terça-feira, novembro 28, 2006

Poesia de António Gedeão ( a propósito do centenário de nascimento de Rómulo de Carvalho)

Enquanto
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto,
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo de alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!
(António Gedeão, in Linhas de Força, 1967, Coimbra)

O poeta, professor e investigador Rómulo de Carvalho ( mais conhecido na literatura com o pseudónimo de António Gedeão), cujo centenário de nascimento é agora recordado, marcou gerações inteiras e nunca é demais divulgar a sua obra e vida.
Num destes últimos dias a sua esposa divulgou um seu escrito que reproduzimos:
“Os governos têm sabido organizar as coisas de modo a alterar tudo segundo as suas conveniências. A imprensa só diz o que é conveniente dizer-se e de um só modo considerado conveniente. Os serviços oficiais só dão notícia e relevo a tudo quanto contribui para o prestígio de uma certa doutrina considerada como a única aceitável.”
"Eu tenho sobre a história uma ideia que está longe de ser a mais frequente. Penso que, quem faz a história, não é o governo de uma nação. Sou eu, a vizinha do andar do lado e o merceeiro que está estabelecido com loja na esquina da rua. É o par de namorados que passa de lambreta ou o operário que vai para a oficina com a malinha do almoço. É o poeta, é o pensador, é o cientista, é tudo, toda a gente, a que sai e a que fica em casa, todos, todos, excepto os que compõem o governo. Esses só têm uma atitude permanente, que é a de, atónitos, solucionarem, ou verdadeiramente ou falsamente, os problemas que lhes são impostos."
( retirado daqui)

Para um homem simples, que nunca votou, e que se recusou a integrar a comissão de apoio à presidência de Mário Soares, estas palavras mostram, caso fosse ainda necessário, o sentido da sua filosofia de vida e a sua concepção política:
A emancipação dos seres humanos é obra deles próprios !

Aproveitamos para incluir dois excertos de textos que analisam a obra e a vida de Rómulo de Carvalho:

A ideologia de António Gedeão foge tanto à ideologia oficial como ao padrão cultural da classe dominante, que chega não raro a afectar o discurso mesmo daqueles que contestam o regime. É a ideologia de um sage: cientista, professor, poeta, espectador crítico e dilacerado, cuja intervenção se resume ao seu fazer de artista, mas que penetra fundo em quem o lê. Ele sonha a harmonia do mundo, isto é, a igualdade na desigualdade, a fraternidade na competição ou na luta de instintos; a liberdade íntima e cívica, que só pode conseguir-se através de um aperfeiçoamento incessante e progressivo da espécie humana.Será redutor empregarmos a palavra socialismo para nos acercarmos desta cosmovisão? O certo é que não encontro melhor expressão. O mundo sonhado pelo trovador de «A Pedra Filosofal» está ao mesmo tempo aquém e além da visão de Fourier, de Proudhon, de Karl Marx? É decerto um mundo sem deus, no estrito sentido teológico da crença num criador do universo, omnisciente e omnividente, detentor do castigo e da recompensa. Materialista, darwnista, einsteineano, Rómulo de Carvalho/António Gedeão sonha no entanto o paraíso possível, a pacificação das feras que são a maioria dos homens, ainda presos e talvez para sempre aos primórdios da sua origem, mas capazes de ternura, de êxtase ante a beleza do mundo. É essa dualidade, a do homem preso à terra e à morte, condicionado pelas leis biológicas, rigorosas, da mecânica universal, e a da ascensão a uma plataforma superior da vida transformada através da cor, do gesto, da música e das palavras, que ele tenta comunicar-nos, ensinando-nos a olhar sem ilusões, mas com calma euforia, a beleza dos rios, das fontes, das plantas, das crianças, a união dos contrários. E assim a sua poesia fala a dor, o absurdo e por vezes, com atormentada alegria, a esperança
(texto de Urbano Tavares Rodrigues, retirado daqui)

É durante este período preparatório (de 1954 a 1955) que lhe surge a ideia da adopção de um pseudónimo. Mas é só de quando em quando que surge uma assinatura nesses poemas, a maior parte das vezes resumida a um simples A (de António). Aliás, ao longo de toda a sua produção, só muito raramente assinava o pseudónimo completo. O elemento que está quase sempre presente é o A ou António.Esse período preparatório para a arrancada definitiva que o levará a definir- -se e a aparecer publicamente como António Gedeão, corresponde a uma grande alteração na sua vida individual. Transplantáramo-nos da nossa cidade natal, de Lisboa e capital, onde nos ficavam, além dos sítios históricos que ele amava, o resto da família, a dele e a minha, e assentávamos em Coimbra, cidade de características académicas e de costumes ainda acentuadamente provincianos, e isto durante o período do Estado Novo. Havia ainda alguns costumes da«praxe», que não nos agradavam, havia procissões pelas ruas, com as figuras gradas da cidade a pegarem nas borlas dos pálios debaixo dos quais seguiam os bispos paramentados, e havia no liceu oficial para que ele fora nomeado uma hierarquia rígida, que envolvia obediências políticas, cívicas e religiosas muito acentuadas. Nesse meio, um professor de liceu devia mostrar-se como uma figura grave, encarregada da instrução e da educação de jovens. Era difícil mostrar uma faceta crítica, filosófica, implicitamente contestatária e, pior, lírica e anti-convencional.
(texto de Natália Nunes, retirado daqui)

Para ver cronologia e mais informações sobre Rómulo de Carvalho ( isto é, ó poeta António Gedeão), consultar:
http://purl.pt/12157/1/index.html

Acreditava não poder zangar-se com alguém, e considerava que havia de morrer inocente, exactamente como nascera. Poeta até ao fim, António Gedeão, afirmava em 1989: "continuarei a escrever poesia até ao último suspiro. Suponho que o último suspiro será um verso."
Rómulo e Gedeão, o pedagogo da simplicidade e o poeta do sonho, deixam-nos uma obra vastíssima com a lucidez das palavras, idealisticamente voltada para o futuro.
http://pimentanegra.blogspot.com/

O desemprego corrigido continua a aumentar com o governo do PS

Contrariamente àquilo que o governo e mesmo a maioria dos órgãos de comunicação social têm afirmado, o desemprego não está a diminuir em Portugal. É certo que os dados oficiais sobre o desemprego revelam uma redução, embora pequena (menos 12,9 mil desempregados entre o 3º Trimestre de 2005 e o 3º Trimestre de 2006), mas estes dados não dão uma ideia completa da dimensão do desemprego no nosso País, já que não incluem, pelo menos, dois grupos de desempregados de facto – “Inactivos Disponíveis” e “Subemprego Visível” – que têm um peso cada vez maior no nosso País. Se calcularmos aquilo a que chamamos o desemprego corrigido, com base em dados também publicados pelo INE, e que está muito mais próximo do desemprego real, concluímos que o desemprego continua a aumentar em Portugal. O desemprego corrigido passou de 548,9 mil no 1º Trimestre de 2005 (fim do governo de Santana de Lopes), para 566,6 mil no 3º Trimestre de 2005, e para 571,5 mil no 3º Trimestre de 2006. Assim, entre o 1º Trimestre de 2005 (fim dos governos PSD/CDS) e o 3º Trimestre de 2006 (pleno governo de Sócrates), o desemprego corrigido aumentou em 22,6 mil, tendo crescido no último trimestre em 4,9 mil.

Se analisarmos a variação da taxa de desemprego oficial e da taxa de desemprego corrigido observamos a mesma evolução. Assim, a taxa de desemprego oficial diminuiu de 7,7% para 7,4% entre o 3º Trimestre de 2005 e o 3º Trimestre de 2006, mas a taxa de desemprego corrigido manteve-se constante no mesmo período – 10,2% – apesar da população activa, que é base de cálculo da taxa desemprego, ter aumentado em 44,8 mil.

Os dados referentes ao desemprego oficial e ao desemprego corrigido revelam um fenómeno preocupante em Portugal, que é o seguinte: um número crescente de portugueses está a deixar de procurar emprego (90,2 mil no 3º Trimestre de 2006), entrando muitos deles na categoria de “desencorajados” (pensam que já não vale a pena procurar emprego porque o não conseguem arranjar), caminhando desta forma rapidamente para a exclusão social total, e que, pelo facto de não procurarem emprego nas 3 semanas anteriores ao inquérito do INE, não são considerados no cálculo do desemprego oficial. O mesmo sucede com o “subemprego visível”, que são portugueses que querem trabalhar, que fazem biscates para sobreviver, mas que não conseguem arranjar um emprego, e que também não são considerados no cálculo do desemprego oficial (64,3 mil no 3º Trimestre de 2006).

Outro fenómeno que se está a observar em Portugal é que, contrariamente ao que sucedeu no período anterior, está-se a verificar actualmente uma destruição de postos de trabalho no grupo de “Trabalhadores de escolaridade mais elevada” e uma criação de postos de trabalho no grupo de “Trabalhadores de baixa escolaridade e de qualificação profissional de banda estreita”. Assim, entre o 3º Trimestre de 2002 e o 3º Trimestre de 2004 verificou-se um crescimento de 239,9 mil postos de trabalho no 1º grupo e uma destruição de 266,3 mil postos de trabalho no 2º grupo, enquanto no período 3º Trimestre 2004/3º Trimestre de 2006 registou-se precisamente o contrario, pois no 1º grupo, o mais qualificado, verificou-se uma destruição de 23,9 mil, enquanto no 2º grupo, o menos qualificado, observou-se um crescimento de 50,8 postos de trabalho. A destruição de postos de trabalho no grupo de “Trabalhadores com maior escolaridade e de qualificação mais elevada” que se está a verificar neste momento em Portugal poderá dificultar a mudança de perfil da nossa economia que é urgente, e levar à manutenção do modelo de crescimento baseado em baixas qualificações e baixos salários. Esta evolução é confirmada também pelo facto de que entre o 3º Trimestre de 2005 e o 3º Trimestre de 2006, segundo o INE, a percentagem de desempregados com o ensino básico ou menos ter diminuído de 71,1% do total para 70,1% (passou de 305 mil para 292,8 mil ), enquanto a percentagem de desempregados com o ensino secundário e superior ter aumentado de 28,9% do total do desemprego oficial para 29,9% (em número passou de 124,1 mil para 124,6 mil).

Interessa ainda referir que o reduzido crescimento do emprego em Portugal está-se a fazer fundamentalmente à custa de mais trabalho precário já que, entre o 3º Trimestre de 2004 e o 3º Trimestre de 2006, os contratos sem termo aumentaram em 52,5 mil, enquanto os contratos a prazo cresceram em 105,9 mil, portanto o dobro dos primeiros. Como consequência, a taxa de precariedade aumentou de 29,4% para 30,2%.

O Instituto Nacional de Emprego (INE) acabou de publicar os dados do desemprego referentes ao 3º Trimestre de 2006. E o que rapidamente se conclui é que, contrariamente àquilo que o governo e os media têm afirmado, embora o desemprego oficial tenha diminuído, o desemprego corrigido, que está muito mais próximo do desemprego real, continuou a aumentar em Portugal.
Para se poder compreender os dados do quadro anterior, interessa ter presentes as seguintes definições de “Inactivos Disponíveis” e “Subemprego visível” do Instituto Nacional de Estatística.

Assim, segundo o INE, os “Inactivos Disponíveis”, que constam do quadro anterior, são pessoas desempregadas, que não tinham trabalho remunerado nem qualquer outro, que pretendiam trabalhar, que estavam disponíveis para trabalhar, mas que pelo facto de não terem feito diligências para arranjar emprego nas últimas 3 semanas anteriores ao inquérito do INE, não são consideradas nem no número oficial de desempregados nem no cálculo da taxa oficial de desemprego, embora estejam desempregados; portanto, são desempregados de facto, embora não sejam considerados nos números oficiais de desemprego.

O “Subemprego visível”, constante também do quadro, que também não é considerado nem no número nem na taxa oficial de desemprego, inclui todos aqueles que trabalham menos de 15 horas por semana (“biscates” para sobreviver), apenas pelo facto de não encontrarem um emprego com horário completo, apesar de terem declarado que desejam trabalhar mais horas; portanto, também são desempregados de facto, embora também não sejam considerados nos números oficiais de desemprego.

Se somarmos ao número oficial de desempregados, os “Inactivos Disponíveis” e o “Subemprego visível” obtemos aquilo a que chamamos desemprego corrigido, que é um número que está muito mais próximo do desemprego real do que os números do desemprego oficial divulgados pelos órgãos de comunicação social, e utilizados pelo governo na sua campanha visando criar uma imagem sua favorável na opinião pública.

Fazendo os cálculos necessários obtém-se os resultados constantes do quadro anterior, que mostram o seguinte: (1) O desemprego oficial tem variado da seguinte forma: (a) 3º Trimestre de 2002 (início do governo do PSD/CDS): 276,1 mil; (b) 3º Trimestre de 2004: 375,9 mil; (c) 1º Trimestre de 2005 (fim do governo de Santana Lopes e início do governo de Sócrates): 412,6 mil; 3º Trimestre de 2005: 429,6 mil; (d) 3º Trimestre de 2006: 417 mil; portanto, o desemprego oficial cresceu durante os governos do PSD, e diminuiu no 3º Trimestre de 2006; (2) Desemprego corrigido, que é um valor de desemprego que está muito mais próximo do desemprego real teve a seguinte variação: (a) 3º Trimestre de 2002: 401,6 mil; (b) 3º Trimestre de 2004: 516,6 mil; (c) 1º Trimestre de 2005: 548,9 mil; (d) 3º Trimestre de 2005: 566,6 mil; (e) 3º Trimestre de 2006: 571,5 mil.

Analisando-se a evolução do desemprego oficial, cujos valores são utilizados pelo governo na sua campanha mediática, e do desemprego corrigido, cujos valores estão muito mais próximos do real, conclui-se que, enquanto o desemprego oficial diminuiu no 3º Trimestre de 2006, o mesmo não sucedeu com o desemprego corrigido, que cresceu, e de uma forma acentuada, se considerarmos todo o período de governo Sócrates.

Entre o 3º Trimestre de 2002 e o 1º Trimestre de 2005, ou seja, durante os governos do PSD/PP, o desemprego oficial cresceu em 136,5 mil e o desemprego corrigido aumentou em 147,3 mil. Entre o 1º Trimestre de 2005 e o 3º Trimestre de 2006, já de governo Sócrates, o desemprego oficial aumentou em 4,4 mil (entre o 3º Trimestre de 2005 e o 3º Trimestre de 2006 diminuiu em 12,9 mil), mas o desemprego corrigido cresceu em 22,6 mil (entre o 3º Trim. 2005 e o 3º Trim. 2006 aumentou em 4,9 mil).

Os dados revelam que a redução do desemprego oficial em Portugal em 2006 tem sido mais do que compensada pelo aumento dos que, embora sendo desempregados de facto (Inactivos Disponíveis; Subemprego visível), não são considerados nos números oficiais de desemprego.

O EMPREGO NAS PROFISSÕES DE QUALIFICAÇÃO MAIS ELEVADA ESTÁ A DIMINUIR, ENQUANTO O EMPREGO DE MENOR QUALIFICAÇÃO AUMENTA

A análise do emprego por profissões em Portugal, no período 3T2002/3T2006, revela duas tendências opostas bem claras.
No período 3º Trimestre 2002/3º Trimestre 2004, portanto de governo PSD/CDS, registou-se uma criação significativa de emprego no grupo que denominamos “Trabalhadores de escolaridade elevada”, que inclui os quadros superiores da Administração Pública e das empresas, especialistas das profissões intelectuais e científicas, e técnicos e profissionais de nível intermédio (+239,6 mil postos de trabalho), e uma destruição muito elevada no grupo que denominamos “Trabalhadores de baixa escolaridade e de qualificação de banda estreita” (sabem fazer muito bem o que sempre fizeram, mas como têm, na sua maioria, baixa escolaridade, têm grande dificuldade em se converterem para outras profissões), que incluem “agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura e pescas, Operários, artífices e trabalhadores similares, Operadores de instalações e máquinas e trabalhadores de montagem, Trabalhadores não qualificados” (–266,3 mil postos de trabalho). No grupo que denominamos “Trabalhadores de escolaridade e qualificação média”, que inclui “Pessoal administrativo, e pessoal dos serviços e vendedores” verificou-se também um crescimento de emprego, embora muito mais reduzido (+13,7 mil postos de trabalho).

No período 3º Trimestre 2004/3º Trimestre 2006 verificou-se uma tendência precisamente contrária, ou seja, uma destruição de postos de trabalho no grupo de “Trabalhadores de escolaridade e qualificação mais elevada” (–23,3 mil postos de trabalho) e um aumento do emprego no grupo de “Trabalhadores de baixa escolaridade e de qualificação de banda estreita” (+50,8 mil postos de trabalho). No grupo de “Trabalhadores de escolaridade e qualificação média” registou-se também neste período um crescimento que é superior ao verificado no período anterior (+42 mil postos de trabalho).

A quebra verificada no emprego mais qualificado que se está a verificar em Portugal poderá afectar a mudança de perfil e a recuperação da economia e levar à manutenção do modelo de crescimento baseado em qualificações e salários baixos, que é urgente abandonar, como as perdas de quotas de mercado externo dos produtos portugueses evidenciam.

AUMENTO RÁPIDO DO TRABALHO PRECÁRIO EM PORTUGAL

O aumento, embora reduzido, do emprego em Portugal, tem-se feito fundamentalmente à custa do crescimento do emprego precário.
Entre o 3º Trimestre de 2004 e o 3º Trimestre de 2006, o emprego aumentou em Portugal em 120,4 mil postos de trabalho, mas os contratos a prazo cresceram em 105,9 mil , cabendo aos contratos sem termo apenas mais 52,5 mil postos de trabalho, ou seja, metade do verificado nos contratos a termo. Como consequência, a taxa de precariedade em Portugal, medida em percentagem de “Trabalhadores por conta própria – Isolados (a maioria constituída pelos falsos recibos verdes, já que são trabalhadores de facto por conta de outrém) mais (+) Trabalhadores a prazo”, em relação à População Empregada Total, aumentou de 29,4% para 30,2%.
Eugénio Rosa
http://www.infoalternativa.org/autores/eugrosa/eugrosa101.htm

Iraque - Violência religiosa

Se, cada vez que morre um iraquiano, vítima da violência sectária, pensássemos no carácter pacífico das religiões, detestaríamos Deus e os seus prosélitos.Os iraquianos que sucumbem na orgia de sangue, que o tribalismo e a fé se encarregam de levar a cabo, lembram aos agressores o maior erro histórico deste século, mas ilustram a crueldade que só Deus pode.Quando as rivalidades étnicas entre xiitas e sunitas atingem uma violência intolerável, a que ninguém consegue pôr cobro, vêm à memória as guerras religiosas entre católicos e protestantes que dilaceraram a Europa.Então era a obediência ao Papa que estava em jogo, misturada com um negócio de indulgências, hoje é o ajuste de contas por umas divergências antigas sobre Maomé, com um genro de permeio.Os sunitas ganham o Paraíso a matar xiitas, estes têm acesso a matar aqueles. Se vissem o estado lastimável em que chegam, desistiam das 70 virgens que julgam à espera!Talvez por isso as virgens que aguardam os dementes da fé permaneçam eternamente virgens.
Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/

O Estatuto da Escravidão Docente. O Fim das Negociações

As negociações acabaram e o ECD lá foi aprovado em Conselho de Ministros a tempo de nos fazer amargas as filhós deste Natal com a antevisão do que aí vem a partir de Janeiro. Em declarações hoje veiculadas pelo Expresso o Secretário de Estado Pedreira afirma que as coisas correram muito bem, que os professores já ultrapassaram o pico da contestação e que a partir de agora vai tudo deslizar sobre rodas.
Eu permitir-me-ia discordar do bucólico quadro, pois me parece que os docentes estão todos como estavam há dois meses, só que agora com a certeza de toda a argumentação ministerial ser uma falácia e de ter sido desenvolvida uma das mais vergonhosas campanhas de que me lembro sobre toda uma classe profissional, para além de todo o processo negocial ter sido uma mistificação até à última ronda.
Aliás isto é muito fácil de demonstrar com base exactamente naquela que foi apresentada como uma relevante concessão do Ministério, ou seja, o facto de os docentes do 10º escalão transitarem para professores titulares praticamente sem qualquer tipo de exigência ou formalidade. Esta “concessão” é especialmente ridícula por várias razões.
Antes de mais porque, estando já no 10º escalão e não podendo receber menos, esses docentes se não passassem a titulares só teriam a “ganhar”, pois não seriam obrigados a vir a exercer diversos cargos que como titulares se vai tornar uma exigência. Aliás, se ficarem quietinhos e se não pretenderem ser titulares, o que lhes pode acontecer?
Em seguida, como os lugares de titulares criados para os docentes do 10º escalão são para extinguir quando vagarem, é uma falácia afirmar-se que se alargou o quadro de titulares, pois a medida não tem quaisquer efeitos práticos em termos de custos, nem abre mais vagas para ninguém. Apenas aparenta facilitar a vida a alguns.
Por fim, e numa outra perspectiva, esta medida é completamente contrária a todo o discurso meritocrático ministerial, pois assume como merecedores de titularização todos os docentes do 10º escalão, sem qualquer critério de acesso. O que significa que a antiguidade é um posto e que os dois terços não merecedores de titularização estão nos escalões abaixo. Se até compreendo que não equiparar directamente a titulares todos os colegas do 10º escalão seria algo inconsequente, não posso, contudo, deixar de assinalar o entorse argumentativo que será necessário fazer para justificar tal medida com base no discurso do “mérito”.
Mas como é uma medida que não implica custos adicionais, até se pode apresentar como “concessão”. Mas acredita nisso apenas quem quiser ser enganado a sangue frio.
http://educar.wordpress.com/

Aí vêm as odiosas desculpas

“Grandes notícias dos Estados Unidos!”, gritou­‑me a empregada da livraria que frequento em Beirute ontem de manhã, levantando os polegares. «As coisas serão melhores depois destas eleições?» Por desgraça, disse­‑lhe. Por desgraça, não. As coisas vão piorar no Médio Oriente mesmo que, dentro de dois anos, os Estados Unidos sejam abençoados com um presidente democrata (e democrático). Pois os desastrosos filósofos que estão por detrás do banho de sangue no Iraque estão agora a lavar as mãos de todo o desastre e gritam “Nós não!” com o mesmo entusiasmo que a senhora libanesa da livraria, enquanto os “especialistas” da imprensa dominante na costa leste dos Estados Unidos estão a preparar o terreno para a nosso retirada do Iraque – culpando de tudo esses iraquianos gananciosos, sedentos de sangue, anárquicos, depravados e intransigentes.

Devo dizer que a versão de mea culpa de Richard Perle tirou­‑me o fôlego. Ali estava o ex­‑presidente do Comité Consultivo da Junta de Política de Defesa do Pentágono – ele que uma vez nos disse que «o Iraque é um muito bom candidato à reforma democrática» – admitindo agora que tinha «subestimado a depravação» no Iraque. Evidentemente, ele considera o presidente responsável, reconhecendo apenas que – e aqui agora, caro leitor, respire fundo –, «penso que se tivesse sido vidente e tivesse visto onde estamos actualmente, e as pessoas me tivessem perguntado: “Devemos ir para o Iraque?”, penso que provavelmente teria dito: “Não, consideremos outras estratégias...”»

Talvez considere este mea culpa odioso e farisaico tanto mais objectável quanto o mesmo homem há um par de anos, numa comunicação por rádio em Bagdade, me insultou aos gritos, condenando­‑me por afirmar que os Estados Unidos estavam a perder a guerra no Iraque e acusando­‑me de ser «partidário da manutenção do regime baazista». Esta mentira, devo acrescentar, era particularmente maliciosa já que eu relatava as violações em massa e as execuções em massa de Saddam na prisão de Abu Ghraib (e sendo­­‑me recusados vistos iraquianos) quando Perle e seus cortesãos se calavam perante a maldade de Saddam e quando o seu amigote Donald Rumsfeld apertava efusivamente a mão do monstro em Bagdade numa tentativa de aí reabrir a embaixada estadunidense.

Não que Perle não esteja em boa companhia. Kenneth Adelman, o neocon do Pentágono que também fez soar os tambores da guerra, declarou à Vanity Fair que «a ideia de usar o nosso poder para o bem moral no mundo» morreu. Quanto ao colega de Adelman, David Frumm, bem, chegou à conclusão de que George Bush «não absorveu as ideias» por detrás dos discursos que Frumm escreveu para ele. Mas temo que isto não é o pior que veio daqueles que nos alentaram a invadir o Iraque e iniciar uma guerra que custou a vida a talvez 600.000 civis.

Um novo fenómeno invade as páginas de The New York Times e de todos esses outros grandes órgãos do poder estadunidense. Para aqueles jornalistas que apoiaram a guerra, não é suficiente zurzir em Bush. Não, eles agora têm outra bandeira a hastear: os iraquianos não nos merecem. David Brooks – que uma vez nos disse que os neoconservadores como Perle não tiveram nada a ver com a decisão do presidente de invadir o Iraque – tem vindo a rebuscar com afã no ensaio escrito em 1970 por Elie Kedourie sobre a ocupação britânica da Mesopotâmia em 1920. E o que descobriu ele? Que «os britânicos tentaram sem sucesso promover uma liderança responsável», citando a conclusão de um oficial britânico da época de que os xiitas iraquianos «não têm motivo para refrear o sacrifício dos interesses do Iraque àqueles concebem como próprios».

Mas o artigo de Brooks no The New York Times também foi assustador. Informa-nos que o Iraque sofre actualmente «uma completa desintegração social» e que os «erros norte­‑americanos» foram exacerbados «pelos mesmos velhos demónios iraquianos: cobiça, sede de sangue e uma exasperante falta de disposição para transigir, mesmo face à auto­‑imolação». O Iraque, decidiu Brooks, «vacila à beira da futilidade» (seja o que for que isso queira dizer) e se as tropas norte­‑americanas não podem restaurar a ordem, «será tempo de pôr fim efectivo ao Iraque», diluindo a autoridade ao nível do «clã, tribo ou seita», que – ouçam isto – são­ «as únicas comunidades que são viáveis».

Não acreditem que o artigo de Brooks representa uma voz solitária. Eis Ralph Peters, colaborador do USA Today e oficial retirado do exército estadunidense. Ele tinha apoiado a invasão, diz, porque estava «convencido de que o Médio Oriente se encontrava tão estagnado política, social, moral e intelectualmente que tínhamos de arriscar a intervenção – ou enfrentar terrorismo e tumultos por gerações». Apesar de todos os erros de Washington, jacta­‑se Peters, «demos de facto aos iraquianos uma oportunidade única de construir uma democracia sob o império da lei».

Mas, segundo agora parece, esses exasperantes iraquianos «preferiram ocupar-se com velhos rancores, a violência confessional, a intolerância étnica e uma cultura de corrupção». A conclusão de Peters? «As sociedades árabes não podem suportar a democracia como nós a conhecemos». Em consequência, «é tragédia deles, não nossa. O Iraque era a última oportunidade do mundo árabe de subir ao comboio da modernidade, de dar um futuro à região...». Incrivelmente, Peters acaba por acreditar que «se o mundo árabe e o Iraque embarcarem numa orgia de banhos de sangue, a dura verdade é que nós poderemos ser os beneficiários» porque o Iraque terá «consumido» «terroristas» e os Estados Unidos serão «ainda a maior potência sobre a terra».

Não se trata da falta de vergonha de tudo isto – será que nenhum destes homens tem vergonha? – mas da presunção racista de que a hecatombe no Iraque é inteiramente culpa dos iraquianos, de que a sua má vontade intrínseca, os seus vícios, a sua incapacidade de apreciar os frutos da nossa civilização os tornam indignos da nossa ulterior atenção. Ninguém, em nenhum momento, questiona se o facto de os Estados Unidos serem «a maior potência sobre a terra» poderá ser parte do problema. Nem se os iraquianos que suportaram os piores anos da ditadura ­quando Saddam foi apoiado pelos Estados Unidos­, que foram sancionados pela ONU ao custo de meio milhão de vidas de crianças e que depois foram brutalmente invadidos pelos nossos exércitos, poderão na verdade não estar tão terrivelmente ansiosos de todas as maravilhas que quisemos oferecer­‑lhes. Muitos árabes, como já escrevi, gostariam de um pouco da nossa democracia, mas também gostariam de outro tipo de liberdade – libertar­‑se de nós.

Mas vocês entendem. Estamos a preparar as nossas desculpas para a retirada. Os iraquianos não nos merecem. Que se lixem. Esse é o saibro que estamos a estender no solo do deserto para ajudar os nossos tanques a sair do Iraque.
Robert Fisk
The independent
http://www.infoalternativa.org/autores/fisk/fisk097.htm

Mão-de-obra do Sul para firma do Norte

Pouco sensível às condições de trabalho nas empresas suas fornecedoras, a Wal-Mart subcontrata uma grande parte dos seus produtos em África, na América Latina e doravante na China, onde os salários são ainda mais baixos.

Jane Doe II, que utiliza este pseudónimo para "«se proteger, bem como à família, de quaisquer danos e represálias», trabalha desde Setembro de 2003 numa máquina de costura duma fábrica de confecções de Shenzen, no Sul da China. Tal como 4800 outras empresas chinesas, esta onde trabalha opera para uma das marcas comercializadas pela Wal-Mart, a gigantesca cadeia de comércio a retalho. Para fornecer as secções da Wal­‑Mart, Jane Doe II – uma de um total de 130.000 empregados chineses que trabalham em regime de subcontratação para a firma norte-americana – chega a fazer 20 horas de laboração por dia, sem que lhe paguem as horas extraordinárias. Auferindo 16,5 centavos do dólar à hora (13 cêntimos do euro), Jane Doe II tão­‑pouco recebe o salário mínimo legal (31 centavos, 25 cêntimos) que as leis laborais chinesas determinam. Por outro lado, como a empresa não lhe fornece a necessária roupa de protecção, esta operária sofre de perturbações respiratórias e de pruridos cutâneos, provocados pelas poeiras do algodão e da lã a que se encontra exposta.

Mas a sua única opção é esta. Ou aceita o trabalho, «ou perde o emprego e fica na lista negra, prática corrente nas fábricas de confecções de Shenzen», explica o International Labor Rights Fund (ILRF). Em 14 de Setembro de 2005, esta organização norte-americana pôs uma acção em tribunal contra as práticas sociais da multinacional, em nome de Jane Doe II, bem como de catorze outros trabalhadores, asiáticos, africanos, latino­‑americanos, e até norte-americanos, que trabalham para empresas subsidiárias da Wal-Mart.

Segundo o ILRF, a Wal-Mart autorizou os seus fornecedores a «contrariarem qualquer tentativa de formação de um sindicato» [1]. A Wal-Mart terá igualmente feito «declarações falaciosas ao público americano relativamente às práticas da empresa em matéria de direitos humanos e direitos laborais». Com efeito, os factos que incriminam a firma violam as obrigações contratuais que ela própria proclamou em 1992. A Wal­‑Mart, indica a queixa­‑crime, tinha-se «comprometido a vigiar as fábricas dos seus fornecedores de modo a garantir que estes respeitassem o código de conduta».

Desde 2001, a firma norte-americana tem acompanhado – ou mesmo provocado – a migração das empresas suas subsidiárias para as novas zonas económicas chinesas, em nome de uma lógica que a revista na Internet Fast Company resumiu assim: «A Wal-Mart está em condições de comprimir ao máximo as margens dos seus fornecedores. Para sobreviverem a esta política, os fabricantes de tudo quanto pode ser vendido – dos sutiãs às bicicletas, passando pelas calças de ganga – tiveram de despedir os seus empregados e encerrar as suas fábricas dos Estados Unidos, para passarem a subcontratar trabalho em países ultramarinos» [2]. Actualmente, mais de metade das importações de produtos não comestíveis provêm da China, onde a multinacional tem também uma centena de supermercados e a sua principal central de compras mundial.

Adquirindo 15 mil milhões de dólares de mercadorias chinesas – 11 por cento das trocas comerciais sino­‑americanas –, a Wal-Mart é hoje o primeiro importador mundial de produtos fabricados na “oficina do mundo”. Impondo uma calendarização estrita e uma redução dos custos de fabrico, acrescenta a revista Fast Company, ela «reduz os frágeis progressos sociais alcançados na China, impondo longas horas extraordinárias obrigatórias e dando luz verde ao despedimento arbitrário dos trabalhadores que ousem pôr em causa as condições de trabalho».

O REGRESSO DO SERVO E DO VASSALO

Não é inédito a Wal-Mart ver-se acusada de tais práticas. Só em 2002, ano em que importou para os Estados Unidos 291.200 contentares de bens de consumo, a firma foi objecto de 6000 queixas-crime em tribunal devido às suas práticas sociais. Mas aquilo que distingue o processo movido pelo ILRF é o seu carácter universal [3]. Além da Jane Doe II de Shenzen, sabe-se de outras vítimas anónimas da política comercial que visa “baixar os preços a todo o custo”. Essas vítimas trabalham em Mastapha (Suazilândia), em Sebaco (Nicarágua), em Daca (Bangladeche). Na sua maior parte são mulheres, à imagem dos assalariados das empresas subcontratadas que o consumidor norte-americano ignora. A história destas vítimas atesta uma «walmartização» do mundo, expressão que o sindicato mundial das profissões do comércio considera estar «em vias de se tornar familiar, significando ao mesmo tempo dumping social e anti-sindicalismo» [4].

Como lembra o professor Nelson Lichtenstein, especialista de história operária na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, «em cada época, uma empresa protótipo parece encarnar um conjunto inovador de estruturas económicas e relações sociais. Em finais do século XIX, a Companhia dos Caminhos­‑de­‑Ferro da Pensilvânia considerava-se “a referência do mundo”; em meados do século XX, a General Motors foi o símbolo duma gestão burocrática e aperfeiçoada, bem como duma produção em série que tirava proveito das novas tecnologias. Nestes últimos anos, a Microsoft parecia ser o modelo de uma economia do conhecimento pós-industrial. Mas, no início do século XXI, é a Wal-Mart que por seu turno parece representar o tipo de instituição económica que transforma o mundo, impondo um sistema transnacional e fortemente integrado de produção, distribuição e emprego». Todavia, sublinha Nelson Lichtenstein, «e isto é uma novidade, o centro, o poder é o revendedor global, tendo o fabricante passado à condição de servo, de vassalo».

Contra duas formas de contestação – internacional e local [5] –, a Wal-Mart lançou em 2005 uma grande operação de comunicação, destinada, segundo o seu director-geral, Lee Scott Jr., a responder a «uma das campanhas mais organizadas, sofisticadas e dispendiosas nunca antes empreendida contra uma só empresa». No tocante à questão das empresas subcontratadas, a operação consiste em relativizar os factos e fazer alarde de uma consciência social. Deste modo, a Wal-Mart garante estar regularmente em contacto com várias organizações não governamentais que lutam em prol do encerramento das sweat shops e maquiladoras [6] - das quais, no entanto, esta firma continua a importar 50 por cento das suas mercadorias estrangeiras.

Os spin doctors contratados pela firma terão provavelmente inspirado a contra-ofensiva visível nas sábias declarações da revista norte-americana Fortune: «A Wal-Mart emprega directamente 1,4 milhões de pessoas, ou seja, 56 vezes mais que uma empresa americana média. Disso decorre, em absoluto, que uma ocorrência funesta tem 5500 por cento mais possibilidades de surgir na Wal-mart do que nos seus concorrentes» [7].

Nesse mesmo registo fatalista, Lee Scott, que em 2004 ganhava 16.000 vezes mais que um operário da Suazilândia, acrescentou o seguinte: «Enquanto houver cupidez, há-de haver quem infrinja a lei». Mas como este género de filosofia não basta, a Wal-Mart informou ter procedido em 2004 a mais de 12.000 inspecções em 7600 fábricas e ter posto fim às suas relações comerciais com 1500 fábricas, 108 das quais definitivamente, sobretudo devido a violações da lei relativas ao trabalho infantil.

Membro do colectivo sul-africano Civil Society Research and Support Collective (CSRSC), Aisha Bahadur levou a cabo várias investigações sobre as condições de trabalho nas empresas têxteis da África Austral e Oriental. Convém aliás referir que a África é um dos territórios menos mediatizados da walmartização do mundo operário, apesar de constituir uma das zonas do planeta onde são aplicadas de forma brutal as imposições da firma, que «afectam por esse mundo fora os salários, as condições de trabalho, as práticas manufactureiras e até o preço da jarda de ganga» [8].

A multinacional norte-americana soube tirar partido dos acordos de comércio livre estabelecidos por Washington com alguns Estados africanos. Em Janeiro de 2003, o Sindicato dos Operários Têxteis do Lesoto (Lesotho Clothing and Allied Workers Union, LECAWU) e a Federação Africana dos Trabalhadores do Têxtil e do Cabedal (membro da ITGLWF, International Textile, Garment and Leather Workers Federation) denunciaram as condições de trabalho de 21 empresas subcontratadas pela Wal-Mart na periferia de Maseru, capital do Lesoto. O caso, em que se encontram implicadas empresas subcontratadas que operam para as marcas Gap e Hudson Bay, veio lembrar que apesar de não haver em África supermercados Wal-Mart, em contrapartida a África do têxtil está muito presente nos contentores que se destinam aos hipermercados.

A sub-região austral é “privilegiada” pelos três acordos de comércio livre (African Growth and Opportunity Act, AGOA) que desde 2000 foram concluídos entre os Estados Unidos e alguns Estados do continente negro. Ora, para beneficiarem da supressão de barreiras alfandegárias para os Estados Unidos, empresas têxteis de Taiwan deslocalizaram-se em massa para África. Até Dezembro de 2004, as suas máquinas de costura trabalharam em pleno para a Wal-Mart, que Aisha Bahadur identifica como «um dos maiores beneficiários da AGOA e do acordo multifibras que privilegia a importação de têxteis a baixo preço provenientes de África», tendo então afluído às novas zonas industriais das capitais regionais uma mão-de-obra rural que as empresas subcontratadas se apressaram a superexplorar. Os escândalos obrigaram algumas dessas empresas a fechar, mas outras substituíram-nas logo.

Essa situação durou até Janeiro de 2005. Porque a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) e o fim do Acordo Multifibras foram o toque de finados desse período de pleno emprego. As empresas deslocalizadas para África voltaram a partir para o Sudeste Asiático, e tão facilmente, notou Aisha Bahadur, quanto é possível «instalar em contentares o material duma empresa têxtil, tendo sido despedidos, entre Outubro de 2004 e Maio de 2005, cerca de 60.000 trabalhadores». Os operários africanos das empresas têxteis que lá continuaram, acrescentou, «estão mais do que nunca ameaçados pelas políticas decididas pela Wal­‑Mart».

Com sede em Kampala, capital do Uganda, a fábrica de confecções Apparel Tri-Star Ltd. pertence a uma das empresas cingalesas beneficiarias da AGOA que a Wal-Mart continua a subcontratar apesar das queixas dos empregados, embora estas queixas tenham sido apresentadas à Organização Internacional do Trabalho (OIT). Como informa a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (CISL), a Tristar é «uma espantosa máquina de violar direitos dos assalariados (em grandíssima maioria mulheres)» [9]. Com efeito, os testemunhos de algumas das 2000 operárias põem em questão o comportamento duma empresa que é apresentada pelas autoridades do país como um exemplo a seguir para o desenvolvimento do Uganda.

«Quando precisamos de ir aos lavabos», informa uma operária, «temos previamente de obter uma autorização do supervisor. Se ele estiver de acordo, dá-nos uma espécie de “senha de saída”; mas como só há duas senhas por cada secção de 70 trabalhadores, temos de esperar. Depois, quando chega a nossa vez, somos obrigados a correr porque é proibido ausentarmo-nos mais de cinco minutos e a distância que vai da oficina aos lavabos pode levar esse tempo». Mais: cada ausência é controlada por uma guarda da segurança e inscrita num registo com o nome do trabalhador, o número do seu cartão, a hora e minutos em que se ausenta e em que regressa. Qualquer ausência considerada excessiva é sancionada com uma advertência, que pode acabar no despedimento. Porque em África e noutras paragens, «os preços diariamente mais baixos» não são baratos para toda a gente.

[1] Ver o sítio www.laborrights.org.
[2] Charles Fishman, The Wal-Mart you don’t know, Fast Company, Dezembro de 2003.
[3] BBC World Service, “Wal-Mart hit by ‘sweatshop’ claim”, 13 de Setembro de 2005.
[4] Ler o relatório de Março de 2005 da Union Network International (UNI), The wal-martization of the world: UNI’s global response.
[5] Olivier Esteves, Resistências populares, Le Monde diplomatique, Janeiro de 2006.
[6] Fábricas que operam em regime de subcontratação situadas na América Latina e nos países das Caraíbas.
[7] Jerry Useem, “Should we admire Wal-Mart?”, Fortune, 8 de Março de 2004.
[8] Ver o sítio Internet do CSRSC.
[9] Ler Le Monde Syndical, Ouganda, un gouvernement au service des employeurs, Agosto de 2005.
Jean-Christophe Servant
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/usa/usa129.htm

“Dirigentes ao nosso serviço”...

No seu livro Nickel and Dimed: Undercover in Low Wage USA (2002), editado em francês com o título L’Amérique pauvre (Grasset, Paris, 2004), Barbara Ehrenreich relata a sua experiência de assalariada da Wal­‑Mart auferindo um salário horário de sete dólares. A passagem que aqui transcrevemos refere-se à imagem que a empresa deseja transmitir de si mesma.

Começamos com um vídeo, de cerca de quinze minutos, dedicado à história e à filosofia da Wal-Mart ou, como diria um antropólogo, ao Culto de Sam. Sam Walton, jovem e de uniforme, regressa da guerra; abre uma loja que é uma espécie de bazar; casa-se e torna-se pai de quatro lindos rebentos; recebe das mãos do presidente Bush pai a Medalha da Liberdade – e morre pouco depois, o que provoca um florilégio de discursos fúnebres em louvor do falecido. Os negócios, porém, prosseguem – e de que maneira! A curva ascensional da história da Wal­‑Mart é vertiginosa, servindo apenas as pausas, nessa ascensão, para estabelecer novos recordes na história do expansionismo da empresa.

1992: a Wal-Mart torna-se o maior vendedor a retalho mundial. 1997: o volume de negócios ultrapassa os 100 mil milhões de dólares. 1998: o número de “associados” da Wal-Mart atinge as 825.000 pessoas, transformando esta empresa no maior empregador dos Estados Unidos. A cada novo recorde atingido, um videoclip mostra multidões de clientes, chusmas de “associados”, novos armazéns devidamente apetrechados com parques de estacionamento. Uma voz repete sem parar – ou um letreiro apregoa três princípios que nada têm a ver uns com os outros, de tal forma, aliás, que chegam a ser uma provocação à inteligência: “Respeito pelo indivíduo, ir
para além das expectativas do cliente, busca da excelência”.

É no “respeito pelo indivíduo” que nós, os “associados”, entramos em cena, porque, por mais vasta que a Wal­‑Mart possa ser e por muito pequenos que nós sejamos como indivíduos, a verdade é que tudo depende de nós. Sam dizia sempre, e vemo-lo repetindo isso no vídeo, que «as melhores ideias vêm dos associados» – a ideia, por exemplo, de um empregado de certa idade (perdão, um “associado”) se encarregar de receber à porta do armazém, pessoalmente, cada um dos clientes. Três vezes durante a sessão de orientação, que começa às 3 da tarde e se prolonga até por volta das 11, repetem-nos que essa ideia nasceu de um simples “associado”. Quem sabe, portanto, se na cabeça de cada um de nós não haverá uma possível revolução no ramo da venda a retalho? Porque as nossas ideias são bem-vindas, e mais do que bem-vindas, não devendo nós pensar que os nossos dirigentes são patrões, mas sim que todos eles são «dirigentes ao nosso serviço» e ao serviço dos clientes. Naturalmente, entre os associados e os dirigentes ao seu serviço nem tudo são rosas em todas as circunstâncias. Um videoclip sobre a “honestidade do associado” mostra um caixa, apanhado em flagrante delito pelas câmaras de vigilância, metendo ao bolso algumas notas roubadas na caixa registadora; em fundo ouve-se um tambor rufando de forma ameaçadora, ao mesmo tempo que o infractor é conduzido de algemas nos punhos e ficamos a saber que foi condenado a quatro anos de cadeia.

O tema das tensões ocultas, ultrapassadas graças à reflexão e a uma atitude positiva, prolonga-se num videoclip de doze minutos, intitulado “Você escolheu um lugar de trabalho formidável”. Nos seus depoimentos, diversos “associados” confirmam que «existe de facto a bem conhecida atmosfera familiar da Wal­‑Mart», levando isso à conclusão de que não precisamos de sindicatos. Outrora, em tempos passados, os sindicatos tinham razão de ser na sociedade americana, mas hoje «já não têm grande coisa a propor aos trabalhadores», motivo pelo qual as pessoas os abandonam «em massa». Senão, vejam: a Wal-Mart está em plena expansão e os sindicatos estão em pleno declínio.

Mas mesmo assim vão-nos avisando que «desde há muitos anos os sindicatos têm a Wal-Mart em mira». E porquê? Para sacarem quotas, evidentemente. Imaginem só a quantidade de coisas que vocês perdem aderindo a um sindicato: antes de mais, as quotizações, que se elevam a 20 dólares por mês, «e às vezes a muito mais»; depois, o «voto na matéria», visto o sindicato impor que são eles a fazer as negociações em vosso nome; por último, uma possível perda dos vossos salários e regalias, porque estes poderão ser «postos em jogo na mesa das negociações». O que devem fazer é perguntar – imagino que alguns dos meus colegas que estão à volta da mesa e ainda não têm vinte anos o irão fazer – por que motivo são autorizados a circular livremente no nosso país demónios dessa laia, da laia dos sindicalistas.
Barbara Ehrenreich
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/usa/usa130.htm

O sofrimento invisível

Entre a realidade e a imagem que dela é produzida vai às vezes uma grande distância. Tendemos a ser selectivos no que olhamos e no que conhecemos: vemos da realidade aquilo que estamos dispostos a ver, aquilo que os media escolhem mostrar, o que as ciências sociais consideram digno de ser nomeado e estudado e aquilo que, a cada momento, a agenda política vai elegendo como merecedor da nossa atenção.

Quanto mais distorcida é a nossa visão do real, quanto mais determinada pelo que nos seria conveniente que fosse ou pela caricatura ora folclórica, ora cínica, ora sensacionalista que certa comunicação social cria das misérias do mundo, mais difícil é termos uma estratégia de transformação que vá ao fundo dessa realidade, que não tenha medo da complexidade da vida, que esteja atenta às novas formas de sofrimento social. Sem as conhecermos e nomearmos, nunca estaremos munidos para as combater.

Acaba de sair em França um livro – La France Invisible, coordenado por Stéphane Béaud, Joseph Confaureux e Jade Liindgaard – que pretende dar visibilidade a situações de exploração, de discriminação e de alienação que se vão disseminando. O propósito da obra é claro: falar do país de que não falarão a maioria dos políticos que se vai candidatar às próximas presidenciais de 2007, trazer à luz do dia o quotidiano dessa imensa maioria que vê a sua vida adiada e desprezada pela fúria e pela destruição neoliberal. A ideia, de resto, não é nova: já no final da década de 90 Pierre Bourdieu editava uma obra que viria a marcar o movimento social: em A Miséria do Mundo, um grupo de investigadores dava voz às vítimas da dissolução da sociedade salarial, da exclusão xenófoba, da destruição do Estado Social, tratando-as não como distantes objectos de estudo mas como sujeitos de indignação.

Do livro agora publicado são muitos os protagonistas: banlieusards (ou os jovens relegados dos subúrbios), deslocalizados (ou as vítimas da globalização capitalista e da sua divisão internacional do trabalho), desmotivados (os que vivem para um trabalho alienante e desmotivador), dissimulados (aqueles que têm de esconder quem são para não sofrerem as pequenas violências quotidianas ou os grandes ódios que gera a discriminação homófoba), presos (vitimas do abuso e da morte social nas cadeias), domesticados (ou mulheres vítimas de uma forçada opção pelo trabalho doméstico que oculta a ausência de empregos), intermitentes (os explorados da flexibilização e da precarização do trabalho e da vida), jovens no trabalho (vistos com desconfiança pelos trabalhadores integrados mais velhos, que frequentemente os tratam como concorrência desleal sem consciência de classe), precários do público (ou o novo perfil, crescentemente dominante, do funcionário público a recibo verde ou contrato precário), pressionados (aqueles a quem os patrões exigem corpo e alma para manterem o “privilégio” de ter um emprego), trabalhadores na sombra (os que lutam pela sobrevivência nas obscuras fileiras da economia subterrânea e paralela), privatizados (ou os órfãos do serviço público e os esquecidos do Estado Social), renovados à força (vítimas de realojamentos forçados que, sob o argumento da recuperação urbana dos centros, enviam os pobres para as periferias, destruindo as suas redes de solidariedade e vizinhança), estagiários (os protagonistas do trabalho gratuito, a escravatura do séc. XXI), sobreendividados (ou as vítimas dos juros e dos apelos ao consumo omnívoro), velhos pobres (pensionistas que engrossam a miséria e a solidão), sem-abrigo (os que nunca se “sentem em casa”), desempregados (soldados cada vez mais numerosos do exército de reserva), entre tantos outros...

É de todas estas vidas, que não têm existência nos discursos sobre a competitividade ou o fetiche da inovação tecnológica, que o livro fala: do lado sofrido da regressão civilizacional que o ultra-liberalismo tem provocado. A lição é válida para Franca como para Portugal, com todas as diferenças: traçando novas relações entre investigação e transformação sociais, a esquerda de hoje tem de estar atenta e conhecer todas as formas de opressão, para pensar como pode o sofrimento tornar-se mobilização e combate. Porque nenhuma política revolucionária o é verdadeiramente se não partir da vida quotidiana. O socialismo é um horizonte, é certo, mas tem de ser também uma política concreta.
José Soeiro
http://www.infoalternativa.org/cultura/livro025.htm

Petição de militares ao Congresso preocupa Pentágono

Mais de 1000 soldados norte-americanos já assinaram uma petição ao Congresso dos EUA apelando ao fim da ocupação do Iraque. O Pentágono sente-se afrontado.

«Como patriota americano orgulhoso de servir a nação em uniforme, insto respeitosamente os meus dirigentes políticos no Congresso a apoiar a pronta retirada de todas as forças norte-americanas e bases militares do Iraque. Permanecer no Iraque não é solução e não vale o preço que se está a pagar. Está na hora de as tropas dos EUA voltarem para casa».

Este o teor da petição lançada a 24 de Outubro por 65 soldados norte-americanos que está a mobilizar os sentimentos de oposição generalizada à ocupação do Iraque.

Se a reacção de soldados no activo e na reserva significa alguma coisa, pode dizer-se que o movimento contra a ocupação do Iraque no seio das forças armadas dos EUA não está sentado à espera que o Congresso ponha fim à guerra. O movimento está em permanente organização e luta.

A petição – lançada pelo grupo Appel for Redress – foi lançada a 24 de Outubro e divulgada pela imprensa capitalista. Em Novembro, segundo os promotores da iniciativa, mais de 1000 soldados no activo e reservistas já a tinham assinado.

Apesar do tom patriótico do documento, as altas patentes do Pentágono – que dependem da obediência cega dos soldados – encaram-no como um desafio à cadeia de comando, tanto mais que entre os subscritores se contam tropas estacionadas nos EUA, Iraque, Kuwait, Bahrain, Alemanha, Itália e Japão.

O Avante! falou com o marine Jonathan Hutto, da base de Norfolk, Va., que é um dos principais promotores do Appel for Redress.

Para Hutto, como afro-americano nascido e criado em Atlanta e formado no caldo de cultura do movimento pelos direitos cívicos, Martin Luther King Jr foi um herói. «Eles começaram a trabalhar no memorial de King a 13 de Novembro, na capital», diz Hutto. «Os memoriais de Washington, Lincoln e Jefferson, são dedicados a presidentes. O de King é dedicado à justiça e à paz. É nesse espírito de King que nós queremos inserir este apelo». O objectivo é apresentar as assinaturas recolhidas ao Congresso, no Dia de Martin Luther King, em meados de Janeiro próximo, refere este marine de 29 anos, licenciado pela Universidade de Howard.

«Fazêmo-lo, não como militares que infringem a lei, mas como defensores do nosso direito de participação em democracia. Afirmamos esse dever e esse direito», sublinha Hutto. E acrescenta: «Aos que dizem que os militares não se podem pronunciar, nós dizemos que só nas ditaduras fascistas as pessoas podem ser impedidas de fazer ouvir a sua voz. Nas forças armadas nós temos também o direito de apelar ao Congresso sem sermos punidos.» Hutto refere-se à directiva 7050.6 do Departamento da Defesa, que garante aos militares no activo, da Guarda Nacional e aos reservistas o direito de enviarem comunicações aos membros do Congresso sobre qualquer assunto, sem estarem sujeitos a represálias.

A derrota de Bush, na opinião de Hutto, «foi o resultado do que as pessoas sentem quanto à ocupação [do Iraque]. As pessoas querem mudanças. Vêem que a guerra está a ser um sorvedouro de dinheiro e de membros das suas comunidades. Muitos dos seus filhos morreram e muitos mais ficaram gravemente estropiados e incapacitados.» Mas não é só isso, acrescenta Hutto, dizendo: «Eu considero-me um defensor dos direitos humanos. Temos de pôr fim à destruição do povo iraquiano. O relatório de Johns Hopkins dá conta de 650.000 mortos iraquianos. Esta desvalorização da vida humana é também perigosa para as tropas norte­‑americanas. Cerca de 61 por cento dos iraquianos apoiam a morte de soldados dos EUA. E isto sucede porque somos uma força de ocupação.»

VETERANOS DE GUERRA TOMAM POSIÇÃO

Garett Reppenhagen, Jeff Englehart e Joe Hatcher, que integraram a Primeira Divisão de Infantaria estacionada na província iraquiana de Diyala, de 2004 a 2005, falaram contra a guerra e a ocupação num comício realizado em Nova Iorque, a 17 de Novembro. Actualmente membros dos Veteranos do Iraque Contra a Guerra, os três veteranos deram conta das dificuldades que enfrentam os dissidentes. «Temos a sensação de ter um poder esmagador sobre as nossas cabeças, que torna difícil assumir abertamente a resistência. Não podemos sequer ir às latrinas sem que o nosso sargento seja informado», disse Reppenhagen.

«Não há “retaguarda” nem linhas laterais», afirmou por seu turno Englehart, que acrescentou: «Nós somos pequenas bases e estamos sob constante vigilância dos comandantes. Sentimos que o nosso papel principal como dissidentes foi transmitir o nosso testemunho ao povo americano. A nossa maior campanha foi a divulgação do cartaz “Bush mente, quem morre?” (Bush lies, who dies?) por toda a base. Quando os afixámos em cada esquina e nas portas das latrinas, os soldados deixaram-nos lá ficar.»

Os veteranos participam agora em desfiles contra a guerra e incentivam o crescente número de pessoas que protestam contra a ocupação do Iraque.
John Catalinotto
http://www.infoalternativa.org/usa/usa131.htm

Corpo estranho

Ontem, ao aprovar em conselho de ministros um "novo" estatuto à revelia de todas as organizações sindicais e da esmagadora maioria dos professores portugueses, que pressentem as gravosas consequências na profissão e na qualidade da educação, o ministério da Educação e o governo escreveram uma página negra.
Sobre uma apreciação em pormenor remeto para posições da plataforma sindical.
Para uma apreciação pessoal sobre o que todo este processo me provoca, quase visceralmente, eu direi:
-com governos destes, com maioria absoluta, que se dão luxo de rasgar promessas e enveredar por políticas que nunca anunciaram, cuidado, povo português!
-de governos destes, que se dizem de esquerda e praticam políticas cuja matriz está nos manuais da direita e que são elogiados pelos mais "desinteressados" representantes desta, livrai-nos, povo português!
-de governos destes, cujo líder, na campanha eleitoral e em debates televisivos demonstrava uma arrogância e uma falta de sentido de diálogo democrático e que depois neste pleno consulado mostra toda a sua prepotência, enganos são imperdoáveis, povo português!
-de governos destes, cuja "coragem" cai em cima de todos os que trabalham e sobretudo em cima de quem tinha alguns direitos conquistados, praticando um nivelamento por baixo que é exemplo para os de baixo mas neles procura apoios baseados em sentimentos mesquinhos, poupai-nos, povo português!
-de governos destes que se baseiam na mais reles demagogia, na manipulação e no insulto sobre classes profissionais que não se conformam com o conteúdo e a forma das suas "reformas", livrai-nos, povo português!
-de governos destes, que fecham escolas, maternidades, urgências, etc, que fazem pagar mais impostos a quem já paga bastante e não lhes pode fugir e que mantém livres deles aqueles que já deles fogem, poupai-nos, povo português!
-mas de governos de direita que defendem com mais coerência a prática destes governos ditos de "esquerda", livrai-nos também, povo português!
Eu não me sinto enganado por este governo. Ele nunca me enganou. Penso que enganou imensos professores que lhe passaram um cheque em branco.
Por muitas razões não é fácil a luta contra este ministério e este governo. Os seus aliados têm peso, tem poder.
Sei que há muitos professores que estão a pensar simplesmente neste momento (alguns sempre fizeram só isso) adaptar-se a este estatuto, da forma menos lesiva para si próprios. É "humano" dirão. Eu direi antes: é compreensível. O que é Humano e fez esta nossa espécie verdadeiramente conseguir vingar no mundo foi a sua capacidade de o transformar e de cooperar com os seus semelhantes para tentar tornar a vida melhor.
Amanhã e depois de amanhã é dia de continuar a lutar para que alguns senhores não consigam transformar as pessoas em "coisas" insultáveis, desvalorizadas e desvalorizáveis, ignoradas e ignoráveis, exploráveis, descartáveis.
É próprio dos professores ensinar e transmitir os valores humanos. E que tal se, como professores tentássemos ensinar a estes senhores valores como "Verdade", "Jogo Limpo", "Honrar compromissos", "Democracia". Estou convencido que com eles não teríamos a mínima chance de sucesso na aprendizagem. Mas se, como professor acredito que só quando os meus alunos aprendem é que eu realizo o meu ensino, aqui bastaria que se torne bem claro a todos quem é que não quer aprender. É que estes senhores que nos governam, a única coisa que podem aprender de nós é a dignidade de não sermos como eles.
Por favor colegas professores,
com memória, com paciência, com persistência, com criatividade e com união: como um corpo biológico, façamos tudo por rejeitar este "corpo estranho".
http://edutica.blogspot.com/

Os que estão de luto por Gemayel sabem que no Líbano nada é o que parece

Na casa de velório, um velha casa libanesa de pedra, não expuseram o corpo de Pierre Gemayel. Tinham selado a tampa – tão terrivelmente desfigurado estava o seu rosto pelas balas que o tinham matado – como se os pesadelos do Líbano pudessem assim ser mantidos na escuridão da tumba.

Mas os maronitas e os gregos ortodoxos, os drusos e – sim – os muçulmanos que vieram prestar as suas condolências à esposa de Gemayel, Patricia, e ao seu pai desfeito, Amin, choravam copiosamente ao lado do féretro coberto pela bandeira. Entendiam os horrores que poderiam suceder nos dias vindouros e a sua dignidade era uma negativa a aceitar essa possibilidade.

Em Beirute, tinha estado a observar os detectives libaneses – eles que nunca resolveram um só dos muitos assassinatos políticos do Líbano – fotografando os buracos de bala no automóvel Kia azul claro que Gemayel tinha estado a conduzir, 13 impactos através da janela do condutor, seis dos quais tinham traspassado a porta do acompanhante após atravessar a cabeça do ministro da Indústria libanês e a do seu guarda­‑costas. Mas na cidade natal da família, Bikfaya, a montanha fria com abetos, rosas fora de estação e novas bandeiras falangistas de cedros triangulares, a turba vestida de luto falava de castigo legal em lugar de vingança para os assassinos de Gemayel.

Era um momento alentador. Quem – na época da guerra civil que nos assombra novamente – teria imaginado o dia em que os drusos pudessem entrar neste lugar sacrossanto em segurança e em amizade para expressar a sua dor pela morte de um homem cujo tio Bashir era o mais feroz e brutal inimigo dos drusos?

O melhor amigo de Bashir, Massoud Ashkar, um oficial da milícia naqueles dias escuros e terríveis, falou emocionadamente da necessidade de justiça e de unidade libanesa. «Sabemos que os sírios mataram gente durante a guerra», disse­‑me. «Estamos à espera de saber quem matou o xeque Pierre. Esta gente queria recomeçar uma guerra civil. Devemos saber quem é esta gente».

Ah, mas há danação em tais esperanças. Com a tristeza daqueles que ainda esperam a recuperação quando tal possibilidade foi excluída, alguns dos cristãos locais reuniram­‑se no subúrbio Jdeideh de Beirute, onde os três assassinos dispararam contra o seu parlamentar na terça-feira à tarde. O seu automóvel, com o número de registo 201881, com a capota retorcida para cima no sítio onde tinha sido abalroada às 3:35 da tarde pelo Honda CRV dos homens armados, a parte traseira ainda incrustada na camioneta de uma empresa de materiais impermeáveis contra a qual embateu quando Gemayel morreu ao volante, foi fotografado centenas de vezes pelos polícias. Foram observados silenciosamente pelos homens e mulheres que, menos de 24 horas antes, não tinham ouvido as pistolas com silenciadores que o mataram, e que pensaram a princípio que o ministro tinha sido vítima de um acidente rodoviário. Ninguém daria o seu nome, é claro. Não se faz isso no Líbano hoje.

«Estava a dormir quando ouvi sons muito ténues, como disparos mas não suficientemente audíveis», contou­­‑me um homem de cabelo branco na varanda da velha casa de família onde tinha nascido. «Depois ouvi um embate e vários verdadeiros disparos. Levantei-me, vesti a minha roupa mas não vi nenhum homem armado. Um vizinho foi lá, voltou e contou­‑me que era o xeque Pierre, e depois vi­­­­‑o a ser carregado do seu carro coberto de sangue e colocado na traseira de uma carrinha».

Apenas umas horas antes, Pierre Gemayel tinha estado em Bikfaya, a só 200 metros de onde o seu corpo jazia ontem, honrando a ominosa estátua do seu avô – também Pierre – que tinha fundado o partido Falangista que o seu neto representava no Parlamento.

Ninguém mencionou, evidentemente, que esse mesmo velho avô Gemayel, um humilde treinador de futebol, tinha criado os falangistas como uma organização paramilitar após ser inspirado – assim ele próprio me contou antes de morrer em 1984 – pela sua visita às Olimpíadas nazis de 1936, na Alemanha de Hitler. Como habitualmente, sses detalhes incómodos tinham sido apagados há muito tempo da narrativa da história libanesa – e dos nossos relatos jornalísticos sobre a morte do neto esta semana.

Pierre Gemayel Jnr, no entanto, tinha sido um deputado sério como a testemunha da sua morte tornou claro. «Vê aquela casa acolá com os toldos?», perguntou-me. “Bom, uma senhora idosa tinha morrido lá e o xeque Pierre vinha aqui expressar as suas condolências à família». A casa da mulher falecida estava a apenas 30 metros de onde o carro de Gemayel tinha estacionado. Deve ter abrandado para virar na estrada lateral. Todos aqui sabiam que ele vinha à casa na terça-feira de manhã, assim o disseram os vizinhos, o que significava – embora eles não dissessem isso, é claro – que tinha sido traído. Os assassinos estavam à espera que o bom deputado prestasse as suas condolências, sabendo que própria família do homem estaria a receber condolências um dia mais tarde. Nem sequer usaram máscaras na cara e dispararam friamente a um comerciante que os viu.

Os libaneses têm respondido à indignação internacional sobre o assassinato de Gemayel com uma dose menor de retórica do que o presidente George Bush, cuja a promessa de «apoiar o governo de Siniora e a sua democracia» foi saudada com o escárnio que mereceu. Este, no final de contas, era o mesmo George Bush que observou em silêncio este Verão enquanto os israelitas agrediram o governo democrático de Siniora e bombardearam o Líbano durante 34 dias, matando mais de mil dos seus civis. E os libaneses sabiam o que fazer da observação de Tony Blair – ele que também atrasou um cessar­‑fogo que teria aqui salvado inúmeras vidas – quando disse que «precisamos de fazer tudo o que pudermos para proteger a democracia no Líbano». Foi um miliciano cristão há muito retirado, um rival do clã Gemayel, que o expressou sucintamente. «Eles não se importam minimamente connosco», disse.

Esse pequeno pormenor da narrativa – e quem a escreve – permaneceu problemático ontem, quando as potências ocidentais apontaram os seus dedos à Síria. Sim, todos os cinco destacados homens libaneses assassinados nos últimos 20 meses eram anti-sírios. É um pouco como dizer “foi o mordomo”. Uma Síria vingativa não atacaria a independência do Líbano assassinando um ministro? Sim. Mas então, qual seria a melhor maneira de minar o novo poder ascendente do pró­‑sírio Hezbolá, o exército guerrilheiro xiita que pediu a demissão do governo de Siniora? Matando um ministro do governo, sabendo que muitos libaneses culpariam os aliados da Síria do Hezbolá?

Vivendo no Líbano, aprende­‑se estes truques semânticos através de uma espécie de luneta. Nada aqui sucede por acaso. Mas aconteça o que acontecer, nunca é o que num primeiro momento se pensou ser. Assim o entenderam ontem os libaneses em Bikfaya quando se reuniram e falaram de unidade. Pois se tão somente os libaneses deixassem de pôr a sua fé nos estrangeiros – os estadunidenses, os israelenses, os britânicos, os iranianos, os franceses, as Nações Unidas – e em vez disso confiassem uns nos outros, fariam desaparecer os pesadelos da guerra civil selada dentro do caixão de Pierre Gemayel.
Robert Fisk
The Independent
http://www.infoalternativa.org/autores/fisk/fisk098.htm

O mundo maravilhoso da cura pela fé

Uma das actividades mais lucrativas que o homem já inventou é a religião.
De facto, haverá sempre pessoas capazes de darem o que têm (e até o que não têm), para comprar um lugar no Paraíso, para assegurarem a concessão de um favor divino ou até a cura de uma doença.
Claro está que os profissionais da exploração da fé - qualquer que seja a sua religião - não hesitam em aproveitar-se da frequente fragilidade emocional das pessoas para lhes extorquirem dinheiro.
Quantas pessoas em desespero tentam tudo e mais alguma coisa, e se arruinam autenticamente na esperança de conseguirem que alguém interceda junto de uma divindade qualquer, e lhes consiga a cura para a doença terminal de um filho.
A profissão da exploração da fé das pessoas é de tal forma lucrativa, que não faltam habilidosos que criam as suas próprias religiões.
Há lugar para todos, e todos se passeiam nos seus jactos particulares exibindo fortunas colossais armazenadas em contas bancárias off-shore à custa de incautos «fiéis», que lá vão acreditando que os seus gurus são capazes de milagrosas curas pela fé.
Claro que só «os outros» é que aparecem curados. Porque se alguma doença não se cura, a culpa não é do santo milagreiro, mas unicamente de quem não tem uma fé «suficientemente forte».
Pois bem:
Um dos mais famosos desses free-lancers da religião pululou nos Estados Unidos nos anos 80 do século passado, e dava pelo nome de Peter Popoff.
Durante anos ficaram célebres as suas curas pela fé e as suas extraordinárias exibições em recintos desportivos adaptados para o efeito.
Até que um belo dia... apareceu James Randi, que resolveu desmascarar a habilidosa marosca.
Chegando a facturar, naquela altura, mais de 4 milhões de dólares anuais com as suas curas milagrosas, Peter Popoff parecia sem qualquer dúvida dotado de extraordinários poderes divinos.
E as pessoas não cessavam de se maravilhar: não só curava cancros com as mãos como ainda adivinhava de longe os nomes das pessoas que o procuravam e quais as doenças que as afligiam.
Por vezes adivinhava até as suas moradas!
«Desconfiado» de que as divinas iluminações de Popoff teriam uma explicação mais terrena, James Randi decidiu levar para uma das suas exibições um «scanner» de frequências de emissões de rádio.
Como é óbvio, não tardou a descobrir que as milagrosas inspirações de Peter Popoff se deviam a um auricular sem fios e a preciosas dicas que de longe lhe eram ditadas pela sua mulher, que lia as «fichas de oração» que os fiéis preenchiam antes das sessões.
O esquema foi desmascarado por James Randi no «Tonight Show», e em 1987 Peter Popoff declarou falência.
Mas se desta vez o mundo se livrou de um aldrabão que impiedosamente se aproveitava das fragilidades das pessoas para lhes extorquir dinheiro, muitos outros aldrabões continuam a pulular impunemente por todo o lado.
Uns exercem a sua profissão de forma mais rudimentar, em templos insufláveis, outros em velhos cinemas adaptados, outros ainda em gigantescas basílicas.
Mas, ao fim e ao cabo, e tirando isso, nada mais os distingue... Luis Grave Rodrigues
http://www.ateismo.net/diario/

segunda-feira, novembro 27, 2006

Saddam pede para ser julgado em Portugal

Saddam Hussein, ex-ditador do Iraque, foi condenado à morte por enforcamento por crimes contra a humanidade. Saddam, ao ouvir a sentença terá gritado “quero ser julgado em Portugal”, frase que foi confundida por muitos jornalistas que terão percebido qualquer coisa como “Ala é grande”.Soubemos, aqui e ali, que Saddam tem vindo a apresentar vários recursos para que o seu julgamento seja transferido para uma qualquer comarca dos tribunais portugueses. “ Em Portugal há justiça! Os nomes contam! Existe respeito pelos famosos. Quando é que algum dirigente politico foi preso efectivamente em Portugal? Nunca! Nem os dirigentes desportivos o são, quanto mais um ex-ditador!” terá afirmado Saddam.Falámos ainda com os advogados de Saddam. “É uma vergonha. Saddam já foi muito rico e conhecido. Isso, em alguns países é o quanto basta para não ser preso. Países que respeitam a democracia e as suas entidades. Portugal é bom exemplo disso. Procurem por Felgueiras-Gate ou por Isaltino-Gate. São nomes da vida politica portuguesa. Pessoas sérias provavelmente incriminadas pelo grande infiel Bush.”Sobre a proposta de um novo julgamento em Portugal, Luis Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, afirmou categoricamente “por mim tudo bem”.

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Federação Mundial de Ciclismo muda as regras

A Federação Mundial de Ciclismo (FMC) prepara-se para mudar as regras das competições mundiais de ciclismo. A alteração mais sonante é sobre os níveis de substâncias dopantes nos atletas.
O alto responsável pela FMC afirmou em conferência de imprensa: “ Temos de dar oportunidade aos atletas de conseguirem fazer boas provas. Se não alterarmos estas regras, qualquer dia não há ciclistas em provas mundiais. Na minha opinião prefiro muitos ciclistas, embora que ligeiramente drogados, do que poucos ciclistas e a arrastarem-se para completar as provas.”
As novas leis vão permitir que os ciclistas se dopem ligeiramente, nunca caindo em exageros.
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Uma balança em cada casa

É o lema da mais nova politica espanhola. Depois da proibição de modelos magros em eventos de moda, e da proibição ao Burguer King de fazer publicidade aos seus hambúrgueres XXL, o governo espanhol decidiu lançar a campanha “uma balança em cada casa”.Esta campanha visa todos os espanhóis e o objectivo é ter o país com os corpos mais perfeitos do mundo. “De futuro queremos só pessoas perfeitas. O Estado tem um papel essencial neste tema. Não queremos ser gordos como os americanos, mas não queremos cá magricelas. Queremos corpos perfeitos.” Disse o responsável pela campanha.Zapatero, Primeiro-ministro espanhol, ao ser questionado sobre qual o peso ideal, foi peremptório: “O meu peso servirá de referência”.A nova lei prevê que o peso passe a constar nos cartões de identificação. Prevê ainda multas pesadas, quer para gordos, quer para magros, sendo que, em casos extremos, pode mesmo existir pena de prisão.
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Mudança decorativa

A administração Bush reagiu prontamente à derrota eleitoral anunciando a substituição do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. A sua demissão estava iminente. Uma longa lista de militares na reserva havia atacado directamente Rumsfeld e pedido a sua demissão, que foi igualmente levantada por diversas vezes no Congresso. Dias antes das eleições, também os editores dos quatro principais jornais militares apelaram ao seu afastamento, afirmando que «uma coisa é que a maioria dos americanos pense que Rumsfeld falhou; mas quando os líderes militares divergem publicamente do secretário da Defesa, é claro que ele está a perder o controlo da instituição que lidera.»

Tendo saído do seu cargo institucional, o Centro pelos Direitos constitucionais [1], um grupo sediado em Nova Iorque que tem defendido os direitos constitucionais dos detidos em Guantanamo, iniciou um processo criminal contra Rumsfeld e outros oficiais dos EUA, incluindo o ex-director da CIA George Tenet, pedindo ao Procurador Federal Alemão que abrisse uma investigação sobre os crimes de guerra realizados em nome da “Guerra ao Terrorismo”, em particular actos de tortura cometidos na prisão de Guantanamo.

A nomeação de Robert Gates para substituir Rumsfeld revela que a mudança é apenas decorativa e que a administração pretende a continuidade na sua política no Médio Oriente, agora com uma figura menos escaldada publicamente. Contudo, a prestação de Gates enquanto número dois e mais tarde director da CIA revela um historial de envolvimento em escândalos e crimes, e uma larga experiência na politização da inteligência – precisamente umas das críticas frequentemente dirigidas a Rumsfeld.

Tal historial poderia começar com a corrida presidencial de 1980 que opôs o presidente Carter a Ronald Reagan e George H. W. Bush. Carter enfrentava uma crise de popularidade, em parte afectada pela prolongada crise causada pelas dezenas de reféns estadunidenses detidos na embaixada dos EUA em Teerão. Os republicanos temiam que a resolução da crise em vésperas das eleições viesse a favorecer Carter e reuniram directamente com oficiais iranianos no sentido de adiar a libertação dos reféns até após as eleições. Em troca, os republicanos comprometiam-se a vender armas ao Irão assim que chegassem à Casa Branca. Em 1993, um relatório elaborado pela inteligência russa confirmou que Bob Gates, em 1980 membro do Conselho de Segurança Nacional [2] sob Carter, participou directamente nestes contactos. Após a vitória de Reagan-Bush, os EUA permitiram a venda de armas ao Irão, primeiro indirectamente através de Israel, e depois directamente.

O HOMEM NA SOMBRA

Durante a presidência de Reagan, Gates foi promovido a vice-director da CIA, tendo então servido sob o director William Casey. Durante este período, verbas provenientes desta venda de armas foram usadas para financiar os Contra na Nicarágua, então liderada por Daniel Ortega e a Frente Sandinista de Libertação Nacional. Gates sempre negou ter tido conhecimento dessa operação, mas Lawrence Walsh, que liderou as investigações sobre o Irão-Contra, concluiu que as «evidências provam» que Gates teve conhecimento do desvio inconstitucional de verbas, e que portanto Gates cometeu perjúrio e mentiu ao Congresso.

Na Primavera de 1982, quando o Irão parecia ganhar ascendente na guerra, o presidente Reagan permitiu a venda de armas também ao Iraque e Gates foi assim responsável pelo abastecimento militar das duas nações beligerantes, cuja guerra de oito anos causou mais de um milhão de mortos. Entre as armas vendidas ao Iraque estariam cluster bombs e químicos usados para produzir armas químicas, que causaram mais de cem mil vítimas iranianas, tornando o Irão num dos países mais afectados por este tipo de arma de destruição massiva. Data desta fase a agora famosa fotografia de Donald Rumsfeld rindo e apertando a mão de Saddam Hussein. Mas na sombra, e com maior responsabilidade pela relação amigável, encontrava-se Robert Gates.

Internamente, Casey e Gates transformaram profundamente o modo de funcionamento das agências de inteligência, colocando-as ao serviço do poder político e afastando oficiais que persistiam em produzir relatórios baseados nos factos mas menos convenientes para os objectivos da Casa Branca. Gates, nas suas próprias palavras, viu Casey «apresentar inteligência em termos moldados pela estratégia política». Nos últimos anos da guerra fria era prática corrente na CIA exagerar a ameaça soviética para justificar um crescente orçamento militar, ao ponto do então secretário de Estado George Shultz exprimir ao Congresso ter grandes dúvidas sobre a objectividade e fidedignidade da inteligência que recebia. A “grande experiência” de Gates faz temer novas manobras de manipulação de informação para cobrir os interesses do imperialismo.
[1] Center for Constitutional Rights
[2] National Security Council
André Levy
http://www.infoalternativa.org/usa/usa132.htm

A queda das três torres do World Trade Center

Dois acontecimentos ocorridos no dia 11 de Setembro de 2001 foram apagados da memória colectiva: o incêndio do anexo da Casa Branca e o desmoronamento do edifício nº 7 do World Trade Center que não tinha sido atingido por nenhum avião. O que era de esperar, pois estes factos não são integráveis na versão governamental dos atentados e, pela sua própria existência, contradizem-na parcialmente. Eles não são sequer mencionados no relatório da Comissão de inquérito presidencial. No seu livro Le Procès du 11 septembre [O Processo do 11 de Setembro], Victor Thorn comenta detalhadamente o desmoronamento "mimético" do edifício 7 que abrigava uma base da CIA. O seu editor francês, Arno Mansouri, resume aqui os seus argumentos. No seu livro O Processo do 11 de Setembro , o jornalista e editor estadunidense Victor Thorn analisa em pormenor o desmoronamento das três torres do World Trade Center. Com efeito, mesmo sendo este aspecto pouco abordado pelos meios de comunicação dominantes, são numerosas as pessoas que, de cada lado do Atlântico, consideram o desmoronamento total, vertical (i. e., seguindo o caminho de resistência máxima) e rápido (à velocidade da queda livre tal como foi apresentada pelo relatório da Comissão de inquérito sobre o 11 de Setembro) como um dos maiores enigmas científicos do nosso tempo. Em dois vídeos recentes de curta duração, o National Institute of Standards and Technology (NIST), através do canal PBS, tenta responder às "teorias da conspiração". Se à primeira vista essas explicações podem parecer convincentes, para quem decifra ou conhece os factos elas mais não fazem do que iludir os problemas e as questões verdadeiras, continuando a propagar um mito que está, ele também, em vias de desmoronamento total e rápido! [1] Esses dois vídeos são refutados pelo artigo "9/11, NIST, and 'Bush Science": A New Standard for Absurdity" [2] que contem pistas e documentos que contradizem e invalidam totalmente as explicações inverosímeis dadas pelo NIST [3] (que se assume sempre como a versão governamental). Convenhamos que as razões avançadas para explicar o desmoronamento à velocidade de queda livre – em 9 e 10 segundos respectivamente – das torres, a saber:
que elas eram principalmente "compostas de ar" (sic!);
que as colunas centrais eram demasiado finas (sic!);
que a eventualidade de um choque com um avião comercial não fora prevista (sic);
que os fogos eram extraordinariamente intensos (sic!), etc. são mentiras absurdas e descaradas!
A televisão holandesa interrogou, no entanto, muito recentemente, o especialista holandês em demolição controlada, Danny Jowenko, que afirma que não existe qualquer dúvida sobre o facto de a terceira torre (WTC7) ter ruído por acção de demolição controlada:
Vídeo: testemunho do especialista holandês em demolição controlada, Danny Jowenko. (versão integral em 911blogger.com ).
A ironia da situação é que este perito, profissional em demolição controlada, no momento da entrevista não estava ao corrente da existência, logo da queda "misteriosa" desse terceiro edifício, em particular; dei-me conta de que se passava o mesmo com os jornalistas franceses. No entanto, esse edifício não tinha nada de minúsculo, além disso era recente: terminado em 1987, era constituído por 47 andares e media 173 metros de altura (não muito mais pequeno que o edifício mais alto de França, a torre Montparnasse, com os seus 56 andares e uma altura de 210 metros). Sabiam que a torre três se desmoronou sobre si mesma, nesse dia, sem razão aparente? Ainda mais recentemente, um perito suíço chega às mesmas conclusões [4] . Também os Scholars for 9/11 Truth [5] , ou os cientistas de Physics911.net [6] , em particular o professor Steven Jones [7] , todos chegam às mesmas extraordinárias conclusões, a saber: apenas uma demolição controlada poderá ter causado o desmoronamento das torres. O organismo estadunidense encarregado do inquérito inicial (a FEMA) não conseguiu chegar a nenhuma conclusão para explicar a queda dessa terceira torre: "as especificidades dos incêndios no edifício nº 7 e as causas do seu desmoronamento permanecem desconhecidas até ao momento". [8] Muitos filmes sobre o assunto tem sido realizados… mas o melhor até ao momento é, sem dúvida, a primeira parte de um documentário em três partes intitulado 911 Mysteries:
Vídeo: 911 Mysteries (em inglês)
É normal que um número cada vez maior de pessoas se interrogue não só sobre a versão oficial dos desmoronamentos sem precedentes na história dos fogos catastróficos em estruturas semelhantes, mas também sobre o facto, particularmente perturbador, dos jornalistas não demonstrarem a mínima curiosidade relativamente a esta polémica. Todavia, ocorreram casos semelhantes em Taiwan (Fevereiro de 2005) [9] , Madrid (Fevereiro de 2005) [10] , Caracas (Outubro de 2004) [11] , Filadélfia (Fevereiro de 1991) [12] , Los Angeles, na First Interstate Bank Building (Maio de 1988) [13] e no próprio WTC, em Fevereiro de 1975. Será que ainda não há matéria suficiente para inquéritos e reportagens científicas? Este assunto interessa cada vez mais a mais pessoas e as sondagens indicam um número crescente de "cépticos". Este facto deveria incitar à acção, nomeadamente à realização de um inquérito sério, documentado e imparcial sobre esse acontecimento sem precedentes, que é o desmoronamento total, vertical e vertiginosamente rápido das três torres do WTC no dia 11 de Setembro. Os principais elementos do dossier, aqueles de que dispomos actualmente, são agora vossos conhecidos. Longe de mim, a ideia de me fazer passar por moralista, no entanto, não posso deixar de lembrar a frase tão pertinente de Edmund Burke: "Basta que os homens de bem nada façam para que o mal triunfe" (retirada da página 153 do Procès du 11 septembre, de Victor Thorn). Talvez a vossa primeira tentação, depois de terem lido este texto, seja a de rejeitar tudo e pensar: "não tenho tempo para pensar nestas elucubrações" … Mas será que não valerá mesmo a pena considerar os argumentos e os factos com espírito crítico? Será que as mentiras e as manipulações sistemáticas da administração Bush, passados cinco anos, não vos incitam a imaginar a parte imersa do iceberg?
Notas [1] A apresentação do PBS: http://www.pbs.org/wgbh/nova/wtc/su e http://www.pbs.org/wgbh/nova/wtc/co e mhttp://www.pbs.org/wgbh/nova/wtc/ [2] « 9/11, NIST, and "Bush Science" : A New Standard For Absurdity », 6 de Novembro de 2006. [3] O relatório da NIST sobre o desmoronamento do World Trade Center está disponível em 911investigations.net. [4] Fonte (em alemão) em tagesanzeiger.ch. A parte do artigo começa em « Debatte in der Schweiz » e « Misstrauen wegen WTC 7 » depois, em « Feuer oder Sprengung ? ». Em inglês, ver 911blogger.com. [5] Artigo original em inglês (documento PDF) disponível em : scholarsfor911truth.org ou em francês, disponível em mondialisation.ca ou reopen911.online.fr. [6] http://www.physics911.net/spine.htm [7] http://www.physics.byu.edu/director [8] Ver o relatório integral em 911investigations.net ou apenas a parte relativa ao WTC7. [9] « Air rescue from Taiwan tower fire », BBC, 26 de Fevereiro de 2005. [10] « Madrid : le gratte-ciel incendié menace de s'effondrer », Le Devoir, 14 de Fevereiro de 2005. [11] «Towering Inferno In Caracas», CBS News, 18 de Outubro de 2004. [12] « One Meridian Plaza », Fire-One [13] « First Interstate Bank Fire », LA Fire. Arno Mansouri
http://resistir.info/

O sobrenatural

O sobrenatural é mesmo uma treta. Não é novidade que há muita treta nesta vasta categoria. Muitos que acreditam em deuses não acreditam em fadas, os que acreditam em fadas e unicórnios já não acreditam no Pai Natal, e os que aínda acreditam são novos demais para ler blogs.Mas o que quero aqui apontar como treta é o próprio conceito de sobrenatural, esta ideia de haver na natureza coisas que estão para além da natureza. O que quererá isso dizer?Suponhamos que os espíritos dos meus bisavós aínda persistem, e vagueiam por aí a coscuvilhar a vida dos seus descendentes. Se for mesmo assim que as coisas funcionam neste universo, então esses espíritos são tão naturais como os seus antigos corpos. A ciência moderna até nos diz coisas bem mais estranhas. A gravidade é uma distorção do espaço-tempo. Um electrão nunca tem a posição e a velocidade perfeitamente determinadas. Todos os seres vivos neste planeta são parentes, descendendo de antepassados longínquos pela acumulação de pequenas diferenças ao longo de inúmeras gerações.A imagem da natureza dada pela ciência moderna viola quase tudo o que há poucos séculos se pensava ser as leis da natureza. Será que toda a ciência hoje em dia é sobrenatural? Não. Uma excepção a uma regra que pensávamos ser uma lei natural não é indicativo de influência sobrenatural, mas apenas sinal que estávamos enganados. Se o diccionário diz que os corvos são todos pretos e encontramos um corvo branco, o erro é de quem fez o diccionário. O corvo não tem culpa.É essa a grande treta desta ideia do sobrenatural, de algo que está para além da natureza, de algo que viola as leis naturais. O máximo que pode acontecer é algo violar o que nós pensamos ser as leis naturais, mas chamar a isso sobrenatural é apenas tentar disfarçar a nossa ignorância. Não sabemos porque há raios e trovões? São os deuses. Algo que prevíamos ser duma forma afinal é de outra? Foi a bruxa, o mau olhado, ou os maus pensamentos. Alguém anda a ver fantasmas? É o inexplicável, o insólito...
Sobrenatural?
Treta.
Se a natureza se porta duma forma que não esperávamos, são as nossas expectativas que estão erradas. Por ignorância, assumimos algo que não devíamos ter assumido. Infelizmente, isso é perfeitamente natural.
João Vasco
http://www.ateismo.net/diario/

“Latinos” nos Estados Unidos

O homem do “choque das civilizações”, Samuel Huntington, está preocupado com a crescente presença de latino­‑americanos nos Estados Unidos. No entanto, o país com que sonha não está ameaçado, pois a prazo irão actuar três factores decisivos: a enorme capacidade de assimilação do mercado, que constitui o núcleo central da ideologia americana, a evolução conservadora dos sectores latinos que acedem ao estatuto de classe média e o atraso acumulado pela comunidade latina ao nível da conquista do poder político.

Aqui, entre as montanhas ocre que cercam o verde vale, tudo cresce: frutos e legumes, muitos antes do tempo, vinhas. O Salinas Valley é uma das regiões que faz da Califórnia uma das principais produtoras agrícolas do mundo. As tubagens do ultra­‑sofisticado sistema de irrigação estão alinhadas ao longo de vários quilómetros. Ajoelhados nos campos, os trabalhadores terminam a colheita. Os contramestres que os vigiam, sessenta horas por semana, são como eles mexicanos, mas têm dificuldades em fazer-se compreender. A maioria dos empregados não fala espanhol, pois são índios triquis e mixtecas, originários do estado de Oaxaca, os mais pobres camponeses do México. Ganham aqui cerca de 7 dólares por hora, dez vezes mais do que no seu país. «Para nós, indígenas, não há maneira de vivermos lá», lamenta Ramiro, de vinte anos, enfiado num enorme fato de treino estampado com o logótipo dos Forty Niners, a equipa de futebol americano de São Francisco. «Tem que se escolher: ou ficar no pueblo, com a família, e vê-la morrer de fome, ou abandoná-la, vir para aqui, ganhar dinheiro e enviar-lhe o suficiente para que possa sobreviver». Os símbolos da sua nova vida estão dispostos ao longo do terreno: automóveis em segunda mão, em bom estado, comprados por menos de 1000 dólares. À hora da pausa – meia hora, não mais – tiram o telemóvel dos bolsos para tagarelar com os amigos.

Num espanhol pouco correcto, ou por intermédio de um tradutor, queixam-se dos contratistas. Estes intermediários latinos [1], encarregados de recrutar mão-de-obra para as quintas americanas, arrecadam 15 a 20 por cento do fruto do seu trabalho. É esse o motivo pelo qual os triquis e mixtecas não se juntam ao sindicato que negoceia com as companhias agrícolas e lhes garantiria melhores condições de trabalho, um salário mais elevado e até uma seguro de saúde. A situação é lamentada por José Manuel Morán, membro da Union of Farm Workers, o sindicato agrícola fundado na década de 1960 pelo mítico americano-mexicano César Chávez [2]: «Eles só querem trabalho, poder comprar um automóvel, comer bem e enviar algum dinheiro para casa. Vivem oito ou dez numa casa de três assoalhadas. Por vezes pagam metade do salário para viverem como casal numa única assoalhada...»

Entre os trabalhadores agrícolas da Califórnia, 90 por cento são imigrantes mexicanos ou centro­‑americanos clandestinos e sem papéis. A agricultura local, em plena expansão, não pode prescindir destes trabalhadores, pois aqui ninguém aceita trabalhar a terra nestas condições. Só os que tiverem um parente munido de um documento legal ou os que se casarem com um cidadão americano poderão obter, na sequência de prolongadas diligências burocráticas, uma licença de trabalho e um cartão de residência – o famoso green card.

Contudo, há já vários anos que os serviços de imigração deixaram de aparecer nos campos. Desde o fim da década de 1990, estabeleceram-se no povoado próximo de Greenfields milhares de mexicanos, entre os quais 4000 índios. Com excepção de alguns pequenos delinquentes, nenhum foi deportado. «Business is business... Este sistema é hipócrita», conclui José Manuel Morán.

Don Andrés Cruz é o líder desta pequena comunidade indígena. Samuel Huntington? Não o conhece, naturalmente. Também não sabe que o autor de O Choque das Civilizações [3] desempenha um papel decisivo no actual debate sobre o tema da imigração latina nos Estados Unidos [4]. Não afirmou o célebre universitário no seu último livro Who Are We? [5], e em vários artigos, que os latino-americanos são inassimiláveis na América que conhece e ama? A seu ver, «os fundamentos da cultura anglo-protestante fundadora são a língua inglesa, a cristandade (...), uma concepção inglesa da preeminência da lei, a responsabilidade dos dirigentes, o direito dos indivíduos (...), os valores protestantes do individualismo, a ética do trabalho e a crença de que os seres humanos têm a capacidade e o dever de criar um paraíso na Terra...»

Querendo saber se poderia cair nas graças de Huntington, don Andrés responde categoricamente: «Sim, se nos derem uma oportunidade, podemos tornar-nos bons americanos!» José Manuel Morán diz ainda mais, pois pensa que desde há muito tempo que Greenfields provou que os mexicanos são assimiláveis. Nesta cidade que possui quatro vezes mais habitantes do que há trinta anos, 95 por cento da população é formada por mexicanos, entre os quais o presidente da câmara, os conselheiros municipais e os responsáveis escolares. Metade destes habitantes é composta por cidadãos americanos ou detentores de um green card que respeitam escrupulosamente as leis, pagam os seus impostos e saldam religiosamente pesadas dívidas contraídas para a aquisição dos símbolos materiais do sonho americano.

É verdade que, em casa, continuam a falar espanhol, mas todos se desembaraçam em inglês. Em particular as crianças nascidas aqui. Contrariamente ao que acontece noutros estados, como por exemplo o Texas, na Califórnia já não existem escolas bilingues. O ensino é ministrado unicamente em inglês. Quanto à capacidade de trabalho destas pessoas vindas do Sul, basta perguntar aos patrões o que pensam sobre isso!

«A maioria dos recém-chegados criará raízes aqui», prevê Morán. «Ao chegar todos dissemos a mesma coisa: trabalho três ou quatro anos, poupo algum dinheiro e regresso ao meu país para montar um pequeno negócio». Depois o tempo passa, o pé-de-meia cresce lentamente. Nos Estados Unidos ganha-se bem, mas também se gasta muito – sobretudo se se compra uma casa. Mesmo sendo ilegais, os trabalhadores que façam prova de rendimentos regulares podem obter um crédito. «Depois casamo-nos, temos filhos. Filhos americanos! E é assim que, trinta anos depois, continuamos aqui. Para pessoas como nós, o nosso país é a terra em que conseguimos safar-nos!» Mas como é árduo, o caminho...

A alguns blocos dos arranha-céus do centro de Los Angeles, um restaurante anuncia em grandes letras de plástico: Pupuseria [6]. Perspectivando a avenida para leste, alinham-se centenas de tabuletas: Tiendas Mariposa, El Palacio centroamericano, Llantas nuevas Zamora, Ropa para la Família... A paisagem não mudará ao longo de 30 quilómetros, até aos confins de East Los Angeles. No caminho, a Plaza Olivera oferece um altar dedicado à Virgem de Guadalupe, a padroeira do México, adossado a uma pintura mural monumental que reproduz as bandeiras dos Estados Unidos e de todos os países da América Latina. Os sem-papéis vêm aqui rezar à Virgem para que esta os ajude a ter êxito nos Estados Unidos.

Proveniente do estado de Michoacán e tendo chegado à Califórnia aos cinco anos de idade com a mãe e os irmãos, Carlos manteve-se sem documentos durante onze anos. Teve todos os pequenos trabalhos de ocasião possíveis antes de se estabelecer como técnico de raio X. Um percurso esgotante. Os empregadores podem contratar trabalhadores, à hora ou ao dia, sem lhes pedirem papéis mas, para lhes oferecerem um emprego remunerado ao mês, exigem um número da Segurança Social e um bilhete de identidade americano, algo que os imigrantes recentes não possuem. Estes últimos rapidamente aprendem que os patrones aceitam sem hesitações os cartões falsos da Segurança Social e as falsas cartas de condução que compram por 70 dólares cada em qualquer feira da ladra dos Estados Unidos.

Estão, assim, em circulação milhões de falsos documentos, algo que não preocupa demasiado o governo federal. Munido desta documentação precária – e entrando ao serviço como jardineiro, lavador de pratos num restaurante ou temporário numa empresa de limpeza –, o trabalhador latino poderá viver como clandestino num país que não pode dispensar a sua força de trabalho. Os americanos não apreciam mais os pequenos trabalhos urbanos do que o trabalho da terra. Não possuem qualquer documento legal 53 por cento dos mexicanos presentes nos Estados Unidos.

Aos 25 anos, Carlos é cidadão americano graças ao processo de reunificação familiar entreposto por um tio legalmente instalado. «Ainda não atingi o meu objectivo», afirma, «uma casa minha e a estabilidade económica para os meus três filhos e a minha mulher.. Mas claro que ficarei nos Estados Unidos...» Para poder “economizar”, trabalha à noite como valet parking num restaurante. Metade da população do condado de Los Angeles, ou seja, 4,5 milhões de pessoas, é latina. Os bairros em que estes habitantes se concentram, e em particular o de East Los Angeles, transmitem um ambiente muito pequeno­‑burguês. Tal aparência é, no entanto, enganadora. A maioria das famílias que habita nestes lugares vive com menos de 20.000 dólares por ano, soma que, nos Estados Unidos, mal permite fazer face ao quotidiano [7]. Além de que estes bairros albergam os mais temidos gangs do Oeste americano.

José Huizar, um jovem político de 37 anos nascido no estado mexicano de Zacatecas, passou aqui o essencial da sua vida, num velhinho chalé de madeira à beira de uma auto-estrada. Tendo chegado aos cinco anos de idade, veio depois a estudar na escola pública, antes de ganhar uma bolsa para ingressar numa das melhores universidades do país, a de Princeton (Nova Jérsia). Actualmente membro da direcção da sua universidade, este militante do Partido Democrata lutou durante vários anos pela justiça na escola, enquanto dirigia os serviços de educação pública da Grande Los Angeles. Está presentemente em campanha para conseguir um lugar no Conselho Municipal da cidade. Em suma, uma success story digna das melhores novelas. O pai de José era um camponês analfabeto.

No coração deste bastião mexicano, Huizar fala espanhol com dificuldade, apesar de ser um imigrante de primeira geração. Continua a não se considerar um “assimilado”, dizendo-se ligado a uma cultura mexicana cujos contornos são, no entanto, vagos – «Uma forma particular de se comportar, de se vestir... Uma música... Uma culinária diferente...». Quando se lhe pergunta o título do último romance que leu em espanhol, sorri e responde: «Tem razão, sou um pouco pocho». Em gíria mexicana, o termo designa o imigrante que perde a língua materna e se funde na cultura americana. «Tenho orgulho de ser mexicano», conclui, «mas agradeço aos Estados Unidos pelo que me deram: educação, trabalho... Tudo o que não existia nas montanhas de Zacatecas». O último recenseamento federal estabeleceu que, em todo o país, 41 milhões de residentes são de origem latina, ou seja, 14 por cento da população [8]. Metade nasceu fora das fronteiras e 65 por cento tem ascendência mexicana. Segundo o Pew Hispanic Center, em 2045 o número de latinos andará à volta de 103 milhões. O espanhol é já a segunda língua do país, e os Estados Unidos são o segundo país de língua espanhola a nível mundial, depois do México mas antes da Espanha ou da Colômbia. Os noticiários e programas da noite das estações locais da Univisión, o gigante da televisão hispânica, têm frequentemente mais audiência do que os da ABC, CBS ou NBC, em Miami, Nova Iorque ou Los Angeles.

Os jornais La Opinión em Los Angeles, La Voz em Houston, Rumbo no Texas e La Raza em Chicago propõem diariamente uma nova success story aos seus leitores. Uma família de Michoacán fundou a sua própria exploração vinícola, depois de ter vindimado as vinhas do Napa Valley durante toda uma geração... Um jovem de 29 anos, nascido em Tijuana, acaba de lançar a sua própria linha de t-shirts...

O termo “latino” foi durante muito tempo pejorativo, mas agora está na moda. A estrela mexicana de Hollywood Selma Hayek ou Jorge Ramos, o apresentador principal do noticiário da Univisión, constituem modelos para a juventude urbana, de todas as origens. Cantores bilingues, como o mexicano Alejandro Fernández e os porto-riquenhos Chayanne, Jennifer Lopez e Ricky Martin invadem as rádios e as televisões, em espanhol ou em inglês. Vicente Del Rio oferece de bom grado tequilha na esplanada do Frida [9], o seu restaurante em Beverly Drive, não longe da montanha riscada com as letras da palavra “Hollywood”. O seu estabelecimento tornou-se o local de encontro dos yuppies do bairro, da comunidade judaica de Beverly Hills... e do show-business latino. Isto porque nos últimos anos chegaram aos Estados Unidos cada vez mais mexicanos oriundos das classes médias. Segundo um estudo do Pew Hispanic Center, dois em cada cinco mexicanos afirmam-se dispostos a viver neste país, mesmo que sem documentos. A intenção de emigrar «já não surge apenas entre os pobres. Tal desejo manifesta-se no interior da classe média e até nos círculos formados na universidade», afirma o director da sondagem, Roberto Suro [10].

A velha ideia segundo a qual a imigração nasce apenas da miséria já não basta para explicar o fenómeno. A implantação, no Rio Grande, do modelo neoliberal traduziu-se num aumento do número de pobres e no empobrecimento da pequena burguesia, tornando também a juventude, matraqueada pela publicidade e a televisão, mais sensível ao sonho americano.

Assiste-se assim, de Chicago a San Antonio, ao aparecimento de uma cultura híbrida: a juventude hispânica dos bairros populares abandona a salsa e a cumbia tradicionais por um novo ritmo made in USA, o reggaeton, mistura indefinível de hip-hop, rap e cadências latinas. Podem ainda assim encontrarar­‑se, por acaso durante um passeio californiano, quadros superiores mexicano-americanos de terceira geração que mal falam a sua língua de origem e são no entanto apaixonados pelo teatro chicano em espanhol.

Com apenas algumas excepções, os grandes meios de comunicação social latinos derramam sobre o seu público uma programação embrutecedora feita de publicidade, talk-shows e noticiários tendenciosos. Contudo, tanto no Norte como no Sul, um pouco por todo o país, emitindo em inglês, em espanhol e em diferentes dialectos indígenas mexicanos, a Rádio Bilingue propõe programas de qualidade e luta por salvar a cultura original dos hispânicos da dissolução no melting pot comercial.

O mundo da política concedeu um pequeno lugar aos representantes da segunda comunidade nacional. São latinos dois dos principais ministros de George W. Bush, o secretário da Justiça Alberto Gonzáles e o secretário do Comércio Carlos Gutierrez. Têm assento no Congresso vinte e cinco deputados e senadores de origem mexicana, cubana e porto­‑riquenha. Mais de uma vintena de autarcas hispânicos gerem cidades com mais de 100.000 habitantes na Califórnia, no Texas, na Florida e no Connecticut. A eleição em 2004 de Antonio Villaraigosa, mexicano de segunda geração, para a autarquia de Los Angeles constituiu para muitos uma revelação, ou até um choque. O American dream é claramente o principal objectivo do grupo de pressão constituído pelas personalidades latinas a que David Ayon, investigador na universidade jesuíta californiana de Loyola Marymount, deu o nome de Rede Latina. Nascido há 48 anos no Texas, de pai mexicano incorporado no exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, Ayon explica que esta rede se apoia nos altos funcionários de origem latina e nas grandes associações dirigidas por mexicano-americanos, como a League of United Latin American Citizen (LULAC), a Mexican American Legal Defense and Educational Fund (MALDEF) ou a Consejo de la Raza, organizações largamente abertas aos latinos de todas as origens.

Trabalham em conjunto por uma integração rápida e apoiam no Congresso Federal os projectos de lei tendentes à regularização da situação dos sem-papéis, bem como os programas sociais de que os imigrantes irão beneficiar. Lutam igualmente pela facilitação da progressão escolar das crianças que no início apenas falam espanhol, e pelo respeito dos direitos dos trabalhadores hispânicos. Distribuem, em especial, milhões de dólares em bolsas para permitir que os filhos dos migrantes acedam à universidade.

Esta Rede Latina situa-se, globalmente, na área democrata. Henry Cisneros (antigo autarca de San Antonio e ministro de Bill Clinton), Bill Richardson (governador do Novo México) e o cubano-americano Robert Menéndez (deputado democrata de Nova Jérsia) desempenharam um papel decisivo na sua constituição. Por exemplo, financiaram as campanhas de Villaraigosa, em Los Angeles, e do senador Ken Salazar, no Colorado. Nestes últimos anos, contudo, algumas personalidades da Rede Latina aproximaram-se do Partido Republicano. É o caso de Carlos Olamendi, patrão de uma cadeia de cinquenta restaurantes, que se juntou à equipa de Arnold Schwarzenegger, o muito direitista governador da Califórnia.

A Rede Latina privilegia o trabalho de pressão levado a cabo junto das autoridades federais. Mostra-se menos receptiva aos avanços dos governos mexicano e centro-americanos, que a solicitam para que defenda os seus interesses junto de Washington. Será errado pensar-se, sorri Ayon, que «a comunidade latina nos Estados Unidos é a América Latina transplantada para aqui». Uma rede menos influente, a que Ayon chama Rede Mexicana, resiste mais activamente à assimilação. De Chicago a San Antonio, esta rede organiza­‑se localmente em clubes de oriundos, pequenas associações de mexicanos naturalizados e imigrantes originários de um mesmo lugar, que por sua vez se agrupam em federações. Os clubes mais activos são os dos estados mexicanos de Zacatecas, Michoacán e Guanajuato, que desde a Segunda Guerra Mundial trouxeram aos Estados Unidos sucessivas gerações de imigrantes. Os clubes financiam projectos sociais, a construção de escolas e de centros desportivos nos municípios mexicanos de que são originários os seus membros.

A fim de recolherem fundos, estes clubes organizam bailes ou banquetes, animados por um mariachi ou um grupo de música norteña. A Rede Mexicana mantém relações muito estreitas com os consulados mexicanos e com o Instituto dos Mexicanos no Exterior, criado pelo presidente Vicente Fox para apoiar o governo nas negociações com Washington. No entanto, os clubes de oriundos não recrutam muito nas grandes cidades. Os latinos parecem estar mais preocupados em encontrar um lugar no país do que em encontrar um lugar nos Estados Unidos para a sua nação de origem.

A análise do comportamento dos latinos feita por Harry Pachon, presidente do Instituto Político Tomás Rivera da Universidade da Califórnia do Sul, vai precisamente neste sentido. Segundo afirma, este comportamento caracteriza-se «por uma acentuada ética do trabalho e pela renovação do ideal americano que postula que trabalho intenso e perseverança conduzem a uma vida melhor». A ideia de que os Estados Unidos são uma terra de oportunidades, acrescenta, explica também que os latinos sempre tenham manifestado um «elevado grau de patriotismo». Com efeito, participaram na Segunda Guerra Mundial 300.000 americanos de origem mexicana, estando no início da segunda guerra do Iraque incorporados 130.000 latinos sob a bandeira americana.

Hilda Solis, a primeira deputada federal de origem nicaraguense, por via materna, tempera este juízo. A circunscrição de Los Angeles pela qual foi eleita deplora já onze mortos latinos no Iraque. Mais do que fibra patriótica, explica, o que empurra os jovens latinos para o exército é a falta de saídas e as precárias condições em que vivem, bem como a esperança de obterem documentos verdadeiros, pagos com o medo e o sangue, no fim do serviço militar. Hilda Solis confirma igualmente que, ainda que continuem a votar maioritariamente democrata depois de legalizados, os latinos tendem a «passar para a direita» a partir do momento em que acedem à classe média. Entre eles, 30 por cento preferiu Schwarzenegger e 40 por cento Bush. Os cubanos de Miami já não são os únicos que apoiam o presidente Bush! Alberto Gonzáles, o brilhante advogado de segunda geração nomeado ministro da Justiça em 2004, distinguiu-se, por exemplo, na defesa das políticas carcerárias em Abu Ghraib e Guantánamo, em total contradição com os princípios (pelo menos proclamados!) das democracias latino-americanas de respeito pelos direitos humanos e de não intervenção.

A sub-representação política dos latinos nem por isso deixa de preocupar os democratas. Dos 41 milhões de latinos que vivem nos Estados Unidos, apenas 7 milhões têm direito de voto, sendo pouco provável que a curto prazo possam influenciar o futuro político do país. No México, Carlos González, director do Instituto dos Mexicanos no Exterior, apresenta uma das chaves para o problema: «A estrutura da economia americana já não permite que os imigrantes adquiram rapidamente, como nas décadas de 1950 e 1960, um estatuto de classe média. Trata-se essencialmente de uma economia de serviços, que premeia as elites do conhecimento e engendra uma subclasse sem possibilidades de promoção vertical». A política migratória dos Estados Unidos, muito restritiva, condena por muito tempo estas categorias ao estatuto de sem papéis, afastados das disputas eleitorais.

Em todo o caso, na Califórnia a arquitectura e o urbanismo evoluem ao ritmo da imigração, como é demonstrado pela fachada neocolonial do hipermercado de San José, a capital do Silicon Valley. Os proprietários do Mi Pueblo chegaram do México há menos de trinta anos. Os expositores propõem tortilhas de milho, molhos picantes, feijão preto em conserva e todo o tipo de pimentos... Muitos produtos são da marca El Mexicano, a dos irmãos Marquez, imigrantes de primeira geração que instalaram as suas fábricas à entrada da cidade. «Existe aqui um verdadeiro negócio da nostalgia», diz Bruno Figueroa, cônsul geral do México em San José. As cadeias de supermercados latinos têm volumes de negócios milionários. Tudo somado, os hispânicos penetram muito mais facilmente no mercado americano do que no mundo político...

O poder de compra anual da comunidade latina ronda os 700 mil milhões de dólares, o que representa mais 200 mil milhões do que o produto interno bruto da Argentina! A grande distribuição investe somas consideráveis em marketing e publicidade para se implantar neste mercado. Dois milhões de empresas hispânicas geram cerca de 250 mil milhões de dólares de volume de negócios anual e mais de dois milhões de empregos: cadeias de supermercados e restaurantes, empresas de limpeza, comunicação social, agências de publicidade, companhias de transporte e de embalagem...

As câmaras de comércio hispano-americanas exibem na Internet intermináveis listas de pequenas e médias empresas, algo que os latinos criam mais do que os brancos ou os negros americanos. O US Bank e o US Hispanic Chamber of Commerce (USHCC; 40 câmaras na Califórnia, 20 no Texas) estabeleceram recentemente um plano nacional de financiamento das empresas latinas no valor de mil milhões de dólares. O USHCC, por exemplo, apoiou publicamente a nomeação por Bush do juiz ultraconservador John Roberts para a presidência do Supremo Tribunal, em 2005. E verdade que, em matéria de família, aborto ou homossexualidade, a maioria dos imigrantes recentes – católicos praticantes – não fica minimamente atrás dos ultras americanos.

Em Houston, Juan Alvarez, um dos muitos militantes centro-americanos que, mais politizados do que os mexicanos, lutam pela defesa dos direitos dos migrantes, faz diariamente uma volta pelas esquinas – estações de serviço, supermercados e pontos de encontro – onde os trabalhadores sem papéis propõem os seus serviços à jorna às empresas de construção. Em todo o país deverão existir uns 100.000 jornaleiros, 6.000 dos quais em Houston. Em meados de Outubro, curiosamente, as esquinas estão quase vazias. Alvarez fornece a explicação para isso acontecer: «Nestes últimos dias, partiram já uns 4.000 para trabalhar... em Nova Orleães».

Desde o fim de Setembro de 2005, milhares de latinos sem papéis participam na limpeza da cidade sinistrada. Pouco se importam com o facto de os salários que lhes propõem serem inferiores aos que receberiam negros ou brancos americanos pelo mesmo trabalho ou com as doze horas de trabalho dentro da água estagnada e no meio da putrefacção. Só o autarca da cidade, o afro-americano Ray Nagin, se queixou da situação, invocando a «nova inundação» da cidade... pelos latinos. Com poucas excepções, uma vez mais as autoridades migratórias deixaram as coisas correr. A América com que sonha Samuel Huntington precisa de muitos hispânicos pobres... para se manter igual a si própria.

[1] Nos Estados Unidos, os termos “latino” ou “hispânico” são indistintamente utilizados.
[2] Líder dos mexicano-americanos na década de 1960, anos quentes do radicalismo chicano nos campos do Novo México e da Califórnia.
[3] Samuel P. Huntington, O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, Lisboa, 1999.
[4] Sobre este tema, ler James Cohen e Annick Tréguer (dir.), Les Latinos des USA, IHEAL Éditions, Paris, 2004.
[5] Samuel R Huntington, Who Are We? The Challenges to America’s National Identity, Simon and Schuster, Nova Iorque, 2004.
[6] La pupusa é uma tortilha salvadorenha recheada com feijões.
[7] Segundo o sindicato United Auto Workers (UAW), em 2001 era necessário ganhar pelo menos 8,70 dólares por hora (17.960 dólares por ano) para escapar à pobreza; nessa altura, 40,4 por cento dos latinos viviam em famílias que não dispunham desta soma. Citado em James Coben, Spanglish America, Le Félin, Paris, 2005.
[8] US Census Bureau, Washington, 2004.
[9] Em referência a Frida Kahlo, pintora mexicana, esposa de Diego Rivera e amante de Leão Trotski.
[10] http://pewhispanic.org/topics/index.php?TopicID=16
Jean-François Boyer
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/usa/usa126.htm