Os resultados pessoais e institucionais de alguns dos intervenientes de cimeiras da Presidência portuguesa da UE estão a provocar uma onda incontrolável de novas superstições em políticos. Logo depois do fim da Presidência portuguesa, o governo de Romano Prodi caiu, Robert Mugabe, no poder há 28 anos, depois da sua presença na cimeira UE-África perdeu as eleições e o presidente da República Checa, Václav Klaus esteve ausente na referida cimeira e foi posteriormente reeleito. Desde o fim da Presidência, Sócrates já foi confrontado com a sua fulgurante carreira de projectista de edifícios, sofreu uma manifestação de 100 mil professores, enfrentou três moções de censura no Parlamento, viu o barril de petróleo subir 30 dólares e sofreu o maior azar de todos, a demissão de Luís Filipe Menezes do PSD. As consequências para José Sócrates têm sido tão nefastas que este, por superstição, nunca mais se aproximou do Pavilhão Atlântico ou do Mosteiro dos Jerónimos.
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Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
quarta-feira, julho 02, 2008
Poder de compra da mascote da Expo Saragoça e o triplo do Gil
A Expo Saragoça 2008 já abriu ao público e irá decorrer até ao dia 14 de Setembro e é subordinada aos temas da água e do desenvolvimento sustentável. Um dos aspectos mais aguardados deste certame era a apresentação da mascote. Tal como se esperava as características da mascote Fluvi em comparação com a mascote Gil, da Expo 98, são o espelho da actual diferença entre os dois países. Apesar de serem gotas de água, têm condições sócio-económicas completamente diferentes. Gil é licenciado em Letras e depois de três anos no desemprego trabalha actualmente num call-center a recibos verdes, por turnos, com folgas rotativas, só compra produtos de marca branca em supermercados e participou ultimamente nos protestos contra o Porta 65, programa de arrendamento jovem. Ao contrário de Gil, Fluvi não está endividado, tem um trabalho qualificado, um bom ordenado, habitação própria e um bom carro, ao contrário de Gil que devido à subida do preço da gasolina decidiu vender o seu carro à mascote Quinas.
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FC Porto anuncia contratação de Vale e Azevedo
Depois de Cristian Rodriguez, Vale e Azevedo é o último elemento “roubado” pelos campeões nacionais ao Benfica em mais um capítulo da eterna luta entre águias e dragões. O ex-presidente encarnado, preso por crimes de colarinho branco e acusado de outros tantos, reforçará o sector da legalidade duvidosa, área em que os portistas não possuem ainda trunfos suficientes. Nos últimos dias, o homem que queria “um Benfica à Benfica” refugiou-se num mosteiro budista dos Himalaias (após assédio da comunicação social ao seu tranquilo quotidiano londrino) para, de acordo com as suas palavras, “aprender um pouco sobre meditação transcendental, controlo de respiração, reencarnação, desvio de fundos para contas offshore, medicina oriental e coisas desse género.” A contratação resultou de uma ofensiva relâmpago em duas frentes, sendo que apenas nesta houve sucesso. A Inépcia sabe que o Porto tentou também contratar Eusébio para símbolo vivo do clube e só não terá conseguido porque o “Pantera Negra” se encontrava a autografar cabritos recém-nascidos numa aldeia do Tajiquistão. Pinto da Costa comentou o anúncio com a habitual finura, referindo não saber de nada até ser avisado durante alimentação dos Super Dragões com frangos vivos e fotografias da Floribella em cuecas. Quanto à natureza algo infantil e pouco digna destas contratações para fazer pirraça, o presidente portista recusou-se a responder, cobrindo os ouvidos com as mãos e pondo-se em cima de um banco para recitar um poema de sua autoria com o título “A Alegria de Ser Menino.” Numa notícia que poderá estar ou não relacionada, um comprador anónimo adquiriu toda a produção das pastelarias da vila de Sintra, depois de Luís Filipe Vieira ter confessado a um amigo “estar mortinho por comer uma queijada.”
http://www.inepcia.com/
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No Feudo do Menino de Ouro
O Ministro da Agricultura Jaime Silva ficou muito magoado com Marcelo Rebelo de Sousa por este ter concluido num comentário com uma forte crítica ao seu desempenho.. Sendo ele ministro dos tubérculos, hortaliças e outras espécies vegetais, além de rei Neptuno da peixaria nacional e governador da minoria em extinção dos pescadores, não poderia deixar em branco a aleivosia. O professor concedeu-lhe o epíteto de "maior incompetente do mundo". O homem, lebre política do PM a correr de acordo com Bruxelas, sentiu-se de tal maneira irritado que quase perdeu a compostura. Então, respondeu pelas trombetas da informação que o Dr. Marcelo "tinha falta de honestidade intelectual" e que o programa onde ele bota opiniões não passa de um "entretenimento televisivo"
Ora a diferença não está apenas na semântica. Ela está na análise das circunstãncias que deram origem às frases sobre o analisado. Enquanto Marcelo classificava apenas o desempenho político específico do distinto Jaime, o distinto Jaime atentou contra a dignidade da pessoa Marcelo acusando-o de desonesto. O apoucar-lhe o programa televisivo não tem qualquer importância. Não será o do Dr. Vitorino tambem um entretenimento ?
Mas a cena final desta peleja, pelo menos por agora, deixou muitos espectadores pensativos: Jaime Silva entrou para o banco trazeiro dum caríssimo automóvel pago pelos contribuintes... Os símbolos do Poder Compensatório são francamente deploráveis e caríssimos ! Mas o mais grave é estes privilegiados viverem como nababos e o contribuinte nunca saber quanto custam ao erário público.
http://rosamarmore.blogspot.com/
Ora a diferença não está apenas na semântica. Ela está na análise das circunstãncias que deram origem às frases sobre o analisado. Enquanto Marcelo classificava apenas o desempenho político específico do distinto Jaime, o distinto Jaime atentou contra a dignidade da pessoa Marcelo acusando-o de desonesto. O apoucar-lhe o programa televisivo não tem qualquer importância. Não será o do Dr. Vitorino tambem um entretenimento ?
Mas a cena final desta peleja, pelo menos por agora, deixou muitos espectadores pensativos: Jaime Silva entrou para o banco trazeiro dum caríssimo automóvel pago pelos contribuintes... Os símbolos do Poder Compensatório são francamente deploráveis e caríssimos ! Mas o mais grave é estes privilegiados viverem como nababos e o contribuinte nunca saber quanto custam ao erário público.
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A política é (mesmo) porca!!!

Dias Loureiro...(BIGODE RAPADO) -lembram-se dele?!!!
Hoje foi apresentado, para inglês-ver, o livro-propaganda para salvar Sócrates:
"O menino de ouro do PS"
Fiquei de boca aberta, quando vi lá o ex-chefe do MAI-Cavaquistão, Dias Loureiro, aquele que ficou ligado ao bloqueio da Ponte 25 de Abril em 1994, ao chamar as forças de intervenção, que com violencia fizeram desmobilizar os milhares de populares envolvidos.
...É A PORCA DA POLÍTICA NO SEU MELHOR!!!
(neste caso... porcos da política)...
http://broncasdocamilo.blogspot.com/
Jornalismo e poder

Uma técnica que vem de longe
Sem prejuízo de, em breve, aqui se dar uma visão desta técnica tal como é utilizada hoje pela comunicação social, eis um exemplo de como o discurso – neste caso, os títulos – de um jornal da época vai acompanhando, dia a dia, a evolução da relação de forças na política francesa.
Primeiro, os factos. Em 1815, no curto período de 12 dias, Napoleão Bonaparte, então forçado ao exílio na ilha de Elba, evade-se, regressa a França, reagrupa as forças que lhe são fiéis e avança rapidamente para Paris. Aí, nas Tulherias, retomará o poder para o que ficou conhecido como os “Cem Dias” (após os quais seria de novo destituído e desterrado para a ilha de Santa Helena, onde acabaria por morrer).
Eis, agora, como o mais importante jornal parisiense da altura, o Moniteur Universel, que tivera ao longo da sua história diversas disputas com congéneres seus pela posição de “único jornal oficial”, vai descrevendo o que se passou nesses 12 dias:
- dia 9 de Março de 1815 – “O monstro fugiu do seu desterro”.
- dia 10 – “O ogro corso desembarcou em Cape Jean”.
- dia 11 – “O tigre apareceu Gap. Os exércitos dirigem-se para ali, para travar o seu avanço. A miserável aventura terminará como as dos delinquentes, nas montanhas”.
- dia 12 – “O monstro chegou à cidade de Grenoble”.
- dia 13 – “O tirano está agora na zona de Grenoble e Lyon. Toda a gente está aterrorizada desde que ele apareceu”.
- dia 18 – “O usurpador ousou aproximar-se de um ponto situado a 60 horas da capital”.
- dia 19 – “Bonaparte aproxima-se a passo veloz, mas é-lhe impossível entrar em Paris”.
- dia 20 – “Napoleão chegará amanhã às muralhas de Paris”.
- dia 21 – “O imperador Napoleão está em Fontainebleau”.
- dia 22 – “Ontem pela tarde, sua Majestade o Imperador fez a sua entrada pública nas Tulherias. Nada pode superar este regozijo”.
http://www.jornalmudardevida.net/?p=1011
Astúcias do dispositivo mediático
Algumas técnicas de fabricação de noticiários
O indivíduo contemporâneo encontra no dispositivo mediático um sistema de referências orientador da sua prática quotidiana, sendo precisamente aí que germinam as suas representações do mundo. Apesar desse dispositivo lhe revelar uma microscópica parcela do mundo em que vive – na medida em que os médias têm por missão dissimular o que não convém mostrar do real: as hierarquias, a miséria, a desumanidade –, o espectador julga sempre aceder à totalidade desse mundo. Por outro lado, a informação a que tem acesso inibe-o de confrontar o modelo de sociedade em curso.
Prova disso são as breves alusões que os noticiários televisivos diariamente fazem à barbaridade a que se encontra exposta uma parte colossal da humanidade, vítima da fome, da exploração, das guerras, das pandemias e dos genocídios, alusões essas que obedecem ao propósito de não provocar no espectador qualquer indignação, qualquer revolta, qualquer princípio de acção para ousar inverter o drama. Talvez possamos encontrar nesta apatia organizada, que inibe o espectador de se impressionar pela evidência do horror, um triste paralelo na Alemanha nazi, apática e indolente perante a loucura do III Reich.
Existem várias técnicas, empregues nos noticiários, para gerar no espectador um desprezo profundo pela miséria e o infortúnio a que está sujeita grande parte da humanidade. Vejamos apenas as mais evidentes:
1) Destacar, nas notícias, não quem padece da perversa organização da sociedade, mas quem sofre de vicissitudes fortuitas: vítimas de acidentes naturais ou rodoviários, de raptos, de roubos. Destaca-se o puro espectáculo do acidente para ocultar todo o sangue silenciosamente derramado por causa das injustiças sociais que anualmente dizimam milhões de humanos. Mantém-se assim inquestionável a sociedade concreta em que vivemos, iniquamente organizada para servir os interesses dos barões do planeta neoliberal – são aliás os mesmos que reinam despoticamente sobre o feudo mediático: eles determinam não apenas aquilo que se faz, mas também o que se deve escrever e pensar sobre o que foi feito; a figura sinistra do III Reich continua perfeitamente actual.
2) Tratar as vítimas dos dramas com distância e estranheza, num tom falsamente sério, de modo a que o espectador nunca se possa identificar com elas. Imigrantes em favelas degradadas, crianças famintas e doentes, deslocados de guerra, vítimas de bombardeamentos ou trabalhadores explorados são apresentados como casos curiosos mas distantes, com os quais o espectador jamais deverá identificar-se. A compreensão do outro torna-se para ele impossível. Exercitado pela publicidade hedonista a identificar-se com os modelos imaculados que, nas revistas, nos painéis das ruas ou na televisão, lhe sugerem o champô, o telemóvel e os jeans que usa no seu quotidiano, o espectador não pode ver naqueles seres indigentes senão criaturas em radical dissonância com o higienismo ambiente.
3) Irradiar sorrisos, para falar, elogiosamente, de trivialidades inofensivas (o golo vitorioso de Cristiano Ronaldo, o último concerto dos Roling Stones, a fortuna do rei Mourinho, mais um desfile de moda em Milão…), que deste modo aparecem ao espectador como o principal conteúdo a reter de todo o noticiário. Também abundante no discurso publicitário, o sorriso aprovador do apresentador do noticiário tem por missão dissolver a consciência dos dramas que se poderia ter constituído, na mente do espectador, a partir das brevíssimas referências que a eles foram feitas em notícias anteriores.
4) Terminar os noticiários em harmonia com o espectador, num tom ameno, com motivos de entretenimento quase circense (a colecção de óculos de Elton John, as bebedeiras de Britney Spears, futebol, humor, o novo bebé panda do Zoo de Pequim, o homem mais velho do mundo, a maior abóbora dos Amiais de Baixo), para mostrar ao espectador que o mundo tem muito mais para dar do que os dramas ‘aborrecidos e sem graça’ dos miseráveis deste mundo. E que o importante deste mundo, aquilo que se deve reter dele, não são esses dramas, que jamais, por questões estratégicas, são mencionados no final dos noticiários – isso poderia torná-los tema de reflexão e de conversa, deixando perigosamente no centro das atenções os barões do planeta neoliberal e as consequências socialmente irresponsáveis, mas altamente rentáveis, das suas negociatas.
5) Complementar as notícias com a propaganda publicitária, para recordar ao espectador os seus verdadeiros modelos de identificação (é esta a grande função social da publicidade): a loira elegante da L’Oreal, o macho sedutor do Baccardi, o gestor de sucesso da Mercedes, a dona de casa competente da Omo, o grande aventureiro da Camel, o homem eternamente jovem da Levis, a morena irresistível da Chanel, o adolescente pseudo-subversivo da Vodafone. Estes modelos, operando por contraste, consolidam a estranheza, a repulsa e por vezes até mesmo o nojo que deverão provocar no espectador os corpos famintos, repletos de moscas, de crianças africanas que não têm o que comer, os corajosos Sem Terra brasileiros, esgotados de lutar contra a crueldade do latifúndio, os cadáveres de senegaleses que deram à costa europeia enquanto tentavam escapar à patrulha marítima espanhola, os mineiros chineses depois de mais um desabamento numa mina, as crianças do Bangladesh exploradas em fábricas de biscoitos para o mercado europeu ou os outros duzentos milhões de crianças que a Organização Internacional do Trabalho estima serem vítimas de exploração laboral no mundo…
Componente vital do dispositivo mediático, os noticiários modelam a consciência do real: são o mundo que é permitido ver. Representando a humanidade de acordo com interesses específicos, eles legitimam as relações sociais vigentes. O espectador aprende assim a assimilar o mundo neoliberal, e não a confrontá-lo. Ele é convocado a não interferir no desenrolar ‘lógico e natural’ dos acontecimentos, devendo manter-se afastado das decisões que determinam o seu próprio quotidiano.
http://www.jornalmudardevida.net/?p=1009
O indivíduo contemporâneo encontra no dispositivo mediático um sistema de referências orientador da sua prática quotidiana, sendo precisamente aí que germinam as suas representações do mundo. Apesar desse dispositivo lhe revelar uma microscópica parcela do mundo em que vive – na medida em que os médias têm por missão dissimular o que não convém mostrar do real: as hierarquias, a miséria, a desumanidade –, o espectador julga sempre aceder à totalidade desse mundo. Por outro lado, a informação a que tem acesso inibe-o de confrontar o modelo de sociedade em curso.
Prova disso são as breves alusões que os noticiários televisivos diariamente fazem à barbaridade a que se encontra exposta uma parte colossal da humanidade, vítima da fome, da exploração, das guerras, das pandemias e dos genocídios, alusões essas que obedecem ao propósito de não provocar no espectador qualquer indignação, qualquer revolta, qualquer princípio de acção para ousar inverter o drama. Talvez possamos encontrar nesta apatia organizada, que inibe o espectador de se impressionar pela evidência do horror, um triste paralelo na Alemanha nazi, apática e indolente perante a loucura do III Reich.
Existem várias técnicas, empregues nos noticiários, para gerar no espectador um desprezo profundo pela miséria e o infortúnio a que está sujeita grande parte da humanidade. Vejamos apenas as mais evidentes:
1) Destacar, nas notícias, não quem padece da perversa organização da sociedade, mas quem sofre de vicissitudes fortuitas: vítimas de acidentes naturais ou rodoviários, de raptos, de roubos. Destaca-se o puro espectáculo do acidente para ocultar todo o sangue silenciosamente derramado por causa das injustiças sociais que anualmente dizimam milhões de humanos. Mantém-se assim inquestionável a sociedade concreta em que vivemos, iniquamente organizada para servir os interesses dos barões do planeta neoliberal – são aliás os mesmos que reinam despoticamente sobre o feudo mediático: eles determinam não apenas aquilo que se faz, mas também o que se deve escrever e pensar sobre o que foi feito; a figura sinistra do III Reich continua perfeitamente actual.
2) Tratar as vítimas dos dramas com distância e estranheza, num tom falsamente sério, de modo a que o espectador nunca se possa identificar com elas. Imigrantes em favelas degradadas, crianças famintas e doentes, deslocados de guerra, vítimas de bombardeamentos ou trabalhadores explorados são apresentados como casos curiosos mas distantes, com os quais o espectador jamais deverá identificar-se. A compreensão do outro torna-se para ele impossível. Exercitado pela publicidade hedonista a identificar-se com os modelos imaculados que, nas revistas, nos painéis das ruas ou na televisão, lhe sugerem o champô, o telemóvel e os jeans que usa no seu quotidiano, o espectador não pode ver naqueles seres indigentes senão criaturas em radical dissonância com o higienismo ambiente.
3) Irradiar sorrisos, para falar, elogiosamente, de trivialidades inofensivas (o golo vitorioso de Cristiano Ronaldo, o último concerto dos Roling Stones, a fortuna do rei Mourinho, mais um desfile de moda em Milão…), que deste modo aparecem ao espectador como o principal conteúdo a reter de todo o noticiário. Também abundante no discurso publicitário, o sorriso aprovador do apresentador do noticiário tem por missão dissolver a consciência dos dramas que se poderia ter constituído, na mente do espectador, a partir das brevíssimas referências que a eles foram feitas em notícias anteriores.
4) Terminar os noticiários em harmonia com o espectador, num tom ameno, com motivos de entretenimento quase circense (a colecção de óculos de Elton John, as bebedeiras de Britney Spears, futebol, humor, o novo bebé panda do Zoo de Pequim, o homem mais velho do mundo, a maior abóbora dos Amiais de Baixo), para mostrar ao espectador que o mundo tem muito mais para dar do que os dramas ‘aborrecidos e sem graça’ dos miseráveis deste mundo. E que o importante deste mundo, aquilo que se deve reter dele, não são esses dramas, que jamais, por questões estratégicas, são mencionados no final dos noticiários – isso poderia torná-los tema de reflexão e de conversa, deixando perigosamente no centro das atenções os barões do planeta neoliberal e as consequências socialmente irresponsáveis, mas altamente rentáveis, das suas negociatas.
5) Complementar as notícias com a propaganda publicitária, para recordar ao espectador os seus verdadeiros modelos de identificação (é esta a grande função social da publicidade): a loira elegante da L’Oreal, o macho sedutor do Baccardi, o gestor de sucesso da Mercedes, a dona de casa competente da Omo, o grande aventureiro da Camel, o homem eternamente jovem da Levis, a morena irresistível da Chanel, o adolescente pseudo-subversivo da Vodafone. Estes modelos, operando por contraste, consolidam a estranheza, a repulsa e por vezes até mesmo o nojo que deverão provocar no espectador os corpos famintos, repletos de moscas, de crianças africanas que não têm o que comer, os corajosos Sem Terra brasileiros, esgotados de lutar contra a crueldade do latifúndio, os cadáveres de senegaleses que deram à costa europeia enquanto tentavam escapar à patrulha marítima espanhola, os mineiros chineses depois de mais um desabamento numa mina, as crianças do Bangladesh exploradas em fábricas de biscoitos para o mercado europeu ou os outros duzentos milhões de crianças que a Organização Internacional do Trabalho estima serem vítimas de exploração laboral no mundo…
Componente vital do dispositivo mediático, os noticiários modelam a consciência do real: são o mundo que é permitido ver. Representando a humanidade de acordo com interesses específicos, eles legitimam as relações sociais vigentes. O espectador aprende assim a assimilar o mundo neoliberal, e não a confrontá-lo. Ele é convocado a não interferir no desenrolar ‘lógico e natural’ dos acontecimentos, devendo manter-se afastado das decisões que determinam o seu próprio quotidiano.
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Comida é o que não falta. Dossier sobre a crise alimentar

100 milhões à morte
Em poucos meses a subida dos preços dos bens alimentares colocou milhões de pessoas em todo o mundo na condição de famintos. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) 100 milhões de pessoas podem morrer sobretudo na América Latina, em África e na Ásia.
Os preços de bens alimentares vêm a subir desde 2000 mas desde 2006 foi a escalada, coincidindo com o início da crise do crédito imobiliário nos EUA. O arroz mais que triplicou; o trigo, o milho e a soja mais que duplicaram.
As consequências são incomparavelmente mais graves para os pobres. Enquanto as populações mais ricas gastam de 10 a 30% dos seus rendimentos na alimentação, os pobres gastam de 60 a 90%. A carestia é catastrófica para os quase 3 mil milhões de pessoas (perto de metade da população mundial) que subsiste com menos de 1,50 € por dia.
A fome surgiu agora?
Esta súbita eclosão da fome surpreende pela rapidez com que se desencadeou, mas não constitui novidade absoluta. Com efeito, ela é o pico de uma crise permanente que durante décadas a fio tem feito regularmente milhões de vítimas por ano. Em consequência directa de subnutrição morrem por dia 18 mil crianças em todo o mundo.
Esta crise é estrutural e a sua razão de fundo está na desigualdade gerada pelo desenvolvimento capitalista.
O crescimento da economia agrícola e alimentar nos principais centros capitalistas, EUA e Europa sobretudo, é feito à custa da liquidação das agriculturas do mundo menos desenvolvido, tal como nos outros sectores produtivos. Não só em consequência das enormes vantagens tecnológicas que o mundo desenvolvido detém, mas também devido a medidas de política sistematicamente aplicadas: financiamentos aos agricultores europeus e norte-americanos que lhes permitem fazer preços mais baixos; controlo dos preços dos produtos agrícolas oriundos do mundo não desenvolvido, através do domínio dos mercados mundiais; e pressões políticas e comerciais de toda a ordem que visam destruir as economias locais e nacionais a fim de abrir caminho aos produtos das potências capitalistas.
Exemplo deste último caso foi a pressão tentada na Cimeira UE-África, realizada em Dezembro de 2007 em Lisboa, para que os países africanos aceitassem os termos dos chamados Acordos de Parceria Económica, que acabariam rejeitados pelo finca-pé encabeçado pela África do Sul, o Senegal e a Nigéria.
Qual a causa próxima da actual crise?
Um conjunto de factores concorre para a crise actual. Em parte o crescimento da procura de bens alimentares a nível mundial, em parte as más colheitas de alguns países grandes produtores de cereais, em parte o desvio de quantidades elevadas de produtos agrícolas para a produção de biocombustíveis tirando partido da carestia do petróleo.
Mas o factor próximo que desencadeou a crise foi o investimento maciço de capitais especulativos nas bolsas de produtos alimentares e de matérias-primas. Nos últimos dois anos, as aplicações em fundos de matérias-primas multiplicaram por três; e desde Janeiro de 2008 os investimentos em acções de actividades agrícolas aumentaram 25%. Grande parte desses capitais deslocou-se das aplicações no crédito imobiliário de alto risco nos EUA, de cujo colapso fogem. Também o declínio do dólar empurra os capitais para os chamados valores tangíveis.
De acordo com Jean Ziegler, relator das Nações Unidas para o direito à alimentação, o investimento especulativo é responsável por 30% dos aumentos de preços verificados recentemente. O FMI fala em 15%.
Estes factos tornaram fácil acusar os “abusos” ou a “chantagem” dos especuladores. Mas se os especuladores fossem um grupinho de parasitas à margem da economia, o próprio sistema encarregava-se de os pôr na ordem. A realidade é outra. A especulação é uma necessidade vital do capital excedente que disputa ganhos nos mercados accionistas, sejam eles quais forem. A especulação só tem margem de actuação porque aproveita a condição de base do capitalismo, que é a de apenas dar de comer a quem pode pagar – transformando a abundância potencial de bens alimentares em efectiva escassez.
A solução é “liberalizar”?
“É preciso abrir fronteiras e abater as barreiras alfandegárias” – preconizam os agricultores, os capitalistas e os governantes europeus e norte-americanos. Puro cinismo. O que pretendem com esta aparente liberalização é que os países menos desenvolvidos deixem de taxar os produtos com origem nas agriculturas mais desenvolvidas, mas não que os Estados europeus e norte-americano deixem de subsidiar as suas agriculturas. O mundo capitalista mais poderoso sempre se desenvolveu com medida prtoteccionistas; a pressão para que os países mais atrasados não as apliquem destina-se apenas a reforçar a supremacia dos monopólios europeus e norte-americanos.
Vozes reclamam agora mais produção agrícola no terceiro mundo, mais áreas de cultivo. Mas os países do terceiro mundo não têm meios para se auto-alimentarem porque as suas economias agrícolas foram sendo destruídas pela competição com os países capitalistas desenvolvidos. Além disso, nos centros capitalistas desenvolvidos existem excedentes alimentares que são regularmente destruídos e armazenados para que os preços não baixem. Chegou-se assim ao paradoxo de a penúria ser fruto da abundância.
Concentração prossegue
A dependência dos países periféricos face ao grande capital mundial vai reforçar-se com a actual crise e não atenuar-se. Os grandes produtores mundiais preparam o aumento da sua capacidade produtiva adquirindo vastas áreas agrícolas sobretudo na América Latina e na Ásia. Eis alguns dados recentes: a companhia texana Global Ag Investments detém 13.600 ha no Brasil. Uma companhia neo-zelandeza comprou 40 mil ha no Uruguai. Uma companhia norte-americana com parceiros brasileiros e japoneses adquiriu 100 mil ha no Brasil. Uma empresa brasileira juntou-se a uma empresa argentina que explora 160 mil ha na Argentina e no Uruguai. Nos últimos meses de 2007, mais de 800 mil ha foram desflorestados na Amazónia. A China, que perde por ano cerca de um milhão de hectares de terrenos agrícolas em consequência da urbanização, explora na Filipinas um milhão de hectares de milho, açúcar e arroz.
Falência do “modelo neoliberal”?
Olhada do ponto de vista da maioria da humanidade, a crise alimentar mostra o fracasso do sistema de produção de alimentos para efeitos de lucro. O capitalismo mata à fome milhões de pessoas não porque não tenha meios de produção suficientes, mas porque a sua necessidade de lucro se levanta como obstáculo ao bem-estar da humanidade. Isto confirma a falência do próprio capitalismo como sistema social.
Aos críticos que vêem no “modelo neoliberal” a origem e o fim da actual crise escapa este nexo característico do capitalismo entre abundância e penúria, seja qual for o “modelo”. O capitalismo sempre conjugou colossais aumentos de produtividade com a mais abjecta miséria. O neoliberalismo dos últimos 25 anos apenas levou ao extremo a contradição.
Por isso, as propostas de solução que se limitam a criticar o neoliberalismo sem pôr em causa o capitalismo mostram-se irrealizáveis. O “regresso à agricultura” é impensável; as populações de todo o mundo arrastadas para a indústria, os serviços e os meios urbanos não vão voltar à enxada. Diante do crescimento contínuo da grande produção capitalista, não é a produção de subsistência que resolve o problema. A solução não está num regresso impossível ao nacionalismo ou à auto-suficiência alimentar.
A superação da crise só pode dar-se avançando e não recuando. Foi a grande produção capitalista que conduziu a humanidade ao limiar da abundância. Franquear esse limiar e tirar pleno proveito desse avanço histórico significa socializar os meios de produção, pô-los nas mãos dos trabalhadores.
Dar curso à revolta
Com o fim da comida barata é abalado um dos fundamentos que permitiu ao capitalismo dos países desenvolvidos manter baixos salários durante as últimas décadas e assegurar paz social. A carestia dos bens alimentares, e em geral o disparar da inflação, traduz-se numa quebra do nível de vida das populações.
Acumulam-se factores de revolta. Nos países pobres, os mais atingidos, houve motins e ocorreram mortes em manifestações de rua.
As atenções da população trabalhadora não podem deixar de se virar para as consequências directas de uma carestia que ameaça galopar. As suas condições de sobrevivência são postas em causa. Marchas contra a pobreza, organização das populações em comissões de luta contra a carestia (como na saúde, transportes e escolas) – eis algumas das formas de acção que, a exemplo de situações semelhantes, o descontentamento pode assumir.
Diante da perspectiva de um forte agravamento das condições básicas de vida, está colocado aos trabalhadores o desafio de saírem em defesa das condições de vida de todos eles, precários, desempregados e imigrantes, sindicalizados ou não, homens ou mulheres, jovens ou reformados. Todos são tocados pelo mesmo mal, a sua luta é comum.
Fontes:
The world food crises, Fred Magdoff, Monthly Review, Junho 2008
Financial speculators…, S. Steinberg, World Socialist Web Site, 24.4.08
Associated Press, 18.2.2007
Développer la souveraineté alimentaire, R. Koradi, Horizons et Débats, 16.6.08
http://www.jornalmudardevida.net/?p=1007
PARA UMA GENEALOGIA DO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE – 1

SOBRE O ESTUDO DE JOÃO FREIRE
Recentemente, tem sido objecto de crescente atenção um texto que dá pelo título de Estudo sobre a Reorganização da Carreira Docente do Ministério da Educação, da autoria de João Freire, sociólogo do ISCTE e mentor da actual Ministra da Educação. O Paulo Guinote deu-lhe o devido destaque no seu blogue, e outros o têm comentado. Trata-se de um texto que permaneceu, durante demasiado tempo, no "segredo dos deuses". Percebe-se porquê: ele constitui, ao mesmo tempo, a matriz inspiradora e a legitimação "a priori" da revisão a que esta equipa ministerial entendeu submeter o Estatuto da Carreira Docente. Precisamente por isso, este texto merece sair do quase secretismo onde foi estrategicamente encerrado e deve ser exposto diante dos seus principais interessados: os professores.
A análise a que o iremos sujeitar não pretende ser exaustiva. Deter-nos-emos apenas nos aspectos que nos parecem mais significativos. Descobrir este texto é, de facto, mergulhar nas raízes de muitas das políticas educativas que o Ministério tem despejado sobre as escolas e sobre os profissionais do ensino. O Paulo falou de «arqueologia» do Estatuto da Carreira Docente. Nós preferimos o termo mais nietzschiano de genealogia, por ser uma palavra que retém uma atitude de suspeição face às maquilhagens retóricas que procuram disfarçar e servir certos interesses inconfessados e inconfessáveis.
Logo nos primeiras páginas do relatório de João Freire, há um pormenor que não pode deixar de causar estranheza até ao leitor mais distraído ou mais benevolente. De facto, o estudo parece ter sido encomendado pela Ministra a 27 de Setembro de 2005, numa carta onde explicitava os objectivos que esse trabalho deveria preencher: nada mais, nada menos do que a «revisão urgente do modelo de progressão nas carreiras de educadores de infância e de professores do ensino básico e secundário, norteada pelo princípio da valorização da prática lectiva e sustentada por referências comparativas com outras carreias profissionais de estatuto social equivalente em Portugal e com carreiras homólogas em outros países» (p. 8). Seria de esperar que um objectivo tão extenso e tão ambicioso, requerendo o tratamento analítico de imenso material empírico, a exploração de comparações pertinentes entre sistemas educativos de vários países e entre carreiras profissionais diversas, obrigasse a um longo período de trabalho científico. A virtude da "ruminação", própria do tempo da ciência, não se compadece, de facto, com as "urgências" do tempo político. Ora, qual não é o nosso espanto quando constatamos que João Freire realizou a proeza de ter o estudo pronto em... Dezembro. Pouco mais de três meses foi quanto bastou para responder a um objectivo cuja complexidade intrínseca pareceria incompatível com a celeridade das decisões políticas. Em nosso entender, esta pressa contamina todo o estudo de João Freire e compromete a qualidade e o rigor que alguns, mais "generosos", lhe apontam. Na verdade, pensamos que aqui a questão da temporalidade não é inocente, nem isenta de consequências. Ela remete para um ponto fundamental e embaraçoso da actividade científica contemporânea: o das relações promíscuas entre a ciência institucionalizada e o poder político. Numa cultura em que a religião deixou, há muito, de fornecer a caução legitimadora dos actos políticos, é a ciência que se vê solicitada a desempenhar esse papel. Os ganhos materiais e simbólicos que daí decorrem são um poderoso atractivo para muitos cientistas e uma almofada sedutora onde repousam muitos casos de desonestidade intelectual. Poder-se-á objectar que o estudo de João Freire, na sua génese, nunca pretendeu constituir uma tese de investigação aprofundada sobre um determinado tema, mas, tão-só, um produto de encomenda para satisfazer uma necessidade política conjuntural. Porém, não é exactamente assim que ele se nos apresenta, nem é assim que o seu autor e o próprio Ministério o querem ver reconhecido. O texto de João Freire habita, pois, uma zona cinzenta onde o científico se confunde com o político, e na qual o ideológico se recusa a dizer o seu nome. Cabe-nos, portanto, denunciar o que procura, desse modo, furtar-se ao nosso escrutínio.
Outro motivo de perplexidade que encontramos no início deste estudo é o enunciado dos «princípios e principais problemas esperados» (p. 9). Notem que não são «princípios» e «problemas» quaisquer. São, isso sim, princípios e problemas «consensualizados» numa reunião do autor com a Ministra. Essa «consensualização» obriga-nos a lê-los com atenção redobrada. Quanto aos princípios, deparamo-nos, desde logo, com a ideia de «progressividade, implícita na noção de carreira, com ou sem limitações de acesso aos escalões mais elevados, mas com reconhecimento do mérito individual e valorização da experiência». Sim, leram bem: parece que a Ministra e o seu antigo mestre João Freire admitiam que a progressão dos professores pudesse ser feita sem limitações de acesso aos escalões mais elevados. É verdade que semelhante hipótese vai ser rapidamente descartada pelo próprio estudo, mas não deixa de ser bizarro vê-la referida à cabeça do texto. Também é digno de nota, por ser tragicamente cómico, que entre os tais princípios «consensualizados» se contem coisas como a «simplicidade de compreensão do sistema e dos próprios processos» e, sobretudo, a «não desvalorização salarial dos docentes em exercício». A obscuridade perversa dos textos legislativos produzidos pela actual equipa ministerial – um detalhe em que ela não é, aliás, inovadora – e as medidas economicistas para bloquear a promoção salarial dos professores dispensam comentários adicionais sobre a coerência com que o Ministério tem interpretado esses dois últimos princípios. Mas, quando nos voltamos para os «principais problemas esperados» pelo autor do estudo, encontramos afirmações deveras curiosas (embora não necessariamente intrigantes). De facto, João Freire considerava "problemática" a «manutenção de uma carreira única», ou que a «transição de regimes legais» se fizesse com «respeito por direitos adquiridos», ou ainda - e isto é verdadeiramente espantoso num texto que se quer científico e nada ideológico - a «negociação da concretização ou ajustamento de soluções com as associações sindicais do sector». Será aqui que devemos encontrar a raiz do desprezo com que Maria de Lurdes Rodrigues tratou os sindicatos de professores ao longo de todo o processo negocial do Estatuto da Carreira Docente?
A Consulta dos Processos da PIDE/DGS - Uma aventura inquietante

Um texto de Helena Cabeçadas (*)
A consulta dos processos individuais da PIDE/DGS na Torre do Tombo pode tornar-se numa verdadeira descida aos infernos ou, no melhor dos casos, numa aventura inquietante. Foi essa, pelo menos, a minha experiência pessoal. Quando, oito meses após o pedido formulado, tive finalmente autorização para consultar o meu processo da PIDE/DGS na Torre do Tombo, não tinha a mínima ideia do que iria encontrar, ou mesmo se iria encontrar algo que me dissesse respeito.
Sentei-me, pois, à espera do que viesse. A funcionária traz-me um processo, abro-o e o primeiro choque é deparar-me com uma fotografia minha ampliada, aos 15 anos e em que eu estou com um sorriso luminoso. A segunda surpresa foi constatar que estava a ser seguida pela PIDE desde os meus 12 anos, quando ainda não tinha qualquer actividade política, nem sequer ainda tinha integrado a Comissão Pró-Associação dos Liceus, o que só aconteceria dois ou tês anos mais tarde. No entanto, já lá estava a correspondência por mim trocada com jovens estrangeiros que conhecera no Parque de Campismo onde passava férias. As cartas, escritas em francês e em inglês, estão bem traduzidas para português, nomeadamente poemas de Aragon e Éluard, enviados pelos meus amigos…Discutiamos sobre a repressão e a falta de liberdade em Portugal; eu estava ainda à vontade para abordar estes temas porque não tinha actividades políticas. É na sequência destas cartas (percebo só então) que um pide vem a minha casa, informa-se junto dos vizinhos e interroga a minha mãe, que lhe diz «Não entendo as suas perguntas, a minha filha é uma criança». Nessa altura eu chego do Liceu, de bata, rabichos e soquettes. O pide fica confuso, não devia esperar encontrar uma miúda e vai-se embora, sem me interrogar, escrevendo um relatório ameno, que está no meu Processo: «É uma menina de boas famílias, vão à missa todos os Domingos; o pai parte àmanhã para o Ultramar…» Lembro-me vagamente deste homem, com aspecto gorduroso, a falar com a minha mãe, à porta de casa; desses meus amigos estrangeiros já nem me lembrava…
Mas fica a questão: como é possível perderem assim tempo a investigar, ler e traduzir cartas longas de uma garota de 12 anos, sem qualquer actividade política na altura? Pode haver como «explicação» o facto de o meu nome de família ser conhecido nos meios oposicionistas: o meu tio-avô, republicano histórico e o meu primo Rui Cabeçadas, então dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional, sediada em Argel. Mas não deixa de ser perturbante esta questão: que quantidade enorme de informadores não seriam precisos para que tal acontecesse?
Neste primeiro processo, para além da fotografia, destas cartas distantes, deste relatório quase anedótico, do meu número de inscrição no Cine Clube Universtário de Lisboa «organização subversiva dominada por comunistas», da prisão na Cantina Universitária em 1965, está a denúncia de pertencer ao PCP pelo controleiro do sector estudantil da altura, passado para a PIDE, e que provocou a prisão em massa de estudantes. Nada que me causasse grande abalo, a não ser a fotografia, que me irritou sobretudo pelo meu sorriso tão alegre, jovem e confiante nas mãos daqueles seres repugnantes. Se eu estivesse com um ar duro acho que não teria ficado tão zangada.
Julguei que era tudo, e quando fui entregar o processo perguntaram-me se não queria ver os outros. Disse que sim, e chegaram então mais três grossos volumes. Explicaram-me que outros três volumes estavam desaparecidos/não localizáveis, mas classificados. Estes que posso consultar são os volumes que correspondem aos anos do exílio, e que se estendem dos meus 17 aos meus 27 anos e é aqui que surgem as cartas aos/dos meus familiares, amigos, namorados. Constato então que ao longo de dez anos a minha vida íntima, assim como a dos meus familiares e amigos, foi devassada de forma totalmente despudorada. Há em muitas destas cartas comentários obscenos feitos à margem pelos pides (ex.«esta gaja é do tipo galdério», a propósito de uma certa rapariga), setas com os números dos processos na PIDE das pessoas referenciadas, algumas com múltiplas setas correspondentes a múltiplos processos, e as que não tinham processo aberto passavam a tê-lo pelo simples facto de serem nomeadas: «Abra-se processo» era a ordem expressa na seta correspondente, já com o novo número atribuído.
Algumas destas cartas são as originais, o que significa que nunca as recebi ou nunca foram recebidas pelos seus destinatários; outras eram fotocópias de cartas que seguiram o seu destino depois de lidas pelos pides ou que estarão incluídas noutros processos, outras cartas ainda estão escritas à máquina, o que me deixou intrigada: porquê perder tempo a escrever estas cartas à máquina, tão longas, com tantas páginas? Sairiam as fotocópias mais caras do que pagar a dactilógrafos/as que as decifrem? Mais uma vez se põe a questão inquietante da imensidade de colaboradores necessariamente envolvidos nestas actividades pidescas. É o caso da carta, que nunca recebi, de uma das minhas grandes amigas, em que que ela me fala apaixonadamente da sua descoberta do amor; é uma carta muito bela, intensa e luminosa, daquelas que só se escrevem quando se tem 18 anos…Os comentários abjectos dos pides causam-me náuseas. Faço uma fotocópia da carta e pergunto à minha amiga porque é que me tinha escrito à máquina. Ela ficou muito admirada: «nunca te escrevi nenhuma carta à máquina; de facto, estranhei nunca me teres respondido a esta carta, mas pensei que estavas ocupada com outras coisas, que tinhas mais em que pensar…» assim se criavam mal-entendidos, falhas de comunicação, quando não mesmo rupturas afectivas com consequências irreparáveis e dramáticas.
Eu estava preparada psicologicamente (penso) para ler dados relativos a denúncias, interrogatórios, etc. Mas não estava, de modo algum, preparada para esta devassa despudorada da minha intimidade e da dos meus familiares, amigos, namorados…Era uma época em que se escreviam longas cartas - é bom recordar que não havia telemóveis nem internet - telefonar e/ou viajar era caro e pouco acessível - a solidão do exílio exacerbava a necessidade de comunicação à distância com os amigos e a família. Evitávamos falar de política nas cartas, claro, pois sabíamos que a correspondência era vigiada, mas sobre os afecto e os sentimentos escrevíamos sem restrições, para não perdermos as raízes e não nos perdermos a nós próprios - era uma necessidade vital.
Ver assim expostos aos olhares dos pides os sonhos, amores, frustrações e angústias das pessoas que me eram mais queridas, algumas das quais já desaparecidas, causou-me um mal-estar profundo e uma indignação que ainda hoje sinto dificuldade em dominar. Senti-me roubada, violentada no que de mais íntimo e secreto havia em mim.
O que constava nos processos, para além das cartas pessoais, incomodou-me menos: relatórios de pides belgas, redigidos em francês, denunciando as actividades anti-fascistas de portugueses exilados na Bélgica, um relatório da Interpol…sugestivo da ligação (inquietante) entre as polícias internacionais e a PIDE; outras pequenas/grandes denúncias que não me surpreenderam verdadeiramente.
Ao entregar os processos à funcionária da Torre do Tombo perguntei-lhe porque tinha sido necessário esperar oito meses para os poder consultar. «Porque tivemos que fazer o expurgo», foi a resposta. «O que é isso?» perguntei. «É tapar os nomes dos informadores». «Mas com que objectivo?» indaguei, «Porque tem de ser» foi a resposta burocrática. Fiquei atónita e ainda mais revoltada. Porquê esta protecção aos denunciantes? Imagino que para «proteger» a podre paz social em que vivemos.
Quando, finalmente, saí para o ar livre, tinha a sensação de que se me colara à pele algo de viscoso e repugnante. Passei pela Biblioteca Nacional e vi que estava lá uma exposição sobre a vida do humanista Damião de Góis. Entrei e confrontei-me com o seu processo da inquisição e com os interrogatórios que lhe foram feitos: a linguagem dos inquisidores é semelhante à dos pides, as acusações são idênticas, o espírito é o mesmo. Constato a perturbante continuidade de uma História que, em Portugal, ao longo dos séculos, se foi fazendo recorrendo à tortura, à denúncia, à prisão arbitrária e à humilhação sistemática. Tento consolar-me com a convicção de que também se fez com a resistência daqueles que conseguiram, nestes períodos sombrios, ter a coragem de dizer não à violência e à barbárie.
(*) Biografia de Helena Cabeçadas.
http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2008/06/29/a-consulta-dos-processos-da-pidedgs-uma-aventura-inquietante/
terça-feira, julho 01, 2008
Pensamentos
«Uma pessoa competente é aquela que comete erros de acordo com as regras.»
Paul Valéry
«Um especialista é um indivíduo que sabe mais e mais acerca de menos e menos, e no fim sabe tudo acerca de nada.»
William Mayo
Paul Valéry
«Um especialista é um indivíduo que sabe mais e mais acerca de menos e menos, e no fim sabe tudo acerca de nada.»
William Mayo
Satânicos substituem 666, número da besta, por algarismos do preço do gasóleo
Os recentes aumentos dos preços dos combustíveis estão também a provocar profundas alterações no Satanismo. O organismo oficial do culto de Satã, a Igreja de Satã, anunciou recentemente que o número da besta 666 iria sofrer uma alteração para 141, o preço actual em cêntimos do gasóleo em Portugal. Durante os concertos de Heavy Metal no Rock in Rio da passada quinta-feira já se notaram as alterações nos comportamentos dos fãs que, como forma de aplauso, deixaram de fazer o clássico gesto com a mão para passar ao gesto actual em que os quatro dedos da mão direita ficam presos no espaço entre o dedo indicador e o dedo médio da mão esquerda. O pentagrama invertido, antigo símbolo satânico, foi substituído pelo símbolo invertido da Galp, mudando o fundo de laranja para preto. Algumas das obras artísticas inspiradas pelo culto satânico estão já a ser adaptadas como uma nova versão de "Stairway to Heaven" dos Led Zeppelin cuja letra ouvida ao contrário contém excertos do relatório sobre o mercado dos combustíveis da Autoridade da Concorrência.
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Sócrates está a fazer esforços para que Tratado de Lisboa não se chame de Bluff de Lisboa mas Bluff de Berlim
O primeiro-ministro, José Sócrates, expressou ontem o desejo de ver o Tratado de Lisboa, texto substituto da Constituição Europeia que foi chumbado por referendo pela Irlanda, chamar-se Bluff de Berlim. José Sócrates considera que está na altura de acabar com a tradição de associar o local onde o Tratado fracassado foi concluído com o nome do documento. "Estou frontalmente contra o nome Bluff de Lisboa. Não faz sentido e é injusto para Portugal. Todo o trabalho constitucional sobre a Europa foi realizado durante a Presidência alemã do Conselho da União Europeia. A presidência portuguesa apenas fez o trabalho de acabar a redacção dessa porcaria de texto", afirmou José Sócrates. O governante português apresentou também outras sugestões como Flop de Berlim, Tanguice de Berlim, Fraude de Liubliana, capital do país que sucedeu a Portugal na presidência da UE, Barracada de Estrasburgo, Fantochada de Nice ou Logro de Paris, cidades pertencentes ao país que actualmente preside a UE.
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FOOT 2008 - REMI GAILLARD
Bem mais interessante que aquilo que o chamado “melhor do mundo” fez, não acham?
Responda quem souber

Francisco Sá Carneiro, acidente ou crime?
Casa Pia, haverá culpados para além do BiBi?
E os políticos aí envolvidos? Num ápice viram-se livres das responsabilidades e até ganharam bons lugares fora de Portugal (até esquecer)?
Casa Pia, os erros dos magistrados não se julgam?
Maddie e Joana, os erros de investigação ficam impunes?
Rui Pedro, polícias e magistrados vão receber medalhas?
Caso Portucale, que desfecho teve?
Operação Furacão, a ver vamos!
Submarinos e aviões de guerra, quem pagou a factura?
Eu também gostava de vender a minha falida PORTUGÁLIA! Será que a TAP compra?
Universidade Independente, alguém sabe o que se passa?
Fátima Felgueiras e Isaltino, culpados ou mártires?
Catalina, Cravinho, Teresa Costa Macedo, sabem mas nada dizem?
Artur Albarran, evasão fiscal ou injúria?
Leonor Beleza, infectados ou auto-infectados?
Padre Frederico, malandro ou generoso?
Vale e Azevedo, até agora o cordeiro para manter o fogo brando!
Reformas da CGD e Banco de Portugal, vergonhosas ou jeitosas?
Maxitel, EPUL e Sequeira Braga, não há culpados?
BCP e BES, fuga ao fisco ou fisco em fuga?
Jardim Gonçalves, filho e sócio, há pois dei!
Administração do BCP, e agora onde ficamos?
Ganhos irreais em bolsa, 'em terra de cegos...'
Fortunas de família ou famílias afortunadas? Direi mesmo, eleitas!
Eram ministros, entraram novinhos e hoje grandes fortunas! Quem manda ser burro?
Eram comunistas, hoje... que raio de termo devo aplicar? Judas? Eminência? Cardeal?
Eram e alguns ainda são grandes devotos e ...'venha a nós o vosso reino'!
Preços em escalada louca e classe média onde estás tu? Foi culpa do Euro!
E o trabalho precário? Para que estuda a nossa juventude?
Quem ajuda a sustentar as crianças de que o país precisa, com creches a preços acessíveis e outros apoios sociais?
E tanto, tanto mais que se poderia compilar! Mas nós gente comum o que fazemos?
60% Anda por aí e de nada se apercebe: não vem na Bola, nem no Record, nem na Maria, nem na TV Guia!
40% Discute estes casos como se de telenovelas se tratassem: coscuvilhar é bom!
10% Possivelmente insurge-se, mas julga que nada pode fazer, MAS PODE!
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Desconstrução de um "facto" político com uma frase
Escreve Luís Valadares Tavares no Público (2008-06-30):
[... A] despesa decorrente que continua cerca de 9 pontos percentuais acima da de Espanha e que não diminuiu entre 2001 (42,5 por cento) e 2007 (43,3 por cento) apesar dos insanos esforços (!) dos quatro Governos que nos dirigiram ao longo deste período.
A dura realidade dos factos diz-nos que pode o défice das contas do Estado ter diminuído mas graças ao aumento da receita. Baixe-se a carga fiscal para os idos tempos do IVA a 17% (lembram-se?!) e voltamos ao mesmo. E no entanto têm-nos dito a todo o momento que finalmente estão as contas públicas em dia. Referir-se-iam, eventualmente, a ter os "livros" da contabilidade devidamente actualizados, com todos os haveres e deveres registados...
http://fliscorno.blogspot.com/
[... A] despesa decorrente que continua cerca de 9 pontos percentuais acima da de Espanha e que não diminuiu entre 2001 (42,5 por cento) e 2007 (43,3 por cento) apesar dos insanos esforços (!) dos quatro Governos que nos dirigiram ao longo deste período.
A dura realidade dos factos diz-nos que pode o défice das contas do Estado ter diminuído mas graças ao aumento da receita. Baixe-se a carga fiscal para os idos tempos do IVA a 17% (lembram-se?!) e voltamos ao mesmo. E no entanto têm-nos dito a todo o momento que finalmente estão as contas públicas em dia. Referir-se-iam, eventualmente, a ter os "livros" da contabilidade devidamente actualizados, com todos os haveres e deveres registados...
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Depois do Cretino do Bush A Humanidade Inteira Vai Ter de Aturar Outro Cretino E Tão Perigoso Como Ele
MacCain, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, cometendo uma gafe monumental, mas que só revela o que ele próprio pensa, disse públicamente que a guerra no Iraque tinha como objectivo a apropriação do petróleo. Afinal não era a implementação da democracia e a defesa dos direitos humanos dos iraquianos que moveram esta grande Nação?!!...
Com candidatos a presidentes destes, são os próprios americanos que têm vergonha!
http://thebraganzamothers.blogspot.com/
Farsas, farsantes e farsolas

Vão ser muitas as reacções à farsa que conduziu à reeleição de Robert Mugabe com mais de 90,2% dos votos. Porém, para os mais esquecidos e para todos aqueles que contam com o esquecimento alheio, será bom relembrar a recepção ao mesmo e a outros ditadores de Dezembro passado e outro processo eleitoral, tão democrático como o que decorreu no Zimbabwe, na Rússia de outro facínora que também foi recebido por aqueles que foram eleitos para nos representarem. A bisca em causa, Vladimir Putin, até foi o Time's person of the year 2007, imagine-se. É, portanto, aconselhável toda a cautela ao analisar as condenações à reeleição do ex-amigo. Democracia é uma palavra que também costuma andar na boca de farsantes e farsolas.
http://opaisdoburro.blogspot.com/
Sucesso

Vale a pena relermos a já famosa citação:
"Os alunos têm direito a ter sucesso. Talvez fosse útil excluir dos correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações distantes da média. O que louva o trabalho do professor é o sucesso dos alunos."
Na verdade, a Directora Regional de Educação do Norte acabou por revelar o princípio que regula, a ideia que enforma a política de educação do seu Ministério em particular e do Governo. (Chega a ser divertido ver como estas pessoas, na volúpia do seu poderzinho, não resistem a “fazer” doutrina e exteriorizam, assim, para a ilustração dos indígenas, o seu “pensamento”, sem dúvida conscientes da sua elevada missão. Daí o tom de injunção moral, sentencioso, insuportavelmente “catequético”: a criatura atreve-se a perorar sobre “o que louva o trabalho do professor” etc )
O que importa é o “sucesso” (palavra mágica de virtudes ocultas), o sacro “sucesso”. “Os alunos têm direito a ter sucesso.” Não. Os alunos não têm direito ao “sucesso”. Os alunos têm, sim, direito a que lhes sejam garantidas as condições para poderem obter “sucesso”. Ou melhor, alcançar o “sucesso”. Os alunos devem ser postos perante a possibilidade do seu “sucesso”. A possibilidade tem de lhes estar garantida. Os esforços para isso nunca serão de mais. Mas não é o “sucesso” que é garantido. O “sucesso” é mais um mérito do que um direito.
O “pensamento” do Governo (revelado pelas tocantes injunções da DREN) é um insulto aos alunos e aos professores. Insulta os alunos, porque parte claramente do princípio que um aluno é uma entidade meramente passiva a quem é oferecido o “sucesso”. Não vale a pena exigir esforço, porque nunca o conseguiriam: não tem mal, aqui tens o teu "sucesso", toma-o, tens direito a ele. Insulta os professores, porque os ridiculariza, dando-lhes o sinal (e em forma de argumento ad baculum!) de que têm de baixar o grau de exigência e devem limitar-se a ser fornecedores de “sucesso”. Devem dar em bandeja ao aluno o terminus ad quem de todo um percurso sem verificarem se ele adquiriu as competências para caminhar até lá. Quer dizer, o “sucesso” não se discute. É um direito. Não sejamos ingénuos: aquelas frasezinhas da DREN condicionam não só o escrutínio dos correctores como o próprio sentido da tarefa do professor em geral. E têm um efeito verdadeiramente criminoso nos alunos. Criminoso.
Pede-se que o “sucesso” tenha correspondência numa efectiva apropriação de conhecimentos? Não. Exige-se que o “sucesso” seja carimbado nos alunos. Ao invés de todo o sentido, preconiza-se que não tem de haver (não deve haver!) uma qualidade efectiva que corresponda ao carimbo do “sucesso”. O que está por detrás deste “sucesso”? O vazio.
Não se trata de alcançar ou obter melhores resultados. Trata-se de mostrar melhores resultados. Se necessário, fabricam-se. Falsificam-se. Para uma coisa tão séria como o Ensino, esta gente procura uma solução meramente “retórica”.
E valem todos os truques: os critérios da “avaliação” dos professores (esse princípio absurdo – de cada vez que a “direita” o aplaude, está a fomentar o mesmo “facilitismo” contra o qual se esganiça tão alvoroçada, coitada); atira-se mais meia hora para cima de cada exame; baixa-se o seu grau de dificuldade até níveis que chegam a ser ridículos (como denunciaram várias vozes com autoridade – “pessimistas de serviço” e “ignorantes”, segundo a ministra e sua gente); amolecem-se os critérios de correcção até ficarem pueris. E como estas trapaças não são ainda suficientes, avisa-se os correctores de que não estão ali verdadeiramente para corrigir, verificar, aferir, mas sim para fazer momices estatísticas – participar na farsa.
Não se trata já de conformar, violentando-a, a realidade à “ideologia”. Trata-se antes de algo mais perverso, mais doentio. Esta gente trata de substituir a realidade pela “ideologia”.
“Os alunos têm direito a ter sucesso”. E, no entanto, àqueles que são realmente direitos dos alunos, direitos silenciosos, direitos cuja satisfação não se presta a anúncios de fanfarra e trombeta, a esses, o Governo mostra indiferença (quando não os atropela) e mente sem vergonha. É o caso desta história edificante do “Ensino Especial”.
O que aquela gente pensa, mas não se atreve a dizer, de cada vez que os mais conscienciosos se indignam com as trapaças dos exames, é isto:
“O quê? Estão doidos? Queriam fazer exames a sério aos nossos alunos, não?”
Para eles, os alunos portugueses não são merecedores de um Ensino a sério. Não valem a pena. Por isso, faz-se uma coisa a fingir. Brinca-se à Escola. O brinquedo somos nós todos.
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Campeões

Lá terminou o Euro 2008 e como não podia deixar de ser Portugal foi campeão.
Sim, eu sei bem, que quem levantou a taça ontem foi a Espanha, mas essa, coitada, só conseguiu ganhar no jogo jogado.
Ora nós fomos campeões e com inteira justiça no jogo falado.
Os jornais encheram-se de milhares de palavras, lá está, onde era explicado muito bem porque é que iamos ganhar.
Ora tínhamos o melhor jogador do mundo, a melhor parelha de defesas do mundo, o melhor médio do mundo, avançados que já jogaram em todo o mundo, um seleccionador que é do outro mundo, um povo que descobriu o mundo.
Querem mais?
Então fizemos coisas que mais ninguém no mundo fez.
Um treino com bilhetes verdadeiros com direito a mercado negro, transferências no período de concentração, idas a cidades bem longe para tratar de problemas pessoais, putativas transferências antes dos jogos, durante os jogos e após os jogos.
E bandeiras muitas bandeiras.
E cortejos e fanfarras e muito, muito paleio.
Ora como bem sabemos nisto de foguetório antes de se ganhar seja o que for somos especialistas e, lá está, mais um campeonato ganho.
Agora vamos descansar um bocadinho e toca a ganhar o Mundial de 2010.
Só uma coisa pode estragar esta vitória futura.
O loiro oxigenado presidente ainda lá estar.
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a mais pura chulice
Descontando o eventual aumento marginal do consumo de combustível por causa do aumento do número de passageiros, não há outra razão para aumentar o preço dos bilhetes dos transportes públicos que não seja para compensar o desinvestimento público e diminuir a concorrência às gasolineiras e petrolíferas. Se é verdade que o preço do combustível aumentou, também é verdade que o número de passageiros, logo as receitas pela venda de bilhetes, também aumentaram, equilibrando-se financeiramente o aumento da despesa com o aumento da receita. Novos clientes dos meios de transporte público, em tese, poderiam até contribuir para a diminuição do preço dos títulos, apesar do aumento do preço do combustível, havendo margem de progressão considerando que a utilização ainda está aquém da sua capacidade máxima, mas para tal seriam necessários governantes e gestores dedicados somente à causa pública, em vez das merdas que mandam nisto há já demasiado tempo.
http://grandelojadoqueijolimiano.blogspot.com/
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Mindfucking: A Critique of Mental Manipulation
Mindfucking: A Critique of Mental Manipulation, de Colin McGinn
O termo inglês "mindfuck" coloca um interessante problema de tradução. É um termo com menor circulação do que "bullshit", cuja análise foi feita por Harry Frankfurt no texto intitulado On Bullshit, já traduzido para português com o título Da Treta (Livros de Areia, 2006). O livro de Colin McGinn, Mindfucking: A Critique of Mental Manipulation, vem na sequência do texto de Frankfurt e tem por objectivo a clarificação de um conceito distinto mas que pertence à mesma família que os conceitos de mentira e de treta: o conceito de mindfucking ou psicofoda. Compreender aquilo que distingue a psicofoda da treta e da mentira é em parte compreender aquilo que torna difícil a tradução do termo. A primeira dificuldade é o facto de mindfuck ser uma palavra composta. Várias expressões em português captam parcialmente o sentido de mindfuck mas à excepção de "psicofoda" nenhuma delas forma uma única palavra composta de dois elementos que preservem a literalidade da expressão inglesa e a tensão entre ambos — um termo "mental" e um termo "físico", cuja união tem uma ressonância quase oximórica.
A segunda dificuldade é que, ao contrário da treta, que tem apenas um sentido negativo, a psicofoda tem dois sentidos: um positivo e um negativo; a psicofoda como experiência perturbante embora benigna (a experiência de uma obra de arte, uma obra de ficção ou um filme podem ser instâncias de psicofoda) e a psicofoda como manipulação mental, acção invasiva e mesmo violenta sobre o estado psicológico de uma pessoa, um aproveitamento hábil das suas fraquezas e susceptibilidades. Invariavelmente, as expressões portuguesas alternativas a "psicofoda" captam ou o sentido positivo ou o negativo, mas não ambos.
Terceira dificuldade: mindfuck tanto pode designar o processo através do qual se obtém um certo estado como pode designar esse mesmo estado, nomeadamente, o processo pelo qual algo ou alguém provoca uma alteração na psique de um ser humano de modo a obter controlo sobre as suas emoções e crenças, explorando as suas fraquezas e susceptibilidades, e o estado em que alguém fica quando este tipo de acção foi exercido sobre si. McGinn explora as variantes deste processo: a psicofoda individual, exercida por um indivíduo sobre outro (da qual o modelo clássico indicado por McGinn é a acção de Iago sobre Otelo na peça de Shakespeare), a psicofoda colectiva — tipicamente, a lavagem ao cérebro ligada a crenças religiosas ou políticas — e a psicofoda reflexiva, ou o acto exercido por uma mente sobre si própria (autopsicofoda?). Nenhuma das expressões portuguesas que captam parcialmente o sentido de mindfuck consegue referir simultaneamente o processo e o estado resultante desse processo, excepto "psicofoda". Uma dessas expressões mostra-se mesmo inadequada por se subsumir na noção de psicofoda colectiva, ou seja, por ser uma instância de psicofoda, logo, por ter uma extensão menor do que o termo a traduzir: "lavagem ao cérebro". Além disso, esta expressão também não consegue captar o sentido positivo de mindfuck. A expressão "foda mental" admite uma ressonância positiva e negativa, captando quer a associação entre o intenso, o inócuo e o agradável, quer a associação entre o invasivo e o violento. Contudo, não funciona por sugerir demasiado um acto físico imaginário em vez de qualificar uma acção cujo alvo primário é a mente, as emoções e as crenças do indivíduo. A psicofoda não é um acto físico imaginado, idealizado ou execrado, é um acto mental com características análogas às de um acto físico, embora aqui não se trate de uma divisão estrita: nenhum dos actos é estritamente mental ou estritamente físico — por motivos óbvios, a manipulação mental e as variantes colectivas da psicofoda não podem ignorar a importância da estética no modo como o indivíduo se relaciona com o mundo, no modo como adquire as suas crenças e no modo como a sua imaginação é afectada. A ritualização do poder, das paradas militares à iconologia e à propaganda, da música marcial aos cartazes ideológicos, são exemplos suficientemente eloquentes disto. O objectivo deste tipo de arte é manifestamente o de causar um género de excitação ou "tesão" nas suas vítimas. Um tipo de excitação que faz os indivíduos colaborar activamente na exploração das suas fraquezas, silenciar as suas faculdades críticas, aderir ou harmonizar-se com uma perspectiva do mundo invariavelmente dualista (os bons contra os maus) e irracional (onde o pensamento já não tem outra função a não ser a de justificar a violência, defender o indefensável).
Outra das razões pelas quais "foda mental" não funciona é que embora mindfuck tenha uma conotação sexual, não esgota o sentido do termo nem tem uma importância primária. Trata-se de uma analogia com a cópula física, não de uma identificação (mindfuck e não a fuck in the mind). Assim, talvez a expressão portuguesa mais próxima de captar o significado de mindfuck seja "lixar a mente". Contudo, também esta só capta o sentido negativo do original. Não se descreveria uma experiência intensa, perturbadora mas agradável, com a palavra "lixar". Além de captar ambos os sentidos, positivo e negativo, "psicofoda" tem ainda outra vantagem patente: trata-se precisamente de foder a psique do indivíduo e não apenas de alterar algumas das suas crenças acerca do mundo. De igual modo, a psicofoda em sentido positivo não visa a meramente alterar algumas crenças do indivíduo mas o todo da sua vida mental: a experiência de uma peça musical arrebatadora, uma teoria científica ou filosófica capaz de subverter as nossas crenças mais básicas, um filme com uma sequência de acontecimentos que resulta num final de todo inesperado embora em retrospectiva seja perfeitamente lógico, dando ao espectador a sensação de ter sido explorado na sua ingenuidade e credulidade...
Dito isto, devo agora referir aquela que me parece ser a única fraqueza de "psicofoda" como opção para traduzir mindfuck: o termo inglês, apesar de ser mais recente do que bullshit (treta), tem ainda assim alguma circulação. McGinn afirma mesmo que se trata de um termo bastante corrente em inglês. "Psicofoda", contudo, tanto quanto sei, é uma palavra ainda não usada. Pelo menos uma busca preliminar no Google não mostrou quaisquer resultados, nem uma única página que use o termo. Escusado será dizer que tão-pouco os dicionários a registam. O mesmo não se aplica ao termo inglês, que está já registado em dicionários e acusou 737 000 ocorrências no Google. Permita-se-me então converter esta fraqueza num ponto forte: se não há palavra anterior, temos a vantagem de poder escolher o melhor termo possível sem enfrentar o preconceito favorável a palavras consagradas mas que talvez não sejam as melhores. Isto torna mais importante o apresentar de razões para sustentar a escolha do termo, pois estamos simultaneamente a preencher um espaço em branco no nosso vocabulário e a evitar aquela que é a opção mais comum: ignorar a potencialidade do léxico nativo e adoptar a expressão no original, introduzindo uma nova palavra quando já dispomos de uma que funciona, mas não sabemos ou não pensámos o suficiente para a descobrir.
Para concluir esta digressão sobre o texto de McGinn, vamos expor a diferença fundamental entre a psicofoda e os outros dois conceitos da mesma família, embora distintos, a treta e a mentira. Em primeiro lugar, o elemento comum aos três conceitos é o engano. Todos diferem, contudo, no modo como enganam. Tanto a treta como a mentira se dirigem a uma crença ou conjunto de crenças do sujeito a quem se mente ou prega uma treta. A mentira tem por objectivo incutir crenças falsas acerca de um estado de coisas no mundo e acerca das crenças do sujeito que mente. Pela mentira pretende-se convencer alguém que uma certa crença falsa (ou crenças falsas) acerca de um estado de coisas no mundo é verdadeira e que as crenças do mentiroso acerca desse estado de coisas no mundo são diferentes do que na verdade são. A treta é indiferente à diferença entre a verdade e a falsidade. O objectivo da treta é produzir uma alteração nas crenças de outrem, contudo a força da treta não está em produzir uma aparência de verdade mas na sugestão. Ao passo que uma mentira não pode ser por definição verdadeira, algo pode ser verdadeiro e ser à mesma uma treta. A treta pode conter falsidades ou verdades, desde que uma ou outra sirvam para alcançar o objectivo. Quando se tenta dar a impressão de que se sabe muito sobre determinado assunto também se procura alterar as crenças de outrem, mas neste caso uma verdade irrelevante pode ter um poder sugestivo superior ao de uma mentira. Para o pregador de tretas, a verdade e a falsidade têm o mesmo valor instrumental.
No caso da psicofoda, contudo, não se trata de alterar uma crença ou conjunto de crenças em particular, mas o conjunto dos estados emocionais do indivíduo, de modo a obter controlo sobre a sua mente, as suas emoções, e consequentemente, sobre o tipo de crenças de que o indivíduo é capaz. O mindfucker (psicoviolador?) tem de ganhar a confiança e a colaboração das suas vítimas. Num certo sentido, a psicofoda tem de ser voluntária (servidão voluntária?) na medida em que a vítima, através das suas vulnerabilidades, de uma perspectiva da realidade distorcida pelos seus medos e desejos, pela imaginação, participa activamente na destruição das suas faculdades críticas e encara a submissão como o caminho fácil para a redenção e a pacificação, que obviamente nunca chegam, dando apenas origem a maior ansiedade e sofrimento, que exige cada vez mais submissão. Neste sentido, a psicofoda é a operação mais complexa das três e há uma assimetria entre elas. Um mentiroso e um pregador de tretas não são necessariamente psicovioladores, mas um psicoviolador tem necessariamente de ser um bom mentiroso além de ter um talento invulgar para a treta. O psicoviolador é um artista do irracional. O objectivo de uma psicofoda não é convencer alguém da verdade de uma proposição falsa, mas exercer controlo sobre o tipo de crenças de que esse indivíduo será capaz e sobre o modo como certas proposições o irão afectar independentemente de quaisquer considerações racionais. Isto é ilustrado, por exemplo, no facto de as vítimas de lavagem ao cérebro serem incapazes de discutir criticamente as suas crenças. A pessoa a quem se mentiu com êxito continua a ser capaz de detectar a falsidade da proposição que aceitou enganosamente, quem caiu numa treta retém a capacidade de se libertar da treta, ao passo que a psicofoda é muito mais difícil de superar, pois a adesão a proposições falsas que gera não se instala através da aparência de verdade mas das fraquezas emocionais do indivíduo que o psicoviolador aprende a explorar.
Na vertente positiva que a semântica do conceito admite, McGinn conclui a sua reflexão com uma questão importante: será a filosofia uma instância de psicofoda? Contudo, para não matar a curiosidade do leitor e aumentar a intensidade da experiência proporcionada pela leitura (a eficácia da psicofoda?), vamos deixar esta questão em aberto para quem queira deter-se sobre o próprio texto. Podemos contudo mencionar o seguinte, para abrir o apetite: a contenda entre aquilo a que chamamos filosofia analítica e o pós-modernismo deixa-se captar pela seguinte pergunta: o projecto socrático de obter a verdade através do questionamento das nossas crenças mais básicas sem recorrer a qualquer autoridade que não a da argumentação e da razão é uma psicofoda em sentido negativo, uma espécie de sofística? O pós-modernismo será a posição para a qual tudo é psicofoda negativa, mera expressão de relações de poder, excepto a própria perspectiva que diagnostica este estado de coisas.
Concluo com uma referência ao que me pareceu ser as duas fraquezas do livro: uma certa transigência por parte do autor com a ideia dos memes, de Richard Dawkins, e a ideia kuhniana de "paradigma". Ambas são apresentadas como ilustrações de um aspecto da psicofoda. Aqui não é o lugar para discutir as fraquezas de ambas as ideias ou pelo menos aquilo que as torna altamente discutíveis, mas podemos dizer em abono de McGinn que não é necessário pensarmos que são adequadas ou correctas para que funcionem como ilustrações, do modo que ele pretende. McGinn usa a analogia que Dawkins imaginou entre a propagação de informação e a reprodução genética (o meme como réplica mental do gene) para explorar a conotação sexual, invasiva, da psicofoda: a ideia de itens de informação que se propagam de mente para mente, como o refrão tolo de uma canção comercial. A "mudança de paradigma" kuhniana, tal como é descrita por Kuhn, é uma instância de "psicofoda" em sentido positivo. Podemos aceitar esta ideia e apreender o que se pretende ilustrar com ela sem aceitar implicitamente que há paradigmas.
Creio, contudo, que McGinn podia ter recorrido a um exemplo mais fértil: Por um lado, toda a ciência tem um potencial de "psicofoda" na medida em que subverte as nossas crenças básicas acerca do mundo, mesmo quando não estamos num período "revolucionário" à Kuhn; por outro lado, a diferença entre a ciência e a pseudociência ilustram na perfeição os dois sentidos de "psicofoda" naquilo que os distingue um do outro. A pseudociência é actualmente uma das mais poderosas instanciações da psicofoda negativa e a que faz um uso mais prolífico da treta e da mentira em todas as suas variedades. A pseudociência obedece a um padrão que McGinn identifica na psicofoda: esta torna-se cada vez mais intensa à medida que aumenta a exposição potencial das suas vítimas à diferença de opinião e ao livre fluxo de informação. Podemos observar isto no facto de os símbolos terem muita força quando já não fazem qualquer sentido, a ideologia torna-se mais agressiva quando se torna mais facilmente perceptível como ideologia, quando o seu poder de se fazer passar por conhecimento genuíno é menor. Nestas circunstâncias a única forma de manter a ideologia é através de doses maciças de psicofoda, para contrariar a exposição crescente à informação e aos efeitos salutares da dissonância cognitiva.
Vítor Guerreiro
Prefácio do autor
Foi a discussão pioneira que Harry Frankfurt fez da treta, no seu apropriadamente intitulado Da Treta, que me levou a empreender uma investigação semelhante acerca de um conceito relacionado (mas distinto): o conceito de psicofoda. Ambos são conceitos bastante correntes, mas, por várias razões, não se fez uma articulação sistemática dos seus significados. E são conceitos de alguma importância intelectual e cultural, a não confundir com outros conceitos associados. Tal como Frankfurt argumenta, convincentemente, que pregar tretas não é o mesmo que mentir, assim argumentarei que a psicofoda não é o mesmo que pregar tretas, embora os três conceitos pertençam à mesma família, na medida em que implicam uma certa violência sobre a verdade (de que tipo, é uma das questões a responder). O conceito de psicofoda é de lavra mais recente que o de treta — é certo que a própria expressão é mais jovem — e está talvez ainda em vias de se estabelecer, de modo que a minha investigação pode bem ser vista como a consolidação de um conceito que está ainda na sua infância. Mas, como a treta, a psicofoda é um aspecto predominante da cultura contemporânea, e fazemos bem ao procurar uma compreensão articulada do mesmo. Tal como todos já fomos vitimados pela treta (tretados?) uma ou outra vez, é provável que já tenhamos levado o nosso quinhão de psicofodas — e não nos poderá fazer mal compreender o que assim foi perpetrado em nós. Conhecer o próprio inimigo é sempre um excelente conselho.
Deparei-me pela primeira vez com a expressão "psicofoda" há cerca de quinze anos. Dera uma palestra pública em Nova Iorque, sobre o problema da mente-corpo e a consciência, na qual apresentei uma tese radical concebida para abalar a complacência do meu auditório a respeito desse assunto tão constrangedor, e um amigo contou-me que um dos seus alunos se referiu à minha apresentação como uma "psicofoda". Soube de imediato o que significava, embora a expressão fosse nova para mim: conhecia a estrutura do argumento que dei na palestra e conseguia ligar a minha apreensão lexical das palavras "psique" e "foda" de modo a perceber a que características da minha apresentação se estava a aludir com esta impressionante elocução. A expressão agarrou-se a mim (fui, pode-se dizer, ligeiramente psicofodido pela palavra "psicofoda") e comecei a reparar noutros usos da mesma, normalmente de carácter mais negativo. Mas foi só ao ler o ensaio livre Da Treta de Frankfurt que me ocorreu investigar o conceito mais detalhada e sistematicamente. Parece-me ser agora um conceito com futuro (a palavra "treta", embora ainda amplamente usada, claro, soa-me um pouco à América da década de 1950): a psicofoda é algo de que vamos ouvir falar bastante. Duvido que alguém saiba quem cunhou o termo (tal como quem inventou a palavra "treta" está agora perdido nas brumas do tempo) mas, fosse quem fosse, ele ou ela tropeçaram em algo importante. Há aqui um fenómeno da vida humana que reclama um nome próprio, além de uma análise concomitante.
Colin McGinn
http://criticanarede.com/mindfucking.html
O termo inglês "mindfuck" coloca um interessante problema de tradução. É um termo com menor circulação do que "bullshit", cuja análise foi feita por Harry Frankfurt no texto intitulado On Bullshit, já traduzido para português com o título Da Treta (Livros de Areia, 2006). O livro de Colin McGinn, Mindfucking: A Critique of Mental Manipulation, vem na sequência do texto de Frankfurt e tem por objectivo a clarificação de um conceito distinto mas que pertence à mesma família que os conceitos de mentira e de treta: o conceito de mindfucking ou psicofoda. Compreender aquilo que distingue a psicofoda da treta e da mentira é em parte compreender aquilo que torna difícil a tradução do termo. A primeira dificuldade é o facto de mindfuck ser uma palavra composta. Várias expressões em português captam parcialmente o sentido de mindfuck mas à excepção de "psicofoda" nenhuma delas forma uma única palavra composta de dois elementos que preservem a literalidade da expressão inglesa e a tensão entre ambos — um termo "mental" e um termo "físico", cuja união tem uma ressonância quase oximórica.
A segunda dificuldade é que, ao contrário da treta, que tem apenas um sentido negativo, a psicofoda tem dois sentidos: um positivo e um negativo; a psicofoda como experiência perturbante embora benigna (a experiência de uma obra de arte, uma obra de ficção ou um filme podem ser instâncias de psicofoda) e a psicofoda como manipulação mental, acção invasiva e mesmo violenta sobre o estado psicológico de uma pessoa, um aproveitamento hábil das suas fraquezas e susceptibilidades. Invariavelmente, as expressões portuguesas alternativas a "psicofoda" captam ou o sentido positivo ou o negativo, mas não ambos.
Terceira dificuldade: mindfuck tanto pode designar o processo através do qual se obtém um certo estado como pode designar esse mesmo estado, nomeadamente, o processo pelo qual algo ou alguém provoca uma alteração na psique de um ser humano de modo a obter controlo sobre as suas emoções e crenças, explorando as suas fraquezas e susceptibilidades, e o estado em que alguém fica quando este tipo de acção foi exercido sobre si. McGinn explora as variantes deste processo: a psicofoda individual, exercida por um indivíduo sobre outro (da qual o modelo clássico indicado por McGinn é a acção de Iago sobre Otelo na peça de Shakespeare), a psicofoda colectiva — tipicamente, a lavagem ao cérebro ligada a crenças religiosas ou políticas — e a psicofoda reflexiva, ou o acto exercido por uma mente sobre si própria (autopsicofoda?). Nenhuma das expressões portuguesas que captam parcialmente o sentido de mindfuck consegue referir simultaneamente o processo e o estado resultante desse processo, excepto "psicofoda". Uma dessas expressões mostra-se mesmo inadequada por se subsumir na noção de psicofoda colectiva, ou seja, por ser uma instância de psicofoda, logo, por ter uma extensão menor do que o termo a traduzir: "lavagem ao cérebro". Além disso, esta expressão também não consegue captar o sentido positivo de mindfuck. A expressão "foda mental" admite uma ressonância positiva e negativa, captando quer a associação entre o intenso, o inócuo e o agradável, quer a associação entre o invasivo e o violento. Contudo, não funciona por sugerir demasiado um acto físico imaginário em vez de qualificar uma acção cujo alvo primário é a mente, as emoções e as crenças do indivíduo. A psicofoda não é um acto físico imaginado, idealizado ou execrado, é um acto mental com características análogas às de um acto físico, embora aqui não se trate de uma divisão estrita: nenhum dos actos é estritamente mental ou estritamente físico — por motivos óbvios, a manipulação mental e as variantes colectivas da psicofoda não podem ignorar a importância da estética no modo como o indivíduo se relaciona com o mundo, no modo como adquire as suas crenças e no modo como a sua imaginação é afectada. A ritualização do poder, das paradas militares à iconologia e à propaganda, da música marcial aos cartazes ideológicos, são exemplos suficientemente eloquentes disto. O objectivo deste tipo de arte é manifestamente o de causar um género de excitação ou "tesão" nas suas vítimas. Um tipo de excitação que faz os indivíduos colaborar activamente na exploração das suas fraquezas, silenciar as suas faculdades críticas, aderir ou harmonizar-se com uma perspectiva do mundo invariavelmente dualista (os bons contra os maus) e irracional (onde o pensamento já não tem outra função a não ser a de justificar a violência, defender o indefensável).
Outra das razões pelas quais "foda mental" não funciona é que embora mindfuck tenha uma conotação sexual, não esgota o sentido do termo nem tem uma importância primária. Trata-se de uma analogia com a cópula física, não de uma identificação (mindfuck e não a fuck in the mind). Assim, talvez a expressão portuguesa mais próxima de captar o significado de mindfuck seja "lixar a mente". Contudo, também esta só capta o sentido negativo do original. Não se descreveria uma experiência intensa, perturbadora mas agradável, com a palavra "lixar". Além de captar ambos os sentidos, positivo e negativo, "psicofoda" tem ainda outra vantagem patente: trata-se precisamente de foder a psique do indivíduo e não apenas de alterar algumas das suas crenças acerca do mundo. De igual modo, a psicofoda em sentido positivo não visa a meramente alterar algumas crenças do indivíduo mas o todo da sua vida mental: a experiência de uma peça musical arrebatadora, uma teoria científica ou filosófica capaz de subverter as nossas crenças mais básicas, um filme com uma sequência de acontecimentos que resulta num final de todo inesperado embora em retrospectiva seja perfeitamente lógico, dando ao espectador a sensação de ter sido explorado na sua ingenuidade e credulidade...
Dito isto, devo agora referir aquela que me parece ser a única fraqueza de "psicofoda" como opção para traduzir mindfuck: o termo inglês, apesar de ser mais recente do que bullshit (treta), tem ainda assim alguma circulação. McGinn afirma mesmo que se trata de um termo bastante corrente em inglês. "Psicofoda", contudo, tanto quanto sei, é uma palavra ainda não usada. Pelo menos uma busca preliminar no Google não mostrou quaisquer resultados, nem uma única página que use o termo. Escusado será dizer que tão-pouco os dicionários a registam. O mesmo não se aplica ao termo inglês, que está já registado em dicionários e acusou 737 000 ocorrências no Google. Permita-se-me então converter esta fraqueza num ponto forte: se não há palavra anterior, temos a vantagem de poder escolher o melhor termo possível sem enfrentar o preconceito favorável a palavras consagradas mas que talvez não sejam as melhores. Isto torna mais importante o apresentar de razões para sustentar a escolha do termo, pois estamos simultaneamente a preencher um espaço em branco no nosso vocabulário e a evitar aquela que é a opção mais comum: ignorar a potencialidade do léxico nativo e adoptar a expressão no original, introduzindo uma nova palavra quando já dispomos de uma que funciona, mas não sabemos ou não pensámos o suficiente para a descobrir.
Para concluir esta digressão sobre o texto de McGinn, vamos expor a diferença fundamental entre a psicofoda e os outros dois conceitos da mesma família, embora distintos, a treta e a mentira. Em primeiro lugar, o elemento comum aos três conceitos é o engano. Todos diferem, contudo, no modo como enganam. Tanto a treta como a mentira se dirigem a uma crença ou conjunto de crenças do sujeito a quem se mente ou prega uma treta. A mentira tem por objectivo incutir crenças falsas acerca de um estado de coisas no mundo e acerca das crenças do sujeito que mente. Pela mentira pretende-se convencer alguém que uma certa crença falsa (ou crenças falsas) acerca de um estado de coisas no mundo é verdadeira e que as crenças do mentiroso acerca desse estado de coisas no mundo são diferentes do que na verdade são. A treta é indiferente à diferença entre a verdade e a falsidade. O objectivo da treta é produzir uma alteração nas crenças de outrem, contudo a força da treta não está em produzir uma aparência de verdade mas na sugestão. Ao passo que uma mentira não pode ser por definição verdadeira, algo pode ser verdadeiro e ser à mesma uma treta. A treta pode conter falsidades ou verdades, desde que uma ou outra sirvam para alcançar o objectivo. Quando se tenta dar a impressão de que se sabe muito sobre determinado assunto também se procura alterar as crenças de outrem, mas neste caso uma verdade irrelevante pode ter um poder sugestivo superior ao de uma mentira. Para o pregador de tretas, a verdade e a falsidade têm o mesmo valor instrumental.
No caso da psicofoda, contudo, não se trata de alterar uma crença ou conjunto de crenças em particular, mas o conjunto dos estados emocionais do indivíduo, de modo a obter controlo sobre a sua mente, as suas emoções, e consequentemente, sobre o tipo de crenças de que o indivíduo é capaz. O mindfucker (psicoviolador?) tem de ganhar a confiança e a colaboração das suas vítimas. Num certo sentido, a psicofoda tem de ser voluntária (servidão voluntária?) na medida em que a vítima, através das suas vulnerabilidades, de uma perspectiva da realidade distorcida pelos seus medos e desejos, pela imaginação, participa activamente na destruição das suas faculdades críticas e encara a submissão como o caminho fácil para a redenção e a pacificação, que obviamente nunca chegam, dando apenas origem a maior ansiedade e sofrimento, que exige cada vez mais submissão. Neste sentido, a psicofoda é a operação mais complexa das três e há uma assimetria entre elas. Um mentiroso e um pregador de tretas não são necessariamente psicovioladores, mas um psicoviolador tem necessariamente de ser um bom mentiroso além de ter um talento invulgar para a treta. O psicoviolador é um artista do irracional. O objectivo de uma psicofoda não é convencer alguém da verdade de uma proposição falsa, mas exercer controlo sobre o tipo de crenças de que esse indivíduo será capaz e sobre o modo como certas proposições o irão afectar independentemente de quaisquer considerações racionais. Isto é ilustrado, por exemplo, no facto de as vítimas de lavagem ao cérebro serem incapazes de discutir criticamente as suas crenças. A pessoa a quem se mentiu com êxito continua a ser capaz de detectar a falsidade da proposição que aceitou enganosamente, quem caiu numa treta retém a capacidade de se libertar da treta, ao passo que a psicofoda é muito mais difícil de superar, pois a adesão a proposições falsas que gera não se instala através da aparência de verdade mas das fraquezas emocionais do indivíduo que o psicoviolador aprende a explorar.
Na vertente positiva que a semântica do conceito admite, McGinn conclui a sua reflexão com uma questão importante: será a filosofia uma instância de psicofoda? Contudo, para não matar a curiosidade do leitor e aumentar a intensidade da experiência proporcionada pela leitura (a eficácia da psicofoda?), vamos deixar esta questão em aberto para quem queira deter-se sobre o próprio texto. Podemos contudo mencionar o seguinte, para abrir o apetite: a contenda entre aquilo a que chamamos filosofia analítica e o pós-modernismo deixa-se captar pela seguinte pergunta: o projecto socrático de obter a verdade através do questionamento das nossas crenças mais básicas sem recorrer a qualquer autoridade que não a da argumentação e da razão é uma psicofoda em sentido negativo, uma espécie de sofística? O pós-modernismo será a posição para a qual tudo é psicofoda negativa, mera expressão de relações de poder, excepto a própria perspectiva que diagnostica este estado de coisas.
Concluo com uma referência ao que me pareceu ser as duas fraquezas do livro: uma certa transigência por parte do autor com a ideia dos memes, de Richard Dawkins, e a ideia kuhniana de "paradigma". Ambas são apresentadas como ilustrações de um aspecto da psicofoda. Aqui não é o lugar para discutir as fraquezas de ambas as ideias ou pelo menos aquilo que as torna altamente discutíveis, mas podemos dizer em abono de McGinn que não é necessário pensarmos que são adequadas ou correctas para que funcionem como ilustrações, do modo que ele pretende. McGinn usa a analogia que Dawkins imaginou entre a propagação de informação e a reprodução genética (o meme como réplica mental do gene) para explorar a conotação sexual, invasiva, da psicofoda: a ideia de itens de informação que se propagam de mente para mente, como o refrão tolo de uma canção comercial. A "mudança de paradigma" kuhniana, tal como é descrita por Kuhn, é uma instância de "psicofoda" em sentido positivo. Podemos aceitar esta ideia e apreender o que se pretende ilustrar com ela sem aceitar implicitamente que há paradigmas.
Creio, contudo, que McGinn podia ter recorrido a um exemplo mais fértil: Por um lado, toda a ciência tem um potencial de "psicofoda" na medida em que subverte as nossas crenças básicas acerca do mundo, mesmo quando não estamos num período "revolucionário" à Kuhn; por outro lado, a diferença entre a ciência e a pseudociência ilustram na perfeição os dois sentidos de "psicofoda" naquilo que os distingue um do outro. A pseudociência é actualmente uma das mais poderosas instanciações da psicofoda negativa e a que faz um uso mais prolífico da treta e da mentira em todas as suas variedades. A pseudociência obedece a um padrão que McGinn identifica na psicofoda: esta torna-se cada vez mais intensa à medida que aumenta a exposição potencial das suas vítimas à diferença de opinião e ao livre fluxo de informação. Podemos observar isto no facto de os símbolos terem muita força quando já não fazem qualquer sentido, a ideologia torna-se mais agressiva quando se torna mais facilmente perceptível como ideologia, quando o seu poder de se fazer passar por conhecimento genuíno é menor. Nestas circunstâncias a única forma de manter a ideologia é através de doses maciças de psicofoda, para contrariar a exposição crescente à informação e aos efeitos salutares da dissonância cognitiva.
Vítor Guerreiro
Prefácio do autor
Foi a discussão pioneira que Harry Frankfurt fez da treta, no seu apropriadamente intitulado Da Treta, que me levou a empreender uma investigação semelhante acerca de um conceito relacionado (mas distinto): o conceito de psicofoda. Ambos são conceitos bastante correntes, mas, por várias razões, não se fez uma articulação sistemática dos seus significados. E são conceitos de alguma importância intelectual e cultural, a não confundir com outros conceitos associados. Tal como Frankfurt argumenta, convincentemente, que pregar tretas não é o mesmo que mentir, assim argumentarei que a psicofoda não é o mesmo que pregar tretas, embora os três conceitos pertençam à mesma família, na medida em que implicam uma certa violência sobre a verdade (de que tipo, é uma das questões a responder). O conceito de psicofoda é de lavra mais recente que o de treta — é certo que a própria expressão é mais jovem — e está talvez ainda em vias de se estabelecer, de modo que a minha investigação pode bem ser vista como a consolidação de um conceito que está ainda na sua infância. Mas, como a treta, a psicofoda é um aspecto predominante da cultura contemporânea, e fazemos bem ao procurar uma compreensão articulada do mesmo. Tal como todos já fomos vitimados pela treta (tretados?) uma ou outra vez, é provável que já tenhamos levado o nosso quinhão de psicofodas — e não nos poderá fazer mal compreender o que assim foi perpetrado em nós. Conhecer o próprio inimigo é sempre um excelente conselho.
Deparei-me pela primeira vez com a expressão "psicofoda" há cerca de quinze anos. Dera uma palestra pública em Nova Iorque, sobre o problema da mente-corpo e a consciência, na qual apresentei uma tese radical concebida para abalar a complacência do meu auditório a respeito desse assunto tão constrangedor, e um amigo contou-me que um dos seus alunos se referiu à minha apresentação como uma "psicofoda". Soube de imediato o que significava, embora a expressão fosse nova para mim: conhecia a estrutura do argumento que dei na palestra e conseguia ligar a minha apreensão lexical das palavras "psique" e "foda" de modo a perceber a que características da minha apresentação se estava a aludir com esta impressionante elocução. A expressão agarrou-se a mim (fui, pode-se dizer, ligeiramente psicofodido pela palavra "psicofoda") e comecei a reparar noutros usos da mesma, normalmente de carácter mais negativo. Mas foi só ao ler o ensaio livre Da Treta de Frankfurt que me ocorreu investigar o conceito mais detalhada e sistematicamente. Parece-me ser agora um conceito com futuro (a palavra "treta", embora ainda amplamente usada, claro, soa-me um pouco à América da década de 1950): a psicofoda é algo de que vamos ouvir falar bastante. Duvido que alguém saiba quem cunhou o termo (tal como quem inventou a palavra "treta" está agora perdido nas brumas do tempo) mas, fosse quem fosse, ele ou ela tropeçaram em algo importante. Há aqui um fenómeno da vida humana que reclama um nome próprio, além de uma análise concomitante.
Colin McGinn
http://criticanarede.com/mindfucking.html
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