operar da análise, o espírito ensaístico (...); depois, é o feixe de luz de positividade sociológica a que a operação do analista fez observar os factos; e a conclusão particular é o que importa menos." A este propósito é necessário ter presente as relações que António Sérgio manteve ao longo de vários anos, com o orgão da C.G.T. desde o seu aparecimento até à sua ilegalidade pelo Estado Novo. É verdade que António Sérgio que chegou a ser Ministro da Educação em 1924 (Ministro da Instrução Pública como se designava então) foi fortemente criticado pela Batalha no artigo do seu suplemento semanal intitulado "Palavras, Palavras e ... Palavras. A Obra do Sr. António Sérgio, Ministro da Instrução. Com esta Nova Experiência Política, o Grupo Seara Nova é mais uma Ilusão que se Desfez". O Título é amplamente significativo do seu conteúdo. Aqui fica uma passagem ilustrativa: "...Afinal, o que é que podemos concluir do trabalho do Sr. António Sérgio, ministro? Palavras, palavras e... palavras. Prometimentos banais, lugares-comuns, e muito personalismo. Ia fazer, ia reformar, ia ...etc. Ora isto todos têm dito; todos os trinta e um ministros da Informação Pública que temos tido deram-nos o mesmo molho de pasteleiro..." No entanto, António Sérgio tinha sido o primeiro intelectual convidado por A Batalha logo no seu primeiro número para uma entrevista acerca de um dos grandes problemas nacionais que mais preocupava o pedagogo - o da Educação. Esta circunstância podia-se explicar pela simpatia dos militantes sindicais em relação ao ensaísta que, tal como eles, criticou os partidos burgueses, fossem eles republicanos ou monárquicos. Essa simpatia continuou a seguir à publicação da entrevista em que António Sérgio afirma que : "O parasitismo da Escola é o reflexo parasitário da nossa sociedade" em consequência da reacção negativa de alguns professores. Essa simpatia transforma-se mais tarde em antipatia quando A Batalha critica abertamente a acção da Seara Nova, à qual Sérgio pertencia, devido ao facto dos princípios de independência política terem sido quebrados quando a sua intervenção apenas teórica se transformou em responsabilidades práticas governativas por parte de alguns dos seus membros. É nesse sentido que A Batalha se refere quando afirma: "Nunca atacámos, no Dr. António Sérgio, o pedagogo. Referimo-nos em discordância, mas ao ministro." O problema que se coloca aqui é o do não complemento entre a atitude prática e o envolvimento teórico. E será que esta questão se coloca unicamente a António Sérgio ou não será antes problema fundamental que com acuidade se põe a todos nós?
segunda-feira, maio 02, 2011
Polícia fere manifestantes pacíficos em Setúbal



Como sempre sucede nestas coisas a polícia acompanhou, em Setúbal, cerca de 200 manifestantes anticapitalistas procurando sobretudo, que não se misturassem com os manifestantes enquadrados pela CGTP; o que aliás constitui vontade da direção da CGTP, desde há muito. Um modelo que, ampliado se havia já visto na Avenida da Liberdade, em Novembro, durante os protestos contra a cimeira da NATO.
Quando os anticapitalistas deram por terminado o seu protesto no Largo da Fonte Nova, pousaram as suas faixas no chão e ficaram por ali a conversar. Muito rapidamente surgiu uma carrinha de onde saiu um grupo de polícias que investiram contra um carro que havia participado no protesto e, em seguida iniciaram a agressão dos presentes. Houve disparos de balas de borracha que feriram algumas pessoas e tiros de pistola para o ar; foram recolhidos pelos manifestantes os cartuxos das balas – de borracha e reais. Pior foi a situação de um dos agredidos a quem a polícia disparou – BALA REAL – sobre ambos os joelhos, que ficaram esfacelados e a escorrer sangue. Em seguida o ferido foi levado pelos brutos.
Em Novembro, os manifestantes na Avenida da Liberdade foram objecto apenas de coação e cerco por dois cordões de polícia mas, não foram agredidos pois estavam sob observação da imprensa internacional e doméstica. A polícia terá acumulado adrenalina desde então e decidiu mostrar os dentes para esclarecer que está pronta e preparada para reprimir selvaticamente quem se manifestar contra o desemprego, a precariedade e as ordens emanadas do sistema financeiro, do FMI, da Comissão Europeia a aplicar pelo miserável PS/PSD.
É justo que se apontem responsabilidades também à direção da CGTP, incapaz de conviver com as diferenças de pontos de vista, com a democracia no seio das “suas” manifestações, já que não quer entender que a unidade dos trabalhadores não pode ter dono. Impedindo a presença de opiniões distintas, a CGTP divide os trabalhadores, o protesto social e, facilita o isolamento de elementos mais radicais, oferecendo vítimas fáceis para a brutalidade policial. Uma vez mais, uma situação já registada em Novembro, na Avenida e nas semanas anteriores.
Pormenor curioso foi observado na distribuição de panfletos da PAGAN a um grupo de bombeiros músicos, que se achavam recolhidos da chuva debaixo de um toldo, depois de actuaram na manifestação da CGTP. O chefe da banda decidiu proibir essa distribuição aos músicos, no que não foi, naturalmente, obedecido por quem distribuia os papéis. Pela idade desse chefe, não terá sido da pide nem da legião salazarista; mas achamos que ele terá pena do atraso do seu nascimento.
Hoje em Setúbal, amanhã noutro local de protesto contra a ordem neoliberal. Hoje foram manifestantes anticapitalistas, amanhã poderá ser a tua vez, mesmo que desfiles nas procissões da CGTP.
Portugal - 1º de Maio anticapitalista e libertário é alvo de repressão brutal em Setúbal




Pelo 2º ano consecutivo realizou-se em Setúbal um 1º de Maio anticapitalista e anarquista. Ao apelo responderam cerca de 200 pessoas de diversas partes de Portugal, que se manifestaram de uma forma coesa e anti-autoritária. As palavras de ordem, bandeiras negras, verdes e negras e rubro negras e as faixas não deixavam sombra de dúvida: a guerra social, a insurreição, a recusa de submissão ao patrão, ao Estado, ao capital: " o povo unido não precisa de partido", "auto-organização", "o povo organizado não precisa do Estado", "Sabotagem... greve selvagem!"
Um manifestante que enfrentou a polícia foi baleado em ambos os joelhos, pensa-se que com balas de borracha, embora fossem utilizadas armas reais. Testemunhas recolheram fotos e cápsulas de balas reais. O manifestante foi preso, tendo sido acionado imediatamente contato com advogado. Inúmeras pessoas foram feridas seja pela utilização de cassetetes seja pela utilização de gás lacrimogêneo e balas de borracha a pequena distância. Os polícias atiravam sobre garrafas vazias de modo que estilhaços atingissem os manifestantes. Pequenos grupos em fuga foram perseguidos tendo sido atiradas balas de borracha que atingiam com gravidade, nalguns casos os manifestantes.
Vale ressaltar a colaboração solidária da população que abrigou em suas casas alguns dos feridos com gravidade. A polícia barrou o final da manifestação e iniciou a repressão. Muitas pessoas atingidas no pescoço e muitas nas costas e abdômen.
O que se assistiu em Setúbal foi uma tentativa de impor terrorismo policial numa manifestação pujante e solidária plena de revolta perante uma situação insustentável: o ataque capitalista e a ingerência do FMI em Portugal.
Emília Cerqueira
agência de notícias anarquistas-ana
A ECONOMIA EMPRESARIAL COMO JOGO DE RISCO
Para a clientela habitual o pior vilão não é o informador, mas o especulador. O "casino" do capitalismo financeiro há muito tempo que é responsabilizado por todas as crises económicas e sociais surgidas. Assim, o banqueiro tornou-se o protótipo do jogador irresponsável e é considerado o inimigo número um de todos os burgueses respeitáveis. A mesma consciência consegue, no entanto, encontrar um monte de coisas boas no capitalista industrial, que não anda metido na aérea superstrutura financeira, mas manda produzir objectos materiais, precisando para isso de postos de trabalho. Não se critica o capitalismo em geral, mas gostaria de se distinguir entre o jogo financeiro duvidoso e a economia real com os pés assentes na terra.
Mas estará o capital da economia real, com a sua base material, realmente tão longe do pensamento especulativo? Também o lucro industrial não está garantido à partida, mas tem de ser primeiro conquistado na concorrência. Uma vez que não há qualquer planeamento conjunto da produção social, nenhuma empresa sabe se pode vender os seus produtos. Assim, também a produção material é um jogo de risco no campo da concorrência universal e o gestor da economia real é também um jogador tal como o banqueiro de investimento. Apenas a aplicação é diferente: em vez de títulos financeiros, temos máquinas, matérias-primas e mão-de-obra.
Mas estará o capital da economia real, com a sua base material, realmente tão longe do pensamento especulativo? Também o lucro industrial não está garantido à partida, mas tem de ser primeiro conquistado na concorrência. Uma vez que não há qualquer planeamento conjunto da produção social, nenhuma empresa sabe se pode vender os seus produtos. Assim, também a produção material é um jogo de risco no campo da concorrência universal e o gestor da economia real é também um jogador tal como o banqueiro de investimento. Apenas a aplicação é diferente: em vez de títulos financeiros, temos máquinas, matérias-primas e mão-de-obra.
Os interesses ocidentais e a revolta árabe
A passividade, e mesmo cordialidade, com que a diplomacia ocidental convivia com as ditaduras árabes evoluiu rapidamente para uma situação nova e altamente volátil, com impactos inesperados. De um lado, a OTAN envolveu-se em mais uma guerra contra um país árabe. As esperanças de um desenlace rápido e da ruína imediata de Kadafi não se concretizaram, obrigando as potências ocidentais a um envolvimento cada vez maior na crise. Por outro lado, o fluxo de refugiados abala as próprias estruturas da União Europeia, principalmente institutos como o “Espaço de Schengen”. Daí decorre a necessidade de analisar os atuais interesses ocidentais e as revoltas árabes.
O NEGRO E O VERMELHO
O PROUDHONIANO EÇA DE QUEIRÓS
"Uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever."
Eça de Queirós, 1879.
O realismo aparece na mente de Eça de Queirós associado às ideias estéticas de Proudhon. Para ele, realismo é fundamentalmente Proudhon com um pós de Taine. Nunca ninguém se lembrará de aproximar as ideias estéticas de Proudhon do realismo literário. Tão pouco se tinha visto ainda aproximar as teorias do meio, de Taine das teorias sociais do autor do "Du Principe de l'Art ".
Mas a conferência "A Nova Literatura " que Eça de Queirós apresenta no casino Lisbonense em 1871 subintitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte não é somente uma exposição das ideias destes dois pensadores franceses. Antes de mais nada, foi uma crítica ao estado decadente das letras nacionais, embora sem descer a uma concretização positiva. Essa concretização fizera-a ele em As Farpas no seu estado social de Portugal em 1871, publicado precisamente dias antes da conferência.
Para Proudhon, o realismo ensinava simultaneamente ao artista a " exprimer les aspirations de l' époque actuelle " e a ter em conta que a arte é "une representation idéaliste de la nature et de nous-mêmes, en vue du perfectionnement physique et moral de notre espéce " ( Du Principe de l'Arte et de sa Destination Sociale ) no que se opunha a Taine , que tinha por secundário o ideal moral. Para este, todos os temas eram dignos de ser pintados; para Proudhon, não . Associar, pois as doutrinas estéticas de Taine às de Proudhon era uma simbiose audaciosa que Eça de Queirós não receou levar a cabo .
Nas conclusões da sua conferência há afirmações expressas: Em primeiro lugar o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Em segundo lugar, o Realismo deve proceder pela sua experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos carácteres.
Mas principiemos pelo princípio. Proudhon, no De la Justice dans la Revolution et dans l'Église apresenta a Revolução como um vasto sistema filosófico em que se enquadra a sociologia, a política, a economia, a moral - e a própria literatura . No terceiro tomo dessa obra pode ver-se inclusivamente um estudo, o nono, em que o problema literário é focado ( cap. VII e VIII). Eça, literato, deve ter começado por aí. Nas Notas Contemporâneas pode ler-se o seguinte: " Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andavamos a compôr uma ópera - bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandoloso delírio - e começamos à noite a estudar Proudhon nos tomos da "Justiça na Revolução e na Igreja "...
Na verdade a sua conferência acusa pontos de contacto com essa obra. Há afirmações ácerca da revolução que são de lá . Aquela visão da literatura revolucionária, de Rabelais a Beaumarchais, é também de lá. Entretanto, Proudhon, que prometia aí um vasto estudo à parte sobre a literatura - vem a publicar, ou melhor, publicam-lhe os discípulos em obra póstuma - o Du Principe de l'Art et de sa Destination Sociale. Eça, encaminhado por aquela leitura, aconselhada por Antero (acerca da influência de Proudhon na obra de Antero de Quental ,ver o nosso artigo na Batalha, nº134,Out/Dez 91, pp.10-11, " O Socialismo Proudhoniano de Antero de Quental " ) procura agora o novo livro. E a conferência revela vastos pontos de contacto com ele .Este livro tinha saído em 1865 e era o primeiro duma série de póstumos.
Assentando todo em reflexões que a obra realista de Courbet lhe sugerira, Proudhon quisera sujeitar a arte ao pensamento dum destino social . A arte, dali para o futuro deveria ser condição de melhoramento das sociedades, e o realismo a sua expressão . Em três capítulos iniciais assentara nisto. A arte que fugisse desse ideal era falsa. Querendo demonstrar que, afinal, o papel da arte, sempre tinha sido esse - desde o IVcapítulo até ao X , fez um estudo interpretativo da evolução histórica da arte. Os oito capítulos seguintes são de análise à obra realista de Coubet. Nos restantes capítulos, do XIX ao XXV, dispendem-se argumentos e considerações que hão-de levar ao estabelecimento dum critério de criação artística em vista do seu destino social.
O Proudhonismo - incluindo o de Eça de Queirós - assenta em três noções fundamentais : a Consciência, a Justiça e a Igualdade. A Consciência e a Justiça são duas faces da mesma coisa. A Consciência é o sentimento que o sentimento que o homem tem de si, dos seus direitos e dos seus deveres . Mas esta noção Kantiana não basta a Proudhon, sociólogo: só lhe interessa o homem em grupo, e a equação de homem para homem. Ora cada homem, supõe Proudhon, sente como a sua própria, a dignidade e os direitos do seu semelhante; é a consciência objectivando-se - a que ele dá o nome de Justiça . A Justiça impõe o respeito recíproco e conduz inevitavelmente à igualdade, porque nos leva a exigir aos outros o mesmo que os outros exigem de nós e porque nos leva a respeitar os outros tanto como a nós mesmos, uma vez que a Consciência se tem de supor idêntica em cada um.
Por outro lado, desde que a Consciência é uma noção imediata, consubstancial à própria natureza humana, e a Justiça é a sua face social, tão inevitável como ela, é claro que a Igualdade se realizará fatalmente; e a Evolução não é que a sua realização progressiva. Por isso escrevia Oliveira Martins que a teoria do socialismo é a evolução. Nada impedirá que ela se ela se realize; mas essa realização será gradual e evolutiva. Por isso Proudhon não acredita em subversões perturbadoras, que, além do mais são uma violação do princípio da Justiça: "Revolução" é para ele sinónimo de Evolução no sentido de Igualdade; e propende a só considerar como sã uma sociedade desde que nela exista a par de uma inércia conservadora um impulso renovador evolutivo.
Em nome deste princípio da Justiça e desta lei da Igualdade critica Proudhon a organização social-económica da sua época, e nomeadamente a propriedade deveria ser tal que todos participassem nela, porque todos, em virtude da lei da Igualdade, têm o mesmo direito a ela. Isto não significa a supressão pura e simples da propriedade ou a sua colectivação, no pensar de Proudhon, mas antes a criação de um novo tipo de propriedade, que ele denomina "posséssion" que é no fundo, o usufruto do trabalho. À mesma crítica se presta a grande indústria, cujos meios de produção, segundo Proudhon, deviam estar nas mãos de companhias de trabalhadores.
Proudhon nega-se, portanto, a toda a organização estatista e à colectivização; e o seu ideal seria, concretamente, quanto à terra, a distribuição duma vasta colectividade de pequenos lavradores; quanto à produção industrial a transferência do capital e dos lucros para os próprios operários organizados. È a ideia base do cooperativismo.
Toda esta teoria a encontramos ao longo da obra de Eça de Queirós como membros dispersos, que, reunidos, permitem perceber o conjunto da construção.
A par dos objectivos da Revolução considera Eça o próprio processo da Revolução. E aqui a marca deixada por Proudhon aparece muito profunda - talvez por encontrar um eco em alguma coisa de pessoal e íntimo no escritor. Eça aceitou, compreendeu e glosou até ao fim da vida as duas noções fundamentais de Proudhon a este respeito: que a Revolução é uma evolução contínua e fatal - de modo algum um crise brusca; e que a Revolução se operará não já por uma transformação política mas por uma transformação puramente económica e técnica.
"Uma sociedade sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever."
Eça de Queirós, 1879.
O realismo aparece na mente de Eça de Queirós associado às ideias estéticas de Proudhon. Para ele, realismo é fundamentalmente Proudhon com um pós de Taine. Nunca ninguém se lembrará de aproximar as ideias estéticas de Proudhon do realismo literário. Tão pouco se tinha visto ainda aproximar as teorias do meio, de Taine das teorias sociais do autor do "Du Principe de l'Art ".
Mas a conferência "A Nova Literatura " que Eça de Queirós apresenta no casino Lisbonense em 1871 subintitulada O Realismo como Nova Expressão da Arte não é somente uma exposição das ideias destes dois pensadores franceses. Antes de mais nada, foi uma crítica ao estado decadente das letras nacionais, embora sem descer a uma concretização positiva. Essa concretização fizera-a ele em As Farpas no seu estado social de Portugal em 1871, publicado precisamente dias antes da conferência.
Para Proudhon, o realismo ensinava simultaneamente ao artista a " exprimer les aspirations de l' époque actuelle " e a ter em conta que a arte é "une representation idéaliste de la nature et de nous-mêmes, en vue du perfectionnement physique et moral de notre espéce " ( Du Principe de l'Arte et de sa Destination Sociale ) no que se opunha a Taine , que tinha por secundário o ideal moral. Para este, todos os temas eram dignos de ser pintados; para Proudhon, não . Associar, pois as doutrinas estéticas de Taine às de Proudhon era uma simbiose audaciosa que Eça de Queirós não receou levar a cabo .
Nas conclusões da sua conferência há afirmações expressas: Em primeiro lugar o Realismo deve ser perfeitamente do seu tempo, tomar a sua matéria na vida contemporânea. Em segundo lugar, o Realismo deve proceder pela sua experiência, pela fisiologia, ciência dos temperamentos e dos carácteres.
Mas principiemos pelo princípio. Proudhon, no De la Justice dans la Revolution et dans l'Église apresenta a Revolução como um vasto sistema filosófico em que se enquadra a sociologia, a política, a economia, a moral - e a própria literatura . No terceiro tomo dessa obra pode ver-se inclusivamente um estudo, o nono, em que o problema literário é focado ( cap. VII e VIII). Eça, literato, deve ter começado por aí. Nas Notas Contemporâneas pode ler-se o seguinte: " Sob a influência de Antero logo dois de nós, que andavamos a compôr uma ópera - bufa, contendo um novo sistema do Universo, abandonamos essa obra de escandoloso delírio - e começamos à noite a estudar Proudhon nos tomos da "Justiça na Revolução e na Igreja "...
Na verdade a sua conferência acusa pontos de contacto com essa obra. Há afirmações ácerca da revolução que são de lá . Aquela visão da literatura revolucionária, de Rabelais a Beaumarchais, é também de lá. Entretanto, Proudhon, que prometia aí um vasto estudo à parte sobre a literatura - vem a publicar, ou melhor, publicam-lhe os discípulos em obra póstuma - o Du Principe de l'Art et de sa Destination Sociale. Eça, encaminhado por aquela leitura, aconselhada por Antero (acerca da influência de Proudhon na obra de Antero de Quental ,ver o nosso artigo na Batalha, nº134,Out/Dez 91, pp.10-11, " O Socialismo Proudhoniano de Antero de Quental " ) procura agora o novo livro. E a conferência revela vastos pontos de contacto com ele .Este livro tinha saído em 1865 e era o primeiro duma série de póstumos.
Assentando todo em reflexões que a obra realista de Courbet lhe sugerira, Proudhon quisera sujeitar a arte ao pensamento dum destino social . A arte, dali para o futuro deveria ser condição de melhoramento das sociedades, e o realismo a sua expressão . Em três capítulos iniciais assentara nisto. A arte que fugisse desse ideal era falsa. Querendo demonstrar que, afinal, o papel da arte, sempre tinha sido esse - desde o IVcapítulo até ao X , fez um estudo interpretativo da evolução histórica da arte. Os oito capítulos seguintes são de análise à obra realista de Coubet. Nos restantes capítulos, do XIX ao XXV, dispendem-se argumentos e considerações que hão-de levar ao estabelecimento dum critério de criação artística em vista do seu destino social.
O Proudhonismo - incluindo o de Eça de Queirós - assenta em três noções fundamentais : a Consciência, a Justiça e a Igualdade. A Consciência e a Justiça são duas faces da mesma coisa. A Consciência é o sentimento que o sentimento que o homem tem de si, dos seus direitos e dos seus deveres . Mas esta noção Kantiana não basta a Proudhon, sociólogo: só lhe interessa o homem em grupo, e a equação de homem para homem. Ora cada homem, supõe Proudhon, sente como a sua própria, a dignidade e os direitos do seu semelhante; é a consciência objectivando-se - a que ele dá o nome de Justiça . A Justiça impõe o respeito recíproco e conduz inevitavelmente à igualdade, porque nos leva a exigir aos outros o mesmo que os outros exigem de nós e porque nos leva a respeitar os outros tanto como a nós mesmos, uma vez que a Consciência se tem de supor idêntica em cada um.
Por outro lado, desde que a Consciência é uma noção imediata, consubstancial à própria natureza humana, e a Justiça é a sua face social, tão inevitável como ela, é claro que a Igualdade se realizará fatalmente; e a Evolução não é que a sua realização progressiva. Por isso escrevia Oliveira Martins que a teoria do socialismo é a evolução. Nada impedirá que ela se ela se realize; mas essa realização será gradual e evolutiva. Por isso Proudhon não acredita em subversões perturbadoras, que, além do mais são uma violação do princípio da Justiça: "Revolução" é para ele sinónimo de Evolução no sentido de Igualdade; e propende a só considerar como sã uma sociedade desde que nela exista a par de uma inércia conservadora um impulso renovador evolutivo.
Em nome deste princípio da Justiça e desta lei da Igualdade critica Proudhon a organização social-económica da sua época, e nomeadamente a propriedade deveria ser tal que todos participassem nela, porque todos, em virtude da lei da Igualdade, têm o mesmo direito a ela. Isto não significa a supressão pura e simples da propriedade ou a sua colectivação, no pensar de Proudhon, mas antes a criação de um novo tipo de propriedade, que ele denomina "posséssion" que é no fundo, o usufruto do trabalho. À mesma crítica se presta a grande indústria, cujos meios de produção, segundo Proudhon, deviam estar nas mãos de companhias de trabalhadores.
Proudhon nega-se, portanto, a toda a organização estatista e à colectivização; e o seu ideal seria, concretamente, quanto à terra, a distribuição duma vasta colectividade de pequenos lavradores; quanto à produção industrial a transferência do capital e dos lucros para os próprios operários organizados. È a ideia base do cooperativismo.
Toda esta teoria a encontramos ao longo da obra de Eça de Queirós como membros dispersos, que, reunidos, permitem perceber o conjunto da construção.
A par dos objectivos da Revolução considera Eça o próprio processo da Revolução. E aqui a marca deixada por Proudhon aparece muito profunda - talvez por encontrar um eco em alguma coisa de pessoal e íntimo no escritor. Eça aceitou, compreendeu e glosou até ao fim da vida as duas noções fundamentais de Proudhon a este respeito: que a Revolução é uma evolução contínua e fatal - de modo algum um crise brusca; e que a Revolução se operará não já por uma transformação política mas por uma transformação puramente económica e técnica.
domingo, maio 01, 2011
A nova sabedoria popular (19 novos provérbios...)
Em Janeiro sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a cantar, se vires o Sócrates, põe-te a chorar
Quem vai ao mar avia-se em terra; quem vota Sócrates, mais cedo se enterra.
Sócrates a rir em Janeiro, é sinal de pouco dinheiro.
Quem anda à chuva molha-se; quem vota em Sócrates lixa-se.
Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão; parvo que vota em Sócrates, tem cem anos de aflição.
Gaivotas em terra temporal no mar; Sócrates em São Bento, o povinho a penar
Há mar e mar, há ir e voltar; só vota em Sócrates quem se quer afogar.
Março, marçagão, manhã de Inverno tarde de Verão; Sócrates, Soarão, manhã de Inverno tarde de inferno.
Burro carregando livros é um doutor; burro carregando o Sócrates é burro mesmo.
Peixe não puxa carroça; votar em Sócrates, asneira grossa.
Amigo disfarçado, inimigo dobrado; Sócrates empossado, povinho lixado.
A ocasião faz o ladrão, e de Sócrates um aldrabão.
Antes só que mal acompanhado, ou com Sócrates ao lado.
A fome é o melhor cozinheiro, Sócrates o melhor coveiro.
Olhos que não vêem, coração que não sente, mas aturar o Sócrates, não se faz à gente.
Boda molhada, boda abençoada; Sócrates eleito, pesadelo perfeito.
Casa roubada, trancas na porta; Sócrates eleito, ervas na horta.
Com Sócrates e bolos se enganam os tolos.
Não há regra sem excepção, nem Sócrates sem confusão.
Quem vai ao mar avia-se em terra; quem vota Sócrates, mais cedo se enterra.
Sócrates a rir em Janeiro, é sinal de pouco dinheiro.
Quem anda à chuva molha-se; quem vota em Sócrates lixa-se.
Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão; parvo que vota em Sócrates, tem cem anos de aflição.
Gaivotas em terra temporal no mar; Sócrates em São Bento, o povinho a penar
Há mar e mar, há ir e voltar; só vota em Sócrates quem se quer afogar.
Março, marçagão, manhã de Inverno tarde de Verão; Sócrates, Soarão, manhã de Inverno tarde de inferno.
Burro carregando livros é um doutor; burro carregando o Sócrates é burro mesmo.
Peixe não puxa carroça; votar em Sócrates, asneira grossa.
Amigo disfarçado, inimigo dobrado; Sócrates empossado, povinho lixado.
A ocasião faz o ladrão, e de Sócrates um aldrabão.
Antes só que mal acompanhado, ou com Sócrates ao lado.
A fome é o melhor cozinheiro, Sócrates o melhor coveiro.
Olhos que não vêem, coração que não sente, mas aturar o Sócrates, não se faz à gente.
Boda molhada, boda abençoada; Sócrates eleito, pesadelo perfeito.
Casa roubada, trancas na porta; Sócrates eleito, ervas na horta.
Com Sócrates e bolos se enganam os tolos.
Não há regra sem excepção, nem Sócrates sem confusão.
Silva Pais – O assassino “ofendido”

Leio, com algum espanto, que dois sobrinhos do assassino Silva Pais, o último diretor da PIDE, decidiram processar vários dos criadores envolvidos numa peça de teatro que foi à cena no Teatro Nacional D. Maria II, peça escrita a partir do livro “A filha rebelde”, que retrata a vida de Annie Silva Pais, filha do assassino e casada com um diplomata suíço. Annie Silva Pais, cansada da opressão vivida em Portugal e na sequência da sua estadia em Cuba, onde teve vários contactos com Che Guevara, viria a aderir publica e abertamente à causa da Revolução cubana.
Parece que os “ofendidos” pedem uma indemnização de 30.000 euros para "castigar" aquilo a que chamam ofensa à memória de Silva Pais, por em três falas da peça se insinuar que o biltre estaria ligado aos assassinatos de Humberto Delgado e da sua secretária.
Lembre-se que o assassino Silva Pais estava a ser julgado exatamente pela participação nesses crimes, quando morreu de causas naturais seis meses antes de ser lida a sentença.
É exatamente isso que alegam os espertalhaços dos sobrinhos. O tio Silva Pais nunca foi condenado por aqueles crimes.
Portanto, amigas e amigos, não se deixem levar na conversa de que qualquer chefe de assassinos é tão assassino como os operativos seus subordinados, pois por debaixo de qualquer pedra podem sempre existir vermes que se transformem em descendentes “ofendidos” e ciosos da memória dos seus criminosos antepassados.
Pensando bem... alguém conhece alguma fotografia ou vídeo de Salazar, Rosa Casaco, ou Silva Pais, apanhados no acto de assassinar alguém? Existe alguma confissão assinada por algum deles? Salazar foi alguma vez condenado em tribunal por algum dos crimes, torturas e assassinatos que ordenou? Portanto, muito, muito cuidado!
Quanto aos “ofendidos” sobrinhos, desconheço se pedem a indemnização apenas por falta de dinheiro... mas aquilo que lhes falta, sem sombra de dúvidas, é um mínimo de vergonha na cara.
Dia 3 de maio - julgamento
Dia 3 de Maio, pelas 9h15, um julgamento que nos remete para os tempos da ditadura…
Os réus: Margarida Fonseca Santos (autora), Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (ex-directores do Nacional D. Maria II) – somos acusados, pelos sobrinhos de Silva Pais, dos crimes de difamação e ofensa à memória de pessoa falecida. No seu entender, denegrimos a imagem do último director da PIDE com a adaptação para teatro do livro A Filha Rebelde (de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz), feita para o TNDM em 2007, com encenação de Helena Pimenta.
O Ministério Público não acompanhou a queixa.
Conquistámos, no 25 de Abril, a liberdade de expressão, que está agora posta em causa. Mas, mais grave ainda, esta é uma tentativa de branquear a imagem daquele que foi o responsável máximo da PIDE – a polícia política que perseguiu, torturou e matou muitos opositores ao regime, entre eles o General Humberto Delgado.
Pedimos que divulguem isto aos quatro ventos.
Um abraço
Margarida Fonseca Santos
Os réus: Margarida Fonseca Santos (autora), Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (ex-directores do Nacional D. Maria II) – somos acusados, pelos sobrinhos de Silva Pais, dos crimes de difamação e ofensa à memória de pessoa falecida. No seu entender, denegrimos a imagem do último director da PIDE com a adaptação para teatro do livro A Filha Rebelde (de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz), feita para o TNDM em 2007, com encenação de Helena Pimenta.
O Ministério Público não acompanhou a queixa.
Conquistámos, no 25 de Abril, a liberdade de expressão, que está agora posta em causa. Mas, mais grave ainda, esta é uma tentativa de branquear a imagem daquele que foi o responsável máximo da PIDE – a polícia política que perseguiu, torturou e matou muitos opositores ao regime, entre eles o General Humberto Delgado.
Pedimos que divulguem isto aos quatro ventos.
Um abraço
Margarida Fonseca Santos
O estado a que Portugal chegou, porque chegou e como sair dele
O problema da Dívida externa não se circunscreve ao problema da Dívida Líquida externa que analisamos no estudo anterior. No fim de 2010, a Dívida Bruta do País ao estrangeiro atingia 506.075 milhões €, representando a Dívida do Estado ao estrangeiro apenas 17,4%, enquanto a Dívida da Banca correspondia a 34,4%, e a das empresas e particulares representava 36,3% da Dívida Total do País. A banca endivida-se no exterior, e com esses meios e os depósitos que obtém internamente, concede crédito. Em 2010, de um total de 277.196 milhões € de empréstimos concedidos internamente pela banca, 33.485 milhões € (12,1% do total) foram concedidos às Administrações Públicas; 114.623 milhões € (41,4%) às empresas; e 129.088 milhões € (46,6% do total) a "Particulares". Portanto, no crédito interno, e contrariamente ao que muitas vezes se pensa ou se diz, apenas a parcela menor (12,1% do total) foi para o Estado, Autarquias e Regiões. A Dívida total do País, e a Dívida do Estado (que inclui a Dívida externa e interna atingia, no fim de 2010, 160.470 milhões €, segundo o INE), estão a levantar problemas extremamente graves cuja solução temporária passa, nomeadamente,: (1) Pelo BCE ou FEEF assumirem a função de " emprestador de último recurso" (lender of last resort") ; (2) Renegociar a Dívida com o objectivo de alargar os prazos de amortização e reduzir taxas; (3) Obter "ajuda" do FMI/UE nos moldes impostos à Grécia e Irlanda, o que conduziria a um espiral interminável de medidas de austeridade que atirariam o País para recessão prolongada com consequências económicas e sociais graves.
O endividamento vertiginoso do Pais resulta do elevado e constante défice anual das contas externas portuguesas. Só no período 2006-2010, Portugal acumulou na Balança de Pagamentos Correntes, ou seja, nas transacções com o exterior um saldo negativo de -89.849 milhões €. Isto significa que Portugal teve de pagar ao exterior mais 89.849 milhões € do que recebeu do estrangeiro. A resolução deste problema passa pelo aumento da produção nacional de bens transaccionáveis. E contrariamente ao que tem sido a politica do governo, e ao defendido pelo PS (consta do seu programa eleitoral) e do que defende o PSD essa produção deve ser, em primeiro lugar, orientada para substituir as importações e, só depois, para aumentar as exportações. Isso obriga a uma inversão de todos os programas governamentais orientados quase exclusivamente para o aumento das exportações. Basta analisar as importações portuguesas por produtos para concluir que existem imensas potencialidades que não têm sido exploradas.
É urgente inverter a politica de crédito da banca em Portugal que tem promovido a especulação e o consumismo, em prejuízo das actividades produtivas. E mais quando o crédito é escasso. O credito à Agricultura e Indústria (Extractiva e Transformadora), actividades produtivas por excelência representava apenas 7,2% do crédito total em 2005 e 6,6% em 2010, enquanto que, em 2010, o credito à empresas de Construção representava 9,4% do total, ao Imobiliário 6,4%, o crédito à Habitação correspondia a 44,4% e ao consumo 6,1%. A própria CGD, apesar de ser um banco do Estado, tem participado activamente nesta politica. Em 2010, o credito da Caixa à Agricultura, Pesca, Indústria Transformadora representava apenas 6,2% do crédito concedido, enquanto às empresas de Construção e Obras Publicas representava 7,9% e à Habitação e Consumo 50,7%. É urgente inverter toda esta política, começando pela CGD que se tem de transformar num banco de fomento da actividade produtiva, nomeadamente de bens transaccionáveis destinados à substituição de importações
É possível aumentar as receitas do Estado sem aumentar impostos. Para conseguir isto bastava desenvolver um combate eficaz à evasão e fraude fiscal e contributiva, eliminar benefícios fiscais injustos que continuam a gozar os grupos económicos e financeiros, assim como inúmeras isenções. Segundo estimativas realizadas, entre 2005 e 2009, em cinco anos, a evasão e fraude fiscal atingiu 25.141 milhões €, e a fraude e evasão contributiva, e isenções determinaram que a Segurança Social tenha perdido um volume de receita que avaliamos em 14.595 milhões €. Somando estes dois valores, o Estado perdeu um volume de receita que, no período 2005/2009, deve ter atingido 39.736 milhões €, o que dá uma média de 7.947 milhões € por ano.
É urgente renegociar as Parcerias Públicas Privadas, eliminando a taxa de disponibilidade e obrigando os privados a partilhar os riscos pois actualmente, eles têm lucros assegurados à custa do OE. É urgente assinar contratos de serviços públicos com as empresas de transportes com o objectivo de definir as responsabilidades do Estado e combater a má gestão. É urgente desenvolver um esforço planeado sistemático para identificar desperdício e subutilização de meios que continua a existir na Administração Pública (SNS, Institutos, EP, etc.). É necessário que os portugueses que financiam com os seus impostos o ensino em Portugal participem no debate já que o sistema actual não serve as necessidades de desenvolvimento do País (65% dos empregados continuam a ter o ensino básico ou menos), e ele não é uma reserva do ME, MCES, alunos e professores.
O endividamento vertiginoso do Pais resulta do elevado e constante défice anual das contas externas portuguesas. Só no período 2006-2010, Portugal acumulou na Balança de Pagamentos Correntes, ou seja, nas transacções com o exterior um saldo negativo de -89.849 milhões €. Isto significa que Portugal teve de pagar ao exterior mais 89.849 milhões € do que recebeu do estrangeiro. A resolução deste problema passa pelo aumento da produção nacional de bens transaccionáveis. E contrariamente ao que tem sido a politica do governo, e ao defendido pelo PS (consta do seu programa eleitoral) e do que defende o PSD essa produção deve ser, em primeiro lugar, orientada para substituir as importações e, só depois, para aumentar as exportações. Isso obriga a uma inversão de todos os programas governamentais orientados quase exclusivamente para o aumento das exportações. Basta analisar as importações portuguesas por produtos para concluir que existem imensas potencialidades que não têm sido exploradas.
É urgente inverter a politica de crédito da banca em Portugal que tem promovido a especulação e o consumismo, em prejuízo das actividades produtivas. E mais quando o crédito é escasso. O credito à Agricultura e Indústria (Extractiva e Transformadora), actividades produtivas por excelência representava apenas 7,2% do crédito total em 2005 e 6,6% em 2010, enquanto que, em 2010, o credito à empresas de Construção representava 9,4% do total, ao Imobiliário 6,4%, o crédito à Habitação correspondia a 44,4% e ao consumo 6,1%. A própria CGD, apesar de ser um banco do Estado, tem participado activamente nesta politica. Em 2010, o credito da Caixa à Agricultura, Pesca, Indústria Transformadora representava apenas 6,2% do crédito concedido, enquanto às empresas de Construção e Obras Publicas representava 7,9% e à Habitação e Consumo 50,7%. É urgente inverter toda esta política, começando pela CGD que se tem de transformar num banco de fomento da actividade produtiva, nomeadamente de bens transaccionáveis destinados à substituição de importações
É possível aumentar as receitas do Estado sem aumentar impostos. Para conseguir isto bastava desenvolver um combate eficaz à evasão e fraude fiscal e contributiva, eliminar benefícios fiscais injustos que continuam a gozar os grupos económicos e financeiros, assim como inúmeras isenções. Segundo estimativas realizadas, entre 2005 e 2009, em cinco anos, a evasão e fraude fiscal atingiu 25.141 milhões €, e a fraude e evasão contributiva, e isenções determinaram que a Segurança Social tenha perdido um volume de receita que avaliamos em 14.595 milhões €. Somando estes dois valores, o Estado perdeu um volume de receita que, no período 2005/2009, deve ter atingido 39.736 milhões €, o que dá uma média de 7.947 milhões € por ano.
É urgente renegociar as Parcerias Públicas Privadas, eliminando a taxa de disponibilidade e obrigando os privados a partilhar os riscos pois actualmente, eles têm lucros assegurados à custa do OE. É urgente assinar contratos de serviços públicos com as empresas de transportes com o objectivo de definir as responsabilidades do Estado e combater a má gestão. É urgente desenvolver um esforço planeado sistemático para identificar desperdício e subutilização de meios que continua a existir na Administração Pública (SNS, Institutos, EP, etc.). É necessário que os portugueses que financiam com os seus impostos o ensino em Portugal participem no debate já que o sistema actual não serve as necessidades de desenvolvimento do País (65% dos empregados continuam a ter o ensino básico ou menos), e ele não é uma reserva do ME, MCES, alunos e professores.
O que se passa na Síria?
Estende-se o domínio da manipulação
No momento em que centenas de sírios, civis e militares, acabam de tombar sob os tiros de franco atiradores financiados pelos saidiris e enquadrados pela CIA, os media ocidentais acusam o governo de Bachar el-Assad de disparar sobre a sua população e sobre as suas próprias forças policiais. Esta campanha de desinformação visa justificar uma possível intervenção militar ocidental. O filósofo Domenico Losurdo recorda que o método não é novo. Simplesmente, os novos meios de comunicação tornaram-no mais refinado. Doravante, a mentira não é veiculada apenas pela imprensa escrita e audiovisual, ela passa também pelo Facebook e o YouTube.
No momento em que centenas de sírios, civis e militares, acabam de tombar sob os tiros de franco atiradores financiados pelos saidiris e enquadrados pela CIA, os media ocidentais acusam o governo de Bachar el-Assad de disparar sobre a sua população e sobre as suas próprias forças policiais. Esta campanha de desinformação visa justificar uma possível intervenção militar ocidental. O filósofo Domenico Losurdo recorda que o método não é novo. Simplesmente, os novos meios de comunicação tornaram-no mais refinado. Doravante, a mentira não é veiculada apenas pela imprensa escrita e audiovisual, ela passa também pelo Facebook e o YouTube.
O problema da dívida do Brasil não foi resolvido
no governo Lula agravou-se ainda mais
Maria Lucia Fattorelli (MLF) : O que destaco, antes de tudo, é a semelhança do processo de endividamento em todas as experiências relatadas pelos representantes das diversas partes do mundo, e o impacto do endividamento nas economias, não somente nos países do Sul, aprisionados em um processo histórico de dominação e exploração, mas também, mais recentemente, nos países europeus. Além dos contatos e importante troca com as pessoas vindas das quatro partes do mundo – o que é fundamental para enriquecer nossas lutas – as atividades organizadas pelo CADTM permitiram ajudar a identificar tendências, tal como o avanço do privilégio do setor financeiro, e pontos importantes ao nível de análise política. O primeiro ponto, em minha opinião, é o processo global de transformação da dívida externa em interna. Esta dívida chamada de interna encontra-se, de fato, nas mãos dos estrangeiros, o que nos obriga a rever o conceito de dívida interna. A dívida interna é, de alguma forma, a nova face da dívida externa. Outro ponto a ser lembrado: a transferência líquida de capitais dos países do Sul para os países do Norte, o que mostra que a dívida não foi usada para financiar investimentos, mas que ela funciona, ao contrário, como um mecanismo de extração das riquezas do Sul, que em muitos casos, acabam nos bolsos dos bancos privados. Além disso, esses países do Sul sofreram e sofrem ainda os efeitos da crise financeira que exacerbou problemas sociais, como salientaram os testemunhos dos delegados do CADTM presentes.
Maria Lucia Fattorelli (MLF) : O que destaco, antes de tudo, é a semelhança do processo de endividamento em todas as experiências relatadas pelos representantes das diversas partes do mundo, e o impacto do endividamento nas economias, não somente nos países do Sul, aprisionados em um processo histórico de dominação e exploração, mas também, mais recentemente, nos países europeus. Além dos contatos e importante troca com as pessoas vindas das quatro partes do mundo – o que é fundamental para enriquecer nossas lutas – as atividades organizadas pelo CADTM permitiram ajudar a identificar tendências, tal como o avanço do privilégio do setor financeiro, e pontos importantes ao nível de análise política. O primeiro ponto, em minha opinião, é o processo global de transformação da dívida externa em interna. Esta dívida chamada de interna encontra-se, de fato, nas mãos dos estrangeiros, o que nos obriga a rever o conceito de dívida interna. A dívida interna é, de alguma forma, a nova face da dívida externa. Outro ponto a ser lembrado: a transferência líquida de capitais dos países do Sul para os países do Norte, o que mostra que a dívida não foi usada para financiar investimentos, mas que ela funciona, ao contrário, como um mecanismo de extração das riquezas do Sul, que em muitos casos, acabam nos bolsos dos bancos privados. Além disso, esses países do Sul sofreram e sofrem ainda os efeitos da crise financeira que exacerbou problemas sociais, como salientaram os testemunhos dos delegados do CADTM presentes.
Cinco causas da revolta árabe
Quais são as causas do vendaval de liberdade que, de Marrocos ao Bahrein, passando pela Tunísia, pela Líbia e pelo Egipto, sopra sobre o mundo árabe? Por que motivos estas ânsias simultâneas de democracia se expressam precisamente agora?
A estas duas perguntas, as respostas são de diversa índole: histórica, política, económica, climática e social.
A estas duas perguntas, as respostas são de diversa índole: histórica, política, económica, climática e social.
Os imigrantes, órfãos da globalização
A situação dos trabalhadores imigrantes é das mais significativas do mundo contemporâneo. A desregulamentação promovida pelo neoliberalismo permitiu o deslocamento dos capitais para qualquer parte do mundo que, por sua vez, pôde engajar força de trabalho nas melhores condições para eles.
Para tomar casos concretos de países que mais exportam mão-de-obra no nosso continente, El Salvador e Equador dolarizaram as suas moedas, com as correspondentes consequências dramáticas que introduziram. Seguiram as indicações do FMI e tornaram-se vítimas privilegiadas do livre comércio. As suas economias foram abertas, a sua economia dolarizada, com um empobrecimento acelerado de toda a população e imigração maciça dos seus trabalhadores, buscando emprego e fontes de renda para envio às suas famílias.
Para tomar casos concretos de países que mais exportam mão-de-obra no nosso continente, El Salvador e Equador dolarizaram as suas moedas, com as correspondentes consequências dramáticas que introduziram. Seguiram as indicações do FMI e tornaram-se vítimas privilegiadas do livre comércio. As suas economias foram abertas, a sua economia dolarizada, com um empobrecimento acelerado de toda a população e imigração maciça dos seus trabalhadores, buscando emprego e fontes de renda para envio às suas famílias.
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