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terça-feira, abril 10, 2007

Um falso dilema

“É muito bom professor, cientificamente, mas pedagogicamente é um desastre”, ouve-se por vezes dizer. Sempre me pareceu que esta afirmação era uma contradição nos termos. Se pedagogicamente é um desastre, não pode ser bom professor. Talvez seja bom investigador. Mas mesmo disso duvido muito. Quer-me parecer que, se não há uma conexão causal, há pelo menos uma forte correlação entre o domínio seguro da sua área de estudo e a capacidade para explicar os seus aspectos mais sofisticados e complexos aos estudantes, numa linguagem simples e despretensiosa, clara e directa. O que se passa muitas vezes é que a própria insegurança científica do professor se esconde por detrás de um discurso falsamente ultra-especializado, precisamente para impressionar os papalvos. E impressiona mesmo. Por um tempo.

Mas depois os anos passam e quando olhamos para trás o que faz realmente a diferença não é a vontade de exibir imaginadas genialidades de salão mas antes a seriedade e honestidade intelectual, a modéstia e a vontade de ensinar realmente. São esses os grandes professores que mais tarde recordamos com gratidão e saudade. Não são os arrogantes que até acabámos mais tarde por descobrir que, no fundo, nem percebiam muito bem o que andavam a ensinar. Ao fim de alguns anos, continuamos a sentir respeito e gratidão pelos professores que sabiam dizer “não sei”, mas apenas nos dá vontade de rir quando nos lembramos dos pavões que se arvoravam em deuses com cérebros de barro.

Quando se fala na importância do domínio científico das matérias, como condição necessária do ensino de qualidade, vem sempre alguém insistir que a pedagogia é muito importante. Bom, se uma pessoa estiver a dizer que uma condição necessária para se estar em Braga é estar em Portugal, que relevância tem responder-se que, todavia, isso não é uma condição suficiente? Claro que não é. Mas nem por isso deixa de ser necessária.

Uma condição necessária para um ensino de qualidade é o domínio das matérias que o professor tem de leccionar. Outra condição necessária é a sensibilidade e formação pedagógica. Nenhuma das duas, nem as duas conjuntamente, são condições suficientes — porque o ensino é muito mais do que isso. Infelizmente, há uma tendência para se pensar que é a falta de formação pedagógica que explica a miséria do nosso ensino. Contudo, isto é falso. Haverá sem dúvida professores com insuficiente formação ou sensibilidade pedagógica. Mas o problema realmente grave que temos é a falta de domínio das matérias centrais que os professores têm de leccionar.

Dêem-me professores com um domínio sólido das áreas que leccionam, o que implica um conhecimento sólido da bibliografia relevante, e eu dou-vos uma boa escola.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/

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