Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
sexta-feira, abril 03, 2015
A vida entre carimbos
Há a vida plena de riscos, vivida sobre a lâmina, pulsante, imprevisível, trágica e hilariante, e há a vida tal como é vivida no cartório notarial. A vida no cartório toma o seu tempo e segue os seus caminhos, que se traduzem inevitavelmente em fotocópias, registos, declarações, certidões, actas de deliberação, certidões de teor, registos prediais.
No notário, nada é súbito. Nem a morte, para tomarmos o exemplo mais extremo. Uma pessoa pode estar morta, inegavelmente morta, mas só o estará deveras quando o óbito tiver sido declarado na Conservatória do Registo Civil, e logo em seguida nas Finanças. Não se está morto sem que os documentos, muitos documentos, o comprovem. Se há pulso ou não, se os pulmões aceitam ar e o devolvem ou não, isso é matéria que só interessa no mundo de lá de fora. Dentro do notário é preciso certidões. São elas que traçam a linha entre a vida e a morte.
Os soldados do notário, isto é os funcionários que atendem ao balcão e respondem a uma infinidade de perguntas complexas sobre procedimentos tortuosos – comprar uma casa, registar um carro, herdar a casa dos pais, reconhecer uma assinatura, constituir uma sociedade, partilhar bens depois de um divórcio – são gente admirável, que consegue traduzir as inquietações vitais de cidadãos ignorantes em passos mecanizados dentro do intricado e cinzento mundo da burocracia legalista.
O cidadão ignorante chega com aquilo que ele pensa que é um problema simples, por exemplo comprar uma casa que, em rigor, é do banco, e os funcionários notariais convertem o problema simples numa lista de documentos a apresentar de forma a que tudo esteja tão complexamente legalizado quanto deve estar. O cidadão parte, então, para o mundo hostil onde deve lutar epicamente para conseguir os documentos e regressar, em triunfo, ao cartório. Os soldados do cartório notarial vibram com essas conquistas e sofrem com as derrotas do cidadão.
– Então não lhe passaram isso por quê?
– Dizem que já não está no sistema.
– Mande-os ir ao arquivo morto, que tem de estar lá.
E de ânimo revigorado, o cidadão parte para nova investida contra a besta, levando desta vez a senha secreta que lhe foi confiada e que deve revelar quando estiver frente à criatura. “Arquivo morto” exclamará, como se gritasse “El-rei Dom João Segundo!” ao mostrengo, e assim poderá derrotar a criatura de uma vez por todas.
Só quando paga todos os tributos sob a forma de “papelada” a apresentar é que o cidadão é admitido na câmara do Notário, responsável máximo do cartório e habitualmente conhecido como “senhor doutor” ou “senhora doutora”. Os estilos variam, há-os mais emproados ou mais populares, mas em geral são surpreendentemente simpáticos e pequenos, talvez porque, depois de tantos tormentos, o cidadão espere um Adamastor intransigente e lhe apareça um burocrata amável e de baixa estatura. Algo de semelhante ao que acontece quando a Dorothy e os companheiros ficam, por fim, frente-a-frente com o Feiticeiro de Oz, se se recordam da história.
É certo que os soldados do cartório contribuem para essa imagem hiperbólica do Notário, colocando mil e uma dificuldades a que o cidadão ignorante chegue à fala com eles e referindo-se sempre ao chefe pelo seu título e jamais pelo nome. Num cartório notarial por onde passei umas quantas vezes, havia uma folha A4 colada na parede, com a indicação das extensões telefónicas dos funcionários. Mudei os nomes, mas era parecido com isto:
01 – Arminda
02 – Paula
03 – Miguel
04 – Senhor Doutor
Nunca vi o Senhor Doutor, embora lhe tenha ouvido a voz, certa vez, franzina e melíflua, pedindo que lhe levassem um carioca de limão.
A vida no notário corre lenta, entre carimbos, e cada cliente que chega é uma lufada de vida. E de certidões. Quando passo por lá, sou sempre bem recebida pelas minhas amigas soldadas, e há invariavelmente uma que me pergunta se está frio, ou já chove, ou se o sol está quentinho, como se levasse a vida toda ali e jamais saísse, ela que até tem horários razoáveis e grandes janelas viradas para a rua. Mas alguma coisa a faz sentir que a vida está lá fora, para além das certidões e das actas de deliberação. Uma coisa é certa, é uma vida terrivelmente desordenada.
João Miguel Tavares: ainda chegas a deputado, meu
Coitadinho do João Miguel Tavares. O rapaz inquietou-se tanto ao confrontar-se com a constatação de que o desemprego real que existe actualmente em Portugal está quatro pontos percentuais acima daquele que se verificava nos Estados Unidos na maior depressão do século XX que, sem tema a que atirar-se nesta semana de Ramadão noticioso, decidiu convencer quem o lê de que é tudo mentira. Mentira porque, em primeiro lugar, quem dirige o Observatório que produziu o relatório que inquietou o nosso cientista social são Carvalho da Silva e Boaventura Sousa Santos. Toda a gente sabe que todo o cuidado é pouco com o que dizem comunistas, sindicalistas e malta de esquerda em geral. Mentira porque, segundo o nosso estudioso da obra de Karl Marx, nem mesmo a imaginação deste se lembraria de contabilizar aqueles desempregados desencorajados que deixam de se apresentar nos centros de emprego com a periodicidade necessária para serem contabilizados como tal pelas estatísticas oficiais, os desempregados ocupados pelos estágios que o nosso académico admite que falseiam as mesmas estatísticas, os desempregados que aliviaram a taxa de desemprego ao emigrarem e todos aqueles mais de 300 mil que contra a sua vontade não conseguem mais do que um emprego em part-time. Não nega que existem. E mentira porque, agora segundo o João Miguel humorista, a criticável metodologia CGTP que foi utilizada no estudo não contabiliza as categorias “activos infelizes”, “activos que não saíram do armário” “activos descontentes” e “activos sonhadores”, inexistências criadas e colocadas pelo nosso “analista” no mesmo patamar das existências que não foi capaz de negar para, de mãos na cabeça, concluir a sua cruzada contra a mentira vermelha a rogar que lhe assegurem, por amor de Deus, “que não é este o género de “ciência” que se anda a praticar nas universidades portuguesas. E, de caminho, jurem-me que nem um cêntimo dos meus impostos está a servir para pagar o Observatório sobre Crises e os fetiches ideológicos do senhor Boaventura.” Da minha parte, asseguro-lhe que não gasto nem um cêntimo para ler parolices como esta. E, de caminho, ainda lhe agradeço a visibilidade que deu aos temas desemprego real e colunistas colaboracionistas da casta que, a pretexto de uma emergência que ela própria criou, aproveitou para enriquecer tanto quanto empobreceu todos os demais. Eu hoje também estava um bocado sem tema para alimentar o meu burro.
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PRIVATIZE-SE A CNE?
Pensei que o erro informático nas eleições da Madeira fosse uma mentira do 1 de Abril. Afinal, parece que não. Se fosse há uns tempos, apareceria o "Compromisso Portugal", devidamente sponsoriado pelo BES, a exigir a privatização da CNE. Mas, e como o descaramento não paga mesmo impostos, nunca se sabe.
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quinta-feira, abril 02, 2015
Serviço público de obscurantismo na RTP
Não contente com um lamentável "debate" sobre a "opção" de não vacinar, a RTP parece apostada em assumir-se como a televisão oficial do obscurantismo. Sem nenhuma centelha de espírito crítico, dá voz a uma mulher que afirma fazer "leitura de auras" e "alinhamento de chackras".
http://media.rtp.pt/blogs/agoranos/artigos/leitura-da-aura-e-alinhamento-de-chackras_2465
A RTP está definitivamente a precisar de uma melhor "leitura" da sua missão e de um novo "alinhamento" dos seus conteúdos.
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http://media.rtp.pt/blogs/agoranos/artigos/leitura-da-aura-e-alinhamento-de-chackras_2465
A RTP está definitivamente a precisar de uma melhor "leitura" da sua missão e de um novo "alinhamento" dos seus conteúdos.
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Perto de 20 contos inéditos de Fernando Pessoa publicados hoje!
Cerca de duas dezenas de contos inéditos de Fernando Pessoa são publicados na próxima quinta-feira, sob o título "Estrada do esquecimento e outros contos", anunciou hoje a editora Assírio & Alvim.
"Reúne-se nesta edição um conjunto de narrativas de Fernando Pessoa, das quais 20 se encontravam ainda inéditas", afirma a editora em comunicado enviado à Lusa, acrescentando que esta obra surge na continuidade de "O mendigo e outros contos", publicada em 2012.
À semelhança desta coletânea, a nova tem uma introdução de Ana Maria Freitas, investigadora do Instituto de Estudos sobre o Modernismo, da Universidade Nova de Lisboa, que tem estudado o espólio do escritor.
Na nota introdutória, Ana Maria Freitas adverte que "esta, como outras edições da obra de Pessoa, partiu de textos que não tinham ainda atingido um estado final".
"Embora a intenção de publicar nunca estivesse longe do pensamento de Pessoa, pouco da sua obra de ficção foi publicado em vida. Este facto implica que qualquer edição da sua obra tenha de percorrer o caminho que o autor fez ao criar os seus textos e tentar adivinhar as suas intenções para garantir a fidelidade ao seu projeto", escreve a investigadora.
Ana Maria Freitas afirma que "a organização da prosa ficcional confronta o editor com as dificuldades próprias da obra de Pessoa --- a fragmentaridade e a incompletude de uma obra sempre em progressão --- a que se vêm juntar a dispersão e a não correspondência entre títulos e textos. A escrita é feita em continuidade, os textos são retomados ao longo do tempo e deixados, muitas vezes, em aberto, como se ao autor repugnasse o ato de encerrar, de fechar as hipóteses a explorar numa narrativa".
Tratados, leituras e subterfúgios
Em 2012, presumivelmente na ânsia de demostrar responsabilidade orçamental perante a opinião pública - e assim validando implicitamente a leitura errada das raízes da crise proposta pela direita -, o Partido Socialista votou favoravelmente o Tratado Orçamental quando este foi levado à votação na Assembleia da República . É certo que o PS não acedeu então a viabilizar a consagração constitucional que a maioria PSD/CDS pretendia que a transposição do Tratado para o ordenamento jurídico português assumisse, forçando antes a opção pela figura da lei de valor reforçado. Mas não deixou de votar favoravelmente - e validar politicamente - o Tratado do qual já foi dito que ilegaliza o keynesianismo na Europa e que constitui, no fundo, uma versão mais restritiva e punitiva do Pacto de Estabilidade e Crescimento (para além de um acto de vassalagem relativamente à Alemanha).
No essencial, o Tratado Orçamental institui a obrigação da austeridade para os países deficitários, a despeito da recessão em que estes possam encontrar-se e sem que sejam estabelecidas obrigações expansionistas simétricas para os países excedentários. É uma síntese perfeita de tudo o que está errado com a zona Euro: viés recessivo, ajustamento assimétrico entre devedores e credores, agenda de classe, restrição da margem de escolha política e tentativa vã de ocultar a inviabilidade fundamental sob sucessivas camadas de irreversibilidade. E é também um Tratado destinado a ser constantemente quebrado, dado o irrealismo das obrigações que impõe aos países deficitários (veja-se o historial de incumprimento desde a sua entrada em vigor ) - ainda que isso não o torne inofensivo, dada a forma como constrange os parâmetros do debate e das decisões políticas.
Estou convencido
Há anos que eu defendo que há um conflito fundamental entre ciência e religião. Sempre me pareceram actividades incompatíveis. Mas, hoje, o Miguel Panão convenceu-me de que, afinal, ele é que tem razão. Não há conflito nenhum.
O meu primeiro erro tem sido pensar que “religião” referia o conjunto de ideias que os religiosos do mundo inteiro têm como religião, conjunto no qual abundam crenças contrárias àquilo que a ciência moderna afirma. No entanto, parece que o significado verdadeiro do termo “religião”, afinal, restringe-se à variante do catolicismo que o Miguel Panão defende, especialmente concebida para não afirmar nada que se possa averiguar se é ou não é verdade.
Eu também julgava que a religião seria incompatível com a ciência por se fundamentar em argumentos de autoridade, algo que a ciência rejeita liminarmente. A crença numa proposição por ser afirmada num livro sagrado, ou por um profeta ou sacerdote, é o contrário do espírito de crítica e verificação independente que a ciência exige. Mas, neste seu último post, o Miguel Panão apresenta um argumento muito persuasivo. Acerca da tese do conflito, o Miguel afirma que «não vale a pena insistir num modelo que não só não tem futuro, como nunca teve passado», e justifica cabalmente esta afirmação citando «o seguinte comentário de um historiador de ciência: “The common belief that … the actual relations between religion and science over the last few centuries have been marked by deep and enduring hostility ….is not only historically inaccurate, but actually a caricature...”». A ciência tem mérito em muitas coisas mas é impotente perante o poder persuasivo de justificar uma afirmação citando um comentador anónimo que afirma o mesmo.
Também me apercebi que, até agora, não tinha conseguido apreciar o progresso que a tal “religião” nos deu. Em 1586, Domenico Fontana, sob direcção do Papa Sisto V, colocou no centro da praça de São Pedro o obelisco egípcio que ainda hoje lá se encontra. Nessa altura, o obelisco estava a umas centenas de metros dali e o transporte e colocação daquela pedra com 25m de altura e trezentas toneladas de peso foi um feito notável para a época. Foi uma cuidadosa operação de cinco meses envolvendo novecentos trabalhadores e 72 cavalos, um grande triunfo da engenharia inspirada e fomentada pela religião do Miguel. Até recentemente, sempre me parecera que o obelisco ter sido erguido originalmente pelos egípcios dois milénios antes de Cristo e ter sido trazido do Egipto pelos engenheiros romanos mil e quinhentos anos antes da grande façanha de Fontana seria evidência de que aqueles séculos de cristianismo não tinham feito grande coisa pelo progresso científico e tecnológico. Mas isto é ver mal as coisas. Se bem que o domínio do cristianismo se caracterize pela estagnação ao nível material, houve grandes progressos em temas importantes. Tais como Deus ser um só mas três ao mesmo tempo, ou como conciliar a hipótese de um ser invisível saber tudo o que vai acontecer com a hipótese de termos vontade livre. Foi um trabalho importante sem o qual, hoje, a teologia e a filosofia da religião não seriam profissões viáveis. Graças à escolástica medieval, temos agora um respeitável corpus bibliográfico de especulações vazias que permite ao teólogo distinguir-se de um perito em mafaguinhos.
Hoje posso concordar com o Miguel e aceitar que o método da ciência é compatível com a atitude de ter fé em hipóteses que não se testou ou que nem se pode testar. Ou que adoptar dogmas pela autoridade de fontes alegadamente infalíveis é compatível com a atitude céptica de quem procura as melhores explicações. Afinal, hoje os investigadores no CERN descobriram que a Força existe mesmo (3) e há indícios sólidos de que os dragões podem voltar (4). Por isso hoje a ciência pode ser compatível com a religião do Miguel. E com a astrologia, o tarot da Maya e as vidências do Professor Karamba. Mas amanhã... bem, amanhã logo se vê.
1- Miguel Panão, O Mito do Conflito entre Fé e Ciência
2- Pruned, Moving the vatican obelisk 3- CERN, CERN researchers confirm existence of the Force
4- Nature News, Zoology: Here be dragons
DAQUI
O meu primeiro erro tem sido pensar que “religião” referia o conjunto de ideias que os religiosos do mundo inteiro têm como religião, conjunto no qual abundam crenças contrárias àquilo que a ciência moderna afirma. No entanto, parece que o significado verdadeiro do termo “religião”, afinal, restringe-se à variante do catolicismo que o Miguel Panão defende, especialmente concebida para não afirmar nada que se possa averiguar se é ou não é verdade.
Eu também julgava que a religião seria incompatível com a ciência por se fundamentar em argumentos de autoridade, algo que a ciência rejeita liminarmente. A crença numa proposição por ser afirmada num livro sagrado, ou por um profeta ou sacerdote, é o contrário do espírito de crítica e verificação independente que a ciência exige. Mas, neste seu último post, o Miguel Panão apresenta um argumento muito persuasivo. Acerca da tese do conflito, o Miguel afirma que «não vale a pena insistir num modelo que não só não tem futuro, como nunca teve passado», e justifica cabalmente esta afirmação citando «o seguinte comentário de um historiador de ciência: “The common belief that … the actual relations between religion and science over the last few centuries have been marked by deep and enduring hostility ….is not only historically inaccurate, but actually a caricature...”». A ciência tem mérito em muitas coisas mas é impotente perante o poder persuasivo de justificar uma afirmação citando um comentador anónimo que afirma o mesmo.
Também me apercebi que, até agora, não tinha conseguido apreciar o progresso que a tal “religião” nos deu. Em 1586, Domenico Fontana, sob direcção do Papa Sisto V, colocou no centro da praça de São Pedro o obelisco egípcio que ainda hoje lá se encontra. Nessa altura, o obelisco estava a umas centenas de metros dali e o transporte e colocação daquela pedra com 25m de altura e trezentas toneladas de peso foi um feito notável para a época. Foi uma cuidadosa operação de cinco meses envolvendo novecentos trabalhadores e 72 cavalos, um grande triunfo da engenharia inspirada e fomentada pela religião do Miguel. Até recentemente, sempre me parecera que o obelisco ter sido erguido originalmente pelos egípcios dois milénios antes de Cristo e ter sido trazido do Egipto pelos engenheiros romanos mil e quinhentos anos antes da grande façanha de Fontana seria evidência de que aqueles séculos de cristianismo não tinham feito grande coisa pelo progresso científico e tecnológico. Mas isto é ver mal as coisas. Se bem que o domínio do cristianismo se caracterize pela estagnação ao nível material, houve grandes progressos em temas importantes. Tais como Deus ser um só mas três ao mesmo tempo, ou como conciliar a hipótese de um ser invisível saber tudo o que vai acontecer com a hipótese de termos vontade livre. Foi um trabalho importante sem o qual, hoje, a teologia e a filosofia da religião não seriam profissões viáveis. Graças à escolástica medieval, temos agora um respeitável corpus bibliográfico de especulações vazias que permite ao teólogo distinguir-se de um perito em mafaguinhos.
Hoje posso concordar com o Miguel e aceitar que o método da ciência é compatível com a atitude de ter fé em hipóteses que não se testou ou que nem se pode testar. Ou que adoptar dogmas pela autoridade de fontes alegadamente infalíveis é compatível com a atitude céptica de quem procura as melhores explicações. Afinal, hoje os investigadores no CERN descobriram que a Força existe mesmo (3) e há indícios sólidos de que os dragões podem voltar (4). Por isso hoje a ciência pode ser compatível com a religião do Miguel. E com a astrologia, o tarot da Maya e as vidências do Professor Karamba. Mas amanhã... bem, amanhã logo se vê.
1- Miguel Panão, O Mito do Conflito entre Fé e Ciência
2- Pruned, Moving the vatican obelisk 3- CERN, CERN researchers confirm existence of the Force
4- Nature News, Zoology: Here be dragons
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A “Hora do Planeta”, o ritual irrelevante
A “Hora do Planeta” é uma iniciativa simbólica da World Wide Found of Nature (WWF) principiada em 2007, na cidade australiana de Sidney, que ocorre no último sábado de Março, e visa consciencializar para as alegadas alterações climáticas antropogénicas.
Ano após ano, mais cidades e vilas, mais monumentos nacionais, mais pessoas anónimas aderem à iniciativa que consiste em desligar, durante 60 minutos, as luzes dos edifícios mais emblemáticos dos locais ou das casas de cada um.
Porque é que cada vez há mais aderentes à simbólica diligência? Mark Twain respondeu há mais de cem anos, porque “o Homem é um animal religioso”. É da tendência natural do homem para a crença que desde a antiguidade foi aproveitada por oportunistas para criar (sobretudo em actividades imprevisíveis, que vão dos jogos de azar às grandes manifestações da natureza) superstições e rituais a elas ligados. O ritual confunde-se com a própria crença porque surge da ideia de que fazer algo é sempre melhor que não fazer nada. Ora, toda a gente sabe que jogar no Euromilhões é, para a generalidade das pessoas, pior (para as suas finanças) que não jogar. A esmagadora maioria dos jogadores acabarão, após cada jogo, com um pouco menos dinheiro que se nada tivessem feito. Apenas uma ínfima minoria terá um retorno monetário superior ao investimento feito, mas vamos tentando a sorte dado o generoso retorno para aqueles a quem ela sorri.
A “Hora do Planeta”, que aos poucos vai ganhando o estatuto de ritual, é baseada nessa ideia de que fazer algo é sempre melhor que estar quieto. A fé implícita é a de que o Homem (que com todas as cidades, vilas, aldeias, estradas, plantações…) ocupa menos de 4% da superfície do planeta consegue controlar o clima global (ou melhor, os climas, porque são vários e bem diferenciados). E como o controla, pode fazê-lo para o “mal”, provocando o aquecimento da Terra ou para o “bem” mantendo as temperaturas actuais. A ideia da WWF permite, nas cidades que aderem à iniciativa, "poupar", em média, cerca de 2% da electricidade que se consumiria nessa hora. Como a iniciativa ocorre uma vez por ano, tal permite "poupar" (naqueles locais) cerca de 0,0002% de electricidade anual. Nas nossas casas, uma iniciativa destas, em teoria, pode poupar 5, 10, ou mesmo 15 cêntimos em electricidade, conforme o número de lâmpadas que habitualmente estão acesas aquando da iniciativa. Na prática, as poupanças são insignificantes, porque o que não fizemos naqueles minutos, por falta de luz, fica para fazer mais tarde com idêntico consumo de electricidade ou será feitas com outras formas de iluminação mais caras. Mas pode-se alegar que a ideia da WWF não é poupar custos mas sim emissões de dióxido de carbono, gás que diabolizam por acreditarem que causa “efeito de estufa”. Mas nesse caso, a poupança também é insignificante ou mesmo nula. Só parte da electricidade produzida (através do carvão, biomassa e gás natural) é que liberta dióxido de carbono, a restante é obtida (fundamentalmente) da água e do urânio. Quando apagamos as luzes (ou adiamos as tarefas para mais tarde, como escrevia acima, ou) acendemos velas, candeeiros (ou lamparinas) a petróleo ou azeite ou até a lareira, libertamos tanto ou mais dióxido de carbono que o que se libertaria na produção da electricidade.
Há dias um aluno perguntava-me: mas se fosse possível convencer todos os habitantes de um país a aderir a uma iniciativa destas, ainda assim, ela não teria impacto? A resposta: Teria, mas não em economia de custos ou emissões. A sobrecarga (pela redução de consumo, impossível de corrigir na produção) produzida na rede levaria a várias avarias de grande significado e poderíamos passar vários dias sem luz (até substituir parte da rede) com as consequências graves que daí adviriam.
MUNICIPALIZAÇÃO OU DESORÇAMENTAÇÃO?
E se o primeiro objectivo da municipalização escolar for a redução do orçamento para a Educação numa lógica neoliberal que capturou os partidos do arco?
No caso português, a ideia passa pela candidatura dos municípios a verbas europeias que financiarão os salários dos profissionais da Educação, professores incluídos, como já acontece há algum tempo com os cursos profissionais (o tal POPH que é hiperburocratizado como precaução da inspiração na letra seis do modelo "complexo" do subprime).
Esse objectivo é faseado: nos tempos mais próximos a desorçamentação faz-se à custa dos poderes descentralizados que introduzirão modelos de gestão inspirados nas cooperativas de ensino (o conhecido GPS foi um contratempo). Os mentores do arco esperam conseguir ainda um objectivo antigo: retirar as escolas públicas da esfera de influência do PCP. Esta mistura de falácias com fantasmas tem sido fatal para o ensino público, impede o seu progresso e consegue cíclicos atrasos civilizacionais.
quarta-feira, abril 01, 2015
Despejos em Santa Filomena, Amadora
No passado dia 26, foram detidos dois activistas pela PSP, quando um grupo de dezenas de manifestantes protestavam contra as demolições ordenadas pela Câmara da Amadora, no bairro de Santa Filomena. Salientamos que vários despejos e demolições violentas têm acontecido neste bairro desde de Junho de 2012.
As demolições agora retomadas traduziram-se, nos últimos dias, no despejo de cerca de 40 pessoas, entre as quais crianças e idosos, que não têm qualquer alternativa de alojamento. No dia 24, a Câmara da Amadora já informara que ainda faltavam 79 demolições para a erradicação total daquele bairro de génese ilegal, cujos habitantes têm direito a ser realojados se estiverem inscritos no Programa Especial de Realojamento (PER), cujo recenseamento data de 1993. Mas muitas pessoas que agora vivem naquela zona ainda não residiam no bairro há 22 anos, não tendo assim direito a ser realojadas ao abrigo daquele programa. Assim vai o direito à habitação no Portugal dos nossos dias!
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As demolições agora retomadas traduziram-se, nos últimos dias, no despejo de cerca de 40 pessoas, entre as quais crianças e idosos, que não têm qualquer alternativa de alojamento. No dia 24, a Câmara da Amadora já informara que ainda faltavam 79 demolições para a erradicação total daquele bairro de génese ilegal, cujos habitantes têm direito a ser realojados se estiverem inscritos no Programa Especial de Realojamento (PER), cujo recenseamento data de 1993. Mas muitas pessoas que agora vivem naquela zona ainda não residiam no bairro há 22 anos, não tendo assim direito a ser realojadas ao abrigo daquele programa. Assim vai o direito à habitação no Portugal dos nossos dias!
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A liberdade de expressão também é para os homofóbicos e para os islamofóbicos
No Reino Unido, desde o caso Rushdie em diante que a liberdade de expressão vem sendo progressivamente limitada. «Ofender» por intermédio de um mero discurso passou a ser crime contra a ordem pública.
Aconteceu agora um caso extremo: um daqueles pregadores que andam pelas ruas a citar a Bíblia foi multado (200 libras) e obrigado a pagar indemnização e custas (1200 libras). O seu crime? Ter lido em público o Levítico, 20:13: «Quando também um homem se deitar com outro homem como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue é sobre eles». Note-se que não foicondenado por incitar ao crime (última frase) mas sim por repudiar ahomossexualidade (primeira frase). O facto de o idiota em causa ser não apenas homofóbico mas também islamofóbico não ajudou.
Antes que haja comparações com o Charlie Hebdo: o fundamentalista em causa não foi morto a tiro. Foi multado. E não, não gosto do que ele diz. Mas deve ter o direito de dizê-lo, por muito que repugne ouvi-lo.
Antes que haja comparações com o Charlie Hebdo: o fundamentalista em causa não foi morto a tiro. Foi multado. E não, não gosto do que ele diz. Mas deve ter o direito de dizê-lo, por muito que repugne ouvi-lo.
Os bem intencionados
É sempre para o nosso bem. Quando há um atentado terrorista, são os big brothers adormecidos que despertam com a oportunidade de nos transformarem a todos em terroristas em potência para poderem angariar apoios para a concretização do sonho adiado de nos vigiarem cada movimento. Quando é um piloto de aviação com problemas psiquiátricos por si ocultados da entidade patronal a levar consigo para a morte 150 passageiros, tornam-nos pilotos kamikaze em potência, com toda a certeza não aparecerá tão cedo melhor oportunidade para finalmente conceder às entidades patronais a informação que contem o poder de contratar os mais saudáveis e suspender ou despedir os menos produtivos. O bastonário da Ordem dos Médicos admitiu ontem a criação de um mecanismo para as baixas serem comunicadas directamente à entidade patronal, sem que seja violado o segredo médico, nos casos que impliquem riscos para terceiros. Mas afinal que interesse teria essa informação nestas condições? Nenhum. O segredo médico é que lhe confere todo o interesse. E o que será lá isso de "riscos para terceiros"? Se incluir o risco de contágio de doenças infecciosas, em vez de avançarem também sobre o direito à privacidade, podiam começar por conceder o direito a estar doente aos portugueses que obrigam a levar os vírus e as bactérias aos colegas no local de trabalho se não quiserem perder o direito ao salário dos dias em que necessitarem de ficar em casa. O risco desaparece. Da mesma forma, o direito à estabilidade no emprego, que inclui o direito a não ter medo de ser despedido por se estar com problemas psiquiátricos, se não fizesse desaparecer, pelo menos minimizaria o risco de um piloto com tendências suicidas se apresentar ao serviço para a seguir matar 150 pessoas. Se o objectivo fosse realmente minimizar o perigo e fazer a nossa civilização avançar no sentido correcto, era isto que estaria a ser debatido, mais direitos e não menos. Já nos restam tão poucos.
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As eleições são mesmo uma palhaçada...não são??!!!
Pouco depois das 20h00, saía a primeira notícia: o PSD perdeu a maioria absoluta na Madeira e a CDU conquistava mais um deputado . Porquê? A assembleia de apuramento geral dos resultados eleitorais das regionais de domingo recontou os votos e o PSD ficava nesta altura com 23 e não os 24 deputados que garantiam a maioria absoluta celebrada no domingo. Em contrapartida, a CDU passava de dois para três deputados.
A mudança na atribuição de mandatos aconteceu, explicava-se na altura, por um engano numa das mesas de votos em Santa Cruz, onde se introduziu no domingo mais 100 votos ao PSD. Durante a assembleia de apuramento desta terça-feira, as atas foram revistas e foram contados votos de algumas mesas do Funchal, Santa Cruz e Ponta do Sol. A verificação mudou o resultado provisório de domingo à noite - a CDU saía a ganhar neste primeiro momento, o PSD nem por isso.
Depois, novo volte-face: pouco minutos antes das 22h00, o Expresso explicava que haveria recontagem dos votos . O juiz que preside à assembleia de apuramento dos resultados das eleições regionais da Madeira reconheceu que um erro no programa informático baralhou a atribuição de mandatos. O programa não contabilizou a votação do Porto Santo, fazendo as contas apenas com os resultados da Madeira.
Refeitas as contas, tudo igual a domingo: a maioria absoluta regressava ao PSD - é a 11ª consecutiva que o partido obtém na Madeira. Por sua vez, a CDU ficava com apenas dois deputados na Assembleia Regional.
O erro da primeira recontagem foi detetado já depois de o edital que anunciava a perda de maioria do PSD ter sido afixado e das declarações de vitória da CDU, que falava de um dia inesquecível para a Madeira e para os madeirenses. Os sociais-democratas detetaram o erro relativo à votação no Porto Santos e alertaram o juiz da assembleia de apuramento, que reconheceu que os números não batiam certo.
Foi nessa altura que se percebeu que, ao fazer a distribuição de mandatos através do método de Hondt, o programa informático apenas assumia a votação da Madeira e deixava de fora o Porto Santo. A reviravolta voltou a dar a maioria absoluta ao PSD, que chegou a admitir recorrer para o Constitucional quando saiu a primeira notícia. Agora é a CDU que se prepara para recorrer - e pede a recontagem total dos votos.
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E tudo isto serve para a melhoria das condições de vida das populações? Não digam que sim porque eu desato a rir à gargalhada!...
A mudança na atribuição de mandatos aconteceu, explicava-se na altura, por um engano numa das mesas de votos em Santa Cruz, onde se introduziu no domingo mais 100 votos ao PSD. Durante a assembleia de apuramento desta terça-feira, as atas foram revistas e foram contados votos de algumas mesas do Funchal, Santa Cruz e Ponta do Sol. A verificação mudou o resultado provisório de domingo à noite - a CDU saía a ganhar neste primeiro momento, o PSD nem por isso.
Depois, novo volte-face: pouco minutos antes das 22h00, o Expresso explicava que haveria recontagem dos votos . O juiz que preside à assembleia de apuramento dos resultados das eleições regionais da Madeira reconheceu que um erro no programa informático baralhou a atribuição de mandatos. O programa não contabilizou a votação do Porto Santo, fazendo as contas apenas com os resultados da Madeira.
Refeitas as contas, tudo igual a domingo: a maioria absoluta regressava ao PSD - é a 11ª consecutiva que o partido obtém na Madeira. Por sua vez, a CDU ficava com apenas dois deputados na Assembleia Regional.
O erro da primeira recontagem foi detetado já depois de o edital que anunciava a perda de maioria do PSD ter sido afixado e das declarações de vitória da CDU, que falava de um dia inesquecível para a Madeira e para os madeirenses. Os sociais-democratas detetaram o erro relativo à votação no Porto Santos e alertaram o juiz da assembleia de apuramento, que reconheceu que os números não batiam certo.
Foi nessa altura que se percebeu que, ao fazer a distribuição de mandatos através do método de Hondt, o programa informático apenas assumia a votação da Madeira e deixava de fora o Porto Santo. A reviravolta voltou a dar a maioria absoluta ao PSD, que chegou a admitir recorrer para o Constitucional quando saiu a primeira notícia. Agora é a CDU que se prepara para recorrer - e pede a recontagem total dos votos.
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E tudo isto serve para a melhoria das condições de vida das populações? Não digam que sim porque eu desato a rir à gargalhada!...
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