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terça-feira, março 20, 2007

Here We Go Again…

Comprei hoje o Público, coisa rara porque ao Domingo ainda não digeri o Expresso e normalmente os compromissos familiares desaconselham, a aquisição de mais papel que ficará à espera de leitura. Mas este fim de semana começou aquele coleccionável de cd’s de música portuguesa e lá vim eu de jornalinho debaixo do braço.
Logo em 1ª página o anúncio «Daniel Sampaio escreve sobre a violência nas escolas» e lá pensei eu, pronto, agora é que tudo vai ficar esclarecido, resolvido e arrematado até à próxima erupção mediática do assunto. Se Daniel Sampaio escreve sobre um assunto como este, quem poderá vir depois? Só o dilúvio!
Eu esclareço pontos prévios, em relação à minha posição sobre DSampaio (já o fiz antes, mas já nem me lembro exactamente em que post). A coisa é assim e talvez até seja simples: admiro DSampaio como profissional, não desdenho do seu trabalho, que tem algumas boas ideias e revela boas pistas para práticas interessantes, outras nem tanto como toda a gente, e até acho que escreve bem. Nunca comprei nenhum livro dele, embora tenha lido parte de alguns comprados por colegas e amigos, pelas razões que a seguir se confessam: é que DSampaio foi desde os anos 90, aqueles que atravessei como professor contratado, tratado aos repelões, a cada ano recomeçando tudo de novo em contextos e com interlocutores diferentes, DSampaio foi, escrevia eu, aquilo a que eu designo como uma estrela das VIPES - Visitas Importantes Para a Escola Sorrir. O conceito aplica(va)-se àquele tipo de visita organizada a estabelecimentos de ensino tidos como problemáticos por grupos de ilustres visitantes (ou apenas por um ou dois para conferências guiadas) que, depois de uma enorme preparação, chegavam lá, sorriam muito, não viam nada do quotidiano regular, palestravam de forma amigável e simpática e iam-se embora como se fossem de uma visita turística à Coreia do Norte, autorizada por um Kim-Qualquer-Coisa, para não dar outros exemplos que possam ferir mais as susceptibilidades.
Daniel Sampaio chegou a passar por Escolas onde eu trabalhei e nos tais anos 90, deu voluntariamente ou não, uma certa caução científico-intelectual a muita da asneira feita nesse período e que, a médio prazo, descambou no que agora conhecemos. Acredito que aquele modo delicodoce de abordar questões que já eram dramáticas e agora o continuam a ser não tivesse esse objectivo, mas na prática o sampaísmo foi a face cordata e aparentemente fundamentada e ponderada do coutismo-benaventismo ou seja o nacional-porreirismo educacional. É o que acho, assumo-o e venham de lá os mísseis para ver se me ralo.
Agora, indo à prosa desta semana (que poderão encontrar na última página da Pública ou clicando na imagem para a ampliar), tem coisas boas e coisas norvamente más.
As coisas boas são:
• Desde logo, a admissão de que é errado responsabilizar os estabelecimentos de ensino e encarar de forma banal a sociedade envolvente. Estou farto de aqui escrever que o portão da escola sendo uma fronteira, está longe de ser uma barreira estanque. Não é, não deve, nem pode ser, por muitas razões que agora aqui não cabem.
• Outra coisa boa é apresentar uma diversidade de causas para o fenómeno da violência, quase todas correctamente identificadas, desde a debilidade das famílias em transmitirem valores até ao vazio da retórica da autonomia que na verdade está longe de deixar as escolas agir sobre estes problemas com a ligeireza necessária, não esquecendo a desvalorização social do papel do professor.
• Ainda uma terceira boa ideia é a da envolvência de entidades exteriores à Escola (autarquias, serviços de saúde, acrescentando neu as de assistência social) na resolução dos problemas, desde a sua despistagem até à tentativa de resolução.
Mas então, perante tudo isto de bom, o que é “menos bom” na análise de DSampaio?. Antes de maias duas coisas básicas:
• A sempre presente preocupação em querer distinguir de forma clara indisciplina e violência, caindo no gosto por uma dicotomia que parece associar indisciplina a “ruído” (verbal ou comportamental) nas aulas e fora delas e violência apenas a agressões físicas. Ora, na minha modestíssima opinião, não especializada no tema, e correndo o risco de sublinhar o óbvio, um acto de violência é sempre e de igual modo um acto de indisciplina, enquanto um acto de indiscipina é quase sempre a manifestação de uma atitude violenta (seja ela meramente verbal, de comportamento disruptivo ou de agressão física concretizada). Eu sei que é mais fácil lidar com preto e branco. Uma boa velha «porrada nos cornos» é violência, enquanto uma «vai-te f****» em plena aula é talvez mera indisciplina (Ana Benavente chegou em plena RTP e afirmar que cuspir num professor não era infracção disciplinar grave). Discordo, discordo, discordo, digo eu com a cabeça a balançar qual Noddy indignado, de guizo a dar a dar.
• A aparente ideia de DSampaio de que o trabalho para prevenir, lidar e remediar estas situações, tal como ele preconiza (envolvimento de vários parceiros, cultura de exigência, etc) não é já praticada; aliás, só não é mais praticada por duas razões essenciais: em primeiro lugar, porque durante muito tempo a cultura de desresponsabilização e de combate ao exercício da autoridade pelos docentes foi alimentada pela tutela (coadjuvada por alguns intelectuais orgânicos de esquerda), que pressionou tudo e todos com imensas teorias destinadas a apresentar a indisciplina dos alunos como manifestação de erros dos professores. Em segundo, porque os órgãos intermédios da tutela (DRE’s e CAE’s, mas não só) pressionaram os órgãos de gestão das escolas para que certas “estatísticas incómodas” fossem suavizadas; e com maior ou menor alegria houve muitos desses órgãos de gestão que transmitiram essa pressão para os docentes, desaconselhando participações e processos disciplinares, arquivando umas e outros e expurgando os relatórios enviados para “cima”. E já agora não há amis entidades envolvidas nestas questões, porque muitas vezes as autarquias alheiam-se dizendo que não são polícias, enquanto as instituições de assistenção e protecção social (comissões e tribunais de menores) afirmam-se assoberbados de trabalho e só arranjam umas horinhas lá uma vez por período para se reunirem com algumas escolas.
Portanto, e à laia de conclusão de verborreia já longa, sauda-se em DSampaio a forma quase lúcida como agora encara um problema que ajudou a manter em banho-maria quando nos anos 90, por complacência ou omissão, se deixou usar por quem criou o aparato legislativo que entravou uma acção eficaz das escolas para prevenirem ou dissuadirem a indisciplina e/ou violência. Porque quem assistiu às suas conferências e leu os seus livros, sendo obrigado a reconhecer-lhes qualidade e coerência na argumentação então usada, também não pode deixar de admitir que foram parte do húmus onde se alimentou o nacional-porreirismo educacional que, de nenúfar em nenúfar, em aliança com outros ismos deixou o plano continuar a inclinar-se.
(e fica para depois o comentário à notícia que no mesmo jornal dá conta do descalabro em que estão actualmente a funcionar os apoios a alunos Necessidades Educativas Especiais, apenas para poupar mais uns euros do orçamento…)
http://educar.wordpress.com/

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