terça-feira, março 20, 2007

As infelicidades do Leste Europeu

Nunca antes o Leste Europeu atravessou uma fase tão boa. A maior parte da região está ancorada na NATO e na União Europeia; está próspera, estável, democrática e segura. O crescimento do PIB surpreende todos. Mesmo um lugar supostamente atrasado como a Macedónia cresce a 4%, muito mais rápido do que a "velha Europa". Na maior parte dos países, o crescimento está acima dos 5%; as estrelas do Báltico, Estónia e Letónia, crescem acima dos 10%.

Ainda assim o ambiente é surpreendentemente sombrio. Por toda a região, milhões emigram para trabalhar no exterior, provocando aumentos salariais, ameaçando a competitividade e preocupando os investidores. Países que ainda não estão na UE temem que mesmo reformas rápidas possam não ajudá-los na adesão. Nos dez países ex-comunistas que já estão no clube, as reformas estagnaram. Na Roménia, a disciplina política que antecedeu a entrada acabou de forma espectacular. Tal como em relação ao euro, nenhum lugar na região parece prestes a seguir o exemplo da Eslovénia e adoptar a moeda.

O medo imediato, alimentado pelos mercados inconstantes e pelas lembranças das crises financeiras no Leste Asiático em 1997 e na América Latina mais constantemente, é de um crash económico. Ele poderia começar no Báltico. Na semana passada, a agência de classificação de risco Fitch advertiu a Letónia de que o país enfrentaria um rebaixamento se não colocasse a economia sob controle. Em 2006, o défice em conta corrente do país foi de 20% do PIB, o maior da UE. Isso reflecte um inchaço dos empréstimos hipotecários dos bancos estrangeiros aos bancos locais, denominados sobretudo em euro, o que impulsionou o boom imobiliário. A história na Estónia e na Lituânia é semelhante – e parece igualmente insustentável. Apesar de todo a sua brilhante arquitectura, é difícil entender por que as capitais do Báltico deveriam ter imóveis mais caros do que Berlim, Viena ou Frankfurt.

É fácil imaginar como a bolha imobiliária pode estourar. As empresas construtoras estão a descobrir que é cada vez mais difícil contratar a mão-de-obra de que precisam para terminar os apartamentos já pagos pelas companhias imobiliárias, que utilizaram dinheiro dos seus clientes, os quais por sua vez tomaram emprestado do estrangeiro. Num sinal bizarro de superaquecimento, algumas construtoras estonianas estão a importar trabalhadores da Finlândia. Uma questão mais difícil é o que pode acontecer a seguir. Os bancos bálticos são em grande parte controlados por sólidos bancos escandinavos. Eles podem suportar prejuízos das suas subsidiárias locais, se necessário. Apenas a Letónia tem um grande banco nacional, o Parex, mas este tem sido um tomador relativamente cauteloso.

Os três países têm taxas de câmbio fixas ( currency board na Estónia e Lituânia e currency peg na Letónia), apoiados por reservas em divisas estrangeiras. É tranquilizador que nenhum deles tenha grande dívida externa e que as suas moedas e títulos sejam pouco comerciadas, o que deixa pouco espaço para um ataque especulativo. Entretanto seus regimes de taxas de câmbio deixam pouca margem para um aperto monetário. E coligações políticas fracas minam as esperanças de uma política fiscal dura ou de reformas económicas estruturais que mantivessem a competitividade quando os custos aumentam.

Edward Parker, da Fitch, diz que um crash no Báltico pode significar que alguns países tenham de seguir o exemplo de Portugal, o qual tem estado atado a altos custos e baixo crescimento após um boom insustentável. [1] Seria triste para os bálticos. Mas teria isso de ser estendido a outros países do Leste Europeu?

Aparentemente, não. Só a Eslováquia tem um crescimento estilo báltico (uma taxa anual de 9,6% no quarto trimestre de 2006, com uma produção industrial que em Janeiro cresceu 17,4% num período de 12 meses). Este é mais flexível (com taxa de câmbio flutuante) e o seu BC é administrado de modo saudável. Mas alguns na área do euro resmungam que a baixa inflação da Eslováquia será considerada “insustentável” com o decorrer do tempo.

A Hungria é uma grande preocupação. O governo tenta recuperar o controle das finanças públicas após uma ostentação destinada a ganhar a eleição do ano passado. Os húngaros tomaram enormes empréstimos em moeda estrangeira, supondo que o euro é uma certeza. Isso cria todas as condições para um terrível esmagamento, com desvalorização e possivelmente incumprimento e recessão. Após alguns perigosos estremecimentos no ano passado, o programa de austeridade do governo ganhou aplausos dos banqueiros. Mas as reformas planeadas dos gastos públicos ainda têm de concretizar-se, e o governo tem sido tímido ao conceder pagamentos mais elevados ao sector público.

A falha subjacente são governos fracos e não decididos em toda a região, a qual precisa de anos de bom governo se quiser alcançar [a Europa ocidental]. A Roménia, o segundo maior membro da UE no leste europeu, está paralisada por uma quezília política entre o primeiro-ministro e o presidente. Em consequência, a câmara alta do parlamento votou pela demissão da ministra da Justiça, Mónica Macovei. Num clima ensolarado, tais peripécias políticas seriam meros pormenores. Num clima mais gelado, elas tornam o futuro do leste europeu mais preocupante.
[1] Sublinhado de resistir.info.
The Economist
http://resistir.info/

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