O triângulo preto invertido era usado nos campos de concentração nazis para identificar os prisioneiros considerados «anti-sociais», entre eles as execradas feministas, a antítese da mulher ideal nazi, a perfeita dona de casa e mãe de família. Por esse motivo é hoje um simbolo de consciência feminista.
Por estranho que pareça, a consciência feminista não é algo universalmente apreciado na Alemanha, como pude confirmar em primeira mão numa estadia na universidade de Bayreuth, nos idos primórdios da década de 90. Sul da Alemanha onde tive acesas discussões com alguns alemães aparentemente «libertários», que me manifestaram a sua estranheza por uma mulher ter uma carreira académica (na Alemanha de então o corpo docente universitário era constituído, com raras excepções e na sua maioria da ex-Alemanha de Leste, por homens), estranheza que assumia contornos hostis quando tomavam conhecimento da minha condição de mãe. Só faltou ser agraciada com um triângulo negro para denotar a minha categoria de anti-social mulher que se atrevia a tentar conciliar uma vida académica com a única que deveria ter: a de dona de casa e mãe de família.
A estranheza era maior por eu ser de Portugal, país que no léxico do imaginário de muitos bávaros era um paraíso do marialvismo, em que mulheres de lenço negro tangiam cordas de guitarra nos intervalos das tarefas domésticas. Ficaram muito surpreendidos quando os informei que a primeira mulher a votar na Europa foi uma portuguesa*. Claro que as experiências negativas foram mais que contrabalançadas pelas positivas, isto é, fui inúmeras vezes parabenizada e elogiada pelo que para mim era perfeitamente normal, tendo sido convidada várias vezes a discursar sobre o tema.
As minhas experiências mais negativas não são apenas justificadas pelo facto de as discussões especialmente acesas se terem verificado em Regensburg (ou Ratisbona). Na realidade, as escolhas que enfrentam as alemãs, Hausfrau (dona de casa) ou uma carreira sem filhos – uma vez que o meio-termo é praticamente impossível –, ditam que a maioria das alemãs com formação universitária abdique da maternidade. Assim, não é de espantar que a taxa de natalidade na Alemanha seja a mais baixa do Mundo e que em 2005 a ministra alemã da Família, Renate Schmidt, tenha afirmado que o país necessitava urgentemente de uma «política familiar sustentável», que permitisse «a diversidade do comportamento feminino».
Mas aparentemente esta diversidade no feminino continua a não ser bem aceite pelos sectores mais conservadores da sociedade para os quais o conceito da mulher ideal não se alterou desde a minha estadia em terras teutónicas - diria que desde os tempos de Lutero -, e preenche manchetes nos jornais alemães, especialmente devido ao confronto entre dignitários da Igreja Católica e a ministra da Família, Ursula von der Leyen.
Mais concretamente desde Fevereiro último, data em Ursula von der Leyen anunciou os planos do seu ministério em triplicar o número de vagas em infantários, que o bispo de Augsburg (na Baviera, claro), Walter Mixa, está em guerra aberta com a ministra. Depois de em Fevereiro ter classificado como «um escândalo socio-político» os planos da ministra e ter verberado «aqueles que seduzem as mães a deixarem os filhos em infantários» e que «degradam a mulher a máquinas fazedoras de filhos», há dois dias classificou como «ditadas pela ideologia [comunista]» as referidas propostas de Von der Leyen de elevar o número das vagas nas creches.
Também o abade primaz da ordem dos beneditinos, Notker Wolf, acusa a ministra nas páginas do periódico Welt am Sonntag de se orientar «obviamente» por modelos da ex-Alemanha comunista, acrescentando «Ao que tudo indica, a mulher só vale algo se trabalhar como um homem, e não como mãe que cuida de seus filhos». O que está em total contradição com o que ensina a doutrina da Igreja Católica, nomeadamente na carta apostólica «Mulieris Dignitatem» em que são explicadas as «duas dimensões na realização da personalidade feminina», como esposa e mãe, ou virgem devotada à Igreja.
A ministra da Família pretende apenas aumentar o número de vagas nas creches, permitindo que muitas alemãs que neste momento optam por não ter filhos por tal ser impossível de conciliar com uma carreira o possam fazer. Não há indicação de que pretenda tornar obrigatória a frequência das mesmas. Podemos apenas imaginar o escândalo e as reacções da Igreja alemã se fossem propostas medidas mais enérgicas, que seriam certamente denunciadas como promovendo o tal «feminismo radical» que obsta a que a mulher se devote totalmente à sua «capacidade para o outro» e se deixe seduzir por um «um certo discurso feminista» que «reivindica exigências 'para ela mesma'»...
*A médica (feminista) Carolina Beatriz Ângelo, viúva e mãe, votou nas eleições para a Assembleia Constituinte de 28 de Maio de 1911, invocando a sua qualidade de chefe de família já que a lei da época reconhecia direito de voto a «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família». João Osório de Castro, pai de Ana Castro Osório - que escrevera em 1905 o manifesto feminista «As Mulheres Portuguesas» - foi o juiz que lhe deferiu a pretensão por entender que «cidadãos portugueses» abrangia igualmente as mulheres.
A situação foi alterada pela Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, que especificava que apenas tinham direito de voto os chefes de família do sexo masculino alfabetizados. O direito de voto das mulheres só veio a ser consagrado em 1931 e Adelaide Cabete foi então a primeira mulher a votar no ultramar, em Angola. Adelaide Cabete era também viúva, médica e activista e dirigente feminina, tendo fundado a Liga Republicana das Mulheres portuguesas em 1909 e o Conselho Nacional das mulheres portuguesas, CNMP, em 1914.
Palmira F. da Silva
http://dererummundi.blogspot.com/
Sem comentários:
Enviar um comentário