Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
sábado, outubro 04, 2014
Festival Crato 2014: alegria na Educação
Concurso transformado em sorteio devido a um erro na fórmula, Ministro assume erro e pede perdão em vez de pedir a demissão que se impunha. Milhares de professores colocados apresentados aos alunos apesar do erro assumido, Ministro diz que nenhum professor será prejudicado. Professores colocados ao acaso a dar aulas há três semanas, Ministro envia ordem aos directores de escola para revogarem listas e anularem colocação de professores. Dança De Professores E De Direitos Adquiridos: “tu vais dar aulas para ali, tu não vais dar aulas para lado nenhum e tu vais dar aulas para acolá”, “afinal eu é que sou o vosso professor, aquele de quem vocês gostavam foi para bem longe”. E o Ministro não se demite.
DAQUI
O Pedro Manuel
Observemos o nosso primeiro-ministro, para além da
contingência do cargo que ocupa e das manigâncias ocultas do seu passado;
observemos como ele se revelou desde o primeiro momento, para além dos gestos e
dos discursos oficiais e protocolares; observemo-lo como figura ou tipo e
chamemos-lhe Pedro Manuel, como se fosse uma personagem literária — um Bloom de
Joyce, um Mr. Teste de Valéry, um Franz Biberkopf de Döblin, um Marcovaldo de
Calvino. O nosso Pedro Manuel tem traços de todos eles, mas não coincide inteiramente
com nenhum. Tem escassas potencialidades romanescas, mas consegue oferecer
matéria suficiente para um diagnóstico epocal, na medida em que é o triste
produto do tempo do homem-massa e o engendramento catastrófico do fim de todos
os encantamentos políticos, ideológicos e sociais. É o homem liso, da platitude
inerente às formações de uma sociedade homogénea. Se tem alguma aura, é a aura
pornográfica da massa contemporânea. É o homem alienado? Não, é o homem da
condição estatística, da indiferença, da impessoalidade. A sua presença é tão
espectral que não é possível ver nele senão a presença de uma ausência. E até a
sua voz de barítono, mas sem grão, e o tom de recitação com que debita são
desprovidos de corpo e de mistério. Enquanto figura ou tipo, isto é, naquilo
que tem de comum a tantos outros à sua volta e lhe absorve qualquer pretensão
de singularidade, o Pedro Manuel é a encarnação do “último homem” de Nietzsche,
sobre o qual se abateu a pobreza inerente a um niilismo completo. É, digamos
assim, um homem pós-histórico, que vive como se estivesse desde sempre morto.
Pedro Manuel é o nome de um homem anónimo que surgiu não há muito tempo à
superfície do planeta, um homem sem substância (o que não é exactamente o mesmo
que o “homem sem qualidades”, de Musil, que era ao mesmo tempo um conjunto de
qualidades sem homem). É um representante perfeito da pequena burguesia
planetária que herdou o mundo e da qual um eminente filósofo disse que ela era
a forma sob a qual a humanidade vai ao encontro da sua destruição. Esta pequena
burguesia, na realidade, não é uma classe, é apenas uma massa. Enquanto
governante ao mais alto nível, é legítimo pedir-lhe contas sobre o seu passado,
mas exigir tal coisa ao Pedro Manuel é completamente inadequado: ele não tem mais
espessura do que aquela que o confina a um eterno presente. E há-de morrer como
alguém que nada aprendeu, em que o “não quero nada, não sei nada e não tenho
nada”, muito embora pareça coincidir com um altíssimo conceito de pobreza, de
amplitude metafísica, que vem da Idade Média, do Mestre Eckhart, corresponde
antes à miséria do Nada que se mascara. É uma fantasmagórica vacuidade que traz
consigo uma única mensagem: nada nos pode defender da trivialidade, da
proliferação daninha de Pedros Manueis. A condição política de onde eles
emergem é destituída de toda a grandeza, incaracterística, triste como a carne
e sem sinais luminosos que assinalem o nosso horizonte. O contrário desta
condição, o homem que devemos opor ao Pedro Manuel, não é aquele que foi tantas
vezes solicitado pelo culto dos heróis e que vem para se erguer acima dos
outros, para os guiar. A nova pobreza de que o Pedro Manuel é o nome não deve
ser erradicada em nome de nostálgicas grandezas, a única coisa que devemos
exigir é não sermos espoliados pelo Nada e determinados pela condição póstuma
do último homem, que infelizmente não encarnou apenas no Pedro Manuel. Pedro
Manuel é nome de legião e Massamá é o espaço interior do mundo.
O EUFEMISMO "PALAVRA DE CRATO" VALE QUANTOS MINUTOS?
O professor colocado a 12 de Setembro na BCE a 300 Kms de casa, ouviu as garantias do ministro, pagou os dois meses de aluguer da casa, matriculou os dois filhos pequenos perto da nova escola e hoje disseram-lhe que passasse nos serviços administrativos. O assistente administrativo, e talvez para aligeirar o ambiente, sentenciou: "O professor tem que assinar este papel de despedimento".
Não gosto de fulanizar, mas, que raio, há coisas de bradar. A pessoa que ontem tomou posse e que assinou esta sentença é militante do PSD. Contudo, em 2010 andava pelo "Novo Rumo" do PS.
A confiança dos professores na palavra do MEC desceu a um grau impensável. Já nem um contrato para um ano consegue um mês de garantia.
sexta-feira, outubro 03, 2014
Audiência póstuma
Foram hoje conhecidos os resultados da audiência prévia, ou seja das reclamações apresentadas à avaliação da FCT/ESF. Das 154 unidades chumbadas 131 reclamaram, ou seja 85% das unidades que não passaram à segunda fase de avaliação acharam que a sua classificação não foi justa. Apesar das promessas da FCT corrigir os "eventuais erros da avaliação" no âmbito da audiência prévia (a que está obrigada por lei), apenas mais 10 unidades passam à segunda fase e terão possibilidade de ter acesso a um patamar de financiamento que lhes permita funcionar. Nada muda com os resultados da audiência prévia, nem a retórica oca da FCT em defesa da avaliação, que se resume a declarações pomposas de nobres intenções (ao bom estilo de Passos Coelho), sem responder a nenhuma das questões ou argumentos objectivos levantados por uma miríade de investigadores e outros cidadãos, muitos expressas ou transcritas neste blogue. A FCT continua a fingir que as quotas para passagem à segunda fase não existem, quando isso está claramente expresso no contracto que firmou com a ESF em três locais (e só isso basta para que a avaliação seja uma farsa completa). Foi, como se esperava, uma audiência póstuma.
DAQUI
O PS de Costa — renovar a ilusão
Não faltaram frases grandiloquentes para enaltecer a vitória de António Costa na arrastada disputa interna travada no PS. “Nova esperança”, “o princípio do fim deste governo”, “o PS de novo alinhado com o povo” são algumas das tiradas que tentam projectar o novo líder e fazer crer que depende dele virar o país do avesso.
Todo este discurso não pretende mais do que renovar nos eleitores a ilusão de que o PS é a alternativa à parelha Coelho-Portas e à austeridade. É, por isso mesmo, um discurso de curta duração e de curto alcance.
Todo este discurso não pretende mais do que renovar nos eleitores a ilusão de que o PS é a alternativa à parelha Coelho-Portas e à austeridade. É, por isso mesmo, um discurso de curta duração e de curto alcance.
Antes de mais, importa lembrar este facto simples de que a disputa interna no PS e a ascensão de Costa contra Seguro se deveu ao descrédito geral que atingiu o PS. Ninguém efectivamente já acredita, pelo que foi visto nos últimos três anos, que o PS seja muito diferente da dupla PSD-CDS. E os que têm memória lembram-se perfeitamente dos PEC de Sócrates que abriram caminho à austeridade, e depois à troika e ao governo de Passos Coelho.
Conhecido este lastro, uma parte do PS percebeu que, ao ritmo de Seguro, o partido se arriscava a perder as próximas eleições ou a ganhá-las por pouco — e a ficar em qualquer dos casos em maus lençóis: ou afundar-se ainda mais perante a opinião pública e tornar-se irrelevante, ou arcar com um governo frágil, sem vontade própria e final a prazo.
Foi contra estes riscos que a onda oposicionista de Costa se levantou, revestindo-se, claro está, com o discurso do interesse nacional e popular.
Conhecido este lastro, uma parte do PS percebeu que, ao ritmo de Seguro, o partido se arriscava a perder as próximas eleições ou a ganhá-las por pouco — e a ficar em qualquer dos casos em maus lençóis: ou afundar-se ainda mais perante a opinião pública e tornar-se irrelevante, ou arcar com um governo frágil, sem vontade própria e final a prazo.
Foi contra estes riscos que a onda oposicionista de Costa se levantou, revestindo-se, claro está, com o discurso do interesse nacional e popular.
Esta motivação primeira da disputa interna permite perceber que o propósito da facção Costa é, acima de tudo, o de reabilitar o PS como partido de poder e de governo — e nesse sentido estrito constituir alternativa ao PSD. Quanto à política, logo se verá…
Sintomático disto mesmo é o facto, destacado com espanto por muitos ingénuos que esperavam por novos programas de acção, de as propostas políticas dignas desse nome não terem aparecido, nem contra Seguro, nem contra o governo.
Sintomático disto mesmo é o facto, destacado com espanto por muitos ingénuos que esperavam por novos programas de acção, de as propostas políticas dignas desse nome não terem aparecido, nem contra Seguro, nem contra o governo.
Está pois em curso a renovação de uma ilusão: a de que o PS é a alternativa a Passos Coelho e à austeridade. Ou, dito de forma mais tradicional: a de que o PS é “a alternativa à direita”.
A questão que se põe à esquerda anticapitalista é a de saber porque se renova ciclicamente esta ilusão, que tem tanta idade como a dos governos constitucionais.
A questão que se põe à esquerda anticapitalista é a de saber porque se renova ciclicamente esta ilusão, que tem tanta idade como a dos governos constitucionais.
A resposta, quanto a nós é esta: a acção reivindicativa e política dos trabalhadores tem vivido, há quase 40 anos, na dependência estratégica do PS — na esperança sempre baldada de o fazer pender para a esquerda e de, com esse expediente de baixo custo, forjar “uma maioria” que permitisse dar curso a uma política popular, à imagem do 25 de Abril. Esquece quem assim pensa que, naquela altura, era o movimento dos trabalhadores que tinha a iniciativa, que ousava agir por si próprio contra o domínio do capital e contra o sistema político, coagindo o patronato e os governos a abrir mão de concessões. Foi isso que, por breve período, fez do PS “esquerda”.
Aquela dependência continuará enquanto o PS não for considerado como aquilo que efectivamente é: um partido do patronato, do capital — e portanto da direita — como a prática política de décadas tem mostrado.
A febre de alianças que atinge regularmente todos os partidos e partidecos da esquerda demonstra isto mesmo, e ajuda a renovar (por pouco tempo, é certo) essa imagem “de esquerda”, que agora inevitavelmente recai sobre António Costa.
A febre de alianças que atinge regularmente todos os partidos e partidecos da esquerda demonstra isto mesmo, e ajuda a renovar (por pouco tempo, é certo) essa imagem “de esquerda”, que agora inevitavelmente recai sobre António Costa.
A esquerda tem de se dispor a essa coisa elementar que é erguer um movimento anticapitalista, com base nos trabalhadores, politicamente independente das forças do poder. É segundo este prisma que os Coelhos ou os Portas, mas também os Costas, podem ser justamente avaliados.
Princípio da igualdade: se o Belmiro pode, o Ricardo também pode
A pedido da empresa do Grupo Espírito Santo (GES) proprietária daquele hospital, a Espírito Santo - Unidades de Saúde (ESUS), que as solicitou por escrito em 2009, quando a câmara já estava a preparar uma revisão do plano que não as contemplava, António Costa aprovou em 2013 dois projectos de obras do Hospital da Luz, uma ampliação e um parque de estacionamento, quase um ano antes de entrarem em vigor as alterações ao plano de pormenor necessário para dar luz verde ao segundo sem violar o PDM. Responda quem souber: se o leitor se puser a construir um parque de estacionamento num local não previsto para esse efeito no PDM, o que é que lhe acontece? Exactamente o mesmo que lhe aconteceria se solicitasse o encerramento da principal artéria da capital para aí fazer um mega picnic. Mas a construção do novo parque de estacionamento subterrâneo de apoio ao hospital da Luz está quase concluída. A tradição do centrão continua a ser a que os votos quiserem. Toca a agradecer.
DAQUI
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Manifestação no dia 5 de Outubro
«Se a Escola Pública está a ser atacada a um ritmo sem precedentes (o que compromete cada vez o desenvolvimento e os sonhos das nossas crianças e jovens) não podemos continuar com as tradicionais formas de luta das últimas décadas. Por isso no dia Mundial do Professor a 5 de Outubro, o Movimento Nacional de Professores Boicote&Cerco apela a que se juntem TODOS em defesa de uma Escola Pública de qualidade. Professores, funcionários escolares, psicólogos, encarregados de educação e alunos devem seguir o exemplo de união demonstrado entre alunos e professores no dia 25 Setembro em Lisboa à frente do MEC e de dia 26 Setembro em Sta Maria da Feira na Escola Fernando Pessoa protestando contra o Ministro Nuno Crato.
SE O CRATO NÃO NOS DEIXA SONHAR, NÃO O DEIXAREMOS DORMIR! Dia 5 de Outubro junta-te à coluna do Boicote&Cerco e façamos história com uma grande manifestação de TODA a sociedade em defesa da Escola Pública! CONVIDEM TODAS AS PESSOAS! Mais informações em: https://www.facebook.com/ groups/boicote.cerco/»
quinta-feira, outubro 02, 2014
Treta da semana (passada): a careca é uma cor de cabelo
A crítica de Rui Ramos ao ateísmo de Stephen Hawking segue a fórmula do costume. Primeiro, se Hawking «acredita que Deus não existe» então, tal como o crente em Deus, tem «fé, embora diversa – a fé na inexistência de Deus.» Depois, que chegou à sua conclusão da mesma forma que o crente:«A questão é determinar de que modo, entre a fé em Deus e a fé na inexistência de Deus, Hawking passa de uma margem para a outra. A sua ponte não é o cepticismo, mas a ciência, ou melhor, uma variante muito especial da experiência científica, que funciona de facto como o equivalente laico da fé religiosa.» Finalmente, que a atitude de Hawking para com a ciência é igual à de qualquer crente.«Hawking sente pela ciência a devoção que qualquer beato dispensa ao seu todo-poderoso ídolo»(1).
Esta forma de criticar o ateísmo sempre me pareceu estranha pela admissão implícita de que a crença em Deus é estapafúrdia. Não é que discorde. Concordo inteiramente que é um disparate formar crenças acerca da realidade por meio da fé e da devoção beata. Mas é estranho julgarem que a falta de fundamento epistémico da crença religiosa é um bom argumento contra o ateísmo. No entanto, mais interessante é perceber porque é que as alegações de Ramos são falsas.
A fé não é o mesmo que a crença. Acreditar é simplesmente aceitar uma proposição como verdadeira enquanto que a fé é um compromisso pessoal de fidelidade e perseverança para com certas ideias (2). É perfeitamente possível acreditar sem fé. Eu acredito que Deus não existe da mesma forma como acredito que a Terra se formou há 4.5 mil milhões de anos, sem sentir qualquer dever de fidelidade para com estas proposições. E é também possível ter fé sem ter crença se a fidelidade a uma ideia não bastar para que se consiga acreditar. A confusão de Ramos entre fé e crença atropela a diferença entre a devoção do crente aos princípios da sua religião e a forma descomprometida como todos regularmente adoptamos e descartamos crenças conforme julgamos conveniente.
O contexto destas crenças também é diferente. A ciência procura a melhor explicação para os dados de que se dispõe. É verdade que isto só resulta se houver dados suficientes e, por isso, a ciência só começou a ter sucesso nos últimos séculos; sem saber nada sobre decaimento radioactivo, a erosão ou a formação do sistema solar não havia razões para acreditar que a Terra tinha 4.5 mil milhões de anos em vez de só dez mil. Mas, com o que sabemos agora, a melhor explicação fica tão entalada na estrutura interligada de observações e outras explicações que, a menos de uma pequena margem de erro, só o valor de 4.5 mil milhões de anos pode ser aceite.
A crença de que um deus inteligente e bondoso criou a Terra por milagre não sofre destas restrições. Em geral, os preceitos de cada religião são arbitrários e podiam ser qualquer coisa. Se criou tudo por milagre, tanto podia ter criado o universo há treze mil milhões de anos como podia ter criado tudo há dez mil anos em sete dias ou em sete minutos na sexta-feira passada. Milagre por milagre, também podia ter criado os fósseis, os vestígios de erosão e até as memórias que cada um de nós tem. Sem qualquer suporte empírico, só a fé leva o crente a decidir que a sua crença é mais acertada do que as dos outros.
O processo também é muito diferente. A ciência não é um «equivalente laico da fé religiosa». A ciência progride explorando e testando alternativas. É este processo de rejeitar o que se revela incorrecto que vai apertando o cerco às explicações admissíveis, deixando cada vez menos elementos arbitrários. Nas religiões, o primeiro passo consiste em afirmar algo como Verdade. E pronto. O resto é teólogos a inventar desculpas para as inconsistências e arbitrariedade da escolha inicial (3). É verdade, como menciona Ramos, que houve «séculos de meditação e de debate» acerca de Deus e outros deuses. Mas o debate e a meditação são inúteis se não se está disposto a descartar as hipóteses erradas.
Hoje é evidente que os deuses são mera ficção porque qualquer coisa que se tente explicar invocando um deus explica-se melhor rejeitando esse deus como fantasia, desde a formação das galáxias e a origem das espécies à existência do mal e a diversidade das religiões. Também não é a «pobreza da [...] concepção de Deus» que faz diferença porque, por muito “rica” que seja, é uma concepção arbitrária, infundada e inútil para explicar seja para o que for. A ciência eliminou os deuses de todas as explicações para o universo que nos rodeia. Sobraram apenas as alegações que os crentes mantêm por fé. Mas, antes de nos metermos pela metafísica da existência dos deuses na premissa de que estas alegações correspondem à realidade, devemos primeiro determinar se é preciso deuses para explicar a fé dos crentes. Também aqui a ciência responde pela negativa. Há evidências claras de que é muito fácil aos seres humanos agarrarem-se a superstições e que a intensidade desse apego não é indicador fiável da verdade das crenças.
Não é preciso idolatrar a ciência para perceber que a fé não serve para compreender a realidade. É precisamente isso que Ramos argumenta contra Hawking, errando apenas por presumir que a posição de Hawking deriva da fé. Mas não é preciso fé para concluir que os deuses são tão fictícios quanto os unicórnios, os fantasmas e os dragões. Basta fazer o puzzle com as peças que encaixam.
1- Rui Ramos, O deus de Stephen Hawking
2- Catholic Encyclopedia, Faith.
3- A propósito disto, recomendo esta palestra de David Deutsch na TED: A new way to explain explanation
DAQUI
Esta forma de criticar o ateísmo sempre me pareceu estranha pela admissão implícita de que a crença em Deus é estapafúrdia. Não é que discorde. Concordo inteiramente que é um disparate formar crenças acerca da realidade por meio da fé e da devoção beata. Mas é estranho julgarem que a falta de fundamento epistémico da crença religiosa é um bom argumento contra o ateísmo. No entanto, mais interessante é perceber porque é que as alegações de Ramos são falsas.
A fé não é o mesmo que a crença. Acreditar é simplesmente aceitar uma proposição como verdadeira enquanto que a fé é um compromisso pessoal de fidelidade e perseverança para com certas ideias (2). É perfeitamente possível acreditar sem fé. Eu acredito que Deus não existe da mesma forma como acredito que a Terra se formou há 4.5 mil milhões de anos, sem sentir qualquer dever de fidelidade para com estas proposições. E é também possível ter fé sem ter crença se a fidelidade a uma ideia não bastar para que se consiga acreditar. A confusão de Ramos entre fé e crença atropela a diferença entre a devoção do crente aos princípios da sua religião e a forma descomprometida como todos regularmente adoptamos e descartamos crenças conforme julgamos conveniente.
O contexto destas crenças também é diferente. A ciência procura a melhor explicação para os dados de que se dispõe. É verdade que isto só resulta se houver dados suficientes e, por isso, a ciência só começou a ter sucesso nos últimos séculos; sem saber nada sobre decaimento radioactivo, a erosão ou a formação do sistema solar não havia razões para acreditar que a Terra tinha 4.5 mil milhões de anos em vez de só dez mil. Mas, com o que sabemos agora, a melhor explicação fica tão entalada na estrutura interligada de observações e outras explicações que, a menos de uma pequena margem de erro, só o valor de 4.5 mil milhões de anos pode ser aceite.
A crença de que um deus inteligente e bondoso criou a Terra por milagre não sofre destas restrições. Em geral, os preceitos de cada religião são arbitrários e podiam ser qualquer coisa. Se criou tudo por milagre, tanto podia ter criado o universo há treze mil milhões de anos como podia ter criado tudo há dez mil anos em sete dias ou em sete minutos na sexta-feira passada. Milagre por milagre, também podia ter criado os fósseis, os vestígios de erosão e até as memórias que cada um de nós tem. Sem qualquer suporte empírico, só a fé leva o crente a decidir que a sua crença é mais acertada do que as dos outros.
O processo também é muito diferente. A ciência não é um «equivalente laico da fé religiosa». A ciência progride explorando e testando alternativas. É este processo de rejeitar o que se revela incorrecto que vai apertando o cerco às explicações admissíveis, deixando cada vez menos elementos arbitrários. Nas religiões, o primeiro passo consiste em afirmar algo como Verdade. E pronto. O resto é teólogos a inventar desculpas para as inconsistências e arbitrariedade da escolha inicial (3). É verdade, como menciona Ramos, que houve «séculos de meditação e de debate» acerca de Deus e outros deuses. Mas o debate e a meditação são inúteis se não se está disposto a descartar as hipóteses erradas.
Hoje é evidente que os deuses são mera ficção porque qualquer coisa que se tente explicar invocando um deus explica-se melhor rejeitando esse deus como fantasia, desde a formação das galáxias e a origem das espécies à existência do mal e a diversidade das religiões. Também não é a «pobreza da [...] concepção de Deus» que faz diferença porque, por muito “rica” que seja, é uma concepção arbitrária, infundada e inútil para explicar seja para o que for. A ciência eliminou os deuses de todas as explicações para o universo que nos rodeia. Sobraram apenas as alegações que os crentes mantêm por fé. Mas, antes de nos metermos pela metafísica da existência dos deuses na premissa de que estas alegações correspondem à realidade, devemos primeiro determinar se é preciso deuses para explicar a fé dos crentes. Também aqui a ciência responde pela negativa. Há evidências claras de que é muito fácil aos seres humanos agarrarem-se a superstições e que a intensidade desse apego não é indicador fiável da verdade das crenças.
Não é preciso idolatrar a ciência para perceber que a fé não serve para compreender a realidade. É precisamente isso que Ramos argumenta contra Hawking, errando apenas por presumir que a posição de Hawking deriva da fé. Mas não é preciso fé para concluir que os deuses são tão fictícios quanto os unicórnios, os fantasmas e os dragões. Basta fazer o puzzle com as peças que encaixam.
1- Rui Ramos, O deus de Stephen Hawking
2- Catholic Encyclopedia, Faith.
3- A propósito disto, recomendo esta palestra de David Deutsch na TED: A new way to explain explanation
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Nuno Crato está a cumprir!!!
Nuno Crato está a cumprir!!! Temos que ser justos: Nuno Crato prometeu implodir o Ministério da Educação e todos os dias temos confirmações. Desta vez é a plataforma informática que "não aguentou o tráfego e pode deixar os alunos do ensino superior sem um mês de bolsa".
quarta-feira, outubro 01, 2014
Populista, graças a Deus
E se, em vez do veneno e a queda no abismo que nos apregoam os comentadores avalisados, o populismo fosse a solução necessária para sair desta crise?
Há uma acusação que circula no combate político: quando alguém quer desqualificar o adversário apoda-o de "populista". Aparentemente, o grande perigo que as nossas sociedade correm não é estarem em crise; não é a política ser monopólio dos poderosos; não é a economia estar fora da área de decisão dos cidadãos; não é a corrupção ser um mecanismo normal de funcionamento do sistema; não é a destruição do Estado social, que foi conquistado pela luta gerações; não é as pessoas serem enviadas para a pobreza sem retorno; não é os jovens serem obrigados a emigrar e os velhos empurrados para a morte - o que é verdadeiramente grave para os habituais comentadores é a subida do "populismo" na Europa.
É importante esclarecer o seguinte: nós precisamos do populismo como de pão para a boca. Dito de outra forma, a nossa situação de crise social, política e económica deriva da existência de um regime que serve unicamente uma pequena elite. A crise é o nome de uma máquina de guerra, de alguns, que transformou uma sociedade injusta numa ainda mais desigual, a pretexto dessa mesma crise.
A razão por que 99% da população está muito mais pobre e 1% mais rica, e desta 0,01% riquíssima, é que o poder na sociedade está nas mãos dessa imensa minoria.
Mais que medidas pontuais, o que é necessário é reverter este processo: o poder numa sociedade não pode estar nas mão de uma minoria para satisfazer os interesses de uma casta política e económica que vive dos lucros de negócios garantidos suportados pelos contribuintes. Para isso é necessária uma ruptura populista que inverta a lógica do poder. Necessitamos de uma democracia que seja exercida pela maioria da população e sirva os seus interesses, e não de um regime que tem como única preocupação a salvação dos credores e dos especuladores.
No seu livro "A Razão Populista" (2005), o pensador Ernesto Laclau escalpeliza as premissas elitistas que estão por trás da associação, antidemocrática, que identifica o "povo" com as baixas paixões que podem ser convocadas pelos demagogos e defende que a ameaça à democracia contemporânea não está neste sobressalto plebeu, mas no estreitamento oligárquico da democracia por minorias que escapam ao controlo popular.
Neste momento de crise há a possibilidade de convocar uma ruptura populista que não tenha nada que ver com os populismos xenófobos que identificam o inimigo com o emigrante do lado ou os elos mais fracos da sociedade, mas que articule identidades populares para se constituírem em oposição aos verdadeiros e poderosos inimigos desta democracia: um regime de casta que serve sempre os mesmos e se disfarça por uma mera alternância eleitoral.
Como defende Marco d'Eramo no seu artigo "O populismo e a nova oligarquia", na "New Left Review" n.o 82, citado pelo politólogo Iñigo Errejón, a Europa atravessa um momento significativo em que a ofensiva oligárquica avança com a sua estratégia de empobrecimento e é preciso reivindicar uma verdadeira política que dê voz à maioria da sociedade para a construção do bem comum.
DAQUI
É importante esclarecer o seguinte: nós precisamos do populismo como de pão para a boca. Dito de outra forma, a nossa situação de crise social, política e económica deriva da existência de um regime que serve unicamente uma pequena elite. A crise é o nome de uma máquina de guerra, de alguns, que transformou uma sociedade injusta numa ainda mais desigual, a pretexto dessa mesma crise.
A razão por que 99% da população está muito mais pobre e 1% mais rica, e desta 0,01% riquíssima, é que o poder na sociedade está nas mãos dessa imensa minoria.
Mais que medidas pontuais, o que é necessário é reverter este processo: o poder numa sociedade não pode estar nas mão de uma minoria para satisfazer os interesses de uma casta política e económica que vive dos lucros de negócios garantidos suportados pelos contribuintes. Para isso é necessária uma ruptura populista que inverta a lógica do poder. Necessitamos de uma democracia que seja exercida pela maioria da população e sirva os seus interesses, e não de um regime que tem como única preocupação a salvação dos credores e dos especuladores.
No seu livro "A Razão Populista" (2005), o pensador Ernesto Laclau escalpeliza as premissas elitistas que estão por trás da associação, antidemocrática, que identifica o "povo" com as baixas paixões que podem ser convocadas pelos demagogos e defende que a ameaça à democracia contemporânea não está neste sobressalto plebeu, mas no estreitamento oligárquico da democracia por minorias que escapam ao controlo popular.
Neste momento de crise há a possibilidade de convocar uma ruptura populista que não tenha nada que ver com os populismos xenófobos que identificam o inimigo com o emigrante do lado ou os elos mais fracos da sociedade, mas que articule identidades populares para se constituírem em oposição aos verdadeiros e poderosos inimigos desta democracia: um regime de casta que serve sempre os mesmos e se disfarça por uma mera alternância eleitoral.
Como defende Marco d'Eramo no seu artigo "O populismo e a nova oligarquia", na "New Left Review" n.o 82, citado pelo politólogo Iñigo Errejón, a Europa atravessa um momento significativo em que a ofensiva oligárquica avança com a sua estratégia de empobrecimento e é preciso reivindicar uma verdadeira política que dê voz à maioria da sociedade para a construção do bem comum.
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