quinta-feira, dezembro 04, 2014

Dia de falar nisto

Hoje assinala-se o dia internacional das pessoas com deficiência. Assinala-se apenas, nada de comemorações. No Parlamento discute-se uma alegada reforma do IRS. Fala-se em reviravolta, que o Governo voltou atrás. Vamos todos pagar mais. Os deficientes também. Para quem não saiba, o agravamento da tributação dos rendimentos do trabalho das pessoas com deficiência começou antes daquele assalto  que afectou todos os demais, incluindo os próprios. A reviravolta no IRS dos portadores de deficiências deu-se em 2007, ironia socrática, o ano internacional da igualdade para todos. Os deficientes ficaram mais iguais a todos os não deficientes em sede fiscal.

Até 2007, procurou compensar-se esta população – são menos de 40 mil pessoas – pelas despesas que quem não é deficiente não tem que enfrentar, como sejam a alimentação do cão-guia do cego e o automóvel que o deficiente motor tem que adquirir porque os transportes públicos não estão adaptados para si, e pelas barreiras que uma sociedade que os discrimina lhes coloca na progressãonas suas carreiras  profissionais isentando os seus rendimentos do trabalho em sede de IRS até ao montante de um pouco mais de 13 mil euros. Desde então, essa isenção tem vindo progressivamente a ser reduzida e hoje não chega aos 2000 euros. Os deficientes que trabalham, e o desemprego afecta mais de 3 em cada 4 deficientes, não estão isentos sequer da taxa extraordinária de 3,5%. Os que não trabalham recebem uma pensão de miséria que ronda os 200 euros. Menos de um segundo de juros  dos que pagamos à troika.

 Contudo, a maior dificuldade que estes cidadãos enfrentam nada tem a ver com números. A maior das maiores, aquela que faz nascer muitas outras, é o constrangimento que este tema suscita a uma sociedade que se diz solidária mas que o ignora e se envergonha de dele falar abertamente. Será também o seu caso, caro leitor activista das redes sociais, que se sente incomodado quando esta realidade bate à porta da sua consciência mas privilegia causas mais em voga ou vídeos com gatinhos nas suas partilhas?


Afinal, não era nada para nós

Se bem percebo, as contrapartidas dos celebérrimos submarinos que todos pagámos serão quatro parques eólicos a construir brevemente para a Galp e para a Martifer, com lucros a repartir também por BPI, ING e Santander na proporção dos juros a pagar pelos 220 milhões que os três bancos emprestarão para financiar o investimento. Questão óbvia: e o que é que o Estado, isto é, todos nós, ganhará com esta coisa a que chamam "contrapartidas"? Eles respondem com os impostos gerados pelos empregos que os senhores farão o favor de criar para a seguir ganharem uma outra vez vendendo-nos a energia mais cara da Europa, que também subsidiamos através de um mecanismo de preço garantido mais elevado por ser "verde". Ele há grandes negócios.

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Ataque contínuo


quarta-feira, dezembro 03, 2014

Vá lá, todos a sair!...


Desafio aceite!...


Festividades...


Portugal dos pequeninos


ACUPUNCTURA E O RELATÓRIO DA OMS


Uma excelente análise da Leonor Abrantes, para ler no sítio da Comunidade Céptica Portuguesa, 
acerca de um dos argumentos de autoridade frequentemente usados para fazer a apologia científica da acupuntura:

Histórias sempre muito bem contadas (e com finais felizes)

Hoje é a greve dos tripulantes de cabine da TAP, mas poderia ser qualquer outra. O formato utilizado pela comunicação social para noticiar greves é sempre o mesmo.

1. Um dia de incomodidades vivido por passageiros, entrevistados às dezenas para comover quem ouve e quem lê, é invariavelmente sobrevalorizado relativamente aos muitos dias do resto das vidas de quem usa a arma que ainda tem à mão, a greve, para fazer valer os seus direitos e tentar evitar que o amanhã continue a tornar-se mais feio do que o hoje - no  que toca, recorrendo ao exemplo do dia, a abusos na sobrecarga de horários de trabalho que violam a lei e a mães em amamentação às quais a administração põe a voar à noite, outro atropelo à lei tornada possível pela ineficácia de uma Justiça lenta. Quem são os bandidos?

2. A história é contada num registo de “os irresponsáveis que fizeram greve provocaram prejuízos à entidade patronal de um número gordo de milhões” em vez de “a ganância da administração preferiu que a empresa perdesse o tal número gordo de milhões a recuar na sua intenção de avançar sobre a qualidade de vida e as condições de trabalho dos que tentam travar essa ofensiva, à qual a administração atribui um valor muito superior no longo prazo”. Quem são os bandidos?

3. No caso da greve de hoje, a sua convocação deve-se ao incumprimento do Acordo de Empresa,denunciado unilateralmente pela administração da TAP. Em todas as peças noticiosas existe uma omissão cuja ingenuidade deixo à avaliação de quem leia estas linhas, a da responsabilidade quer desse Governo “de esquerda” que, em Abril de 2008, introduziu na legislação laboral portuguesa a cláusula da caducidade das convenções colectivas ao fim de 10 anos na ausência de acordo entre entidade patronal e representantes dos trabalhadores na sua revisão, quer a do Governo de direita que lhe sucedeu, que aproveitou a porta que o antecessor lhe deixou aberta para progressivamente reduzir esse prazo até aos 3 anos, quer ainda o dessa espécie de sindicato que assina qualquer porcaria que lhe ponham à frente. Quem são os bandidos?

Nas histórias de índios e cow-boys , que também se contavam ao contrário, os bandidos eram sempre os que atacavam para se apropriarem do que não era seu, nunca os que se limitavam a defender-se. Desunidos, divididos em tribos que guerreavam entre si, os índios acabaram dizimados.


A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA EXPLICADA

Há uma certa confusão em torno do princípio da presunção de inocência, que não é, por exemplo, como o limite de 50 km/h dentro das localidades. Nem sequer é uma regra do condomínio. A presunção de inocência é uma espécie de mandamento da Justiça. Ou seja: A Justiça olha para um tipo que lá aparece para ser julgado e pensa “valha-me Deus, que este cidadão é culpado até à raiz dos cabelos, vou já metê-lo na cadeia”, mas depois lembra-se que não pode pensar assim, não foi isso que lhe ensinaram, é tudo inocente até prova em contrário. E então, já neste espírito mais equilibrado, concede ao acusado, entre outras coisas, oportunidade de defesa, coisa que lhe estaria naturalmente vedada caso o princípio fosse da presunção da culpa.
A presunção de inocência é, portanto, dos princípios mais belos da Justiça. Tão belo que devia ser usado mais vezes. Ou melhor, vivido. Porque usado ele até é, nem que seja na própria tramitação do processo. Sucede que, de vez em quando, o meritíssimo já leva a sentença de casa, mas até neste caso devemos ter o dever de presumir que é só para poupar tempo à Justiça.
Bom, mas se não formos julgar ninguém, não precisamos de andar a presumir inocentes. Podemos perfeitamente formar juízos a partir de um conjunto de indícios, de relatos, de histórias, decisões, etc.. Ou até podemos formar juízos apenas com base na nossa intuição. Em alguns casos consegue-se ter uma convicção mais sólida, noutros temos consciência de que a margem de erro é grande e então acabamos também a presumir a inocência naturalmente.
Mas não estamos obrigados, por ordem nenhuma nem sequer a moral, a presumir inocências. Se a minha cadela olha para mim cabisbaixa e com o focinho cheio de terra, ao lado de um canteiro destruído, não sou obrigado a admitir a hipótese de ter sido um gato. E se o presidente da Junta desatou a fazer obras sem concurso e de repente é o mais rico do bairro, também não sou obrigado a admitir a hipótese de ter sido uma raspadinha.
O juiz, sim, tem de ouvir a bicha e o presidente da Junta, presumindo a inocência dos dois. Mas eu não. Eu acho os dois absolutamente culpados. Por isso um leva com o jornal e a outra tão cedo não vai correr para a praia. Se porventura se vier a provar que não tinham culpa nenhuma, então passo a votar nele e ela passa a dormir na minha cama.
Isto se o juiz também não aparecer, entretanto, cheio de terra e o segundo mais rico do bairro. Porque às vezes nem a própria Justiça se pode presumir inocente.


O Freud explica isso…



Uma leitura de alguns títulos do Diário de Notícias de hoje, permite concluir que Freud continua a fazer muita falta para explicar certas e determinadas coisas…
Vejamos…
Logo na primeira página encontramos estes títulos verdadeiramente freudianos:
“Duarte Lima é frio e «usou o filho», diz o tribunal que o condenou”
E ainda…
“Arábia Saudita: Rei escolhe filho de concubina como sucessor e provoca agitação”
Se lesse estes títulos, Freud diria que Édipo anda por aqui…
Mas há mais títulos que mereciam explicação freudiana:
“Português e ucraniana travam divórcio de 130 milhões”
“Namoro de Costa ao Livre abre a porta a arrufos”
“Bento não é o único no Banco de Portugal a estar fora com um pé dentro”
Mas o cúmulo freudiano é atingido com a notícia sobre a carta que Sócrates enviou à RTP.
Nessa carta, o ex-primeiro ministro desmente informações veiculadas pelos órgãos de comunicação, no que respeita aos apartamentos onde viveu, em Paris.
Diz, também, que, ao contrário do que foi noticiado, a sua mãe vendeu dois apartamentos no Cacém por 100 mil euros, e não um por 175 mil euros.
E é aqui que entra Freud.
A notícia, como a foto documenta, diz:
“A minha mãe vendeu, na altura com a ajuda do meu irmão, dois apartamentos, e não um, por cem mil euros”, e adianta: “Não houve qualquer inflação de presos”.
Inflação de PRESOS?!
Ó Freud, isto é ou não um verdadeiro acto falhado?…


DOS CONJURADOS


Mais vale tarde...

Stephen Hawking, o Físico teórico inglês de setenta e dois anos, é provavelmente o mais mediático dos cientistas actuais. A ambiguidade e a polémica contida em muitas das suas afirmações fizeram dele um dos maiores especuladores da Astronomia moderna, além de o colocarem frequentemente nas primeiras páginas das mais conhecidas publicações científicas. O Físico, membro da Pontifícia Academia das Ciências (nomeado em 1986 por João Paulo II) apesar de ateu convicto (diria mesmo, fanático) é um recordista de sobrevivência à Esclerose Lateral Amiotrófica (a doença do popular desafio do balde de água gelada) que lhe foi diagnosticada aos 21 anos de idade.
Hawking, autor de várias pequenas teorias sobre os "buracos negros" (nomeadamente os “buracos negros primordiais”, as “leis” da mecânica do buraco negro, a "radiação Hawking") publicou, a 22 de Janeiro passado, um pequeno artigo onde afirma não existir “horizonte de eventos”, o que significa que a luz pode escapar à brutal força de atracção gravítica exercida pelos “buracos negros” e, assim sendo, os “buracos negros” também não existem, pelo menos na forma como Hawking (e outros) os tem imaginando.

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Bom dia!!!


terça-feira, dezembro 02, 2014

Morreu Alois Brunner, braço-direito de Eichmann

Peça importante no Holocausto, disse mais tarde que o seu único lamento era não ter morto mais judeus. Tinha 98 anos e morreu exilado na Síria, onde foi conselheiro do regime.

Os caçadores de nazis acabam de anunciar que o nome de topo na sua lista morreu há quatro anos. Alois Brunner, 98 anos, vivia em Damasco e até ao fim, tanto quanto sabemos, não se arrependeu do seu passado. 

Em 1985 deu uma entrevista a uma revista alemã, na qual disse que o seu único lamento era não ter matado mais judeus. Anos mais tarde reiterou a ideia quando falou ao telefone com o "Chicago Sun Times": "Os judeus mereciam morrer. Não tenho remorsos. Se tivesse oportunidade, fá-lo-ia outra vez...". Mesmo já idoso, Brunner conservava intacta a virulência do seu antissemitismo, que aliás o servia bem no seu lugar de exílio.

Foi esse antissemitismo que o recomendou aos nazis. Nascido em 1912 na Áustria, aderiu ao partido com 19 anos e às SS com 26. As SS eram uma força voluntária, à qual só pertenciam militantes especialmente devotados. Brunner correspondia sem dúvida ao perfil. Posto a chefiar o departamento que tratava da emigração judia no seu país, depressa mostrou a eficiência que depois repetiria noutros lugares. 

Da emigração à deportação foi um passo, e o enérgico SS encontrou a sua verdadeira vocação. Ao todo, sob a sua égide cerca de 47 mil judeus austríacos seriam enviados para campos de concentração e de extermínio. A seguir seria a vez da Grécia, onde Brunner destruiu a comunidade judaica de Salónica, que tinha quinhentos anos. Aí, o número estimado foi um pouco menor - 44 mil - mas o efeito igualmente devastador. Seguiram-se depois a França, com 23.500 (incluindo dezenas de meninos retirados de um orfanato) e a Eslováquia.

Nessa altura Brunner trabalhava como braço-direito de Adolf Eichmann, que o elogiava e lhe chamava "o meu melhor homem". O que Eichmann concebia, Brunner executava. Mas só aquele pagaria pelo seu papel naquilo que ficaria conhecido como Holocausto, ou Solução Final. Anos depois da guerra, Eichmann seria raptado pelos israelitas na Argentina e executado em Israel, após um famoso julgamento. Brunner, que preferiu refugiar-se na Síria, nunca foi capturado.  

Ainda lhe enviaram duas cartas-bombas, a primeira em 1961 e a segunda vinte anos depois. Uma era dos franceses (por causa do apoio aos rebeldes argelinos, parece), outra da Mossad. Mas embora ele tenha ficado sem um olho e alguns dedos, não morreu. Continuou a viver em Damasco com o nome Georg Fischer, num endereço que toda a gente conhecia. Os insistentes pedidos de extradição foram sempre negados pelo governo sírio, que dizia não ter conhecimento da sua presença no país.

Consta que o Presidente Hafez Assad, pai do atual, estimava os conselhos de Brunner nas artes da tortura. O ex-SS tinha chegado à Síria após uma fuga em que passara por vários países e beneficiara de uma confusão de nomes - outro SS foi executado no seu lugar - bem como da generosidade de judeus que a certa altura lhe alugaram um quarto. Eram gente simpática, contou mais tarde.

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Foto que nos leva a olhar duas vezes!...


Um falhanço lamentável e ainda por cima num funeral!...

Não é a melhor maneira de transportar um automóvel...


Os Dias do Futuro

Entrevista com David Marçal autor de "Pseudociência"


Uma agradável conversa que tive com Edgar Canelas, emitida no última sábado na Antena 1, acerca de Pseudociência. Para ouvir aqui:


OS DONOS DE PORTUGAL

Vale a pena ver os Donos de Portugal , documentário de Jorge Costa.
A sua transmissão pela RTP2 foi às 2 horas da manhã...


Donos de Portugal é um documentário de Jorge Costa sobre cem anos de poder económico. O filme retrata a proteção do Estado às famílias que dominaram a economia do país, as suas estratégias de conservação de poder e acumulação de riqueza.
Mello, Champalimaud, Espírito Santo – as fortunas cruzam-se pelo casamento e integram-se na finança. Ameaçado pelo fim da ditadura, o seu poder reconstitui-se sob a democracia, a partir das privatizações e da promiscuidade com o poder político. Novos grupos económicos – Amorim, Sonae, Jerónimo Martins - afirmam-se sobre a mesma base.
No momento em que a crise desvenda todos os limites do modelo de desenvolvimento económico português, este filme apresenta os protagonistas e as grandes opções que nos trouxeram até aqui.
Produzido para a RTP 2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme tem montagem de Edgar Feldman e locução de Fernando Alves.
A estreia televisiva teve lugar na RTP2 a 25 de Abril de 2012. Desde esse momento, o documentário está disponível na íntegra emdonosdeportugal.net.
Donos de Portugal é baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas, editado em 2011 pela Afrontamento e com mais de 12 mil exemplares vendidos.


Dia de S. Belmiro (ex-Restauração da Independência)

Se dividirmos o salário médio mensal estimado pela PORDATA para 2012, 914,10 euros, por 22 dias úteis, obtemos o salário médio diário:  41,55 euros. Se o multiplicarmos pelos cerca de 3.500.000 portugueses empregados, o resultado dá 145.425.000 euros. Hoje é 1 de Dezembro, um dos feriados que deixaram de ser. Há Cento e quarenta e cinco milhões quatrocentos e vinte e cinco mil euros que mudaram de dono. Um bom dia para todos aqueles que hoje trabalham à borla para a nobre causa do enriquecimento dos Belmiros. Ai aguentam, aguentam. O ajustamento está a correr mesmo bem.

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DA RAPIDEZ DE RACIOCÍNIO À SUA AUSÊNCIA

Antes do advento das redes sociais, existiam uma série de barreiras naturais ao disparate. Sem sítio para os publicarmos, a maioria acabava por ficar, felizmente, no regaço da nossa intimidade intelectual. E o mundo era, portanto, um lugar melhor.
Do disparate até à sua difusão pública, havia uma série de formalidades que eram exigidas e que acabavam por liquidar a asneira. Por exemplo, partilhávamos com alguém ao lado, antes de partilharmos com o mundo. E então, esse alguém ao lado, podia ser suficiente para nos abrir os olhos e ver o disparate que ali estava.
Nem sempre, porém, quem está ao nosso lado é mais perspicaz do que nós e por isso às vezes passava na primeira instância. Mas depois ainda havia uma série de pessoas pela frente, entre amigos, colegas e familiares, algum deles nos havia de poupar.
Com as redes sociais, parece que acrescentámos potência ao nosso raciocínio mais imediato, passando para a comunidade, instantaneamente, o que nos vai na alma. É uma espécie de escape livre e como sabe qualquer pessoa minimamente entendida em mecânica, mais do que rendimento, o escape livre dá ruído e barulho.
A verdade é que esta ligação directa é, quase sempre, desastrosa. Sobretudo em pessoas com notoriedade pública, que se esforçaram durante décadas para exibir um intelecto acima da média, mas que se constata agora, graças a esta nova transparência cognitiva, que o seu intelecto está abaixo do das aves e não me refiro naturalmente à astúcia de uma águia, mas mais ao nível do pardalito.
São pessoas que não perdiam nada em constituir um colégio, composto por amigos e familiares, ao qual as suas maravilhosas “saídas” deviam subir para aprovação. Porque às vezes parece que é uma coisa sem importância, uma frivolidade cibernáutica, e na verdade até é. Sucede que por mais insignificante que seja o dislate, há todo um esquema de raciocínio que se despe e revela na sua mais pura essência.
E não, feita a asneira de nada serve a justificação heróica de que se diz o que se pensa. “Eu digo sempre o que penso” é a prova mais cabal de que estamos perante alguém que precisa de ajuda, pois em algum momento perdeu um filtro importante, que lhe permitia distinguir o que é belo do que é merecedor de um par de estalos.
Antigamente – ou no século passado, se quisermos – a dose certa de tecnologia digital ainda permitia pensar-se nas coisas. Hoje não há tempo. É ocorrer e publicar. Quantas vezes ainda nem a ideia se formou completamente e já está mais de metade digitada, à espera apenas que o cérebro acompanhe os dedos e lhes forneça o resto da informação.
As consequências disto? Não estamos a evoluir. A desafinação é grande e o raciocínio trabalha hoje a uma rotação que às vezes parece mesmo que é a inteligência a trabalhar, quando na verdade está a gripar.

Tudo bons amigos


A ditadura dos resultados e os rankings

Permitam-me um ponto prévio para recordar o básico e o que aqui já escrevi, distinguindo o que, muitas vezes, se mistura, isto é, avaliação e classificação. A avaliação é, fundamentalmente, descritiva e informativa. Descreve o que é, ou seja, a situação do aluno num dado momento e compara-a com o que deveria ser, isto é, com a situação que se desejaria verificar, nesse momento, em função do programado, identificando as discrepâncias existentes. A informação resultante deste processo permite ao professor procurar as causas dessas discrepâncias e propor soluções, introduzindo estratégias alternativas no seu trabalho e no do aluno. Esta avaliação, formativa, é a que melhor serve alunos e professores, permitindo o progresso dos alunos.

Classificar significa colocar um indivíduo ao longo de uma escala adoptada, de acordo com o resultado que obteve numa ou mais provas a que foi submetido. A classificação seria, enquanto a avaliação descreve e informa. A avaliação tem um carácter formativo, enquanto a classificação tem um carácter selectivo.

A classificação transforma a informação pormenorizada, que faz parte da avaliação, num juízo de valor, que tem por base a escala de classificação usada.

A econometria, que a visão neoliberal impôs às escolas, estendeu uma esparrela onde os professores caíram. Ocupou-lhes tempo e energias com modelos e instrumentos de caricatas avaliações, como se, sem eles, fosse o caos e só sobrevivesse a insegurança relativamente ao que fazem na sala de aula. Os professores foram alienados e deixaram-se alienar. A avaliação desnecessária e redundante, ridiculamente sacralizada, é hoje invocada para validar toda e qualquer iniciativa, por mais simples que se afigure. A paranóia de tudo medir, de modo estereotipado, conduzindo à exaustão do livre pensamento e da capacidade de criticar e questionar, constituiu-se como o melhor álibi para tudo impor numa escola cada vez menos democrática, cada vez menos colaborativa, cada vez mais competitiva, no que a competição tem de pernicioso, cada vez mais controlada e menos autónoma. A avaliação é hoje instrumento de subjugação e mecanismo de redução do bem-estar da comunidade docente. É veículo de medo. Medo do director déspota, medo de ser remetido para a mobilidade, daqui a pouco medo do caciquismo municipal. Leis ridículas e fórmulas mágicas dão à avaliação uma capa de pseudociência, atrás da qual se acoberta um regime totalitário, que rejeita qualquer visão díspar e afirma não haver alternativa para este caminho, único, para uma suposta qualidade.

A redução contínua do financiamento da Educação (2.594 milhões de euros em 3 anos) e o esmagamento da autonomia profissional dos professores transformou as escolas num mercado ferozmente competitivo, que tem ajudado à perniciosa popularidade dos rankings, que atiram escolas contra escolas, numa roda mediática que nada acrescenta ao apuramento da qualidade intrínseca das instituições, muito menos contribui para detectar ou resolver problemas que as possam afectar. Penaliza-me observar como a generalidade dos professores aceita ver o seu trabalho assim classificado, de modo tão primário e simplista, sem reacção firme à circunstância de osrankings imporem uma realidade falsa, por grosseiramente parcial e impositora de uma única variável para consagrar o complexo conceito da qualidade de uma escola.
Os rankings, tal como vêm a público, têm, em minha opinião, um resultado evidente: fomentar a competição malsã entre as escolas e difundir a ideia segundo a qual as escolas privadas são melhores que as públicas. E se o que acabo de afirmar é opinião, já o que se tem seguido é factual: a estratégia política de inclusão do subsistema privado no serviço público de educação, com o inerente financiamento público, de que a proposta do cheque-ensino e a alteração estatutária do ensino particular e cooperativo são os melhores exemplos. Recorde-se, a propósito, o trabalho dos investigadores da Universidade do Porto, Tiago Neves, João Pereira e Gil Nata (International Journal on School Disaffection) sobre a base de dados dos exames nacionais, que permitiu identificar um padrão consistente de diferença entre as classificações internas e externas (mais acentuado nas classificações que influenciam a entrada no ensino superior), com favorecimento dos alunos do ensino privado em detrimento dos alunos do ensino público, e permitiu concluir que os rankings das escolas, elaborados com base nos resultados dos exames nacionais, não só não reflectem a verdadeira qualidade das escolas como estão longe de serem objectivos.

Tudo o que um longo percurso escolar acrescenta aos alunos, como pessoas, como cidadãos, como seres pluridimensionais, é ignorado pelos rankings. Apenas contam médias de exames de algumas disciplinas, cuja importância é, abusivamente, considerada prioritária. Dos rankings está ausente qualquer valorização do percurso dos alunos. Conta o ponto de chegada. É ignorado o ponto de partida e desprezado todo o trabalho para lhe acrescentar conhecimento, valores e capacidades. Alunos e escolas envolvidas por contextos desfavoráveis serão sempre condenadas por estes rankings e nunca salvas por eles. Conseguir resultados menores sem qualquer selecção de alunos pode ser muito mais abonatório da qualidade da escola que a obtenção de resultados maiores alavancados por selecção forte de alunos (seja ela natural ou programada). Problemas sociais múltiplos e correlatos problemas disciplinares, alunos cujo português não é a língua materna, luta permanente para impedir o abandono e indisponibilidade ou mesmo incapacidade familiar para coadjuvar o trabalho da escola são hostilidades contra as quais as escolas do topo dos rankings nunca têm de lutar. Mas são o dia-a-dia da maioria das outras.

Todos os que conhecem o âmago do processo de matrículas, pese embora a teoria que o possa impedir, sabem que, na prática, os rankings têm favorecido a selecção prévia de quem entra. Donde a acentuação da tendência para concentrar numas escolas os melhores alunos e noutras os piores, com a perversão da apregoada livre escolha por parte das famílias, quando, na realidade, são as escolas que escolhem os alunos.

Uma nota final para falar do excessivo peso que os exames, de que os rankings são afinal corolário, representam no nosso sistema de ensino. A preocupação crescente por parte das escolas para centrarem o seu trabalho na preparação para os exames é preocupante. O papel formativo da avaliação educacional esboroa-se. Pese embora a maioria dos países da Europa reservar os exames para alunos de faixas etárias mais elevadas, nós aplicamo-los aos mais novos, apesar da insuspeita OCDE referir que tal prática abre um problemático potencial de exclusão social.

As disciplinas sem sujeição a exame têm vindo a ser desvalorizadas. Uma análise fina das alterações operadas em matéria de programas permite divisar a menorização das actividades que suscitem uma cognição mais exigente, a resolução de problemas e o trabalho de pesquisa e crítica, eventualmente porque mais difíceis de medir em sede de exames.

Suspendem-se as aulas normais de uns alunos para que outros possam fazer exames. Retiram-se professores da sua missão nobre, ensinar, para vigiarem exames. Fixam-se prazos desumanos para os professores corrigirem exames em trabalho escravo, não remunerado, sem ter em conta que algo fica para trás: o ensino.

A extensão e o carácter ridículo das normas que regulam a operacionalização e a correcção dos exames (convido o leitor a lê-las para verificar que não exagero e que se chega a proibir os professores de interpretarem o que estão a ler, como se houvesse leitura possível sem interpretação) mais não pretendem que transformar os professores em máquinas acéfalas de classificação, num ritual sacro de subjugação a uma objectividade que não existe, a não ser na cabeça doente de burocratas pedabobos.


DAQUI

DEPENDE, REALMENTE



Olá bom dia!


segunda-feira, dezembro 01, 2014

É mais do que uma foto!


Marcelo, a carta de uma jovem que esteve no parlamento, os deputados e as “jovens avantajadas” nos computadores

Marcelo Rebelo de Sousa recebeu um mail de uma jovem de 16 anos que esteve na Assembleia da Republica. A carta também foi enviada para o primeiro-ministro. A jovem não gostou de ver os deputados a ver nos computadores, entre outras coisas, “jovens avantajadas” durante o debate parlamentar.
No seu habitual comentário dominical na TVI, já depois de falar da actualidade política, revelou ter recebido uma carta de “uma senhora que mandou para o portal do Governo de Pedro Passos Coelho uma carta de uma adolescente de 16 anos do 11º da escola Alves Redol de Vila Franca de Xira que foi com a sua turma no dia 20 de Novembro à Assembleia da República e esteve na Galeria 3”.
Foi durante do debate do Orçamento do Estado. E o que é que viu a jovem? Marcelo revelou: “Deputados o tempo todo a verem no Facebook raparigas avantajadas; outros assistirem a vídeos de quedas, aqueles que se assistem no Facebook e no Youtube para fazerem as pessoas rirem; uma vez três deles juntaram-se a rir para de qualquer coisa no computador e um a ver-se a si próprio num vídeo qualquer”, revelou entre outros detalhes.
Marcelo Rebelo de Sousa acrescenta: “16 anos, testemunho de uma jovem. Atenção caríssimos deputados depois digam que estão a contribuir para a democracia portuguesa.”
E, a concluir, deixa um aviso: “Eu sei que em todos os parlamentos há tempos mortos, e que não se ouve bem. No mínimo olhem para as galerias e se virem lá jovens debruçados, não andem a ver raparigas avantajadas nos computadores.”

P.S. E nós a pagar! 

Pagas na mesma!


A diversidade da raça humana





















Não se metam com estas mulheres!!!












APRESENTAÇÃO DO LIVRO PSEUDOCIÊNCIA NO PAVILHÃO DO CONHECIMENTO

Clima de golpe

Desde que entrou em funções, o governo de Passos Coelho apostou numa permanente confrontação com a Constituição e com o Tribunal Constitucional. Em todas as refregas, uma por cada Orçamento do Estado e mais umas quantas de permeio, a técnica foi a mesma: violar direitos, que o governo sabia estarem a ser infringidos, esperar o veredicto e culpar depois o TC e a Constituição pelas penalizações sobre os assalariados, quando não pela persistência da crise.
O episódio mais recente deu-se na abertura da discussão do OE 2015 em que o primeiro-ministro foi mais longe que em casos anteriores: anunciou antecipadamente que não irá cumprir a determinação do Tribunal Constitucional a respeito da reposição dos salários cortados aos funcionários públicos ao abrigo do acordo estabelecido com a troika.
É a técnica do golpe de Estado: cria-se uma pressão permanente sobre as instituições para mostrar que não servem os (“bons”) propósitos da governação e procura-se assim justificar a sua subversão, no caso a Constituição.
A técnica não tem sido tão mal sucedida como por vezes se ouve dizer.
Não é que a massa da população, atingida pelas medidas de austeridade, dê grande crédito aos argumentos do governo para as aplicar, ainda menos que as aceite de bom grado. O sucesso está noutro campo: todas as forças políticas da área do poder estão hoje decididas a fazer uma revisão constitucional, que acham “óbvia”, PS incluído.
Um dos motes é dado pela crise económica. Já se fala em incluir na Constituição uma ressalva respeitante ao “estado de necessidade financeira”. Isto é, a possibilidade de, à semelhança do estado de excepção ou do estado de emergência, suspender direitos consagrados constitucionalmente sem que isso configure uma ilegalidade. No caso de declaração do estado de necessidade financeira, os alvos seriam obviamente os direitos relativos a salários, pensões, idade de reforma, prestações sociais, gastos do Estado com a saúde e a escola pública e o mais que a imaginação dos governantes ditasse. Tudo, dir-se-á, o que já tem sido atacado nos últimos anos com o justificativo da crise económica — mas, no caso de invocação do “estado de necessidade financeira”, com uma agravante: a de o governo ter as mãos livres à partida e nem sequer ter de sujeitar-se a pareceres do Tribunal Constitucional.
Na reforma constitucional que a direita tem impulsionado, aquilo que estará em jogo não será propriamente a abolição formal de direitos fundamentais, como o da Igualdade. O propósito será certamente outro: criar um dispositivo constitucional que dê ao poder executivo uma margem tal de actuação que o torne imune a qualquer escrutínio.
Ao capital, que manda nisto tudo, pouco importa que a Igualdade continue pendurada, como um emblema, no texto da Constituição. Importa-lhe sim é ter um governo que faça o que ele determinar sem ter de ficar sujeito ao incómodo de qualquer fiscalização.


Podemos? Laicizar é preciso

Também eu, que venho acompanhando o fenómeno e me identifico com quase tudo o que propõe o Podemos espanhol, torci o nariz àquele "não somos nem de direita, nem de esquerda". Por maior sintonia que sinta por um conjunto mais ou menos numeroso de propostas, sem esse fio condutor que as ligue que é a ideologia, aquilo com que concordo à partida rapidamente resvala para os terrenos movediços desse populismo que, por mero tacticismo, primeiro diz às pessoas aquilo que elas querem ouvir para a seguir se esvaziar numa amálgama de incoerências impossíveis de sustentar.

Mas afinal que mal tem dizer às pessoas aquilo que elas querem ouvir sem cair na incoerência e sem embalar em demagogias baratas? Acabo de ler a entrevista que Pablo Iglesias deu ao esquerda.net e a questão colocou-se-me juntamente com outras. Acaso os poderosos não o fazem também? Acaso as direitas não abusam de simplificações, que ainda por cima distorcem a realidade, para tornarem o seu produto pronto a comer? Acaso não exploram os anti-corpos que vão semeando, o "não pode ser porque isso é irrealismo" que nos rouba os sonhos, o "os radicais de esquerda" e "os comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço" que empurram tanta gente para o abstencionismo que se resigna ao mau com medo que possa ser ainda pior? Se quiser ser poder, por uma questão de coerência e não de mero populismo, a esquerda não pode ser escrava dos seus símbolos. E o Podemos, porque quer ser poder, não está disposto a juntar às suas propostas símbolos que afastem em vez de atraírem. Realmente, faz sentido. Os símbolos não têm que vir no pacote. A esquerda não deixa de o ser se simplificar o discurso e se reformular a forma como comunica as suas ideias. "Laicização", é sobre isto que fala Pablo Iglésias nos excertos da entrevista que abaixo republico. Está a resultar. O Podemos soma e segue nas intenções de voto dos espanhóis. Os poderosos deixaram de dormir descansados. 

Cante socialista


Argumentos

Argumentar é exprimir um raciocínio e, qualquer que seja o tema, do direito à ciência ou da astrologia aos raptos por extraterrestres, sempre que alguém quer mostrar como se chega a uma conclusão tem de argumentar. Por exemplo, o Mats argumenta que a teoria da evolução é incompatível com a ciência, propondo que «A ciência pressupõe que o universo é lógico e ordenado» e que só se pode assumir isto porque «Deus fez todas as coisas»«impôs ordem no universo» e «a Bíblia ensina que Deus sustém todas as coisas através do Seu Poder». O argumento pode ser válido. Se a ciência assumir algo que exige as premissas do criacionismo, então a teoria da evolução será incompatível com a ciência. Mas isto não basta para aceitar a conclusão. 

Um argumento finito tem necessariamente de começar por premissas, implícitas ou explícitas, que assume sem justificar. Portanto, para avaliar um argumento é preciso também considerar se as premissas são aceitáveis. O argumento do Mats falha nisto, logo na primeira premissa, porque a ciência não presume que «o universo é lógico e ordenado, e que ele obedece a leis matemáticas que são consistentes ao longo do tempo e do espaço.» A ciência pergunta se, e em que condições, é que isto pode ocorrer. A distância a que o berlinde cai depende da velocidade e ângulo com que o atiramos, consistentemente e de forma previsível. Esta é uma regularidade que podemos aproveitar. Um átomo de urânio 238 transforma-se em tório 234 sem causa alguma nem qualquer indício prévio. Neste caso, não se pode estimar mais do que uma probabilidade de decaimento em função do tempo. E assim por diante. 

Mas há ainda outro aspecto da avaliação de um argumento, muitas vezes descurado. Cada argumento parte de premissas escolhidas por quem o formulou e estas não são necessariamente todas as premissas relevantes. O Mats assume que a regularidade do universo se deve ao deus do cristão evangélico, deixando de parte uma imensidão de alternativas que inclui todas as outras religiões e todas explicações naturais para as regularidades observadas. 

Em ciência há dois truques para que não se descure estes aspectos. O primeiro é a secção “materiais e métodos”, na generalidade dos artigos científicos, onde se descreve em detalhe como se aferiu a verdade das premissas. O que se mediu, experimentou e observou. Isto não só reduz o risco de se partir de premissas falsas como também facilita a verificação independente daquilo que foi assumido no argumento. A teologia é um bom exemplo de como a dedicação exclusiva ao rigor lógico dos argumentos, descurando a validação das premissas, resulta em resmas de papel com inferências detalhadas ligando pressupostos sem fundamento a conclusões ridículas. Admito que há argumentos interessantes cujas premissas não podem ser testadas à parte mas, nesses casos, há que reconhecer que isso fragiliza muito o argumento. O segundo truque da ciência é chamar a qualquer argumento “uma hipótese”. Isto salienta que se trata apenas de uma entre muitas possibilidades, focando somente um sub-conjunto da informação que possa ser relevante, e que não deve ser avaliada sem ser confrontada com hipóteses alternativas. 

Descurar alternativas é um erro comum não só na teologia e outras tretas mas até na filosofia da religião, talvez pela ênfase na análise minuciosa de cada argumento. Por exemplo, é comum a ideia de que basta haver argumentos “sérios” em favor de uma conclusão para ser racional aceitá-la como verdadeira. Isto é um erro porque o racional será optar pelo melhor argumento, assente no conjunto mais abrangente de premissas independentemente verificáveis. Não é racional aceitar uma conclusão com base num argumento descurando outro melhor que aponta o contrário. O exemplo mais saliente é a tese da criação do universo por parte de um ser inteligente e sobrenatural. Há vários argumentos a favor dela, mas todos exigem uma selecção tendenciosa e muito limitada das premissas. Quando consideramos todos os dados disponíveis, não só as várias crenças religiosas mas também o que sabemos da física da formação do universo e da psicologia e sociologia das religiões, a melhor explicação para tudo isto é a de que a hipótese de criação sobrenatural não passa de uma ficção humana, uma ficção comum e bem ilustrada pelas teses que o Mats defende. 

É verdade que a tendência humana para inventar deuses não prova que os deuses não existem. Da mesma forma como as pessoas que alegam terem sido raptadas por extraterrestres serem mais susceptíveis à criação de memórias falsas não prova que não ande aí algum ET a raptar gente (2). No entanto, estes dados apoiam melhor explicações alternativas que não exigem seres sobrenaturais ou extraterrestres raptores. Racionalmente, essas são as conclusões preferíveis. Para compreender isto é preciso ir além da análise de cada argumento. Não basta aferir se o argumento é válido, assumindo as premissas, e se é sólido, com premissas que se pode admitir serem verdadeiras. É preciso também determinar se não há alternativas melhores, com premissas mais fundamentadas e que não deixem de fora dados relevantes. O criacionismo é um exemplo extremo do erro de olhar para cada coisa com palas a tapar o resto, mas há outros casos. Alguns disfarçam melhor pela diligência com que examinam cada argumento mas descuram à mesma a natureza hipotética da argumentação. Quando se avalia um argumento é importante ter em conta que um argumento não aponta a verdade. Aponta apenas uma hipótese possível se as premissas forem verdadeiras e não houver outros indícios contraditórios. É como hipótese que qualquer argumento deve ser avaliado, e sempre no contexto das outras hipóteses com as quais concorre. 

1- Mats, Evolução: a teoria anti-científica
2. Clancy et al, Memory distortion in people reporting abduction by aliens., J Abnorm Psychol. 2002 Aug;111(3):455-61.


DAQUI

O preso preventivo José Sócrates

O preso preventivo José Sócrates foi secretário de Estado adjunto do ministro do Ambiente (durante dois anos), foi ministro adjunto do primeiro-ministro (durante dois anos), foi ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território (durante três anos) e foi primeiro-ministro de Portugal (durante seis anos). Cumulativamente, foi secretário-geral do PS (durante sete anos).
O actual preso preventivo José Sócrates ocupou, por conseguinte, cargos de grande poder e de enorme responsabilidade, desde 1995 até 2011. No total, foram dezasseis anos em que o actual preso preventivo José Sócrates foi um protagonista político e, nessa qualidade, governou e/ou representou o país. 
Há seis dias, foram imputados ao actual preso preventivo José Sócrates os crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada e corrupção. São crimes muito graves para qualquer cidadão, mas são-no ainda mais para quem foi secretário de Estado, ministro e primeiro-ministro.
Se a imputação destes crimes não vier a ser confirmada em tribunal, a Justiça portuguesa verá a sua actual pouca credibilidade reduzida a zero. Mais do que ridicularizada, ficará destituída de autoridade e dará um contributo decisivo para afundar ainda mais o país.
Se a imputação destes crimes vier a ser provada em tribunal, significará que o actual preso preventivo José Sócrates ao mesmo tempo que, enquanto primeiro-ministro, reduzia as pensões e as reformas aumentava criminosamente a sua riqueza pessoal; ao mesmo tempo que baixava os salários dos funcionários públicos e retirava subsídios a quem deles precisava fazia crescer criminosamente os seus rendimentos; ao mesmo tempo que, com uma arrogância patológica, pregava a moralidade social e acusava tudo e todos de falta de ética política  entretinha-se em actos de corrupção, de modo a garantir a si próprio uma vida de luxo e fausto.
O actual preso preventivo José Sócrates coleccionou, nos últimos anos, um impressionante rol de suspeições: caso «Assinatura de projectos de casas na Guarda»; caso «Licenciatura»; caso «Cova da Beira»; caso «Apartamentos na Braamcamp»; caso Freeport»; caso «Face Oculta»; caso «TVI»; caso «Taguspark»; e, para além disto, foi o responsável objectivo pela bancarrota a que o país chegou, em 2011.
Se os crimes que agora lhe são imputados vierem a ser provados em tribunal, não só a previsão preventiva passará a justa prisão efectiva, como o preso José Sócrates passará a ser não só o político que, depois da queda da ditadura, mais mal fez ao nosso país, como será o político mais repugnante da história desta República.