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domingo, setembro 14, 2008

As patas do diabo

Fiquei chocado quando li o titular no Haaretz. Citava Sari Nusseibeh dizendo «Não há espaço para dois», querendo dizer dois Estados entre o mar Mediterrâneo e o Jordão.
O quê? Nusseibeh abandonou o seu apoio a uma solução baseada na coexistência entre o Estado de Israel e o Estado da Palestina?
Li a sua longa entrevista com Akiva Eldar e tranquilizei-me. Tranquilizei-me e imediatamente fiquei zangado. Porque o titular era uma distorção grosseira. Não tinha nenhuma relação com o que se dizia na entrevista. E como muitas pessoas lêem apenas o titular e não se dão ao trabalho de ler o resto do texto, trata se de um engano.
Como ocorrem tais coisas? No Haaretz , como na maioria dos demais periódicos, a norma é que os titulares não são compostos pelos escritores, mas pelo editor da página. Isto pode levar a titulares absolutamente enganosos – seja por ignorância, negligência, ou malícia.
Desta vez, o assunto e a pessoa são demasiado importantes para passá-los por alto em silêncio.
Uma precisão: gosto de muito Sari Nusseibeh. Uma vez caminhamos lado a lado à cabeça de uma manifestação na Parte Antiga de Jerusalém. Partilhámos um prémio da paz na Alemanha (o Prémio Lev Kopelev de 2003, nomeado a partir do nome do activista russo dos direitos humano exilado.)
Conheci o seu pai, Anwar Nusseibeh, um autêntico aristocrata palestiniano que serviu durante a ocupação jordana como ministro jordano da Defesa e embaixador perante a Corte de Saint James. Pouco depois do início da ocupação israelense, perguntei-lhe em privado se preferiria voltar à governação jordana ou ter um Estado palestiniano independente. Disse-me categoricamente que preferia o último.
Sari desfrutou de uma educação britânica juntamente com a palestiniana. Algumas pessoas vêem-no como arrogante, até enfatuado, mas eu conheço o como uma pessoa sensível, modesta. É muito corajoso, tanto moral como fisicamente, com frequência expressando pontos de vista muito impopulares. Como resultado, foi derrotado várias vezes.
Há cinco anos, em cooperação com o almirante israelense (e actual ministro sem pasta) Ami Ayalon, publicou um inequívoco plano de paz, visionando o estabelecimento de um Estado palestiniano ao lado de Israel, com a fronteira baseada na Linha Verde e com Jerusalém como a capital de ambos os Estados. O plano não era muito diferente do anterior plano de paz de Gush Shalom, ou o da posterior Iniciativa de Genebra.
Portanto, fiquei chocado quando vi o titular. Poderia ser que Nusseibeh tivesse abandonado o eixo central da sua perspectiva?
Na entrevista, Nusseibeh diz algo completamente diferente. Não só não diz que «não há espaço para dois», como pelo contrário: louva a solução dos dois Estados como a melhor solução prática. No entanto, acrescenta uma advertência aos israelenses: devido à rápida expansão dos colonatos, o tempo para a realização desta solução está a esgotar se. Ele fixa até um limite temporal: o final de 2008.
Isto equivale a um ultimato: Se os israelenses perderem esta oportunidade, que ainda está aí, e se continuarem a acelerar a actividade colonizadora em Jerusalém Este e na Cisjordânia, os palestinianos voltarão as costas a esta solução. Em vez disso, aceitarão a anexação a Israel dos territórios ocupados, isto é, a governação israelense de todo o país entre a mar e o rio, e lutarão por direitos civis iguais dentro deste Estado. Ele chama a isto uma «alternativa por defeito».
Nusseibeh empunha a pistola demográfica à testa do público israelense. Está a dizer-lhe, com efeito: os palestinianos serão uma grande minoria em tal Estado. A sua luta pela igualdade obrigará Israel, no final, a outorgar-lhes a plena cidadania. Dentro de uns anos os cidadãos árabes constituirão a maioria. Fim do sonho sionista. Fim do Estado judeu. (Tzipi Livni, a propósito, está a dizer mais ou menos o mesmo.)
Nusseibeh conhece bem aos israelenses. Sabe que a obsessão demográfica os enlouquece. O demónio demográfico persegue-os nos seus sonhos. A discussão frenética deste assunto domina o discurso israelense. Ele pensa, portanto, que esta ameaça obrigará os israelenses a apressar se e a concordar com a solução dos dois Estados. Esse é o objectivo principal da entrevista.
Com toda a amizade e o devido respeito para com Nusseibeh, eu penso que esta sua táctica é imprudente. Muito imprudente.
A seus olhos, e aos olhos de alguns intelectuais de ambos os lados, só existem duas possibilidades: a “solução dos dois Estados” ou a “solução de um Estado”. Um Estado palestiniano ao lado de Israel ou um Estado binacional, onde a igualdade entre todos os cidadãos, judeus e árabes, seja assegurada.
Esse é um conceito erróneo e perigoso.
A “solução de um Estado” é um oxímoro, uma contradição nos seus termos. A ideia de um Estado não é uma solução, mas uma anti solução. É uma receita para um conflito sangrento continuado. Não é um sonho, mas um pesadelo.
Não há nenhuma possibilidade em absoluto de que o público judeu aceite, nesta geração ou na próxima, viver como uma minoria num Estado dominado por uma maioria árabe. 99,99% da população judia lutará contra isto com unhas e dentes. A demografia não deixará de os perseguir, mas pelo contrário, empurrá-los-á a fazer coisas que são hoje impensáveis. A limpeza étnica converter-se-á num programa prático. Até os israelenses moderados serão levados aos braços da extrema direita fascista. Todos os meios de opressão se tornarão aceitáveis quando a maioria judia adoptar o objectivo de levar os árabes a sair do país antes de terem a oportunidade de se tornarem a maioria.
Os autênticos crentes na ideia do Estado binacional dirão: muito bem, que assim seja. Teremos uma ou duas gerações de derramamento de sangue, de um estado de guerra civil, mas no final persuadiremos ou obrigaremos os judeus a outorgar a cidadania e a igualdade aos palestinos. Mas que pessoas normais assumiriam semelhante risco?
A opção real, portanto, é a “solução dos dois Estados” ou a “solução da limpeza étnica”.
No melhor dos casos, o estado binacional é impraticável. Assumo que Nusseibeh também o sabe. A seus olhos, a ameaça é um movimento táctico. Vai ainda mais longe e sugere levar a cabo a ameaça de imediato em Jerusalém.
Os residentes árabes de Jerusalém Este não são cidadãos israelenses e não podem tomar parte nas eleições para o Knesset. No entanto, têm o direito de votar nas eleições municipais. Até agora boicotaram estas eleições, porque participar implicaria o reconhecimento da soberania israelense sobre Jerusalém Este.
Nusseibeh propõe a possibilidade de os residentes árabes acabarem com o boicote e proporem uma lista eleitoral própria. Eles somam cerca de um terço da população da cidade, e a maioria judia está dividida entre ortodoxos e seculares, pelo que os árabes poderiam decidir quem seria o próximo presidente de câmara. Nusseibeh não recusa a ideia de concorrer, ele mesmo, ao cargo. Acha que isto assustaria os judeus.
O perigo real inerente a esta táctica não é que levaria as pessoas a aceitar a ideia do estado binacional. O perigo é muito maior e bem mais imediato.
O perigo principal é este: Se todo o país está a ponto de se converter num Estado binacional de qualquer modo, não há nenhuma razão adicional para restringir a colonização judia em qualquer parte.
Nusseibeh argumenta que o tempo para a solução dos dois Estados está a esgotar se devido à actividade colonizadora judia na Cisjordânia, e sobretudo em Jerusalém Este. Mas é precisamente a ideia de um Estado que abre as comportas à colonização judia sem restrições. Em teoria, também permite aos palestinianos adoptar esta opção – mas mesmo mencionar esta possibilidade revela o seu absurdo.
A verdadeira luta está actualmente nos colonatos. Está a levar-se a cabo em todo o país, por cada assentamento, por cada “posto avançado”, por cada estrada de circunvalação, por cada projecto de construção. É uma luta titânica que se está a travar por todo o lado, desde o colonato de “Har Homa” em Jerusalém ao “Muro de Separação” (que não é nada mais que um meio para alargar os colonatos, como até o admite agora o Supremo Tribunal israelense).
A táctica de Nusseibeh tira o tapete de baixo dos pés de todos aqueles de nós que lutamos contra a confiscação de terras e contra os colonatos – dos corajosos activistas que se estão a manifestar e que resultam feridos diariamente na luta contra o Muro, aos nossos amigos no estrangeiro, que se dirigem à opinião pública nos seus próprios países.
A “visão” do Estado binacional pertence ao futuro longínquo, mas o resultado imediato de fazer campanha por ele é eliminar todos os obstáculos ao esforço colonizador.
Este também é o objectivo que Ehud Olmert, com a sua manobra de diversão, tem em mente. Proclama ruidosamente que está a favor da solução dos dois Estados, mas só um néscio o levaria a sério, tendo em conta o que está a fazer no terreno.
Há duas semanas, a sua gente filtrou o plano de paz que Olmert está a apresentar à Autoridade Palestina. Um inocente, inclusive positivo plano.
Os seus principais ingredientes: Israel devolverá todos os territórios ocupados ao Estado palestiniano, exceptuando 7% da área, onde estão localizados os blocos de assentamentos. Em troca, Israel devolverá aos palestinianos áreas, propriedade de Israel, equivalentes a 5,5% da Cisjordânia. Além disso, Israel permitirá aos palestinianos a utilização de uma passagem a ser aberta entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Isso compensará a diferença entre as áreas de intercâmbio de terra.
Então, onde está o truque? O diabo, como diz o refrão, está escondido nos pequenos detalhes. O acordo seria uma “plataforma de acordo”. Levar-se-á a cabo no futuro. Quando? Ah, bom…
Os territórios ocupados na Cisjordânia serão devolvidos aos palestinianos quando a Autoridade Palestiniana demonstrar que é capaz de os controlar. Quem decidirá? Nós, é claro.
As áreas israelenses que serão devolvidas aos palestinianos, em troca das áreas que serão anexadas a Israel, estão localizadas junto à Faixa de Gaza. Quando serão devolvidas? Após a administração do Hamas na Faixa de Gaza ter sido derrocada e a Autoridade Palestiniana se impor ali. O mesmo se aplica à passagem Gaza-Cisjordânia. Quando acontecerá isso? Como diziam os antigos romanos: “ad calendas graecas”, nas calendas gregas. (No calendário romano, as calendas eram os primeiros dias do mês – o calendário grego não tinha calendas).
O truque tornou-se evidente quando os “confidentes” de Olmert explicaram que imediatamente após a aceitação pelos palestinianos da “plataforma de acordo”, Israel começará a acelerar as actividades colonizadoras, já que – segundo o acordo – os blocos de assentamentos se tornarão, de todo o modo, parte de Israel. Nem sequer os norte americanos se poderiam opor a isso, depois de os próprios palestinianos terem concordado com a anexação destas áreas a Israel.
Posto singelamente: todos estes acordos são palavras vazias, e só uma coisa é prática e imediata: os colonatos serão expandidos sem cessar.
Na mitologia cristã, o diabo tem patas de bode. Às vezes esta patas assomam por baixo da sua longa túnica e delatam-no.
As nossas patas de bode são os colonatos. Enquanto se analisa qualquer ideia ou plano, há que levantar a borda da túnica e ver o que está por baixo.
http://infoalternativa.org/spip.php?article68

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