Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
sexta-feira, maio 29, 2015
quinta-feira, maio 28, 2015
Desvendado o mistério dos buracos nos queijos
O mistério dos buracos no queijo suíço foi finalmente desvendado, após um século de investigação, e afinal a "culpa" não é das bactérias.
O anúncio da descoberta foi feito esta quinta-feira pelas autoridades científicas da Confederação Helvética que se dedicaram ao estudo do fenómeno: os investigadores do Agroscope, o instituto das ciências alimentares, sediado em Berna, associados aos do Laboratório Federal Suíço de Testes de Materiais e Investigação (Empa).
Os famosos "buracos" de queijos como o Emmental e o Appenzell resultam dos gases produzidos por partículas de feno durante o processo de fermentação, explicou o Agroscope em comunicado.
O enigma dos buracos no queijo, que "fascinava tanto as crianças quanto os adultos", está por fim resolvido, congratulou-se o Agroscope.
Os "buracos" tendem a desaparecer depois de o leite ter passado a ser extraído por meio de técnicas mais modernas, em vez da ordenha tradicional das vacas, constataram os investigadores.
"É o desaparecimento do tradicional balde", colocado sob o úbere da vaca, substituído por técnicas mais modernas e mais higiénicas que está na origem do desaparecimento dos buracos, disse um porta-voz do Agroscope citado pela agência de notícias francesa AFP.
Segundo o instituto científico suíço, já em 1917 o norte-americano William Clark publicara um artigo aprofundado sobre a formação dos buracos no Emmental.
AINDA A PSEUDO-AVALIAÇÃO DA CIÊNCIA NACIONAL
Ao contrário do que se passou com José Mariano Gago, para o ministro Nuno Crato a ciência não foi uma prioridade política. Tal como na educação, tratava-se simplesmente de cortar sem um critério racional. Mandou fazer cortes e mais cortes no sistema científico-tecnológico português, para além dos cortes no ensino superior, esquecendo que a ciência representava o meio por excelência de ganhar o futuro. Mas. na ciência, foi bastante pior do que cortar. Os recursos disponíveis, quaisquer que eles fossem, deviam ter sido atribuídos de um modo aberto e racional. Mas, com uma tenebrosa gestão na Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), passaram a ser atribuídos de um modo secreto e irracional, completamente ao revés do espírito científico. Em vez de uma política participada, aberta aos contributos da comunidade científica, houve uma exercício autocrático de poder..
A pseudo-avaliação das unidades científicas foi um dos exemplos mais evidentes do descalabro na ciência em Portugal. A FCT, com o apoio do ministro, encomendou à European Science Foundation (ESF) uma avaliação das unidades científicas nacionais que, soube-se depois, continha uma cláusula escondida: Metade das unidades devia ser excluída logo na 1.ª fase do processo. Quando houve a percepção de que os resultados catastróficos dessa “avaliação” provinham dessa regra nunca anunciada e nunca justificada, a FCT tentou iludir a realidade, mentindo a esse respeito. Desmentiu o que estava à vista de todos. Mas não foi apenas uma "poda", não se tratou apenas da eliminação sumária de metade das unidades onde se praticava ciência em Portugal. Acontece que a metade escolhida não era formada pelos melhores centros em várias áreas (bastava consultar índices de produção científica). Os peritos da ESF eram em número insuficiente e, em muitos casos, pouco qualificados. Não existiu, em muitos casos, uma avaliação por especialistas. Muitos pareceres não faziam, em largos excertos, qualquer sentido. Tal resultou em parte do facto de, na 1.ª fase, as unidades nem sequer terem sido visitadas, como manda a lei. O Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), reconhecendo a validade de muitas reclamações, afirmou que o processo era um “falhanço pleno”.
Na 2.ª fase, a arbitrariedade continuou, com atropelo das regras estabelecidas pela FCT e visitas feitas, nalguns casos, por não especialistas. Em suma, a “avaliação” da FCT-ESF não teve nunca a necessária qualidade. Em verdade se diga que os financiamentos também não seguiram a avaliação, tendo sido efectuados para os centros apurados na 2.ª fase com base essencialmente nos pedidos que eles tinham efectuado (a FCT falou de "modulação", mas eram apenas cortes mais ou menos arbitrários). Não admira que os protestos dos investigadores tenham de novo chovido. Das 178 unidades da 2.ª fase (eram 322 à partida) 123 protestaram. Tal como na 1.ª fase, a reclamações da 2.ª fase permaneceram sem resposta atempada e adequada. Só para dar um exemplo do despautério governamental: numa altura de austeridade do Orçamento de Estado, a FCT decidiu atribuir chorudos financiamentos públicos a fundações privadas. Lá fora, as fundações privadas ajudam o Estado, em Portugal é o Estado que ajuda as fundações privadas
Em 7 de Abril passado, demitiu-se o presidente da FCT, confrontado não só com os continuados protestos perante o desconchavo, mas também com a sua ocupação do cargo a tempo parcial. A manifesta falta de qualidade da gestão da FCT poderia ter a ver com a falta de tempo do seu presidente, que continuava professor no Imperial College de Londres. Foi então nomeada uma presidente interina, que ainda não reconheceu os erros que prejudicaram e prejudicam gravemente o sistema científico português. A pseudo-avaliação da FCT-ESF, caucionada do início ao fim por Nuno Crato, lançou o descrédito sobre a FCT e o Ministério da Educação e Ciência, não podendo ser reparada com remendos. Não há, de facto, nenhuma maneira de endireitar a sombra de uma vara torta.
E se o Grexit fosse um sucesso?
«Mas a grande questão é o que acontecerá um ano ou dois depois do Grexit, onde o risco real para o euro não é que a Grécia falhe mas que tenha êxito. Suponhamos que um novo dracma muito desvalorizado atrai uma avalanche de britânicos bebedores de cerveja para o Mar Jónico e que a Grécia começa a recuperar. Isso incentivaria muito, noutras paragens, os que contestam a austeridade e a desvalorização interna da moeda .»
Vai mas é trabalhar Ricardo Salgado!
Imagem@Notícias ao Minuto
Para além da intensa actividade no âmbito do terrorismo financeiro, descobrimos esta semana que Ricardo Salgado é também um alegado mandrião, um parasita diriam alguns, pois ao invés de ir trabalhar, prepara-se para pedir o Rendimento Social de Inserção. Pelo menos é o que avança a imprensa cor-de-rosa e o PT Jornal.
Apesar de insultuoso para quem verdadeiramente precisa deste apoio social, é interessante ver o Dono Disto Tudo nesta posição, principalmente quando há exactamente dois anos atrás surgiam declarações deste sujeito que, relativamente à entrada de mão-de-obra estrangeira em Portugal para trabalhar em explorações agrícolas na zona do Alqueva, diziam assim:
Tanto quanto sei, até porque metade da minha família vive no Alentejo profundo, continua a existir muito trabalho nos campos e escassez de mão-de-obra em algumas zonas da região. E nesta altura do ano, com as temperaturas a subir em flecha e o clima cada vez mais hostil para a labuta na aridez do Baixo Alentejo, estou certo que haverá um óptimo emprego à espera de Ricardo Salgado, o precário. A menos que, tal como as pessoas que criticou em tempos, Ricardo Salgado não queira trabalhar e prefira agarrar-se a um subsídio ao invés de, por uma vez que seja na vida, enveredar por um trabalho honesto. Nesse caso (e noutro qualquer) faço votos de que o seu pedido seja prontamente negado porque Portugal não está em condições de sustentar mais parasitas. Se não estiver bem pode sempre ir para a Comporta, brincar aos pobrezinhos. Com sorte, alguém há-de reconhecê-lo por lá e dar-lhe uma côdea de pão.
Azarito
Anedota: homem no seu leito de morte despede-se da mulher. “Quando tive o AVC, tu nunca saíste de ao pé de mim apesar de eu sempre te ter traído.” Ela responde-lhe emocionada: “sim, meu doce, isso agora não importa nada”. “Quando o negócio ardeu e ficámos sem ganha-pão, também sempre estiveste ao pé de mim.” Ela, ainda mais emocionada: “sim, meu querido.” “Quando ficámos sem casa e sem carro, foste tu a única que não me abandonou.” Ela, já com a voz a tremer: “sim, meu amor”. “Passaram mais de 40 anos e agora estou aqui no meu leito de morte e tu sempre aí, sempre perto.” E ela já não conseguia dizer nada, as lágrimas rolavam-lhe cara abaixo. “Sabes uma coisa?”, pergunta-lhe ele. “Diz, meu querido, meu doce, amor da minha vida.” Ele: “eu acho que tu me dás azar.”
Exercício: no texto acima, substituir “homem no seu leito de morte” por “Portugal despede-se das conquistas de Abril em ano de eleições.” E o que o homem vai dizendo por “vocês sempre me avisaram”, “vocês sempre me representaram”, vocês sempre me defenderam”, “vocês sempre denunciaram os corruptos”, “vocês sempre fizeram o possível e o impossível para preservar o que antes era de todos e agora pertence a uma casta de rendeiros do país”. Mantenham aquele “eu acho que eles nos dão azar”, é o que dá graça à anedota.
Nota: um destes dias conto-vos uma muito boa sobre um povo que, ao contrário de azarados como gregos e espanhóis, teve a sorte de se deixar convencer que não havia nada a fazer e se permitiu achar que aquele arco que deu cabo do seu país o iria reconstruir com a mesma receita de austeridade e obediência, a desmantelar o que restava de serviços públicos, de Segurança Social, de estabilidade laboral, de poder de compra, de qualidade de vida, de esperança, de presente e de futuro. Termina com mais umas eleições ganhas por esse “arco da governabilidade” seguidas de uma alteração à lei eleitoral para varrer de vez do Parlamento aqueles – os tais – lagarto, lagarto, lagarto – que davam azar. Adoro anedotas com finais felizes.
De qualquer maneira, eles vão dar cabo disto
Maria Luís Albuquerque acha que a Segurança Social, como está, entra em rutura e, por isso, defende cortes definitivos nos valores pagos aos atuais pensionistas.
A obsessão de sangrar a Segurança Social vem de longe. Nos anos 80 do século passado já eu ouvia as atuais teses, agora dadas a beber aos cérebros tenros dos jovens da JSD, esponjas prontas a absorver para o resto da vida a "lição" da ministra das Finanças.
Naquela época os fundamentalistas mais radicais da fé na santa Thatcher defendiam mesmo o fim das reformas pagas pelo Estado: cada um cuidasse, durante a vida ativa, da sua futura velhice. Ponto final.
As companhias de seguros trataram, logo, de inventar planos financeiros para quem aderisse aos seus sistemas. Celebrizou-se, entre os remediados e abonados, a sigla PPR - Plano Poupança Reforma - que o Estado subsidiava indiretamente com benefícios fiscais. O mesmo Estado que, sempre que tinha problemas financeiros, retirava verbas aos cofres da Segurança Social pública...
Em 2008 um dos potentados mundiais desses fundos de pensões, a AIG/Alico, entrou em colapso e esteve no início da crise financeira dos EUA. Foi o Estado norte--americano que teve de a salvar, evitando que milhões de pensionistas/investidores em todo o planeta ficassem sem um único dólar.
Em Portugal já tivemos a reforma da Segurança Social, em 2007, que alterou os limites da idade da aposentação. Seguiram-se os cortes "provisórios" subsequentes à chegada da troika, a tornar magras muitas pensões gordas. Persiste ainda o congelamento das atualizações do valor da esmagadora maioria das reformas e a proibição quase total de antecipação de saídas do mundo do trabalho.
Este ano, revela o DN, apesar de haver mais reformados, o Estado gasta menos 762 milhões de euros com eles do que em 2011. Mesmo assim, garante a ministra, qual guru dos anos 80, sem mais cortes definitivos o sistema ruirá.
António Costa, por seu lado, acha que pode fazer uma redução da Taxa Social Única que tirará 1850 milhões de euros em quatro anos às receitas da Segurança Social (contas do jornalista da SIC José Gomes Ferreira) medida que o mais elementar bom senso adivinha ir descambar na ruína do sistema, dada a incerteza de receitas alternativas e o facto (apontado ontem pelo mesmo jornalista) de haver um défice total no sistema de 5300 milhões de euros.
No fim, Maria Luís e António Costa, por caminhos tão diferentes, chegam afinal à mesma meta: a falência definitiva da Segurança Social. É incrível! ... Viva o arco da governação! Vivam PS, PSD e CDS! De uma maneira ou de outra, eles vão mesmo conseguir dar cabo disto.
quarta-feira, maio 27, 2015
Cuidado com a proposta de revisão de crédito à habitação da CGD!
“Bom dia. Aqui é da CGD e queremos reduzir-lhe a prestação da casa em €118. Parece-lhe bem? Podemos avançar?” Terá sido com uma frase parecida com esta que se iniciou um contacto telefónica entre a CGD e um seu cliente relatada no artigo “Honestidade e boa-fé” do Destreza das Dúvidas e que já chegou às páginas do Diário de Notícias.
Em poucas palavras a CGD tomou a iniciativa de contactar diretamente os seus clientes, por telefone, para alterar as condições dos respetivos créditos iniciando a conversa com o isco e tardando em revelar a verdadeira motivação da conversa. Na realidade, do relato, fica-se com a sensação de que se o cliente, no caso, não fosse particularmente informado e desconfiado, o negócio tinha ficado apalavrado com consequências potencialmente danosas para o cliente.
Na prática, a CGD não ofereceu uma redução do custo do crédito ao cliente mas antes o seu contrário. O que queria (e quer) fazer era aproveitar o engodo de uma descida do esforço mensal para prolongar o crédito por mais dezena e meia de anos e, principalmente, rever o spread ridiculamente baixo com que se havia comprometido para angariar o cliente aqui há uns anos (no caso 0,3%) para um valor que mais lhe convinha para regressar aos lucros: 2,0%.
A CGD tal como muitos outros bancos estão hoje a tentar de forma mais ou menos criativa e mais ou menos ardilosa, livrar-se dos créditos com spreads baixos. No caso da Caixa Geral de Depósitos a estratégia parece centrar-se na exploração da iliteracia financeira dos seus clientes, potenciada por uma prática comercial extremamente agressiva. Noutros bancos o registo é bem mais razoável e cristalino. Por exemplo, no Deutsche Bank os clientes estão a ser contactados no sentido de averiguar se estão interessados em contratar um novo crédito – por exemplo para mudar de casa – sendo-lhes oferecido um spread muito competitivo face aos valores hoje praticados, mas, ainda assim, claramente superior ao que foi negociado nos anos de ouro dos spreads baixos. Contrariamente ao caso da CGD, no caso de Deutsche Bank tudo é deixado em pratos limpos, numa proposta escrita, logo no primeiro contacto.
A situação da CGD foi relatada ao Banco de Portugal dado que poderá ferir alguns dos procedimentos elementares a que qualquer banco está obrigado em termos comportamentais na sua relação com os seus clientes pelo que se aguarda uma reação do supervisor nesta matéria.
Além do alerta a eventuais clientes bancários da CGD e de outro bancos que possam estar a receber propostas boas de mais para serem verdade, no sentido de iniciarem qualquer negociação com extrema cautela e mesmo desconfiança, fica também a nota crítica para a prática comercial seguida pelo banco do Estado que sabe ser referencial no sector.
Estas práticas parecem-nos suficientemente graves para justificar uma explicação pública e potencial penalização da administração pelo poder político. Se mais uma vez uma situação inaceitável e reveladora de profunda má fé comercial passar incólume junto de supervisor, poder político e detentor do capital, teremos mais um argumento a juntar a muitos na nossa história recente (nacional e internacional) para encarar de forma crescente as instituições financeiras com que lidamos como pouco menos do que extorcionistas autorizados.
DAQUI
A verdade sobre Riga
Parecem aproximar-se momentos decisivos para uma definição da situação da Grécia. Nikos Voutsis, o Ministro do Interior cuja fotografia circulou após a vitória eleitoral do SYRIZA, anunciou num canal privado grego que não seria feito o pagamento de 1,6 mil milhões de euros ao FMI, agendado para o dia 5 de Junho, caso não houvesse um acordo com os credores, uma vez que o Estado grego não tem o dinheiro disponível para o fazer. Segundo o New York Times, uma proposta da Plataforma de Esquerda (uma corrente interna do SYRIZA) para cessar imediatamente os pagamentos aos credores foi apresentada na reunião do Comité Central realizada este fim de semana, obtendo 75 votos favoráveis contra 95 votos desfavoráveis.
Um editor da Reuters já veio explicar, num rocambolesco exercício de literatura fantástica, que a única solução viável é a capitulação política por parte de Tsipras e a convocação de eleições para obter uma maioria contra os militantes mais radicais do seu próprio partido. Ainda mais audicioso no plano da desfaçatez, Durão Barroso culpa o governo grego pela situação, considerando que este “não soube aproveitar a sua legitimidade” (sic) para negociar com a zona euro, acrescentando como bónus que “o povo grego deu instruções ao banco central e ao tribunal de contas para manipular os dados que apresentava” (sic), enquanto Ambrose Evans-Pritchard, um dos analistas que mais frequentemente escrevem sobre a crise na periferia da zona euro, descobriu no programa do Partido Socialista uma ameaça à estabilidade da zona euro comparável ao posicionamento do SYRIZA, alertando para os riscos que qualquer abalo pode provocar na “débil” recuperação económica portuguesa.
É este o contexto em que o Ministro das Finanças grego – sobre o qual o New York Times publicou esta semana uma longa peça – resolveu colocar em pratos limpos o que aconteceu na cimeira do Eurogrupo efetuada em Riga a 24 de Abril, na sequência da qual vieram a público diversas notícias e informações sobre a sua postura, dando conta do seu descontrolo face aos alegados insultos de outros ministros das finanças. Yanis Varoufakis publicou ontem, no seu blog, o texto que abaixo se traduz.
Portugal e Espanha
Na dinastia Ming, o imperador mandava decapitar o cozinheiro se não gostava de algum dos pratos que lhe eram servidos às refeições. Nas democracias ocidentais, os votos fazem cair ou oscilar quem confecciona os pratos consumidos pelos cidadãos. Os resultados das eleições espanholas de domingo mostram que o mundo dos cozinheiros dos partidos que partilham regularmente a cadeira do poder está a ser desafiado por uma nova geração de Ratatouilles, ou melhor, de Remys com adiantado sentido de gosto e faro político.
Portugal não é, ainda, o espelho de Espanha, mas poderá vir a ser. Repare-se nos dados: o PP foi o mais votado, mas perde nos maiores centros urbanos; PP e PSOE ainda tiveram 52% dos votos, mas o Podemos (e, em menor grau, o Ciudadanos) acaba com a hegemonia dos dois senhores da democracia espanhola. E, com isso, abre-se uma nova fronteira na forma de olhar para a política, mais radical.
A repartição do poder em Espanha poderá agora conduzir a alianças diferentes ou, pelo contrário, ajudar à ingovernabilidade crónica, lembrando os tempos mais tórridos da política italiana do século XX. Até que chegou Silvio Berlusconi, o "reformador" criado pelos seus canais televisivos. E sabe-se que nem todos os povos, especialmente se estão reféns de crises económicas, convivem pacatamente com a instabilidade. Mas o que é evidente em Espanha é que o Podemos simboliza uma outra política que vai contaminando sociedades empobrecidas e desequilibradas.
Muitos cidadãos decidiram votar em si mesmos através do Podemos, algo que Pablo Iglesias pode não querer, mas o qual, pragmaticamente, necessita. A maioria dos cidadãos já não está na direita nem na esquerda: está nos que se sentem inseguros, na miséria escondida e, sobretudo, numa classe média vencida, pilhada e humilhada. Todos os que votaram nas alternativas buscam um discurso combativo, onde a dignidade se contrapõe ao discurso único da austeridade. PSD, PS e CDS deveriam ir rever "Ratatouille".
terça-feira, maio 26, 2015
Jornalismo de meia tijela a que assistimos todos os dias!
A verdade (ilustrada) a que temos direito
Nos jornais reina a hipocrisia e quando a realidade não é compatível com a ideologia omite-se. Mete-se em letras pequeninas. Arruma-se num cantinho. Faz-se quase de conta que afinal não aconteceu nada
Estas primeiras páginas do PÚBLICO e do Jornal de Notícias do dia 8 de Maio – um dia após as eleições britânicas – são uma eloquente introdução ao jornalismo português. Onde estão os resultados?
Em Portugal as redacções são de esquerda, facto em si mesmo nem bom nem mau e que nada tem de original. O problema, ou melhor dizendo o nosso problema, é que essa pertença traduz-se num fenómeno do domínio do paranormal pois só o esoterismo consegue explicar que tendo as redacções como propósito fazer notícias e dependendo o seu sucesso da sua capacidade para as produzir acabem a esconder notícias relevantes simplesmente porque elas põem em causa a sua narrativa prévia sobre o mundo. Uma narrativa que garante que os partidos que cabem no espectro do progressismo (seja isso o que for!) são invariavelmente os vencedores e que se tal não acontece essa anormalidade só se explica por chapeladas, manipulação ou obscurantismo dos eleitores. E assim, como a maior parte das nossas redacções está convicta de que nenhum povo poderá votar num partido que além de se dizer conservador defende a austeridade, a derrota de Cameron foi dada como certa. Como tal não aconteceu, apesar de todas as certezas prévias dos enviados especiais, só resta escondê-lo.
Pelo mundo fora há quem proteste. Há quem dê conta da sua fúria como fez o Daily Mirror que naquela que considero a melhor capa sobre o resultado destas eleições britânicas, clama contra o que considera serem mais cinco amaldiçoados anos de governo de Cameron
Pode ou não concordar-se com a posição do Daily Mirror mas a capa é indiscutivelmente boa. Contudo em Portugal nunca se faria uma capa destas. Nós somos todos oficialmente neutros. E confundimos esses estado de sonsismo a que chamamos neutralidade com rigor e independência. Ninguém toma posição a favor ou contra. (Curiosamente, uma das raras vezes que um meio de comunicação tomou posição – a Rádio Renascença aquando do referendo ao aborto – a sua cobertura jornalística foi não só rigorosa como equilibrada.) Na prática a hipocrisia reina e quando a realidade não é compatível com a ideologia omite-se. Mete-se em letras pequeninas. Arruma-se num cantinho. Faz-se quase de conta que afinal não aconteceu nada.
Estas primeiras páginas do Jornal de Notícias e do PÚBLICO tornam-se ainda mais eloquentes quando colocadas ao lado daquelas que essas mesmas publicações dedicaram há bem poucos meses à vitória do Syriza. Esse exercício de comparação foi feito pelo blogue Insurgente (que também englobou o Diário de Notícias). O resultado fala por si.
A incapacidade de noticiar o que não cabe no enquadramento ideológico que os rege é uma característica que tem acompanhado os jornalistas portugueses na democracia. Livres do exame prévio é como se continuassem previamente a ter a certeza do que vai acontecer, do que devem escrever e dizer.
Para a História e memória dessa sobranceria iluminada dos jornalistas logo no nascimentos da democracia ficou aquela reportagem da RTP aquando das eleições de 1975 em que, na fase da apologia do voto em branco, para “todos os que não saibam em quem votar”, o jornalista pergunta no Minho a uma mulher vestida de negro (símbolo para qualquer jornalista do Portugal rural e atrasado que naturalmente não sabia em quem votar) se ela sabia o “que é uma Assembleia Constituinte?” Ao que a mulher respondeu prontamente com outra pergunta:“E o senhor sabe o que é um almude?”
A resposta definitiva chega na pergunta seguinte: “Então porque vai votar?” pergunta com algum paternalismo o jornalista. Sem perder mais tempo ela diz: “Pelo futuro de Portugal”. A reportagem acabou ali.
O lápis azul da censura do Estado Novo passou automaticamente a lápis mental rosa, às vezes vermelho na democracia. Graças a ele os jornalistas portugueses deitaram fora a oportunidade de fazer algumas daquelas que podiam ter sido as suas melhores reportagens. Veja-se o caso dos retornados. Só depois de milhares e milhares de pessoas terem fugido e dos seus caixotes começarem a atravancar os portos é que vemos os primeiros retornados nos jornais. Mas daí até entrevistá-los foi um passo que demorou frequentemente anos. E mesmo assim com os jornalistas a fazerem enquadramentos vários sobre se eram retornados ressentidos ou não ressentidos, se tinham sido exploradores ou explorados, colonialistas ou vítimas do colonialismo. Mais, de Angola e Moçambique, entre Julho de 1974 e meados de 1975, foram expulsos pelas autoridades militares portuguesas vários jornalistas e líderes políticos acusados de “agressão ideológica” sem que tal perturbasse em Lisboa a classe que até 25 de Abril de 1974 se mostrara tão sensível às prepotências do poder.
Em boa verdade se tivesse de escolher um lema para ilustrar o pensamento dominante em muitas redacções optaria pelo slogan do desaparecido O Diário, jornal afecto ao PCP que se anunciava como trazendo “a verdade a que temos direito”. De facto O Diário dava aos seus leitores a verdade a que os comunistas achavam que eles tinham direito. Como os leitores achavam aquela verdade muito especial ou por assim dizer pequenina, O Diário foi perdendo leitores e não resistiu ao desmoronar do mundo comunista: fechou abruptamente em Junho de 1990.
Ironia das ironias, como nesse ano os feriados se colaram ao fim-de-semana o seu desaparecimento quase só se percebeu uma semana depois e, perante a indiferença geral, os seus trabalhadores foram despedidos ao abrigo das alterações à lei laboral levadas a cabo pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva que o mesmo PCP acusava dos crimes mais nefandos por causa de querer instituir no país o despedimento colectivo.
O Diário fechou mas o conceito de “verdade a que temos direito” esse manteve-se. E nem é na política que causa maior dano este circunscrever das notícias à verdade a que os leitores têm direito na óptica do pensamento avançado das redacções. Afinal há sempre um dia em que os resultados eleitorais desmontam essas certezas. E ao contrário do que se possa pensar nem sempre os líderes amados pelas redacções acabam beneficiados por esse fervor. Veja-se o caso de António Costa que levado em ombros pelas redacções como o líder que seria capaz de fazer o PS descolar nas sondagens está agora com uma imagem de perdedor porque não consegue obter os resultados que a boa imprensa associava automaticamente ao seu nome.
Mas como disse não é no noticiário político que este vigorar da “verdade a que temos direito” tem mais impacto. É sim nas notícias sobre o quotidiano e naqueles temas que se tornam causas que essa “verdade a que temos direito” se torna na verdade indiscutível. Assuntos como o aquecimento global, racismo, igualdade, insegurança tornam-se no pretexto para a divulgação de um pensamento único em que nem se admite o simples acto de discordar.
Podia dar centenas de exemplos daquilo a que nos conduziu esta “verdade a que temos direito” levada ao extremo. Mas vamos ficar por outra imagem. Esta reproduzida na página 10 do Diário de Notícias de 6 de Outubro de 2013. Era acompanhada de uma pequena legenda onde se lia “Homenagem aos Bravos da Rotunda. Sargentos. Os “Nove Bravos da Rotunda” foram ontem homenageados numa iniciativa do jornal O Sargento, na Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa. Acampados na praça de 4 para 5 de outubro de 1910, decidiram ali continuar, numa “ação determinante” para o êxito da revolução”.
Mas se repararmos bem na imagem lá ao fundo desfilam vários manifestantes. O que quereriam? A legenda desta foto não o diz. Nem eles são referidos em parte alguma dessa edição do jornal. Nem dos outros jornais. Alguns blogues deram conta da sua estranheza mas o assunto não mereceu qualquer destaque.
Aliás segundo um dos participantes nessa manifestação mediaticamente invisível, José Ribeiro e Castro, à excepção da Lusa e da Rádio Renascença não houve qualquer outra referência àquela manifestação que vemos ao fundo nesta fotografia. Como foi isto possível? Foi possível porque aquela manifestação não cabia no conceito de verdade a que temos direito: aqueles manifestantes desfilavam contra o aborto e a verdade a que temos direito só nos dá o direito a sermos informados sobre manifestações a favor do aborto.
Esta fotografia é um símbolo do jornalismo a que temos direito em Portugal: o repórter fotográfico saiu da redacção do Diário de Notícias, que por sinal ficava mesmo ao lado, e foi fazer a foto da homenagem aos revoltosos de 1910. De entre as fotos que fez seleccionou-se a melhor. Na redacção alguém fez uma legenda a explicar o que faziam aquelas vinte ou trinta pessoas ao pé da estátua do Marquês de Pombal. Lá ao fundo passava uma manifestação. Reunia centenas de pessoas: 500 para a Lusa, mais de mil para os organizadores. Mas sobre ela caía o manto da invisibilidade da verdade a que temos direito.
COMO A CIA FALHOU NA MACEDÓNIA
O golpe de Estado da CIA previsto para o passado dia 17 na Antiga República Jugoslávia da Macedónia foi desmantelado pelas forças governamentais quando já estava em andamento. É a segunda tentativa de mudança de regime fracassada pela ponta de lança do terrorismo de Estado norte-americano nos últimos meses, depois de o governo venezuelano ter feito abortar uma intentona fascista. Apesar dos insucessos, os acontecimentos revelam que as décadas passam e os Estados Unidos da América continuam a praticar a política de não olhar a meios para atingir os fins – instalar os seus agentes à cabeça de governos onde quer que seja.
O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, lamentou os acontecimentos na Macedónia e pediu uma investigação “transparente”. Aqui se registam alguns dados já confirmados, num quadro de rigor e transparência. No dia 17 de Maio esteve prevista em Skopje, capital da Macedónia ex-jugoslava, uma manifestação da minoria albanófona na qual seriam distribuídas duas mil máscaras entre os participantes, a entregar pelos organizadores, o Partido Social Democrata de Zoran Zaev. Durante o desfile, alguns desses mascarados atacariam edifícios de várias instituições e tentariam provocar uma “revolução” inspirada nos acontecimentos na Praça Maidan e que deixaram a Ucrânia no estado saudável em que se encontra.
O golpe falhou porque os serviços governamentais macedónios conseguiram deter, em 11 de Maio, a infiltração do comando terrorista que, sob o disfarce das máscaras, iria lançar os ataques durante a manifestação. Todos os principais chefes do comando foram figuras destacadas do UCK, o grupo terrorista islâmico e albanófono a quem a NATO e a União Europeia entregaram o território do Kosovo arbitrariamente amputado à Sérvia. Um dos comandos foi identificado como sendo Rijai Bey, antigo membro da segurança de Ramush Haradinaj, traficante de drogas, antigo chefe militar do UCK e ex-primeiro ministro do Kosovo. Haradinaj compareceu duas vezes perante o tribunal dos crimes na antiga Jugoslâvia e foi absolvido em ambos os casos: durante os processos foram assassinadas nove testemunhas consideradas fundamentais.
A infiltração foi contida pelas forças governamentais durante um confronto no qual morreram 14 terroristas e oito membros dos serviços macedónios. Salomonicamente, o secretário-geral da NATO manifestou “simpatia” pelas famílias de todas as vítimas, abstendo-se de condenar o terrorismo e de manifestar apreço pelo facto de a legitimidade governamental ter prevalecido.
Porém, Washington e o seu embaixador em Skopje, Paul Wohlers, não vão desistir porque na Macedónia se joga também a guerra energética declarada contra a Rússia.
O expansionismo albanês na região, com o apoio da NATO e da União Europeia, é um combustível importante para objectivos como este. O mapa da Grande Albânia, com a integração do Kosovo e de parte da Macedónia, continua afixado nos gabinetes dos chefes de Tirana. Trata-se de uma estratégia a prazo e que, neste caso, serviu interesses mais imediatos. Através do golpe, de que já tinha havido sinais em Janeiro, os Estados Unidos tentaram frustrar a concretização do gasoduto alternativo ao South Stream, que Washington sabotou ao forçar a Bulgária a retirar-se.
Putin não desistiu e em Dezembro do ano passado convenceu a Turquia de Erdogan a colaborar numa alternativa; seguiu-se o acordo do novo governo grego de Tsipras e da Macedónia, negociado em Março. A Sérvia decidiu transitar do falhado South Stream para a nova alternativa e, com isso, passou a sentir os efeitos de novas pressões pela secessão da Voivodina. O novo projecto de gasoduto permitirá à Turquia distribuir gás russo através da Europa, contornando o embargo internacional decretado pelos Estados Unidos. Percebe-se pois, como absoluta “transparência”, talvez não a desejada pelo senhor Stoltenberg, onde queria chegar o “mundo civilizado” com esta tentativa de golpe na Macedónia. Outros capítulos se seguirão pois se dizem que Deus não dorme, Washington também não.
Grécia: os problemas na saúde aumentam
(Traduzimos partes do artigo “Grèce: la catastrophe sanitaire s’aggrave”, por Eugenie Barbezat, no l´Humanité.fr)
Na foto os membros da delegação à frente de um cartaz onde se pode ler “mazi”, que significa “juntos”.
Na foto os membros da delegação à frente de um cartaz onde se pode ler “mazi”, que significa “juntos”.
Do dia 11 de Maio a 16 de Maio, membros do colectivo “Solideriedade França Grécia pela saúde” voaram para Atenas, ao reencontro de pessoas das clínicas sociais e solidárias autogeridas. As suas observações são alarmantes.
Os hospitais estão em falência: “Nós visitámos Sotiria, um hospital histórico e de referência para os Balcãs que sofrem de doenças respiratórias e de tuberculose. Estão à beira do colapso.
Por um lado, eles são subfinanciados e têm um enorme défice de pessoal e de material (em Sotiria fecharam cinco serviços). Os casos de tuberculose aumentaram exponencialmente, a taxa de suicídio também aumentou e a maioria dos cancros já não são tratados. Reapareceram casos de malária e de raiva. Existe uma enorme sobrecarga de trabalho e em parte este excesso de trabalho acontece porque existe uma desorganização dos cuidados primários. (nas urgências, em 12h, 112 pacientes foram vistos por uma só médica). O número de paramédicos efectivos está a diminuir drasticamente, porque os que se reformam não são substituídos.
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Por um lado, eles são subfinanciados e têm um enorme défice de pessoal e de material (em Sotiria fecharam cinco serviços). Os casos de tuberculose aumentaram exponencialmente, a taxa de suicídio também aumentou e a maioria dos cancros já não são tratados. Reapareceram casos de malária e de raiva. Existe uma enorme sobrecarga de trabalho e em parte este excesso de trabalho acontece porque existe uma desorganização dos cuidados primários. (nas urgências, em 12h, 112 pacientes foram vistos por uma só médica). O número de paramédicos efectivos está a diminuir drasticamente, porque os que se reformam não são substituídos.
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À esquerda que é esquerda: 3 em 1
A Segurança Social está oficialmente a saque. As pensões de reforma de quem trabalhou e trabalha uma vida inteira para garantir uma vida digna na velhice perigam. PSD quer reduzir a TSU aos empregadores. PS responde com descida da TSU não apenas para empregadores, também para trabalhadores. Maria Luís Albuquerque acena com mais reduções nas pensões de reforma dos portugueses e concretiza a ameaça atirando para o ar 600 milhões em cortes adicionais que alegadamente salvariam a sustentabilidade da SS. António Costa riposta, primeiro com a incerteza permanente que o seu rigor se encarregará de dissipar e depois rectificando o seu rigor admitindo recuar na proposta de revisão da TSU dos trabalhadores, e sobre a partilha da responsabilidade da incerteza que criticou ficámos conversados. Da minha parte, não sei de que é que a esquerda está à espera para aproveitar a oportunidade que lhe é servida de bandeja para propor um aumento no salário mínimo que comece a repor o poder de compra perdido ao longo destes 41 anos de democracia. Bastaria um aumento de metade desse valor, não 70 mas apenas 35 euros, pouco mais de um euro diário no primeiro ano, para produzir descontos de valor aproximado àquele que a senhora ministra sugeriu roubar a quem já não tem idade para se poder defender. E esquerda que é esquerda seria isto que proporia: reduzir a miséria e a exploração, equilibrar por essa via as contas da Segurança Social e ainda travar mais um roubo. Justiça social, crescimento económico e sustentabilidade do Estado social. É um 3 em 1.
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Uma plêiade de candidatos
Jardim, ex-presidente do Governo Regional da Madeira, admitiu recentemente que poderia ser candidato às próximas eleições presidenciais. Não admira, em Portugal, o decoro político não existe. É uma constante da nossa vida colectiva vermos personalidades com um passado político lastimoso apresentarem-se em público com um ar e um discurso notavelmente impolutos.
Os exemplos são inúmeros. Alguns dos mais recentes.
Sócrates, ex-primeiro-ministro, depois de ter conduzido o país à ruína e à humilhação de pedir ajuda financeira externa, foi viver para Paris e de lá regressou triunfante: reivindicando, protestando, ironizando... E deram-lhe palco. E esse palco foi a televisão pública. Não tivesse sido preso, e ainda hoje o teríamos a ocupar tempo num espaço que é pago por todos nós.
Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças de Sócrates, o responsável n.º 2 pela nossa caminhada para a bancarrota, apresenta-se amiúde nos órgãos de comunicação social como o salvador, como aquele que — depois de ter sido durante anos cúmplice de Sócrates e primeiro responsável pela desastrosa política financeira levada a cabo pelo Governo — conseguiu pressionar o seu chefe a pedir o resgate, perante a situação catastrófica do país, que o próprio tinha ajudado a construir. Aparece aqui e acolá como palestrante, como conferencista, como conselheiro... e há quem o convide e há quem se disponibilize para o ouvir.
Durão Barroso, ex-primeiro-ministro, protagonista de uma escandalosa fuga das responsabilidades que tinha assumido, regressou de semblante vibrante, após dez anos de malfeitorias à Europa e a Portugal, autoconsiderando-se herói e merecedor de medalhas e honrarias.
Santana Lopes, ex-primeiro-ministro (durante uns meses), modelo de futilidade e de irresponsabilidade política, demitido por cúmulo de casos anedóticos e levianos, vai-se auto-avaliando publicamente como possuído de currículo e de credibilidades suficientes para se candidatar a Presidente da República.
Não admira, pois, que Jardim — figura que, num país minimamente civilizado, teria sido espontaneamente ridicularizado pelos eleitores — se sinta ainda com o à-vontade suficiente para colocar a hipótese de poder vir a ser um candidato presidenciável.
Chamem Valentim Loureiro, Pimenta Machado, Vale e Azevedo, Isaltino de Morais, Miguel Relvas, Dias Loureiro... e ficaremos com uma plêiade de candidatos única e admirável.
segunda-feira, maio 25, 2015
A promessa de não fazer promessas - mas isso os políticos não são capazes!
Passos Coelho -- Best of 2010-2011
Passos Coelho afirmou que PSD e CDS-PP não oferecem “aos portugueses um caminho de promessas fáceis, de ilusões nem de facilidades“. Já está registado para te atirar isso à cara daqui a um ano ou dois!
Concepções erradas acerca do neoliberalismo
O neoliberalismo muitas vezes é encarado apenas como uma política económica. Isto por si pode não importar, uma vez que um conjunto específico de medidas económicas cai, sem dúvida, sob a categoria de neoliberalismo. Mas ao reduzir o neoliberalismo apenas a um conjunto de medidas económicas por vezes é transmitida a impressão enganosa de que tais medidas são uma questão de escolha por parte da formação política burguesa dominante, isto é, que um conjunto "não neoliberal" de medidas também poderia ser seguido, mesmo nas condições do capitalismo contemporâneo, bastando apenas que a formação política burguesa instalada no governo assim o decidisse.
Reduzir o neoliberalismo a uma mera política económica abre caminho para esta concepção errada. Na verdade, o neoliberalismo é de facto uma mera descrição (e bastante má) de todo um conjunto de medidas que estão necessariamente associadas à hegemonia da finança globalizada. Estas medidas não são uma matéria de escolhapor parte de alguma formação política burguesa particular; elas teriam de ser adoptadas na época contemporânea por qualquer formação política burguesa, isto é, desde que o país permaneça dentro da órbita capitalista, de onde se segue que qualquer formação política que pretenda seriamente anular estas medidas teria necessariamente de estar preparada para transcender o capitalismo. Ela pode ter de fazer isso, sem dúvida através de toda espécie de complexos passos tácticos, mas não pode tranquilizar-se fazendo vista grossa para a necessidade de assim fazer. Este ponto adquire particular significância no contexto da Grécia de hoje e de outros países europeus que no futuro possam vir a ter governos de esquerda anti-"austeritários".
Reduzir o neoliberalismo a uma mera política económica abre caminho para esta concepção errada. Na verdade, o neoliberalismo é de facto uma mera descrição (e bastante má) de todo um conjunto de medidas que estão necessariamente associadas à hegemonia da finança globalizada. Estas medidas não são uma matéria de escolhapor parte de alguma formação política burguesa particular; elas teriam de ser adoptadas na época contemporânea por qualquer formação política burguesa, isto é, desde que o país permaneça dentro da órbita capitalista, de onde se segue que qualquer formação política que pretenda seriamente anular estas medidas teria necessariamente de estar preparada para transcender o capitalismo. Ela pode ter de fazer isso, sem dúvida através de toda espécie de complexos passos tácticos, mas não pode tranquilizar-se fazendo vista grossa para a necessidade de assim fazer. Este ponto adquire particular significância no contexto da Grécia de hoje e de outros países europeus que no futuro possam vir a ter governos de esquerda anti-"austeritários".
Austeridade: um erro crasso
No passado dia 9 de Maio, o Banco de Portugal organizou uma conferência intitulada «Growth and Reform in Europe in the Wake of Economic Crisis».
A apresentação de Paul De Grauwe relembrou aquilo que já é claro para quase todos os que estão por dentro do assunto: a resposta da Europa (em particular dos países da zona euro) à crise foi patética*, absurda, monstruosa nas suas consequências. Os países europeus fora da zona euro, os EUA, e outros países ricos e desenvolvidos afectados por esta crise tiveram respostas muito mais adequadas.
A razão: a "austeridade" à escala europeia. Criou um problema de procura agregada, que levou a um "ciclo vicioso": como os estados gastaram menos e cobraram mais impostos, os rendimentos das pessoas diminuíram, o que por sua vez afastou investimento, diminuindo ainda mais a procura, e ainda mais os rendimentos, e por aí fora.
Os adeptos da austeridade à escala europeia interpretaram os problemas como sendo problemas do lado da oferta, e a crise como uma oportunidade para fazer "reformas estruturais" que supostamente aumentariam as perspectivas de crescimento de longo prazo. Paul De Grauwe mostrou que não é razoável afirmar que as "reformas estruturais" tiveram esse efeito, mas que a política "austeritária" como um todo (diminuição da procura agregada e "reformas estruturais") teve o efeito oposto, de agravar as perspectivas de crescimento.
Claro que hoje, à excepção de um extremista ou outro, já todos aqueles mais versados em economia compreendem que a austeridade à escala europeia foi um erro crasso. O problema é que politicamente se torna muito inconveniente admitir certos erros. Nesse sentido, vai-se tentado mudar de política sem que se note, o que implica manter uma grande parte das políticas erradas (e que se sabe serem erradas), só para não perder a face. É isto que Merkel está a fazer.
Muitos respondem a estas evidências alegando que a austeridade à escala europeia foi muito má, mas que era inevitável. Isso é completamente falso. Nos EUA fez-se o contrário daquilo que se fez na Europa (só agora se começa a fazer, timidamente e tarde): um programa de estímulo, que a direita muito combateu. Quando comparamos os resultados, as conclusões são muito claras.
* o termo "patética", bem como outros igualmente "carinhosos", foram usados por mais do que um orador para caracterizar as políticas dos países da zona euro em resposta a esta crise. Tendo em conta o contexto algo "formal" da conferência, o erro da "austeridade" à escala europeia é encarado como tão claro quanto gravoso.
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A apresentação de Paul De Grauwe relembrou aquilo que já é claro para quase todos os que estão por dentro do assunto: a resposta da Europa (em particular dos países da zona euro) à crise foi patética*, absurda, monstruosa nas suas consequências. Os países europeus fora da zona euro, os EUA, e outros países ricos e desenvolvidos afectados por esta crise tiveram respostas muito mais adequadas.
A razão: a "austeridade" à escala europeia. Criou um problema de procura agregada, que levou a um "ciclo vicioso": como os estados gastaram menos e cobraram mais impostos, os rendimentos das pessoas diminuíram, o que por sua vez afastou investimento, diminuindo ainda mais a procura, e ainda mais os rendimentos, e por aí fora.
Os adeptos da austeridade à escala europeia interpretaram os problemas como sendo problemas do lado da oferta, e a crise como uma oportunidade para fazer "reformas estruturais" que supostamente aumentariam as perspectivas de crescimento de longo prazo. Paul De Grauwe mostrou que não é razoável afirmar que as "reformas estruturais" tiveram esse efeito, mas que a política "austeritária" como um todo (diminuição da procura agregada e "reformas estruturais") teve o efeito oposto, de agravar as perspectivas de crescimento.
Claro que hoje, à excepção de um extremista ou outro, já todos aqueles mais versados em economia compreendem que a austeridade à escala europeia foi um erro crasso. O problema é que politicamente se torna muito inconveniente admitir certos erros. Nesse sentido, vai-se tentado mudar de política sem que se note, o que implica manter uma grande parte das políticas erradas (e que se sabe serem erradas), só para não perder a face. É isto que Merkel está a fazer.
Muitos respondem a estas evidências alegando que a austeridade à escala europeia foi muito má, mas que era inevitável. Isso é completamente falso. Nos EUA fez-se o contrário daquilo que se fez na Europa (só agora se começa a fazer, timidamente e tarde): um programa de estímulo, que a direita muito combateu. Quando comparamos os resultados, as conclusões são muito claras.
* o termo "patética", bem como outros igualmente "carinhosos", foram usados por mais do que um orador para caracterizar as políticas dos países da zona euro em resposta a esta crise. Tendo em conta o contexto algo "formal" da conferência, o erro da "austeridade" à escala europeia é encarado como tão claro quanto gravoso.
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