Quando a injustiça se torna lei, a resistência torna-se um dever! I write the verse and I find the rhyme I listen to the rhythm but the heartbeat`s mine. Por trás de uma grande fortuna está um grande crime-Honoré de Balzac. Este blog é a continuação de www.franciscotrindade.com que foi criado em 11/2000.35000 posts em 10 anos. Contacto: franciscotrindade4@gmail.com ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS ACTUALIZADO TODOS OS DIAS
quarta-feira, abril 18, 2007
Claro que sim
"A forma como fui tratado na Independente foi impecável"
José Sócrates
E foi. Sobre isso não resta hoje qualquer dúvida.
http://retorica-pt.blogspot.com/
José Sócrates
E foi. Sobre isso não resta hoje qualquer dúvida.
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Ser engenheiro é fácil... É como encontrar um trevo na tromba de um elefante.
http://www.lobi-do-cha.blogspot.com/
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Há vida para além do canudo
Há dias, penso que passou despercebida a intenção do ministro da Saúde de privatizar a gestão da ADSE. Deste ministro famoso pelas suas posições liberais não é surpresa uma proposta deste tipo.
Relembre-se que os funcionários públicos aumentaram a sua comparticipação para a ADSE este ano em 0,5% o que fez diminuir o ridículo "aumento" de 1,5% nos vencimentos para apenas 1%.
Lembre-se também que entraram recentemente em vigor as novas taxas "moderadoras para internamentos e cirurgias. (É sabido como os portugueses se pelam por uma boa cirurgia e por uma prolongado internamento!!!).
É bom relembrar que há mais vida em Portugal para além do percurso académico de Sócrates. E não esquecer as "marcas" liberais do governo "socialista" que nos desgoverna.
http://edutica.blogspot.com/
Relembre-se que os funcionários públicos aumentaram a sua comparticipação para a ADSE este ano em 0,5% o que fez diminuir o ridículo "aumento" de 1,5% nos vencimentos para apenas 1%.
Lembre-se também que entraram recentemente em vigor as novas taxas "moderadoras para internamentos e cirurgias. (É sabido como os portugueses se pelam por uma boa cirurgia e por uma prolongado internamento!!!).
É bom relembrar que há mais vida em Portugal para além do percurso académico de Sócrates. E não esquecer as "marcas" liberais do governo "socialista" que nos desgoverna.
http://edutica.blogspot.com/
Toda a Razão - 1
No Prós e Contras de ontem a discussão extravasou felizmente do epifenómeno - significativo de uma grave tendência, mas ainda assim epifenómeno - da situação da Universidade Independente.
Graças a um conjunto de intervenções desassonbradas (perdoe-se-me o lugar-comum) de José Tribolet, foram abordadas questões que, essas sim, tocam pontos essenciais gravdes do nosso sistema de ensino superior. Entre outros, que só vi cerca de uma hora de programa:
1. O problema da qualidade do ensino superior, sendo eventualmente mais grave em parte do seu sector privado, também se estende a muitas instituições do ensino público e a responsabilidade por isso é, em última (primeira?) instância do Estado, que se demitiu de um papel de efectiva regulação e fiscalização do sistema, para além de umas inspecções rotineiras.
2. A avaliação realizada por diversas comissões e grupos de trabalho é de fraca qualidade e é transformada normalmente em relatórios vagos e inócuos nas rcomendações ou então são perfeitamente esquecidos até ao despoletar de uma qualquer crise ocasional, de onde saem da poeira das gavetas.
3. O clima geral de cumplicidade e silêncio em todo este processo “fechado”, resultante (acrescento eu) de todos conhecerem todos e afinal ninguém querer verdadeiramente incomodar ninguém para também não ser futuramente incomodado, é responsável pelo agravamento de situações de desregulação do sistema e de manutenção ou degradação das condições de funcionamento (administrativo, pedagógico) das instituições. A regra de ouro é dar ligeiros puxões de orelhas, mas deixar tudo na mesma, varrendo para debaixo da carpete o que incomoda mais notoriamente, na esperança que ninguém note muito e o tempo passe.
Como Tribolet afirmou, e cito de forma não necessariamente fiel, «toda a gente se cala para ver se também se safa». Se não foi assim, foi algo muito parecido. E é tristemente verdade. As universidade públicas e privadas - e também o subsector do politécnico, nunca o esqueçamos - funcionam na base de “capelinhas”. Nas maiores instituições, normalmente públicas, há espaço para várias dessas capelinhas com os respectivos fiéis. Nas privadas, em geral, esse espaço é menor e quando faltam as cadeiras dão-se lutas acesas e sangrentas pelo poder. E lá se descobrem os “podres”.
Mas, com a actual retracção da procura por razões demográficas, do ensino superior a crise é quase generalizada e a instabbilidade é muita. Curiosamente, este deveria ser o momento ideal para se fazer a selecção natural - se é verdade que acreditam no liberalismo - entre as instituições que têm condições ou não para sobreviver, já que os anscimentos eguiram a lógica da geração espontânea.
Mas o que me parece é que isso implicaria verdadeira coragem política. E isso parece que escasseia quando se trata de colocar em ordem os patronatos e clientelas que se instalaram no Ensino Superior, em especial naqueles projectos privados que nasceram em tornos de “interesses” e se preocuparam em recrutar ao longo do tempo figuras com potencial valor político.
http://educar.wordpress.com/
Graças a um conjunto de intervenções desassonbradas (perdoe-se-me o lugar-comum) de José Tribolet, foram abordadas questões que, essas sim, tocam pontos essenciais gravdes do nosso sistema de ensino superior. Entre outros, que só vi cerca de uma hora de programa:
1. O problema da qualidade do ensino superior, sendo eventualmente mais grave em parte do seu sector privado, também se estende a muitas instituições do ensino público e a responsabilidade por isso é, em última (primeira?) instância do Estado, que se demitiu de um papel de efectiva regulação e fiscalização do sistema, para além de umas inspecções rotineiras.
2. A avaliação realizada por diversas comissões e grupos de trabalho é de fraca qualidade e é transformada normalmente em relatórios vagos e inócuos nas rcomendações ou então são perfeitamente esquecidos até ao despoletar de uma qualquer crise ocasional, de onde saem da poeira das gavetas.
3. O clima geral de cumplicidade e silêncio em todo este processo “fechado”, resultante (acrescento eu) de todos conhecerem todos e afinal ninguém querer verdadeiramente incomodar ninguém para também não ser futuramente incomodado, é responsável pelo agravamento de situações de desregulação do sistema e de manutenção ou degradação das condições de funcionamento (administrativo, pedagógico) das instituições. A regra de ouro é dar ligeiros puxões de orelhas, mas deixar tudo na mesma, varrendo para debaixo da carpete o que incomoda mais notoriamente, na esperança que ninguém note muito e o tempo passe.
Como Tribolet afirmou, e cito de forma não necessariamente fiel, «toda a gente se cala para ver se também se safa». Se não foi assim, foi algo muito parecido. E é tristemente verdade. As universidade públicas e privadas - e também o subsector do politécnico, nunca o esqueçamos - funcionam na base de “capelinhas”. Nas maiores instituições, normalmente públicas, há espaço para várias dessas capelinhas com os respectivos fiéis. Nas privadas, em geral, esse espaço é menor e quando faltam as cadeiras dão-se lutas acesas e sangrentas pelo poder. E lá se descobrem os “podres”.
Mas, com a actual retracção da procura por razões demográficas, do ensino superior a crise é quase generalizada e a instabbilidade é muita. Curiosamente, este deveria ser o momento ideal para se fazer a selecção natural - se é verdade que acreditam no liberalismo - entre as instituições que têm condições ou não para sobreviver, já que os anscimentos eguiram a lógica da geração espontânea.
Mas o que me parece é que isso implicaria verdadeira coragem política. E isso parece que escasseia quando se trata de colocar em ordem os patronatos e clientelas que se instalaram no Ensino Superior, em especial naqueles projectos privados que nasceram em tornos de “interesses” e se preocuparam em recrutar ao longo do tempo figuras com potencial valor político.
http://educar.wordpress.com/
Ratzinger: 80 anos de (senil)idade
Ratzinger fez ontem 80 anos. Felizmente, poderemos dizê-lo, porque não se deseja o mal a ninguém.
Fruto do percurso normal da vida, é natural que os próximos anos de Ratzinger venham a ser duros: doenças, enfraquecimento, perca de lucidez, por aí fora... Pergunto-me: a quem recorrerá Ratzinger quando tiver que diminuir a dor, baixar a tensão arterial, controlar a taquicardia ou a incontinência? Ao seu deus todo-poderoso, através de umas rezas e orações? Ou recorrerá aos químicos e aos métodos estudados pela ciência à qual passa um atestado de incompetência noutras matérias?
Desculpem-me a curiosidade...
(Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
Etiquetas: ciência, papa, ratzinger
um artigo de Helder Sanches
http://www.ateismo.net/diario/
Fruto do percurso normal da vida, é natural que os próximos anos de Ratzinger venham a ser duros: doenças, enfraquecimento, perca de lucidez, por aí fora... Pergunto-me: a quem recorrerá Ratzinger quando tiver que diminuir a dor, baixar a tensão arterial, controlar a taquicardia ou a incontinência? Ao seu deus todo-poderoso, através de umas rezas e orações? Ou recorrerá aos químicos e aos métodos estudados pela ciência à qual passa um atestado de incompetência noutras matérias?
Desculpem-me a curiosidade...
(Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
Etiquetas: ciência, papa, ratzinger
um artigo de Helder Sanches
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Ateísmo na Blogosfera
1. «O pensamento científico não parte deste ou daquele pressuposto para depois aceitar as suas consequências. Isso é o que faz o pensamento religioso: aceita, por exemplo, que um determinado livro tradicional, registo escrito de tradições orais anteriores, emana directamente de Deus - e raciocina a partir daí. Na ciência interroga-se tudo. Na religião aceita-se por fé mitos fundadores - que um homem nasceu de uma virgem, que esse homem depois de morto ressuscitou, no caso do cristianismo - cuja veracidade não pode ser colocada em causa sem se ser considerado blasfemo e contra a ortodoxia. Filosofar e fazer ciência é ser heterodoxo, interrogar e pôr tudo em causa. Dar respostas fechadas, que confortam os crentes, é o que faz a religião. São atitudes muito diferentes.» («Os pressupostos», no De Rerum Natura)
2. «É assim que sabemos que os Blin existem. Podemos conceber algo tão Blin que nada pode ser concebido que seja mais Blin. Ora se esse algo não existisse, poderíamos conceber algo idêntico mas existente, e que, por existir, seria mais Blin que o Blin que não existe. Daqui se prova, a priori, que os Blin existem. É uma prova irrefutável por duas razões. Por não estar dependente do conhecimento empírico, que sabemos ser sempre falível, e por ser tão obscura e confusa que ninguém a pode refutar.» («A Blinologia do Supra-Empírico», no Que Treta!)
«Bento XVI aceita com relutância a teoria da evolução, que diz que todas as espécies modernas surgiram por um processo natural, cego, sem propósito. Ao mesmo tempo diz que há outra dimensão da razão em que foi exactamente o contrário. É tão absurdo como aceitar a astronomia moderna e defender que, noutra dimensão da razão, a Terra está no centro do universo, é plana, e assenta em quatro elefantes e uma tartaruga.
Não há várias dimensões da razão. Há apenas a necessidade de alguns de arranjar um cantinho onde esconder as suas superstições das evidências que as refutam. E isso não é razão; é precisamente o contrário.» («Dimensões da Razão.», no Que Treta!)
um artigo de João Vasco
http://www.ateismo.net/diario/
2. «É assim que sabemos que os Blin existem. Podemos conceber algo tão Blin que nada pode ser concebido que seja mais Blin. Ora se esse algo não existisse, poderíamos conceber algo idêntico mas existente, e que, por existir, seria mais Blin que o Blin que não existe. Daqui se prova, a priori, que os Blin existem. É uma prova irrefutável por duas razões. Por não estar dependente do conhecimento empírico, que sabemos ser sempre falível, e por ser tão obscura e confusa que ninguém a pode refutar.» («A Blinologia do Supra-Empírico», no Que Treta!)
«Bento XVI aceita com relutância a teoria da evolução, que diz que todas as espécies modernas surgiram por um processo natural, cego, sem propósito. Ao mesmo tempo diz que há outra dimensão da razão em que foi exactamente o contrário. É tão absurdo como aceitar a astronomia moderna e defender que, noutra dimensão da razão, a Terra está no centro do universo, é plana, e assenta em quatro elefantes e uma tartaruga.
Não há várias dimensões da razão. Há apenas a necessidade de alguns de arranjar um cantinho onde esconder as suas superstições das evidências que as refutam. E isso não é razão; é precisamente o contrário.» («Dimensões da Razão.», no Que Treta!)
um artigo de João Vasco
http://www.ateismo.net/diario/
terça-feira, abril 17, 2007
O SOBRENATURAL É NATURAL
É lugar comum dizer-se que o ser humano é um animal racional, mas a verdade é que nascemos bastante irracionais. Bruce Hood, professor de Psicologia Experimental na Universidade de Bristol, Inglaterra, apresentou esta semana numa conferência do Edinburgh International Science Festival, os resultados dos seus trabalhos sobre o que chamou o “sentido do sobrenatural”. A sua conclusão é que o sobrenatural é natural, isto é, que nascemos com disposição para acreditar em “explicações” que nada têm de científico, não verificadas usando o método científico. E conservamos, embora minoradas, esse tipo de crenças pela vida fora… Tal atitude pouco terá a ver com religião, uma vez que a adesão ao sobrenatural tanto se encontra em pessoas das mais variadas religiões como em pessoas sem religião nenhuma.
De facto, investigações recentes do desenvolvimento cognitivo, com base nas neurociências, indicam que o nosso cérebro é, à partida, pouco racional. Por exemplo, ele procura ver padrões onde só existe acaso. E procura dar sentido aquilo que são apenas coincidências. Já o filósofo escocês (precisamente de Edimburgo) David Hume dizia: “Vemos caras na Lua e exércitos nas nuvens” (“História Natural da Religião”, 1757). Mais ainda, temos tendência inata para acreditar que o que está antes num sítio é a causa do que aí aparece depois, mesmo quando as duas coisas não têm qualquer nexo causal. E pensamos também que os objectos podem ter uma aura, por exemplo que um objecto ligado a uma pessoa que conhecemos é diferente de um objecto igual que não tenha nada a ver com ela.
Mas a conclusão mais curiosa de Hood é que todas as crianças são criacionistas, no sentido em que julgam que os objectos à sua volta foram criados por alguém com um certo propósito. Esta ideia não tem que ver com a influência da catequese, pois os testes efectuados com crianças pequenas não mostram distinção entre quem teve e quem não teve educação religiosa. Além disso, o criador não tem necessariamente de ser único nem exterior ao mundo. Mas ela sugere fortemente que há uma tendência natural para acreditar em Deus. E vem ao encontro da tese exposta em livros recentes pelo filósofo norte-americano Daniel Dennett e pelo biólogo inglês Lewis Wolpert, que atribuem a causas naturais o fenómeno religioso. Para esses autores, a fé em Deus terá sido uma vantagem competitiva no longo processo da evolução humana.
Há adultos que também são criacionistas: de acordo com a explicação natural do sobrenatural não terão crescido o suficiente… Uma crença muito difundida é a de que todo o Universo teria sido criado, mais ou menos como é hoje, por intervenção divina, num “acto único” ou quase único. Nos Estados Unidos, há quem queira equiparar essa crença criacionista – que aparece sob o nome de “design inteligente” - a uma teoria científica, chegando ao cúmulo de a querer incluir nas aulas de ciências, como alternativa ao evolucionismo. Quem quer isso não apenas está a recusar a ciência como, pior, pretende instaurar uma sociedade teocrática.
Pois esse movimento, profundamente anti-científico e com uma agenda político-religiosa, parece ter chegado a Portugal. Um colóquio realizado há poucas semanas na Universidade de Lisboa intitulava-se “Darwinismo versus Criacionismo”, colocando a par duas coisas que não são equiparáveis. “De Rerum Natura”, o novo blogue convidado do Público (http://dererummundi.blogspot.com), tem criticado as ideias criacionistas que, embora de uma forma incipiente, se têm propagado entre nós. Claro que essa defesa da ciência contra a pseudociência não é uma posição contra a religião, uma vez que ciência e religião são domínios distintos, com metodologias e objectivos diversos. A César o que é de César e a Deus o que é de Deus. De resto, muitas pessoas crentes não têm dúvidas sobre a validade da extraordinária doutrina de Darwin. Se o sobrenatural é natural, o natural é-o muito mais!
Carlos Fiolhais
http://dererummundi.blogspot.com/
De facto, investigações recentes do desenvolvimento cognitivo, com base nas neurociências, indicam que o nosso cérebro é, à partida, pouco racional. Por exemplo, ele procura ver padrões onde só existe acaso. E procura dar sentido aquilo que são apenas coincidências. Já o filósofo escocês (precisamente de Edimburgo) David Hume dizia: “Vemos caras na Lua e exércitos nas nuvens” (“História Natural da Religião”, 1757). Mais ainda, temos tendência inata para acreditar que o que está antes num sítio é a causa do que aí aparece depois, mesmo quando as duas coisas não têm qualquer nexo causal. E pensamos também que os objectos podem ter uma aura, por exemplo que um objecto ligado a uma pessoa que conhecemos é diferente de um objecto igual que não tenha nada a ver com ela.
Mas a conclusão mais curiosa de Hood é que todas as crianças são criacionistas, no sentido em que julgam que os objectos à sua volta foram criados por alguém com um certo propósito. Esta ideia não tem que ver com a influência da catequese, pois os testes efectuados com crianças pequenas não mostram distinção entre quem teve e quem não teve educação religiosa. Além disso, o criador não tem necessariamente de ser único nem exterior ao mundo. Mas ela sugere fortemente que há uma tendência natural para acreditar em Deus. E vem ao encontro da tese exposta em livros recentes pelo filósofo norte-americano Daniel Dennett e pelo biólogo inglês Lewis Wolpert, que atribuem a causas naturais o fenómeno religioso. Para esses autores, a fé em Deus terá sido uma vantagem competitiva no longo processo da evolução humana.
Há adultos que também são criacionistas: de acordo com a explicação natural do sobrenatural não terão crescido o suficiente… Uma crença muito difundida é a de que todo o Universo teria sido criado, mais ou menos como é hoje, por intervenção divina, num “acto único” ou quase único. Nos Estados Unidos, há quem queira equiparar essa crença criacionista – que aparece sob o nome de “design inteligente” - a uma teoria científica, chegando ao cúmulo de a querer incluir nas aulas de ciências, como alternativa ao evolucionismo. Quem quer isso não apenas está a recusar a ciência como, pior, pretende instaurar uma sociedade teocrática.
Pois esse movimento, profundamente anti-científico e com uma agenda político-religiosa, parece ter chegado a Portugal. Um colóquio realizado há poucas semanas na Universidade de Lisboa intitulava-se “Darwinismo versus Criacionismo”, colocando a par duas coisas que não são equiparáveis. “De Rerum Natura”, o novo blogue convidado do Público (http://dererummundi.blogspot.com), tem criticado as ideias criacionistas que, embora de uma forma incipiente, se têm propagado entre nós. Claro que essa defesa da ciência contra a pseudociência não é uma posição contra a religião, uma vez que ciência e religião são domínios distintos, com metodologias e objectivos diversos. A César o que é de César e a Deus o que é de Deus. De resto, muitas pessoas crentes não têm dúvidas sobre a validade da extraordinária doutrina de Darwin. Se o sobrenatural é natural, o natural é-o muito mais!
Carlos Fiolhais
http://dererummundi.blogspot.com/
Verdade e consequências
Num espaço de mais ou menos 25 anos, a combinação do computador e da rede global de telefone transformou as comunicações. Logo desde os seus primórdios no início dos anos 1980, quando, exceptuando uma mão cheia de corporações transnacionais de meios de comunicação, as comunicações com base no computador apenas existiam em academias ligadas à defesa (a ARPANET, por exemplo) ou no estranho mundo dos ‘hackers’ (que foi o modo como eu cheguei a este meio, não que eu seja um ‘hacker’ mas eu tinha um computador Commodore de 200 dólares [cerca de 150 euros] e um modem, e o resto é história).
No entanto, até chegar o ‘website’, disponibilizar informação electronicamente era uma ‘arte arcana’, para não mencionar que era muito dispendiosa em tempo e dinheiro, bem como era pouco fiável. A ‘web’, claro, alterou tudo isso, e conseguiu eventualmente alavancar as aplicações de publicação, fazendo pela ‘web’ o que a paginação electrónica tinha feito pela impressão.
Mas para além de tudo mais que a ‘Web’ possa ser ‘responsablizada’, ela libertou um rio de escrita criativa, de um modo como provavelmente não tinha sido visto desde a introdução da máquina de imprensa.
Previsivelmente, as reacções iniciais dos ‘profissionais’ foi ignorar este jorrar de vozes independentes. Basta lermos o que os jornais diziam sobre os ‘Blogues’ (como eu odeio esta palavra!) e a sua fúria contra ‘amadores’ estarem a introduzir-se no ‘seu’ domínio!
Isto foi seguido por um período de desdém paternalista e condescendente, focando-se em grande parte nos erros sintácticos, ou no não seguimento de ‘regras’ (como as definidas pelos grandes meios de comunicação) e nenhuma delas pode ser considerada ciência aeroespacial. De facto, eu nunca deixei de me espantar com a total ignorância de muitos dos ‘ensinados’ na universidade, jornalistas profissionais, especialmente sobre história, nomeadamente assuntos internacionais, mas só que eu tive uma ampla educação comuna, e foi isso que me poupou de uma des-educação universitária (em vez disso, pude vageuar durante 5 anos numa escola de arte).
Claro que há coisas mal escritas na web, mas o jornalismo vigente também é puro lixo e nem merece o rótulo de jornalismo.
Depois, veio relutantemente uma espécie de aceitação, especialmente quando escritores independentes baseados na web começaram mostrar-se ‘melhores’ revelando histórias e mostrando que o jornalismo ‘de papel’ estava totalmente a leste (Google? O que é isso?). Quase sempre, no entanto, os jornalistas dos grandes meios de comunicação usaram-nos como uma fonte (gratuita) de informação sobre o que eles não sabiam ou eram preguiçosos demais para procurar por eles próprios, não que muito tenha sido usado, pelo menos de uma forma reconhecível.
Ah! Mas ‘toda a informação é gratuita, certo? ‘ Errado. Eu acabo de receber uma carta de advogados da empresa de comunicação Gannett, pedindo que eu deixe de ter disponíveis artigos publicados em seis edições do ‘GI Special’ que parece que contêm material protegido por direitos de autor em poder da Gannett (‘Uso Não-Comercial’? O que é isso?).
Mas tendo finalmente compreendido que não havia nada que pudessem fazer em relação à explosão de jornalismo baseado na web, os seus chefes corporativos decidiram juntar-se ao barulho e claro, com os vastos recursos à sua disposição, não demorou muito até que cada um dos grandes meios de comunicação tivesse o seu próprio ‘blogue’.
Mas para o diferenciar do ‘verdadeiro jornalismo’, vimos aparecer o rótulo de ‘jornalismo do cidadão’, com a resultante depreciação do seu conteúdo, implicando que, ‘está bem, toda a gente tem direito a uma opinião e a liberdade de dizer o que bem lhe apetecer, mas não confundam isso com o ‘verdadeiro’ jornalismo, deixei ISSO para os profissionais’.
E mesmo no domínio do chamado jornalismo do cidadão, nós vemos que a maior parte é aquilo que esperaríamos encontrar em qualquer secção de ‘comentários’ de um ‘website’. Não se compara com o tipo de jornalismo independente de que estou a falar. De facto, pode dizer-se que apenas junta mais ‘ruído’ ao que já existe na web.
Mas em conjunto com a visão de que nós não tínhamos nada que nos meter no território ‘deles’, está subjacente nas suas reacções o simples facto de que muita da explosão da escrita na web era da ‘esquerda’, ou pelo menos questionava a lama jorrada pelos grandes meios de comunicação e o que realmente os incomodou foi que nós estávamos a divulgar histórias importantes muito antes deles e ao fazê-lo, transformando literalmente a natureza do jornalismo tradicional, dominado que está pelas necessidades corporativas/do estado.
Mas qualquer que seja a opinião de cada um sobre a qualidade da escrita encontrada na web, a razão fundamental para a oposição dos grandes meios de comunicação é de natureza ideológica. Eles têm apenas dois objectivos: preservar as receitas de publicidade e o status quo.
Também há outros problemas fundamentais que confrontam as notícias baseadas na web e as fontes de informação que são, pelo menos em parte, produto da própria natureza da web. Em primeiro lugar, o enorme volume é em si mesmo uma barreira, pois implica que ao contrário das notícias corporativas que têm penetração através da exposição-cruzada, as fontes independentes de notícias mesmo quando colectivamente grandes, são fragmentadas através de muitos títulos. É quase como um jornal local tentar atingir uma audiência nacional.
Para além disso, as notícias corporativas apresentam uma interpretação consistente, independentemente do meio de comunicação ou mesmo da fonte, para que, permitindo diferenças estilísticas e um público-alvo, a mesma mensagem seja transmitida, reforçando o mito da ‘opinião consensual’.
Para além disso, a natureza da web tende ela própria para o monopólio simplesmente porque as notícias corporativas com base na web são braços de um leque de meios de comunicação; imprensa, televisão, rádio, com cada um a ter acesso aos outros através de marketing-cruzado e publicidade. Sendo assim, tal como nos media tradicionais, são as grandes marcas que dominam; BBC, MSNBC, ABC ou outros do género, em virtude da grande exposição que conseguem obter.
O outro perigo é a tentativa de afastar as notícias independentes para fora do ambiente web cobrando pela colocação de informação ou pela quantidade de largura de banda consumida. Por outras palavras, privatizando o acesso através do preço, mais uma vez porque uma mão cheia de corporações é dona ou controla os acessos à Internet (de facto, o grosso do acesso em banda larga é detido e controlado por uma corporação!).
Penso, portanto, que é uma verdade dizer que apesar de chegarmos a uma audiência mundial, mas de uma forma fragmentada e inconsistente, nunca podemos rivalizar com os media corporativos.
Então qual é a solução? Um importante componente do nosso alcance é seguramente desabituar as pessoas de verem as notícias corporativas como uma fonte de notícias e informação. Mas significa isto passarmos uma mensagem uniforme? De certa forma, sim. Mas quem somos ‘nós’? Ah, aqui é que a porca torce o rabo.
O que isto mostra é o problema fundamental que enfrentamos, nomeadamente que sem uma base política coerente que configure as notícias e informação independentes, iremos permanecer fragmentados e marginalizados.
O jornalismo independente e progressista tem de ter raízes na acção, pois ao contrário dos grandes meios de comunicação que procuram preservar o status quo, o nosso pretende alterá-lo, por isso as comparações entre os dois são um bocado inúteis. Isto pode parecer óbvio mas para um público apoiado na ilusão de que as ‘notícias’ são objectivas e apresentam uma fictícia visão imparcial dos acontecimentos, esta diferença é crucial. É tanto assim que isto forma a base de virtualmente todas as críticas colocadas aos media independentes pelos grandes meios de comunicação.
Estes dois aspectos são o centro da situação que defrontamos, pois como é que se distingue a verdade da ficção?
Em grande medida isto deveria balizar a forma como nós apresentamos as notícias e a informação, mas, por outro lado, levanta outro factor crítico, pois ao contrário dos media tradicionais, o jornalismo independente baseado na web necessita de uma participação activa do leitor. Para sermos lidos é necessária uma procura activa de uma interpretação alternativa da realidade. De certa forma, isto impõe uma responsabilidade acrescida ao jornalismo independente, que os grandes meios de comunicação não procuram nem desejam.
Mas é suficiente apenas expor e, se não, como é que podemos ligar melhor a informação às acções?
O facto é que a maioria do jornalismo independente se origina com escritores NÃO ligados a qualquer tipo de estrutura política (assinalando mais uma vez o falhanço da esquerda em se organizar, ‘que porra’!)
E infelizmente podemos ir mais longe e dizer que em grande medida o jornalismo independente que tem origem em organizações de esquerda, é consistido principalmente por exortações e muito pouco por um pensamento criativo (os zapatitas são uma excepção a isto e merecem ser observados [1]. Ver também ‘Sobre Marxismo e Magia’.
Também não deixa de ser irónico que quando nós possuímos finalmente as ferramentas e a perícia para desafiar o status quo no seu próprio terreno, nos faltem os meios para traduzir as ideias para a acção.
Esta ideia é apoiada pela quantidade de correspondência que eu recebo de leitores frustrados que se sentem impotentes quando confrontados com a realidade, que querem realmente fazer alguma coisa mas procuram em vão por uma solução para aquilo que nos aflige.
Dando um ar positivo à situação, podemos dizer que pelo menos estamos colectivamente a construir bases para uma futura transformação. Fazer a mudança cabe a si, caro leitor.
Nota
[1] - Um para de recursos zapatistas:
Chiapas Media Project
Frente Zapatista de Liberación National
http://williambowles.info/ini/2007/0407/ini-0481.html
http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/16984.html
No entanto, até chegar o ‘website’, disponibilizar informação electronicamente era uma ‘arte arcana’, para não mencionar que era muito dispendiosa em tempo e dinheiro, bem como era pouco fiável. A ‘web’, claro, alterou tudo isso, e conseguiu eventualmente alavancar as aplicações de publicação, fazendo pela ‘web’ o que a paginação electrónica tinha feito pela impressão.
Mas para além de tudo mais que a ‘Web’ possa ser ‘responsablizada’, ela libertou um rio de escrita criativa, de um modo como provavelmente não tinha sido visto desde a introdução da máquina de imprensa.
Previsivelmente, as reacções iniciais dos ‘profissionais’ foi ignorar este jorrar de vozes independentes. Basta lermos o que os jornais diziam sobre os ‘Blogues’ (como eu odeio esta palavra!) e a sua fúria contra ‘amadores’ estarem a introduzir-se no ‘seu’ domínio!
Isto foi seguido por um período de desdém paternalista e condescendente, focando-se em grande parte nos erros sintácticos, ou no não seguimento de ‘regras’ (como as definidas pelos grandes meios de comunicação) e nenhuma delas pode ser considerada ciência aeroespacial. De facto, eu nunca deixei de me espantar com a total ignorância de muitos dos ‘ensinados’ na universidade, jornalistas profissionais, especialmente sobre história, nomeadamente assuntos internacionais, mas só que eu tive uma ampla educação comuna, e foi isso que me poupou de uma des-educação universitária (em vez disso, pude vageuar durante 5 anos numa escola de arte).
Claro que há coisas mal escritas na web, mas o jornalismo vigente também é puro lixo e nem merece o rótulo de jornalismo.
Depois, veio relutantemente uma espécie de aceitação, especialmente quando escritores independentes baseados na web começaram mostrar-se ‘melhores’ revelando histórias e mostrando que o jornalismo ‘de papel’ estava totalmente a leste (Google? O que é isso?). Quase sempre, no entanto, os jornalistas dos grandes meios de comunicação usaram-nos como uma fonte (gratuita) de informação sobre o que eles não sabiam ou eram preguiçosos demais para procurar por eles próprios, não que muito tenha sido usado, pelo menos de uma forma reconhecível.
Ah! Mas ‘toda a informação é gratuita, certo? ‘ Errado. Eu acabo de receber uma carta de advogados da empresa de comunicação Gannett, pedindo que eu deixe de ter disponíveis artigos publicados em seis edições do ‘GI Special’ que parece que contêm material protegido por direitos de autor em poder da Gannett (‘Uso Não-Comercial’? O que é isso?).
Mas tendo finalmente compreendido que não havia nada que pudessem fazer em relação à explosão de jornalismo baseado na web, os seus chefes corporativos decidiram juntar-se ao barulho e claro, com os vastos recursos à sua disposição, não demorou muito até que cada um dos grandes meios de comunicação tivesse o seu próprio ‘blogue’.
Mas para o diferenciar do ‘verdadeiro jornalismo’, vimos aparecer o rótulo de ‘jornalismo do cidadão’, com a resultante depreciação do seu conteúdo, implicando que, ‘está bem, toda a gente tem direito a uma opinião e a liberdade de dizer o que bem lhe apetecer, mas não confundam isso com o ‘verdadeiro’ jornalismo, deixei ISSO para os profissionais’.
E mesmo no domínio do chamado jornalismo do cidadão, nós vemos que a maior parte é aquilo que esperaríamos encontrar em qualquer secção de ‘comentários’ de um ‘website’. Não se compara com o tipo de jornalismo independente de que estou a falar. De facto, pode dizer-se que apenas junta mais ‘ruído’ ao que já existe na web.
Mas em conjunto com a visão de que nós não tínhamos nada que nos meter no território ‘deles’, está subjacente nas suas reacções o simples facto de que muita da explosão da escrita na web era da ‘esquerda’, ou pelo menos questionava a lama jorrada pelos grandes meios de comunicação e o que realmente os incomodou foi que nós estávamos a divulgar histórias importantes muito antes deles e ao fazê-lo, transformando literalmente a natureza do jornalismo tradicional, dominado que está pelas necessidades corporativas/do estado.
Mas qualquer que seja a opinião de cada um sobre a qualidade da escrita encontrada na web, a razão fundamental para a oposição dos grandes meios de comunicação é de natureza ideológica. Eles têm apenas dois objectivos: preservar as receitas de publicidade e o status quo.
Também há outros problemas fundamentais que confrontam as notícias baseadas na web e as fontes de informação que são, pelo menos em parte, produto da própria natureza da web. Em primeiro lugar, o enorme volume é em si mesmo uma barreira, pois implica que ao contrário das notícias corporativas que têm penetração através da exposição-cruzada, as fontes independentes de notícias mesmo quando colectivamente grandes, são fragmentadas através de muitos títulos. É quase como um jornal local tentar atingir uma audiência nacional.
Para além disso, as notícias corporativas apresentam uma interpretação consistente, independentemente do meio de comunicação ou mesmo da fonte, para que, permitindo diferenças estilísticas e um público-alvo, a mesma mensagem seja transmitida, reforçando o mito da ‘opinião consensual’.
Para além disso, a natureza da web tende ela própria para o monopólio simplesmente porque as notícias corporativas com base na web são braços de um leque de meios de comunicação; imprensa, televisão, rádio, com cada um a ter acesso aos outros através de marketing-cruzado e publicidade. Sendo assim, tal como nos media tradicionais, são as grandes marcas que dominam; BBC, MSNBC, ABC ou outros do género, em virtude da grande exposição que conseguem obter.
O outro perigo é a tentativa de afastar as notícias independentes para fora do ambiente web cobrando pela colocação de informação ou pela quantidade de largura de banda consumida. Por outras palavras, privatizando o acesso através do preço, mais uma vez porque uma mão cheia de corporações é dona ou controla os acessos à Internet (de facto, o grosso do acesso em banda larga é detido e controlado por uma corporação!).
Penso, portanto, que é uma verdade dizer que apesar de chegarmos a uma audiência mundial, mas de uma forma fragmentada e inconsistente, nunca podemos rivalizar com os media corporativos.
Então qual é a solução? Um importante componente do nosso alcance é seguramente desabituar as pessoas de verem as notícias corporativas como uma fonte de notícias e informação. Mas significa isto passarmos uma mensagem uniforme? De certa forma, sim. Mas quem somos ‘nós’? Ah, aqui é que a porca torce o rabo.
O que isto mostra é o problema fundamental que enfrentamos, nomeadamente que sem uma base política coerente que configure as notícias e informação independentes, iremos permanecer fragmentados e marginalizados.
O jornalismo independente e progressista tem de ter raízes na acção, pois ao contrário dos grandes meios de comunicação que procuram preservar o status quo, o nosso pretende alterá-lo, por isso as comparações entre os dois são um bocado inúteis. Isto pode parecer óbvio mas para um público apoiado na ilusão de que as ‘notícias’ são objectivas e apresentam uma fictícia visão imparcial dos acontecimentos, esta diferença é crucial. É tanto assim que isto forma a base de virtualmente todas as críticas colocadas aos media independentes pelos grandes meios de comunicação.
Estes dois aspectos são o centro da situação que defrontamos, pois como é que se distingue a verdade da ficção?
Em grande medida isto deveria balizar a forma como nós apresentamos as notícias e a informação, mas, por outro lado, levanta outro factor crítico, pois ao contrário dos media tradicionais, o jornalismo independente baseado na web necessita de uma participação activa do leitor. Para sermos lidos é necessária uma procura activa de uma interpretação alternativa da realidade. De certa forma, isto impõe uma responsabilidade acrescida ao jornalismo independente, que os grandes meios de comunicação não procuram nem desejam.
Mas é suficiente apenas expor e, se não, como é que podemos ligar melhor a informação às acções?
O facto é que a maioria do jornalismo independente se origina com escritores NÃO ligados a qualquer tipo de estrutura política (assinalando mais uma vez o falhanço da esquerda em se organizar, ‘que porra’!)
E infelizmente podemos ir mais longe e dizer que em grande medida o jornalismo independente que tem origem em organizações de esquerda, é consistido principalmente por exortações e muito pouco por um pensamento criativo (os zapatitas são uma excepção a isto e merecem ser observados [1]. Ver também ‘Sobre Marxismo e Magia’.
Também não deixa de ser irónico que quando nós possuímos finalmente as ferramentas e a perícia para desafiar o status quo no seu próprio terreno, nos faltem os meios para traduzir as ideias para a acção.
Esta ideia é apoiada pela quantidade de correspondência que eu recebo de leitores frustrados que se sentem impotentes quando confrontados com a realidade, que querem realmente fazer alguma coisa mas procuram em vão por uma solução para aquilo que nos aflige.
Dando um ar positivo à situação, podemos dizer que pelo menos estamos colectivamente a construir bases para uma futura transformação. Fazer a mudança cabe a si, caro leitor.
Nota
[1] - Um para de recursos zapatistas:
Chiapas Media Project
Frente Zapatista de Liberación National
http://williambowles.info/ini/2007/0407/ini-0481.html
http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/16984.html
México revisitado, comovente e contraditório
Voltar ao México é sempre para mim o reencontro com um povo que me fascina como nenhum outro na América Latina.
Tão imprevisível é ali tudo que ao chegar não tento imaginar o que vou sentir.
Em Março durante duas semanas escassas confirmei essa certeza.
Em vésperas da viagem lera o ensaio de um historiador famoso sobre as lutas sociais na América. A referência ao México era brevíssima. Na sua opinião nada ali acontecia que merecesse comentar, num momento em que no Sul do Hemisfério crescia a vaga anti-imperialista e as políticas neoliberais eram repudiadas pelas grandes maiorias.
É uma opinião de que discordo.
As aparências da vassalagem mexicana perante o sistema de poder dos EUA são enganadoras. Numa palestra que fiz em Córdoba, no estado de Veracruz, comparei o México a uma mulher grávida. O parto ainda não tem data, mas as tensões acumuladas no ventre da terra mexicana anunciam uma nova vida.
A previsão parece absurda porque o actual presidente é um político de direita defensor de um reforço da aliança com Washington. As circunstâncias em que Felipe Calderón foi investido na Presidência ajudam, porém, a compreender a complexidade de uma crise do poder das forças mais reaccionárias do país após a vitória de Pirro por elas alcançada.
O candidato do Partido de Acción Nacional - PAN foi declarado vencedor das eleições pelo Instituto Federal Eleitoral pós uma gigantesca e inocultável fraude. Esta repetiu outras anteriores, mas em circunstâncias tão escandalosas que se tornou inevitável uma recontagem dos votos, aliás também fraudulenta.
Calderón sucedeu a Vicente Fox, o primeiro político da direita assumida que chegou à Presidência após a vitória da Revolução Mexicana há quase 90 anos.
Fox, presidente da Coca-Cola, um empresário sem passado político, foi apoiado pela organização ultra-direitista Yunque que controlava a direcção do PAN. A sua mulher, Marta Sahagun (que somente não foi candidata por estar envolvida em escândalos maiúsculos), manteve relações estreitas com os Legionários de Cristo, uma associação de fanáticos anti preservativo, defensora da imposição do catolicismo como religião de Estado. Fez a política que dele se poderia esperar.
O candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Roberto Madrazo, partiu para a eleição derrotado. O velho partido é hoje uma relíquia que nada tem de revolucionário. Cabe-lhe a responsabilidade de, em sucessivos governos, ter destruído grande parte do sector empresarial do Estado. Acumpliciado com o PAN, foi no Poder um executor fiel das receitas neoliberais impostas pelo Consenso de Washington.
A luta eleitoral travou-se, assim, entre o PAN e o Partido da Revolução Democrática- PRD.
Os media internacionais, com poucas excepções, identificaram o PRD como um partido de esquerda. Alguns foram mais longe: definiram Andrés Manuel Lopez Obrador ,o seu candidato, como um politico de tendência socialista.
Trata-se de uma inverdade. Obrador nunca falou de socialismo na sua campanha, nem sequer como meta distante.
No México há quase duas décadas não participa em eleições por falta de registo eleitoral qualquer organização socialista.
Obrador pode ser definido como um social-democrata moderado. Manteve a tradição. Cuauhtemoc Cardenas, o fundador do PRD, desenvolveu esforços em 1999 para chegar a um acordo com o PAN cujo objectivo seria evitar a vitória do candidato do PRI. Lopez Obrador aprovou. "Temos discordâncias – afirmou então em Tabasco – mas a democracia está em primeiro lugar" [1] .
Estranho conceito de democracia que abrange um partido aberto a entendimentos com deputados da extrema-direita.
Os acordos políticos espúrios são aliás tradicionais na falsa democracia mexicana. Cabe recordar que durante a Presidência de Salinas de Gortari, o PRI e o PAN tinham actuado no Congresso como forças complementares na ofensiva neoliberal de privatizações. Salinas, um Harvard Boy, precisou então dos votos da bancada panista para impor as emendas constitucionais que destruíram conquistas históricas da Revolução Mexicana.
Falseiam portanto a realidade os analistas que "acusaram" Lopez Obrador de ser um reformista revolucionário, vendo nele um aliado potencial de Hugo Chávez. O candidato do PRD nem sequer declarou ser anti-capitalista. É suficiente ler o seu "Projecto Alternativo de Nação" para se perceber que o Programa da coligação Por el Bien de Todos não era de esquerda. Durante a campanha eleitoral as criticas ao imperialismo foram, aliás, tímidas.
É um facto que somente uma enorme fraude impediu Obrador de ser proclamado Presidente da República. Uma fraude tão transparente e escandalosa que o candidato roubado não reconheceu a decisão do tribunal Eleitoral e constituiu um governo paralelo, declarando ilegítimo o de Felipe Calderón.
O escândalo foi tanto maior quanto durante mais de um ano as sondagens atribuíam a Lopez Obrador uma vitoria confortável sobre o candidato do PAN.
A OUTRA CAMPANHA
Um sector ponderável da sociedade mexicana extraiu, entretanto, conclusões inesperadas da fraude eleitoral. A máscara democrática do regime caiu com estrondo.
A rebelião de Oaxaca não deve ser interpretada como acontecimento localizado, que expressou a revolta dos habitantes de uma cidade contra o abuso de poder de um governador brutal.
A chamada "Comuna de Oaxaca" resistiu durante meses a uma repressão criminosa. O governo de Calderón acabou por lançar o exército contra a população. Mas não atingiu o objectivo. Os apelos, reivindicações e denúncias da Assembleia Popular do Povo de Oaxaca (APPO) atravessaram fronteiras e sensibilizaram a humanidade progressista para lutas que, transcendendo o âmbito do México, têm um significado simbólico.
Surtos de rebeldia, reprimidos com violência pelo governo, demonstram que Oaxaca não foi um protesto isolado. Posteriormente foi em Atenco. Depois a repressão chegou a Chiapas, berço do Zapatismo.
Cientistas sociais que apoiaram a candidatura de Lopez Obrador tentam minimizar o significado da Outra Campanha, o movimento lançado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional e por organizações revolucionárias como o Partido dos Comunistas Mexicanos.
A minha visita ao México fortaleceu a convicção de que A Outra Campanha – iniciativa de que pouco se falou na Europa e mal compreendida por personalidades progressistas na América Latina – não agiu irresponsavelmente ao apelar à abstenção.
A rebelião de Oaxaca confirmou a correcção da estratégia que levou destacados intelectuais a distanciar-se do subcomandante Marcos e da nova estratégia revolucionária do EZLN.
A Outra Campanha partiu da conclusão de que qualquer que fosse o candidato eleito a politica de submissão aos EUA prosseguiria. Obviamente Obrador difere muito do Calderón. Mas no fundamental ambos desenvolveriam políticas neoliberais, invocando a democracia para a negarem na prática, governando para os de cima contra os de baixo.
Essa Campanha inédita começou a esboçar-se quando o subcomandante Marcos, em nome do EZLN, numa inflexão estratégica inesperada, propôs à esquerda revolucionária e a movimentos sociais progressistas uma alternativa ao processo eleitoral tradicional e em choque com ele. Uma Campanha sem candidato, orientada para a denúncia do sistema, com um rosto claramente anti-capitalista e revolucionário.
Numa primeira etapa os dirigentes e activistas da campanha percorreram numerosos Estados. Não pediram votos. O objectivo era tornar transparente que o responsável pelos grandes problemas que preocupam as populações é um sistema, o capitalista, e que a luta para o destruir será muito prolongada e difícil e exigirá a unidade dos povos indígenas, da classe trabalhadora, dos camponeses, das mulheres, dos jovens, dos estudantes e intelectuais progressistas.
"Para identificar esse inimigo comum – as palavras são de Pablo Blanco Cabrera, dirigente do Partido dos Comunistas – a Outra Campanha adoptou um método: ouvir. E então, quando um camponês do Sudeste consegue escutar um camponês do Norte e percebe que enfrenta exactamente o mesmo problema e o mesmo inimigo, compreende que não pode lutar sozinho. Ocorre o mesmo com trabalhadores, com os jovens, etc. Temos agora um movimento muito amplo, extensivo, que sabe não ser suficiente mudar um governo, que é indispensável mudar um sistema, um movimento que compreende a necessidade de romper radicalmente com o neoliberalismo e o capitalismo. E é esse elemento de qualidade que diferencia a luta no México da travada por povo irmãos do Continente. Essa é a garantia de que, chegado o momento não será possível deter o impulso de um povo decidido a pôr-se de pé".
Oaxaca aponta um caminho. Os surtos de rebeldia irrompem inesperadamente em áreas muito distantes. Em Guerrero Negro, na Baixa Califórnia, após anos de espera por decisões judiciais, centenas de ejidatários (camponeses que partilham uma forma tradicional de propriedade colectiva) decidiram recuperar terras de que a Mitsubishi os tinha despojado, terras muito ricas em petróleo. Em Sinaloa os pescadores mobilizaram-se para uma luta de larga duração, o mesmo acontecendo com os comuneros de Parota.
São revolucionários com formação politica esses trabalhadores? Não. Mas o desespero levou-os a adoptar modalidades de luta que anos atrás eram impensáveis. Finalmente, compreenderam que nada podem esperar de um sistema de fachada democrática.
Emiliano Zapata e Pancho Villa, os grandes caudilhos da segunda década do século XX, não tinham sequer conhecimento do marxismo quando se levantaram em armas contra a opressão secular de que eram vítimas os camponeses da época. E, contudo, foram pioneiros e heróis de uma revolução nacional libertadora. Ambos tomarem consciência de que a democracia maderista era, afinal, uma falsa democracia e que a Revolução Mexicana somente avançaria se o povo oprimido assumisse o seu papel de sujeito da História.
Não pretendo estabelecer analogias porque o século XXI é profundamente diferente daquele em que viveram e lutaram Zapata e Villa.
Mas a Outra Campanha está abrindo os olhos a uma geração de mexicanos, vítima de um sistema instaurado paradoxalmente pela Revolução que, ao institucionalizar-se, se tornou progressivamente contra-revolucionária.
A sua segunda etapa estará nas estradas do México no momento em que escrevo.
O QUE VI E SENTI
Transcorreram duas semanas desde que regressei do México. E tenho ainda dificuldade em arrumar as ideias. Imagens, sensações, emoções, a memória do que vi, ouvi e senti fundem-se num painel de contornos imprecisos, tão complexo que imprime à reflexão rumos que não consigo controlar.
Identifico no México, repito, a cultura mais fascinante da América. Filho de duas civilizações que se chocaram tragicamente, o seu povo mestiço ainda não forma uma nação. A dualidade que persiste não impediu a formação de uma consciência nacional muito forte. É suficiente visitar o Museu Nacional de Antropologia – um dos mais belos do mundo – e entrar na grande sala de Tenochtitlán para se captar o orgulho doloroso da mexicanidade e a esperança que ele abre para o futuro, enraizada nas tormentas de um passado semeado de humilhações.
Participei no Seminário Internacional do Partido do Trabalho, numa Conferência Nacional de Solidariedade com o povo da Colômbia, pronunciei uma Conferencia na Universidade Nacional Autónoma do México (380 mil estudantes e professores), e fiz duas palestras nos Estados de Veracruz e Morelos.
Eram obviamente diferentes os públicos e a atmosfera. Mas uma ponte os uniu. O México é neste início do século XXI um laboratório onde ferve o debate de ideias. O repúdio do neoliberalismo, cujas polítcas são responsáveis por um empobrecimento progressivo do povo, não obstante o pais ser riquíssimo em recursos naturais, contribuiu para reforçar o sentimento anti-imperialista, profundamente ancorado no coração dos mexicanos.
A permanência no governo de uma burguesia reaccionária, submissa a todas as imposições do sistema de poder dos EUA, estimula a repulsa pelo Tratado de Livre Comercio da América do Norte, que recolonizou o país.
A convicção de que a conquista da independência real passa pelo processo de integração dos povos a Sul do rio Bravo deixou de ser um sonho para se tornar objectivo. A defesa da integração manifesta-se em discursos diferentes, consoante a ideologia, mas ganha adeptos a cada mês. A popularidade de Hugo Chávez, hoje o revolucionário que empunha a bandeira unidade latino-americana, reflecte o renascimento do projecto de Bolívar.
A participação dos jovens militantes no debate dos grandes problemas do nosso tempo impressionou-me muito.
Em Córdoba, Vera Cruz, e Jojutla, Morelos, falei para quadros do Partido dos Comunistas, promotor desses encontros. Independentemente do tema das palestras, foram levantadas questões inseparáveis da crise global que a humanidade enfrenta. As perguntas deixavam transparecer um nível de informação elevado e uma formação ideológica marxista pouco comum noutros países do Continente. Do Iraque, do Irão, da Palestina e do sionismo partia-se para problemas da Ásia Oriental, o agravamento da crise do sistema imperial estadunidense, e daí para a União Europeia, as eleições francesas e a América Latina. Os jovens comunistas mexicanos manifestaram um interesse especial pelos desafios colocados pela transição do capitalismo para o socialismo, pelas causas profundas, internas e externas, do fim do socialismo na URSS, pelos trabalhos de marxistas europeus como Georges Labica, Henri Alleg, Gastaud e István Meszaros. Chamei a atenção para o grande significado do livro "Lenine e a Revolução", do professor francês Jean Salem – praticamente ignorado no seu país – e, quando foi colocado o tema do Socialismo como única alternativa ao capitalismo em fase senil, o debate prolongou-se.
Na América Latina tornou-se quase uma moda defender aquilo a que chamam o Socialismo do Século XXI. O facto de Hugo Chávez e destacados académicos utilizarem a expressão e fazerem a apologia de um socialismo de contornos difusos tem contribuído para uma chuva de adesões a algo que ninguém sabe exactamente o que é, para além de uma fórmula vazia de conteúdo. Registei que os comunistas mexicanos têm consciência da diversidade da América Latina. Defensores da integração económica dos países irmãos do Hemisfério, não desconhecem que o socialismo terá de apresentar cores nacionais em sociedades culturalmente tão diferentes como são o México e o Paraguai, a Argentina e a Guatemala, o Brasil e o Equador.
Aliás, a moda do Socialismo do século XXI tem sido utilizada por alguns intelectuais, sobretudo de tendência anarquista e trotskista, para catilinárias anti-soviéticas nas quais as criticas a Stalin e à dramática burocratização do PCUS funcionam como trampolim para o ataque à Revolução de Outubro, à sua herança, e a Lenine.
NO MÉXICO ENCANTATÓRIO
No México invade-me sempre a sensação estranha de que descubro aquilo que contemplei em visitas anteriores. É um redescobrimento do conhecido.
Não voltei desta vez a Teotihuacan, a cidade mágica cujas ruínas apareceram como obra divina aos astecas, no século XIV, quando caminhavam pelo planalto rumo à grande laguna onde fundariam Tenochtitlán destruída pelos espanhóis duzentos anos depois.
Mas passei horas no museu de Antropologia e no do Templo Mayor, em meditação sobre a história de uma civilização assassinada.
A herança monumental e as mensagens pungentes deixadas pelo povo de Cuauhtemoc empurram-me sempre para viagens pelas estradas da imaginação. Na busca de um paralelo para o encontro e o choque de Hernan Cortez com a grande metrópole asteca ocorre-me que o desenvolvimento brutal da história foi ali algo não muito diferente do que teria acontecido se Afonso de Albuquerque, ao chegar a Ormuz, tivesse encontrado uma cidade como a Babilónia de Hamurabí.
No meu perambular pelo centro histórico da metrópole tentacular redescobri o genocídio da colonização e o pulsar da epopeia revolucionária do século XX nos murais de Diego Ribera tão harmoniosamente inseridos na monumentalidade do Palácio Nacional dominando o Zocalo, a maior praça da América.
Revisitar Coyoacan, ilha de arte e tranquilidade incrustada na megalópolis, foi um dever para sentir na Casa Azul a magia humana de toques surrealistas da companheira de Diego, Frida Kahlo, outro génio da pintura contemporânea. Ali viveu Trotsky, na primeira fase do seu exílio mexicano, antes de se mudar para a vivenda, a dois quarteirões de distância, onde foi assassinado em 1940. Hoje é um Museu onde se sente o movimento da História. Tudo ali parece ao visitante simultaneamente próximo e muito distante.
O tempo era curto, mas encontrei um dia para ir até Taxco, uma das mais belas cidades coloniais da América. Percorrendo as suas ruelas emolduradas por brancos casarões setecentistas, senti algum mal-estar pela contradição entre o tempo parado da Nova Espanha da época dos Bourbons e a modernidade agressiva da onda turística. Na velha Plaza de Armas, uma Igreja de pedra rosada exibe os esplendores floridos do churrigueresco e do plateresco da Espanha em decadência. O ouro, no retábulo e nas capelas, recorda a riqueza insolente dos senhores da Conquista nascida da dominação criminosa sobre os filhos da terra. Li num guia que o templo foi construído por um espanhol dono de nove minas de prata e uma de ouro.
Taxco, desafiando o tempo, apareceu-me como imagem do México encantatório, um país no qual o sofrimento e a alegria formam um amálgama comovente. Sob o manto de um pessimismo secular mantém-se viva ali uma esperança infinita.
Essa esperança tocou-me como chicotada na antiga hacienda que foi Quartel General de Emiliano Zapata, perto de Jojutla. A Revolução Mexicana, como outras, foi antropofágica. Devorou os seus melhores filhos. Mas as sementes não secaram. Podem germinar novamente.
Pavel Blanco, o jovem dirigente comunista, afirma que no México "a vontade de luta de um povo que sabe esperar, mas cuja paciência chegou ao limite, se combina hoje com situações objectivas inaceitáveis para a vida e com um elemento novo, a unidade de rebeldes e revolucionários".
O México, insisto, lembra uma mulher grávida, em cujo ventre germina uma nova vida.
[1] Octávio Rodriguez de Araújo, México en Vilo, 2ª edição, Jorale Editores, México, Setembro de 2006
Miguel Urbano Rodrigues
http://resistir.info/
Tão imprevisível é ali tudo que ao chegar não tento imaginar o que vou sentir.
Em Março durante duas semanas escassas confirmei essa certeza.
Em vésperas da viagem lera o ensaio de um historiador famoso sobre as lutas sociais na América. A referência ao México era brevíssima. Na sua opinião nada ali acontecia que merecesse comentar, num momento em que no Sul do Hemisfério crescia a vaga anti-imperialista e as políticas neoliberais eram repudiadas pelas grandes maiorias.
É uma opinião de que discordo.
As aparências da vassalagem mexicana perante o sistema de poder dos EUA são enganadoras. Numa palestra que fiz em Córdoba, no estado de Veracruz, comparei o México a uma mulher grávida. O parto ainda não tem data, mas as tensões acumuladas no ventre da terra mexicana anunciam uma nova vida.
A previsão parece absurda porque o actual presidente é um político de direita defensor de um reforço da aliança com Washington. As circunstâncias em que Felipe Calderón foi investido na Presidência ajudam, porém, a compreender a complexidade de uma crise do poder das forças mais reaccionárias do país após a vitória de Pirro por elas alcançada.
O candidato do Partido de Acción Nacional - PAN foi declarado vencedor das eleições pelo Instituto Federal Eleitoral pós uma gigantesca e inocultável fraude. Esta repetiu outras anteriores, mas em circunstâncias tão escandalosas que se tornou inevitável uma recontagem dos votos, aliás também fraudulenta.
Calderón sucedeu a Vicente Fox, o primeiro político da direita assumida que chegou à Presidência após a vitória da Revolução Mexicana há quase 90 anos.
Fox, presidente da Coca-Cola, um empresário sem passado político, foi apoiado pela organização ultra-direitista Yunque que controlava a direcção do PAN. A sua mulher, Marta Sahagun (que somente não foi candidata por estar envolvida em escândalos maiúsculos), manteve relações estreitas com os Legionários de Cristo, uma associação de fanáticos anti preservativo, defensora da imposição do catolicismo como religião de Estado. Fez a política que dele se poderia esperar.
O candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Roberto Madrazo, partiu para a eleição derrotado. O velho partido é hoje uma relíquia que nada tem de revolucionário. Cabe-lhe a responsabilidade de, em sucessivos governos, ter destruído grande parte do sector empresarial do Estado. Acumpliciado com o PAN, foi no Poder um executor fiel das receitas neoliberais impostas pelo Consenso de Washington.
A luta eleitoral travou-se, assim, entre o PAN e o Partido da Revolução Democrática- PRD.
Os media internacionais, com poucas excepções, identificaram o PRD como um partido de esquerda. Alguns foram mais longe: definiram Andrés Manuel Lopez Obrador ,o seu candidato, como um politico de tendência socialista.
Trata-se de uma inverdade. Obrador nunca falou de socialismo na sua campanha, nem sequer como meta distante.
No México há quase duas décadas não participa em eleições por falta de registo eleitoral qualquer organização socialista.
Obrador pode ser definido como um social-democrata moderado. Manteve a tradição. Cuauhtemoc Cardenas, o fundador do PRD, desenvolveu esforços em 1999 para chegar a um acordo com o PAN cujo objectivo seria evitar a vitória do candidato do PRI. Lopez Obrador aprovou. "Temos discordâncias – afirmou então em Tabasco – mas a democracia está em primeiro lugar" [1] .
Estranho conceito de democracia que abrange um partido aberto a entendimentos com deputados da extrema-direita.
Os acordos políticos espúrios são aliás tradicionais na falsa democracia mexicana. Cabe recordar que durante a Presidência de Salinas de Gortari, o PRI e o PAN tinham actuado no Congresso como forças complementares na ofensiva neoliberal de privatizações. Salinas, um Harvard Boy, precisou então dos votos da bancada panista para impor as emendas constitucionais que destruíram conquistas históricas da Revolução Mexicana.
Falseiam portanto a realidade os analistas que "acusaram" Lopez Obrador de ser um reformista revolucionário, vendo nele um aliado potencial de Hugo Chávez. O candidato do PRD nem sequer declarou ser anti-capitalista. É suficiente ler o seu "Projecto Alternativo de Nação" para se perceber que o Programa da coligação Por el Bien de Todos não era de esquerda. Durante a campanha eleitoral as criticas ao imperialismo foram, aliás, tímidas.
É um facto que somente uma enorme fraude impediu Obrador de ser proclamado Presidente da República. Uma fraude tão transparente e escandalosa que o candidato roubado não reconheceu a decisão do tribunal Eleitoral e constituiu um governo paralelo, declarando ilegítimo o de Felipe Calderón.
O escândalo foi tanto maior quanto durante mais de um ano as sondagens atribuíam a Lopez Obrador uma vitoria confortável sobre o candidato do PAN.
A OUTRA CAMPANHA
Um sector ponderável da sociedade mexicana extraiu, entretanto, conclusões inesperadas da fraude eleitoral. A máscara democrática do regime caiu com estrondo.
A rebelião de Oaxaca não deve ser interpretada como acontecimento localizado, que expressou a revolta dos habitantes de uma cidade contra o abuso de poder de um governador brutal.
A chamada "Comuna de Oaxaca" resistiu durante meses a uma repressão criminosa. O governo de Calderón acabou por lançar o exército contra a população. Mas não atingiu o objectivo. Os apelos, reivindicações e denúncias da Assembleia Popular do Povo de Oaxaca (APPO) atravessaram fronteiras e sensibilizaram a humanidade progressista para lutas que, transcendendo o âmbito do México, têm um significado simbólico.
Surtos de rebeldia, reprimidos com violência pelo governo, demonstram que Oaxaca não foi um protesto isolado. Posteriormente foi em Atenco. Depois a repressão chegou a Chiapas, berço do Zapatismo.
Cientistas sociais que apoiaram a candidatura de Lopez Obrador tentam minimizar o significado da Outra Campanha, o movimento lançado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional e por organizações revolucionárias como o Partido dos Comunistas Mexicanos.
A minha visita ao México fortaleceu a convicção de que A Outra Campanha – iniciativa de que pouco se falou na Europa e mal compreendida por personalidades progressistas na América Latina – não agiu irresponsavelmente ao apelar à abstenção.
A rebelião de Oaxaca confirmou a correcção da estratégia que levou destacados intelectuais a distanciar-se do subcomandante Marcos e da nova estratégia revolucionária do EZLN.
A Outra Campanha partiu da conclusão de que qualquer que fosse o candidato eleito a politica de submissão aos EUA prosseguiria. Obviamente Obrador difere muito do Calderón. Mas no fundamental ambos desenvolveriam políticas neoliberais, invocando a democracia para a negarem na prática, governando para os de cima contra os de baixo.
Essa Campanha inédita começou a esboçar-se quando o subcomandante Marcos, em nome do EZLN, numa inflexão estratégica inesperada, propôs à esquerda revolucionária e a movimentos sociais progressistas uma alternativa ao processo eleitoral tradicional e em choque com ele. Uma Campanha sem candidato, orientada para a denúncia do sistema, com um rosto claramente anti-capitalista e revolucionário.
Numa primeira etapa os dirigentes e activistas da campanha percorreram numerosos Estados. Não pediram votos. O objectivo era tornar transparente que o responsável pelos grandes problemas que preocupam as populações é um sistema, o capitalista, e que a luta para o destruir será muito prolongada e difícil e exigirá a unidade dos povos indígenas, da classe trabalhadora, dos camponeses, das mulheres, dos jovens, dos estudantes e intelectuais progressistas.
"Para identificar esse inimigo comum – as palavras são de Pablo Blanco Cabrera, dirigente do Partido dos Comunistas – a Outra Campanha adoptou um método: ouvir. E então, quando um camponês do Sudeste consegue escutar um camponês do Norte e percebe que enfrenta exactamente o mesmo problema e o mesmo inimigo, compreende que não pode lutar sozinho. Ocorre o mesmo com trabalhadores, com os jovens, etc. Temos agora um movimento muito amplo, extensivo, que sabe não ser suficiente mudar um governo, que é indispensável mudar um sistema, um movimento que compreende a necessidade de romper radicalmente com o neoliberalismo e o capitalismo. E é esse elemento de qualidade que diferencia a luta no México da travada por povo irmãos do Continente. Essa é a garantia de que, chegado o momento não será possível deter o impulso de um povo decidido a pôr-se de pé".
Oaxaca aponta um caminho. Os surtos de rebeldia irrompem inesperadamente em áreas muito distantes. Em Guerrero Negro, na Baixa Califórnia, após anos de espera por decisões judiciais, centenas de ejidatários (camponeses que partilham uma forma tradicional de propriedade colectiva) decidiram recuperar terras de que a Mitsubishi os tinha despojado, terras muito ricas em petróleo. Em Sinaloa os pescadores mobilizaram-se para uma luta de larga duração, o mesmo acontecendo com os comuneros de Parota.
São revolucionários com formação politica esses trabalhadores? Não. Mas o desespero levou-os a adoptar modalidades de luta que anos atrás eram impensáveis. Finalmente, compreenderam que nada podem esperar de um sistema de fachada democrática.
Emiliano Zapata e Pancho Villa, os grandes caudilhos da segunda década do século XX, não tinham sequer conhecimento do marxismo quando se levantaram em armas contra a opressão secular de que eram vítimas os camponeses da época. E, contudo, foram pioneiros e heróis de uma revolução nacional libertadora. Ambos tomarem consciência de que a democracia maderista era, afinal, uma falsa democracia e que a Revolução Mexicana somente avançaria se o povo oprimido assumisse o seu papel de sujeito da História.
Não pretendo estabelecer analogias porque o século XXI é profundamente diferente daquele em que viveram e lutaram Zapata e Villa.
Mas a Outra Campanha está abrindo os olhos a uma geração de mexicanos, vítima de um sistema instaurado paradoxalmente pela Revolução que, ao institucionalizar-se, se tornou progressivamente contra-revolucionária.
A sua segunda etapa estará nas estradas do México no momento em que escrevo.
O QUE VI E SENTI
Transcorreram duas semanas desde que regressei do México. E tenho ainda dificuldade em arrumar as ideias. Imagens, sensações, emoções, a memória do que vi, ouvi e senti fundem-se num painel de contornos imprecisos, tão complexo que imprime à reflexão rumos que não consigo controlar.
Identifico no México, repito, a cultura mais fascinante da América. Filho de duas civilizações que se chocaram tragicamente, o seu povo mestiço ainda não forma uma nação. A dualidade que persiste não impediu a formação de uma consciência nacional muito forte. É suficiente visitar o Museu Nacional de Antropologia – um dos mais belos do mundo – e entrar na grande sala de Tenochtitlán para se captar o orgulho doloroso da mexicanidade e a esperança que ele abre para o futuro, enraizada nas tormentas de um passado semeado de humilhações.
Participei no Seminário Internacional do Partido do Trabalho, numa Conferência Nacional de Solidariedade com o povo da Colômbia, pronunciei uma Conferencia na Universidade Nacional Autónoma do México (380 mil estudantes e professores), e fiz duas palestras nos Estados de Veracruz e Morelos.
Eram obviamente diferentes os públicos e a atmosfera. Mas uma ponte os uniu. O México é neste início do século XXI um laboratório onde ferve o debate de ideias. O repúdio do neoliberalismo, cujas polítcas são responsáveis por um empobrecimento progressivo do povo, não obstante o pais ser riquíssimo em recursos naturais, contribuiu para reforçar o sentimento anti-imperialista, profundamente ancorado no coração dos mexicanos.
A permanência no governo de uma burguesia reaccionária, submissa a todas as imposições do sistema de poder dos EUA, estimula a repulsa pelo Tratado de Livre Comercio da América do Norte, que recolonizou o país.
A convicção de que a conquista da independência real passa pelo processo de integração dos povos a Sul do rio Bravo deixou de ser um sonho para se tornar objectivo. A defesa da integração manifesta-se em discursos diferentes, consoante a ideologia, mas ganha adeptos a cada mês. A popularidade de Hugo Chávez, hoje o revolucionário que empunha a bandeira unidade latino-americana, reflecte o renascimento do projecto de Bolívar.
A participação dos jovens militantes no debate dos grandes problemas do nosso tempo impressionou-me muito.
Em Córdoba, Vera Cruz, e Jojutla, Morelos, falei para quadros do Partido dos Comunistas, promotor desses encontros. Independentemente do tema das palestras, foram levantadas questões inseparáveis da crise global que a humanidade enfrenta. As perguntas deixavam transparecer um nível de informação elevado e uma formação ideológica marxista pouco comum noutros países do Continente. Do Iraque, do Irão, da Palestina e do sionismo partia-se para problemas da Ásia Oriental, o agravamento da crise do sistema imperial estadunidense, e daí para a União Europeia, as eleições francesas e a América Latina. Os jovens comunistas mexicanos manifestaram um interesse especial pelos desafios colocados pela transição do capitalismo para o socialismo, pelas causas profundas, internas e externas, do fim do socialismo na URSS, pelos trabalhos de marxistas europeus como Georges Labica, Henri Alleg, Gastaud e István Meszaros. Chamei a atenção para o grande significado do livro "Lenine e a Revolução", do professor francês Jean Salem – praticamente ignorado no seu país – e, quando foi colocado o tema do Socialismo como única alternativa ao capitalismo em fase senil, o debate prolongou-se.
Na América Latina tornou-se quase uma moda defender aquilo a que chamam o Socialismo do Século XXI. O facto de Hugo Chávez e destacados académicos utilizarem a expressão e fazerem a apologia de um socialismo de contornos difusos tem contribuído para uma chuva de adesões a algo que ninguém sabe exactamente o que é, para além de uma fórmula vazia de conteúdo. Registei que os comunistas mexicanos têm consciência da diversidade da América Latina. Defensores da integração económica dos países irmãos do Hemisfério, não desconhecem que o socialismo terá de apresentar cores nacionais em sociedades culturalmente tão diferentes como são o México e o Paraguai, a Argentina e a Guatemala, o Brasil e o Equador.
Aliás, a moda do Socialismo do século XXI tem sido utilizada por alguns intelectuais, sobretudo de tendência anarquista e trotskista, para catilinárias anti-soviéticas nas quais as criticas a Stalin e à dramática burocratização do PCUS funcionam como trampolim para o ataque à Revolução de Outubro, à sua herança, e a Lenine.
NO MÉXICO ENCANTATÓRIO
No México invade-me sempre a sensação estranha de que descubro aquilo que contemplei em visitas anteriores. É um redescobrimento do conhecido.
Não voltei desta vez a Teotihuacan, a cidade mágica cujas ruínas apareceram como obra divina aos astecas, no século XIV, quando caminhavam pelo planalto rumo à grande laguna onde fundariam Tenochtitlán destruída pelos espanhóis duzentos anos depois.
Mas passei horas no museu de Antropologia e no do Templo Mayor, em meditação sobre a história de uma civilização assassinada.
A herança monumental e as mensagens pungentes deixadas pelo povo de Cuauhtemoc empurram-me sempre para viagens pelas estradas da imaginação. Na busca de um paralelo para o encontro e o choque de Hernan Cortez com a grande metrópole asteca ocorre-me que o desenvolvimento brutal da história foi ali algo não muito diferente do que teria acontecido se Afonso de Albuquerque, ao chegar a Ormuz, tivesse encontrado uma cidade como a Babilónia de Hamurabí.
No meu perambular pelo centro histórico da metrópole tentacular redescobri o genocídio da colonização e o pulsar da epopeia revolucionária do século XX nos murais de Diego Ribera tão harmoniosamente inseridos na monumentalidade do Palácio Nacional dominando o Zocalo, a maior praça da América.
Revisitar Coyoacan, ilha de arte e tranquilidade incrustada na megalópolis, foi um dever para sentir na Casa Azul a magia humana de toques surrealistas da companheira de Diego, Frida Kahlo, outro génio da pintura contemporânea. Ali viveu Trotsky, na primeira fase do seu exílio mexicano, antes de se mudar para a vivenda, a dois quarteirões de distância, onde foi assassinado em 1940. Hoje é um Museu onde se sente o movimento da História. Tudo ali parece ao visitante simultaneamente próximo e muito distante.
O tempo era curto, mas encontrei um dia para ir até Taxco, uma das mais belas cidades coloniais da América. Percorrendo as suas ruelas emolduradas por brancos casarões setecentistas, senti algum mal-estar pela contradição entre o tempo parado da Nova Espanha da época dos Bourbons e a modernidade agressiva da onda turística. Na velha Plaza de Armas, uma Igreja de pedra rosada exibe os esplendores floridos do churrigueresco e do plateresco da Espanha em decadência. O ouro, no retábulo e nas capelas, recorda a riqueza insolente dos senhores da Conquista nascida da dominação criminosa sobre os filhos da terra. Li num guia que o templo foi construído por um espanhol dono de nove minas de prata e uma de ouro.
Taxco, desafiando o tempo, apareceu-me como imagem do México encantatório, um país no qual o sofrimento e a alegria formam um amálgama comovente. Sob o manto de um pessimismo secular mantém-se viva ali uma esperança infinita.
Essa esperança tocou-me como chicotada na antiga hacienda que foi Quartel General de Emiliano Zapata, perto de Jojutla. A Revolução Mexicana, como outras, foi antropofágica. Devorou os seus melhores filhos. Mas as sementes não secaram. Podem germinar novamente.
Pavel Blanco, o jovem dirigente comunista, afirma que no México "a vontade de luta de um povo que sabe esperar, mas cuja paciência chegou ao limite, se combina hoje com situações objectivas inaceitáveis para a vida e com um elemento novo, a unidade de rebeldes e revolucionários".
O México, insisto, lembra uma mulher grávida, em cujo ventre germina uma nova vida.
[1] Octávio Rodriguez de Araújo, México en Vilo, 2ª edição, Jorale Editores, México, Setembro de 2006
Miguel Urbano Rodrigues
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Repressão no Haiti: a responsabilidade da 'esquerda'
Dois dias antes da noite de Natal, a 22 de Dezembro às três horas da madrugada, 400 soldados sob o comando de oficiais brasileiros assaltaram com blindados Cité Soleil, bairro de Port au Prince, apoiados por helicópteros que disparavam sobre a atemorizada população que se refugiava nas suas precárias habitações. A desculpa foi combater os 'bandos criminosos' que operam no bairro, mas a intervenção dos soldados da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH, ou capacetes azuis) fez de 30 a 70 mortos, conforme as fontes. Mulheres e crianças foram mortas nas suas casas enquanto dormiam. A Agência Haitiana de Notícias assegurou que as vítimas eram inocentes e o coordenador da Cruz Vermelha, Pierre Alexis, declarou que os soldados da ONU impediram a entrada dos seus veículos a fim de cuidar das crianças feridas. [1]
Cite Soleil é um bairro imenso de habitações informais onde se apinham 500 mil pessoas, em meio a enormes charcos de água suja e de excrementos humanos e animais. O activista de direitos humanos Pierre-Antonine Lovinski afirma que 'todos os dias na Cité Soleil os soldados assassinam pobres por causa de nada' e considera que no Haiti está a perpetrar-se uma repressão que define como 'uma guerra contra os pobres'. [2] O professor de economia da Universidade do Haiti, Camile Chalmers, vai mais longe e assegura que do ponto da vista da segurança 'estamos pior do que antes da intervenção militar'. [3] A tragédia haitiana vem de muito longe, mas o último capítulo começou a ser escrito em Fevereiro de 2004, quando os Estados Unidos, Canadá e França contribuíram para a queda do presidente legítimo, Jean Bertrand Aristide, no que pode ser considerado um golpe de Estado que constitui uma flagrante violação da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Tropas latino-americanas
O contingente militar da ONU comandado pelo Brasil foi deslocado em Junho de 2004, quatro meses depois do golpe de Estado que derrubou Aristide. Certamente não era a primeira intervenção da ONU na ilha. Em 1994 o Conselho de Segurança autorizou a deslocação de uma força multinacional de 20 mil soldados (a MINUHA) para facilitar o retorno de Aristide que fora derrubado, pela primeira vez, em 1990. Havia sido eleito presidente esse mesmo ano com 67% dos votos nas primeiras eleições democráticas que se celebraram na ilha. Entretanto, nesta ocasião a diferença quanto à intervenção militar é estabelecida pela forte implicação da esquerda latino-americana, cujas tropas são decisivas tanto entre as forças de ocupação como na direcção das mesmas.
Em Fevereiro de 2001 celebraram-se novas eleições presidenciais que foram boicotadas pela oposição. Aristide venceu com grande diferença, mas a participação foi muito baixa oscilando entre 20-30% dos eleitores. O novo governo nunca desfrutou de estabilidade: a sociedade civil mobilizada exigiu sua renúncia por derivas autoritárias, a oposição e grupos armados tentaram desestabilizá-lo, até que em Fevereiro de 2004 expandiu-se um movimento armado a partir da cidade de Gonaives que logo ameaçou estender-se a todo o país. Nessa conjuntura especial, os Estados Unidos com o apoio do Canadá e da França forçaram a saída de Aristide do país (os marines 'levaram-no' ao aeroporto).
Em Março o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, recomenda a criação de uma força multinacional de estabilização. A 30 de Abril o Conselho de Segurança adoptou a resolução 1542 que criou a MINUSTAH. Nessa data começou a deslocação do contingente militar brasileiro em Port au Prince (1200 efectivos, o mais numeroso), enquanto as forças do Canadá, França e Estados Unidos na ilha integraram-se à Missão comandada dali em diante pelo Brasil. Pouco depois a Argentina decidiu deslocar mais de 500 efectivos, o Chile fez o mesmo e o Uruguai foi aumentando sua presença até chegar a 750 militares na ilha. Os países do Mercosul contribuem com mais de 40% do total de efectivos da MINUSTAH.
Desde o momento em que chegaram as forças armadas dos países com governos progressistas e de esquerda registaram-se pelos menos três massacres em Cité Soleil. O primeiro foi a 6 de Julho de 2005, quando tropas brasileiras e polícias haitianos dispararam sobre a população provocando 23 mortos, ainda que outros relatos elevem o número a 26. Semanas depois, dois activistas estado-unidenses, vinculados ao Haiti Action Comitee (David Welsh de Berkeley e Ben Terrell de San Francisco) comprovaram em Cité Soleil a forma como operam os soldados da MINUSTAH. 'Disparavam para a rua e para o interior das casas', assegura Welsh. 'Dizem que a população das vizinhanças dispara primeiro. Não foi isso o que vimos e não é o que nos contam aqui. As chamadas 'forças da paz' da ONU estão a desempenhar um papel muito destrutivo”, destaca Terrell. [4]
O segundo massacre, como se disse acima, verificou-se a 22 de Janeiro de 2006. O terceiro foi a 25 de Dezembro de 2006, quando tropas brasileiras apoiadas por efectivos bolivianos, uruguaios e chilenos realizaram uma operação em Cité Soleil com um saldo de cinco mortos. Nos três casos não houve feridos da MINUSTAH, mas registaram-se mortos haitianos que as forças de ocupação consideram sempre como 'bandidos'. Trata-se de um padrão de acção contra a população pobre de um bairro onde o partido Lavala, que apoia Aristide, tem grande apoio. Em princípios de 2006 o diário Folha de São Paulo entrevistou soldados brasileiros que estiveram no Haiti entre Dezembro de 2004 e Junho de 2005. Os testemunhos falam por si só: 'O nome Missão de Paz é para tranquilizar as pessoas. Na verdade não há um dia no qual as tropas não matem um haitiano num tiroteio. Eu mesmo matei pelo menos dois', reconhece um soldado que mostra fotografias de cadáveres lançados às ruas de Cité Soleil a serem devorados pelos cães. [5]
Perguntas simples, respostas difíceis
Até aqui foi um brevíssimo relato de factos graves que confirmam que os capacetes azuis da ONU violam os direitos humanos e matam pessoas inocentes no Haiti. A partir destas constatações impõem-se algumas perguntas. Por que os governos latino-americanos progressistas e de esquerda enviam soldados ao Haiti? Por que a população desses países não reage contra a repressão que os 'seus' soldados estão a perpetrar? Responder a estas perguntas implica abordar três aspectos: a geopolítica militar regional impulsionada pelo Brasil, o papel das esquerdas ali onde estão no governo e, finalmente, a relação entre a política externa e a interna.
Em aliança com boa parte dos países da região, o Brasil vem impulsionando a criação de forças armadas sul-americanas, um projecto que foi batizado como a 'NATO sul-americana'. O coronel brasileira Oliva Neto – responsável pelo planeamento estratégico da presidência – revelou em Novembro último que a cooperação militar sul-americana faz parte de um dos projectos do Sistema de Defesa Nacional para 'impedir uma aventura militar ou a pressão de algum país sobre a região ou sobre uma nação sul-americana'. [6] Trata-se da defesa dos recursos naturais da região e muito concretamente da Amazónia, tarefa prioritária para as forças armadas desse país. Oliva Neto recorda que o continente conta com 'um nível respeitável de petróleo, a maior reserva de água do planeta e uma rica biodiversidade', o que torna necessário por em pleno que, na sua opinião, já 'existe uma tendência a médio de prazo de risco de pressão internacional sobre a América do Sul, através da área militar'. Argumentou que quando se agudizar a escassez de energia, água e matérias-primas e 'fora da América do Sul comece a gerar-se stress internacional, outros países poderiam voltar os olhos para a nossa região'.
Considera-se que a missão militar da ONU no Haiti pode ser uma antecipação do que será a força militar sul-americana. Ou, em todo o caso, um banco de ensaio tanto para a direcção de tropas internacionais como para a coordenação dos contingentes regionais. O êxito da Missão seria um trunfo forte a jogar pelo Brasil na hora da criação de forças armadas sul-americanas que, no plano dos factos, viriam completar a unidade político-económica que se pretende construir com a Comunidade Sul-americana de Nações. Em paralelo, argumenta-se que a deslocação da Missão seria uma forma de por limites ao hegemonismo estado-unidense na América Latina e buscar uma projecção internacional que legitimasse suas aspirações a ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A segunda questão tem a ver com o papel das esquerdas do continente. Em muito pouco tempo mudaram de opinião. Vejamos apenas um exemplo, o do Uruguai. Em Julho de 2004, quando o Senado uruguaio devia decidir o envio de tropas à ilha, o então senador e actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Reinaldo Gargano, foi categórico na oposição ao envio de tropas defendido pelo presidente Jorge Batlle. 'As forças de paz vão validar um usurpador do poder e enfrentarão situações perigosas'. O senador Eleuterio Fernández Huidobr foi mais longe ao comparar a situação no Haiti com a do Iraque. 'Os Estados Unidos lançam a guerra e depois chamam a ONU para que conserte as coisas. No Haiti é o mesmo. Os Estados Unidos fomentam a derrubada de Aristide e agora pretendem que outros resolvam a malfeitoria', disse quando era oposição. [7] Apenas um ano depois, a esquerda uruguaia no governo decidiu apoiar a Missão no Haiti e aumentar os efectivos na ilha. Só um deputado, o veterano socialista Guillermo Chifflet, teve a coragem de renunciar ao seu posto a validar com o seu voto uma viragem humilhante.
O que sucedeu no Uruguai é quase um decalque do que se passou em outros países. Não existiu debate sério e profundo e as esquerdas e os progressistas limitaram-se a oferecer factos consumados ainda que soubessem que em pouco tempo haviam mudado radicalmente de posição, só pelo facto de estar no governo.
A ocupação em números
Começo da Missão: Junho de 2004.
Efectivos militares da MINUSTAH no Haiti: 6.681 soldados e 102 oficiais. Total: 6.783.
Pessoal civil: Internacional 433, Local 1.263, Voluntários da ONU 193. Total: 1.859
Países latino-americanos que contribuem com tropas: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Guatemala, Paraguai, Peru e Uruguai.
Baixas: 15 soldados mortos e 38 feridos.
Custo da missão: 490 milhões de dólares (Julho 2006-Junho 2007).
A MINUSTAH é comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz (Brasil).
A terceira questão é algo mais complexa. Em meados de Fevereiro de 2007 as agências difundiram uma foto de um soldado afro-americano ameaçados a apontar o seu fuzil à cabeça de uma mulher, também afro-americana, que protestava contra a acção militar. Podia ser um soldado brasileiro em Cité Soleil ou em qualquer lugar do Haiti. Mas não. Era uma operação militar nas favelas do Rio de Janeiro com a desculpa de combater os 'bandidos'. As peças soltas começam a ganhar sentido. O analista Juan Gabriel Tokatlián, da Universidade de San Andrés, faz-se as mesma pergunta sobre a Missão dos governos progressistas no Haiti: 'É um ensaio prévio do que poderia ocorrer com a participação das forças armadas no combate contra o narco-tráfico nas favelas do Rio de Janeiro?' [8]
Parece obrigatório estabelecer um vínculo entre ambos os factos. O fio que os une é a guerra contra os pobres, camuflada como combate ao narcotráfico e aos bandidos e em defesa da democracia. Longe de ser uma missão humanitárias, a presença dos cascos azuis no Haiti é um facto político com objectivos políticos. Que não são senão impedir a expressão independente dos haitianos, sobretudo os pobres de bairros como Cité Soleil que apoiam o movimento Lavalas de Aristide. O massacre de 6 de Julho de 2005 foi considerado pelo Projecto de Informação do Haiti (HIP, na sigla em inglês) como 'um ataque preventivo da ONU e das elites opulentas do Haiti para sufocar o impacto dos protestos que estavam programados para o dia do aniversário de Aristide, que teria lugar nove dias depois, a 15 de Julho'. O segundo ataque correspondeu a um padrão semelhante. 'A 16 de Dezembro último vimos outra grande manifestação de apoio a Aristide que começou em Cité Soleil, e seis dias mais tarde a ONU levou a cabo um assalto mortífero que os residentes e grupos de defesa dos direitos humanos dizem que provocou uma grande matança de vítimas inocentes'. [9]
Dados sobre o Haití
Capital: Port au Prince
Esperança de vida: 53 anos
Mortalidade de menores de 5 anos: 125 por 1.000
Filhos por mulher: 4,2
Alfabetismo: 49%
8 médicos por cada 100 mil pessoas
Desemprego: 80%
65% da população urbana e 80% da rural vive com menos de um dólar por dia.
População: 9 milhões. 73% na extrema pobreza: sem saneamento, metade da população sem água potável e difícil acesso à electricidade. Dois terços não acedem a um prato de comida diário. 1% da população, de origem europeia, é proprietária da metade dos bens do país.
O director do Instituto para a Justiça e a Democracia no Haiti, Brian Concannon, assinala que 'é difícil não perceber uma relação entre as grandes manifestações ocorridas em Cité Soleil e os bairros que a ONU seleccionou para realizar extensas operações militares'. [10] O castigo das tropas da ONU vai mais longe: Os helicópteros destruíram os reservatórios de água e a população tem de caminhar quilómetros para encher um balde. Segundo o HIP, a MINUSTAH tem camiões cisterna mas entrega a água a especuladores privados que a revendem à população pobre que não tem com que comprá-la. Assim, em 7 de Fevereiro último mais de 100 mil pessoas manifestaram-se por todo o Haiti a reclamar o fim da MINUSTAH e o retorno de Aristide. [11] Tudo indica que a ONU decidiu fazer uso da força militar para modificar o mapa político, sem consegui-lo mas agravando a situação de instabilidade.
Se o Carnaval fosse um termómetro para medir a opinião da população, tudo indica que a imensa maioria dos haitianos repudia os capacetes azuis da ONU. O alvo mais popular é precisamente a MINUSTAH e os burocratas da ONU. Não é para menos. O prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquível, denunciou em 2005, em Port au Prince, que no primeiro ano da ocupação dos capacetes azuais verificaram-se 1500 mortos, à razão de 20 por dia. Diversos testemunhos acusam as forças armadas do Brasil de violação dos direitos humanos. A coordenadora latino-americana do Serpaj (Servicio de Paz y Justicia), Ana Juanche, assinala: 'A MINUSTAH estava ali para consolidar os processos de pacificação, mas está a formar a polícia, treinando-a e acompanhando-a na resolução de casos de violência, reprimindo manifestações, retirando mortos dos bairros. Eu vi a petulância com que a MINUSTAH se desloca e circula pela ruas, correndo as pessoas, desviando o trânsito pelo simples facto de eles passarem'. [12] Mas é a leitura dos porquês o que mais interessa. 'A presença da ONU é uma nova humilhação, uma nova oportunidade de determinar o seu próprio destino que é negada aos haitianos. Há uma grande porcentagem da população que sustenta que era o povo que estava a reivindicar a saída de Aristide, que havia perdido grande parte da sua popularidade pelas sérias violações dos direitos humanos que patrocinava. Eram os haitianos que buscavam uma saída e, quando Aristide estava a ponto de cair, vêm os Estados Unidos e levam-no. Esse sector acredita que lhes foi negado o protagonismo como actor político e concebem a MINUSTAH como uma nova negação do direito de auto-determinação', sustenta Juanche.
Nos bairros de Port au Prince, tal como nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo, nas barriadas de Bogotá e Medellín, está a jogar-se uma guerra contra os pobres que não tem a menor intenção de superar a pobreza e sim de impedir que se organizem e resistam. O urbanista Mike Davis, que estudou em pormenor as mudanças urbanas nas cidades dos Estados Unidos, sustenta que o fenómeno das periferias urbanas 'também despertou o interesse dos analistas militares do Pentágono, que consideram estas periferias labirínticas um dos grandes reptos com que se depararão no futuro as tecnologias bélicas e os projectos imperiais'. [13] Nessas periferias, continua Davis, 'na última década os pobres estiveram a organizar-se em grande escala, seja numa cidade iraquiana como Sader City ou em Buenos Aires'. Se o Pentágono está agora obcecado com a arquitectura e o planeamento urbano é porque tem a amarga experiência de que nessas periferias a superioridade militar não é nada. É na guerra contra os pobres urbanos que as estratégias de George W. Bush e as de alguns governos progressistas da América do Sul se dão as mãos. Notas:
1) Guillermo Chifflet, 'Guerra contra los pobres'.
2) Idem.
3) Radio Mundo Real.
4) Judith Scherr, 'Horror en clave ONU', publicado en Znet.
5) Guillermo Chifflet, ob. cit.
6) Raúl Zibechi, 'Hacia las fuerzas armadas sudamericanas'.
7) Brecha, 4 de julio de 2004.
8) Juan Gabriel Tokatlián, 'El desacierto de enviar tropas a Haití'.
9) Kevin Pina, www.haitiaction.net
10) José Luis Vivas, www.rebelion.org
11) Prensa Latina, 11 de febrero.
12) Carolina Porley, 'Un callejón sin aparente salida'.
Raúl Zibechi
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Cite Soleil é um bairro imenso de habitações informais onde se apinham 500 mil pessoas, em meio a enormes charcos de água suja e de excrementos humanos e animais. O activista de direitos humanos Pierre-Antonine Lovinski afirma que 'todos os dias na Cité Soleil os soldados assassinam pobres por causa de nada' e considera que no Haiti está a perpetrar-se uma repressão que define como 'uma guerra contra os pobres'. [2] O professor de economia da Universidade do Haiti, Camile Chalmers, vai mais longe e assegura que do ponto da vista da segurança 'estamos pior do que antes da intervenção militar'. [3] A tragédia haitiana vem de muito longe, mas o último capítulo começou a ser escrito em Fevereiro de 2004, quando os Estados Unidos, Canadá e França contribuíram para a queda do presidente legítimo, Jean Bertrand Aristide, no que pode ser considerado um golpe de Estado que constitui uma flagrante violação da Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Tropas latino-americanas
O contingente militar da ONU comandado pelo Brasil foi deslocado em Junho de 2004, quatro meses depois do golpe de Estado que derrubou Aristide. Certamente não era a primeira intervenção da ONU na ilha. Em 1994 o Conselho de Segurança autorizou a deslocação de uma força multinacional de 20 mil soldados (a MINUHA) para facilitar o retorno de Aristide que fora derrubado, pela primeira vez, em 1990. Havia sido eleito presidente esse mesmo ano com 67% dos votos nas primeiras eleições democráticas que se celebraram na ilha. Entretanto, nesta ocasião a diferença quanto à intervenção militar é estabelecida pela forte implicação da esquerda latino-americana, cujas tropas são decisivas tanto entre as forças de ocupação como na direcção das mesmas.
Em Fevereiro de 2001 celebraram-se novas eleições presidenciais que foram boicotadas pela oposição. Aristide venceu com grande diferença, mas a participação foi muito baixa oscilando entre 20-30% dos eleitores. O novo governo nunca desfrutou de estabilidade: a sociedade civil mobilizada exigiu sua renúncia por derivas autoritárias, a oposição e grupos armados tentaram desestabilizá-lo, até que em Fevereiro de 2004 expandiu-se um movimento armado a partir da cidade de Gonaives que logo ameaçou estender-se a todo o país. Nessa conjuntura especial, os Estados Unidos com o apoio do Canadá e da França forçaram a saída de Aristide do país (os marines 'levaram-no' ao aeroporto).
Em Março o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, recomenda a criação de uma força multinacional de estabilização. A 30 de Abril o Conselho de Segurança adoptou a resolução 1542 que criou a MINUSTAH. Nessa data começou a deslocação do contingente militar brasileiro em Port au Prince (1200 efectivos, o mais numeroso), enquanto as forças do Canadá, França e Estados Unidos na ilha integraram-se à Missão comandada dali em diante pelo Brasil. Pouco depois a Argentina decidiu deslocar mais de 500 efectivos, o Chile fez o mesmo e o Uruguai foi aumentando sua presença até chegar a 750 militares na ilha. Os países do Mercosul contribuem com mais de 40% do total de efectivos da MINUSTAH.
Desde o momento em que chegaram as forças armadas dos países com governos progressistas e de esquerda registaram-se pelos menos três massacres em Cité Soleil. O primeiro foi a 6 de Julho de 2005, quando tropas brasileiras e polícias haitianos dispararam sobre a população provocando 23 mortos, ainda que outros relatos elevem o número a 26. Semanas depois, dois activistas estado-unidenses, vinculados ao Haiti Action Comitee (David Welsh de Berkeley e Ben Terrell de San Francisco) comprovaram em Cité Soleil a forma como operam os soldados da MINUSTAH. 'Disparavam para a rua e para o interior das casas', assegura Welsh. 'Dizem que a população das vizinhanças dispara primeiro. Não foi isso o que vimos e não é o que nos contam aqui. As chamadas 'forças da paz' da ONU estão a desempenhar um papel muito destrutivo”, destaca Terrell. [4]
O segundo massacre, como se disse acima, verificou-se a 22 de Janeiro de 2006. O terceiro foi a 25 de Dezembro de 2006, quando tropas brasileiras apoiadas por efectivos bolivianos, uruguaios e chilenos realizaram uma operação em Cité Soleil com um saldo de cinco mortos. Nos três casos não houve feridos da MINUSTAH, mas registaram-se mortos haitianos que as forças de ocupação consideram sempre como 'bandidos'. Trata-se de um padrão de acção contra a população pobre de um bairro onde o partido Lavala, que apoia Aristide, tem grande apoio. Em princípios de 2006 o diário Folha de São Paulo entrevistou soldados brasileiros que estiveram no Haiti entre Dezembro de 2004 e Junho de 2005. Os testemunhos falam por si só: 'O nome Missão de Paz é para tranquilizar as pessoas. Na verdade não há um dia no qual as tropas não matem um haitiano num tiroteio. Eu mesmo matei pelo menos dois', reconhece um soldado que mostra fotografias de cadáveres lançados às ruas de Cité Soleil a serem devorados pelos cães. [5]
Perguntas simples, respostas difíceis
Até aqui foi um brevíssimo relato de factos graves que confirmam que os capacetes azuis da ONU violam os direitos humanos e matam pessoas inocentes no Haiti. A partir destas constatações impõem-se algumas perguntas. Por que os governos latino-americanos progressistas e de esquerda enviam soldados ao Haiti? Por que a população desses países não reage contra a repressão que os 'seus' soldados estão a perpetrar? Responder a estas perguntas implica abordar três aspectos: a geopolítica militar regional impulsionada pelo Brasil, o papel das esquerdas ali onde estão no governo e, finalmente, a relação entre a política externa e a interna.
Em aliança com boa parte dos países da região, o Brasil vem impulsionando a criação de forças armadas sul-americanas, um projecto que foi batizado como a 'NATO sul-americana'. O coronel brasileira Oliva Neto – responsável pelo planeamento estratégico da presidência – revelou em Novembro último que a cooperação militar sul-americana faz parte de um dos projectos do Sistema de Defesa Nacional para 'impedir uma aventura militar ou a pressão de algum país sobre a região ou sobre uma nação sul-americana'. [6] Trata-se da defesa dos recursos naturais da região e muito concretamente da Amazónia, tarefa prioritária para as forças armadas desse país. Oliva Neto recorda que o continente conta com 'um nível respeitável de petróleo, a maior reserva de água do planeta e uma rica biodiversidade', o que torna necessário por em pleno que, na sua opinião, já 'existe uma tendência a médio de prazo de risco de pressão internacional sobre a América do Sul, através da área militar'. Argumentou que quando se agudizar a escassez de energia, água e matérias-primas e 'fora da América do Sul comece a gerar-se stress internacional, outros países poderiam voltar os olhos para a nossa região'.
Considera-se que a missão militar da ONU no Haiti pode ser uma antecipação do que será a força militar sul-americana. Ou, em todo o caso, um banco de ensaio tanto para a direcção de tropas internacionais como para a coordenação dos contingentes regionais. O êxito da Missão seria um trunfo forte a jogar pelo Brasil na hora da criação de forças armadas sul-americanas que, no plano dos factos, viriam completar a unidade político-económica que se pretende construir com a Comunidade Sul-americana de Nações. Em paralelo, argumenta-se que a deslocação da Missão seria uma forma de por limites ao hegemonismo estado-unidense na América Latina e buscar uma projecção internacional que legitimasse suas aspirações a ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A segunda questão tem a ver com o papel das esquerdas do continente. Em muito pouco tempo mudaram de opinião. Vejamos apenas um exemplo, o do Uruguai. Em Julho de 2004, quando o Senado uruguaio devia decidir o envio de tropas à ilha, o então senador e actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Reinaldo Gargano, foi categórico na oposição ao envio de tropas defendido pelo presidente Jorge Batlle. 'As forças de paz vão validar um usurpador do poder e enfrentarão situações perigosas'. O senador Eleuterio Fernández Huidobr foi mais longe ao comparar a situação no Haiti com a do Iraque. 'Os Estados Unidos lançam a guerra e depois chamam a ONU para que conserte as coisas. No Haiti é o mesmo. Os Estados Unidos fomentam a derrubada de Aristide e agora pretendem que outros resolvam a malfeitoria', disse quando era oposição. [7] Apenas um ano depois, a esquerda uruguaia no governo decidiu apoiar a Missão no Haiti e aumentar os efectivos na ilha. Só um deputado, o veterano socialista Guillermo Chifflet, teve a coragem de renunciar ao seu posto a validar com o seu voto uma viragem humilhante.
O que sucedeu no Uruguai é quase um decalque do que se passou em outros países. Não existiu debate sério e profundo e as esquerdas e os progressistas limitaram-se a oferecer factos consumados ainda que soubessem que em pouco tempo haviam mudado radicalmente de posição, só pelo facto de estar no governo.
A ocupação em números
Começo da Missão: Junho de 2004.
Efectivos militares da MINUSTAH no Haiti: 6.681 soldados e 102 oficiais. Total: 6.783.
Pessoal civil: Internacional 433, Local 1.263, Voluntários da ONU 193. Total: 1.859
Países latino-americanos que contribuem com tropas: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Guatemala, Paraguai, Peru e Uruguai.
Baixas: 15 soldados mortos e 38 feridos.
Custo da missão: 490 milhões de dólares (Julho 2006-Junho 2007).
A MINUSTAH é comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz (Brasil).
A terceira questão é algo mais complexa. Em meados de Fevereiro de 2007 as agências difundiram uma foto de um soldado afro-americano ameaçados a apontar o seu fuzil à cabeça de uma mulher, também afro-americana, que protestava contra a acção militar. Podia ser um soldado brasileiro em Cité Soleil ou em qualquer lugar do Haiti. Mas não. Era uma operação militar nas favelas do Rio de Janeiro com a desculpa de combater os 'bandidos'. As peças soltas começam a ganhar sentido. O analista Juan Gabriel Tokatlián, da Universidade de San Andrés, faz-se as mesma pergunta sobre a Missão dos governos progressistas no Haiti: 'É um ensaio prévio do que poderia ocorrer com a participação das forças armadas no combate contra o narco-tráfico nas favelas do Rio de Janeiro?' [8]
Parece obrigatório estabelecer um vínculo entre ambos os factos. O fio que os une é a guerra contra os pobres, camuflada como combate ao narcotráfico e aos bandidos e em defesa da democracia. Longe de ser uma missão humanitárias, a presença dos cascos azuis no Haiti é um facto político com objectivos políticos. Que não são senão impedir a expressão independente dos haitianos, sobretudo os pobres de bairros como Cité Soleil que apoiam o movimento Lavalas de Aristide. O massacre de 6 de Julho de 2005 foi considerado pelo Projecto de Informação do Haiti (HIP, na sigla em inglês) como 'um ataque preventivo da ONU e das elites opulentas do Haiti para sufocar o impacto dos protestos que estavam programados para o dia do aniversário de Aristide, que teria lugar nove dias depois, a 15 de Julho'. O segundo ataque correspondeu a um padrão semelhante. 'A 16 de Dezembro último vimos outra grande manifestação de apoio a Aristide que começou em Cité Soleil, e seis dias mais tarde a ONU levou a cabo um assalto mortífero que os residentes e grupos de defesa dos direitos humanos dizem que provocou uma grande matança de vítimas inocentes'. [9]
Dados sobre o Haití
Capital: Port au Prince
Esperança de vida: 53 anos
Mortalidade de menores de 5 anos: 125 por 1.000
Filhos por mulher: 4,2
Alfabetismo: 49%
8 médicos por cada 100 mil pessoas
Desemprego: 80%
65% da população urbana e 80% da rural vive com menos de um dólar por dia.
População: 9 milhões. 73% na extrema pobreza: sem saneamento, metade da população sem água potável e difícil acesso à electricidade. Dois terços não acedem a um prato de comida diário. 1% da população, de origem europeia, é proprietária da metade dos bens do país.
O director do Instituto para a Justiça e a Democracia no Haiti, Brian Concannon, assinala que 'é difícil não perceber uma relação entre as grandes manifestações ocorridas em Cité Soleil e os bairros que a ONU seleccionou para realizar extensas operações militares'. [10] O castigo das tropas da ONU vai mais longe: Os helicópteros destruíram os reservatórios de água e a população tem de caminhar quilómetros para encher um balde. Segundo o HIP, a MINUSTAH tem camiões cisterna mas entrega a água a especuladores privados que a revendem à população pobre que não tem com que comprá-la. Assim, em 7 de Fevereiro último mais de 100 mil pessoas manifestaram-se por todo o Haiti a reclamar o fim da MINUSTAH e o retorno de Aristide. [11] Tudo indica que a ONU decidiu fazer uso da força militar para modificar o mapa político, sem consegui-lo mas agravando a situação de instabilidade.
Se o Carnaval fosse um termómetro para medir a opinião da população, tudo indica que a imensa maioria dos haitianos repudia os capacetes azuis da ONU. O alvo mais popular é precisamente a MINUSTAH e os burocratas da ONU. Não é para menos. O prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquível, denunciou em 2005, em Port au Prince, que no primeiro ano da ocupação dos capacetes azuais verificaram-se 1500 mortos, à razão de 20 por dia. Diversos testemunhos acusam as forças armadas do Brasil de violação dos direitos humanos. A coordenadora latino-americana do Serpaj (Servicio de Paz y Justicia), Ana Juanche, assinala: 'A MINUSTAH estava ali para consolidar os processos de pacificação, mas está a formar a polícia, treinando-a e acompanhando-a na resolução de casos de violência, reprimindo manifestações, retirando mortos dos bairros. Eu vi a petulância com que a MINUSTAH se desloca e circula pela ruas, correndo as pessoas, desviando o trânsito pelo simples facto de eles passarem'. [12] Mas é a leitura dos porquês o que mais interessa. 'A presença da ONU é uma nova humilhação, uma nova oportunidade de determinar o seu próprio destino que é negada aos haitianos. Há uma grande porcentagem da população que sustenta que era o povo que estava a reivindicar a saída de Aristide, que havia perdido grande parte da sua popularidade pelas sérias violações dos direitos humanos que patrocinava. Eram os haitianos que buscavam uma saída e, quando Aristide estava a ponto de cair, vêm os Estados Unidos e levam-no. Esse sector acredita que lhes foi negado o protagonismo como actor político e concebem a MINUSTAH como uma nova negação do direito de auto-determinação', sustenta Juanche.
Nos bairros de Port au Prince, tal como nas favelas do Rio de Janeiro e São Paulo, nas barriadas de Bogotá e Medellín, está a jogar-se uma guerra contra os pobres que não tem a menor intenção de superar a pobreza e sim de impedir que se organizem e resistam. O urbanista Mike Davis, que estudou em pormenor as mudanças urbanas nas cidades dos Estados Unidos, sustenta que o fenómeno das periferias urbanas 'também despertou o interesse dos analistas militares do Pentágono, que consideram estas periferias labirínticas um dos grandes reptos com que se depararão no futuro as tecnologias bélicas e os projectos imperiais'. [13] Nessas periferias, continua Davis, 'na última década os pobres estiveram a organizar-se em grande escala, seja numa cidade iraquiana como Sader City ou em Buenos Aires'. Se o Pentágono está agora obcecado com a arquitectura e o planeamento urbano é porque tem a amarga experiência de que nessas periferias a superioridade militar não é nada. É na guerra contra os pobres urbanos que as estratégias de George W. Bush e as de alguns governos progressistas da América do Sul se dão as mãos. Notas:
1) Guillermo Chifflet, 'Guerra contra los pobres'.
2) Idem.
3) Radio Mundo Real.
4) Judith Scherr, 'Horror en clave ONU', publicado en Znet.
5) Guillermo Chifflet, ob. cit.
6) Raúl Zibechi, 'Hacia las fuerzas armadas sudamericanas'.
7) Brecha, 4 de julio de 2004.
8) Juan Gabriel Tokatlián, 'El desacierto de enviar tropas a Haití'.
9) Kevin Pina, www.haitiaction.net
10) José Luis Vivas, www.rebelion.org
11) Prensa Latina, 11 de febrero.
12) Carolina Porley, 'Un callejón sin aparente salida'.
Raúl Zibechi
http://resistir.info/
Miscelânea de notícias (16/4/2007)
1. O líder da maioria (democrática) do Congresso dos EUA, Steny Hoyer, encontrou-se no Cairo com um dirigente da Irmandade Muçulmana. A Irmandade Muçulmana está proibida no Egipto desde 1954. Um dos seus dirigentes, Sayid Qutb, foi o principal teórico do islamo-fascismo sunita. A jihad islâmica egípcia e outros grupos armados islamistas, como a Al-Qaeda, tiveram a sua origem em dissidências na Irmandade Muçulmana, que constitui hoje algo de semelhante a uma internacional islamista sunita. Não é claro se no encontro do Cairo se discutiu um possível plano de tréguas.
2. Numa convenção, os sindicatos de professores do Reino Unido votaram uma moção pedindo que o governo deixe de financiar as escolas religiosas, muitas das quais sobrevivem à custa de subsídios do Estado, embora discriminem os alunos por critérios religiosos. A moção avisa que as escolas religiosas (anglicanas, católicas, muçulmanas, judaicas...) têm agravado a segregação social (um caso típico é a Irlanda do Norte). Algumas destas escolas parecem ser também uma das causas das gravidezes na adolescência, devido à sua insistência em programas de educação sexual irrealistas e contrários à própria natureza humana, em que se defende a total abstinência sexual.
3. O ateísmo tem cada vez maior notoriedade e influência na Europa ocidental (talvez a região mais secularizada do mundo desenvolvido). Michel Onfray, o filósofo francês ateu e hedonista, acaba de publicar um novo livro, «La puissance d´exister». Em declarações à imprensa, diz que a fundação de toda a moral é «gozar e fazer os outros gozar sem fazer mal a si próprio ou aos outros». Não está mal como princípio.
um artigo de Ricardo Alves
http://www.ateismo.net/diario/
2. Numa convenção, os sindicatos de professores do Reino Unido votaram uma moção pedindo que o governo deixe de financiar as escolas religiosas, muitas das quais sobrevivem à custa de subsídios do Estado, embora discriminem os alunos por critérios religiosos. A moção avisa que as escolas religiosas (anglicanas, católicas, muçulmanas, judaicas...) têm agravado a segregação social (um caso típico é a Irlanda do Norte). Algumas destas escolas parecem ser também uma das causas das gravidezes na adolescência, devido à sua insistência em programas de educação sexual irrealistas e contrários à própria natureza humana, em que se defende a total abstinência sexual.
3. O ateísmo tem cada vez maior notoriedade e influência na Europa ocidental (talvez a região mais secularizada do mundo desenvolvido). Michel Onfray, o filósofo francês ateu e hedonista, acaba de publicar um novo livro, «La puissance d´exister». Em declarações à imprensa, diz que a fundação de toda a moral é «gozar e fazer os outros gozar sem fazer mal a si próprio ou aos outros». Não está mal como princípio.
um artigo de Ricardo Alves
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Terrorismo religioso
Os atentados de Argel e Casa Blanca não são apenas actos criminosos, são terrorismo de natureza religiosa. Se fossem políticos, prendiam-se os dirigentes partidários, como são actos de fé enterram-se os mortos e os líderes continuam a destilar ódio e orações.
Acreditar que Deus ditou aquelas imbecilidades de que os livros sagrados estão cheios, é negar aos homens a capacidade de reproduzir os seus fantasmas e de inventar Deus.
O medo, a insegurança e o desconhecimento das mais básicas noções do início da vida estão na origem dos delírios místicos que forjaram os deuses e do oportunismo com que surgiram apóstolos desejosos de ganhar a vida à custa da divulgação das fantasias.
Há crenças cuja existência é inócua. A virgindade de uma mulher parida, a fecundidade da perna de um deus ou a eficácia das setas de Cupido são mitos que nutrem a fantasia e distraem o espírito. Já o anti-semitismo, a misoginia e a violência prescrita para o que as religiões consideram pecado, são manifestações demenciais que não podem ser objecto de culto e devem ser julgadas à luz do Código Penal.
Os crentes moderados não passam de pessoas sem grande convicção nos princípios da religião que professam e débil curiosidade na busca da razão.
Quem diz que os livros santos não dizem exactamente aquilo que claramente dizem é porque a vergonha, a dúvida, ou ambas, começaram a corroer os alicerces da fé.
É perigoso dar crédito à Tora, à Bíblia ou ao Corão. Convocar os livros sagrados para a elaboração das leis é espezinhar a Europa das Luzes e rasgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
Acreditar que Deus ditou aquelas imbecilidades de que os livros sagrados estão cheios, é negar aos homens a capacidade de reproduzir os seus fantasmas e de inventar Deus.
O medo, a insegurança e o desconhecimento das mais básicas noções do início da vida estão na origem dos delírios místicos que forjaram os deuses e do oportunismo com que surgiram apóstolos desejosos de ganhar a vida à custa da divulgação das fantasias.
Há crenças cuja existência é inócua. A virgindade de uma mulher parida, a fecundidade da perna de um deus ou a eficácia das setas de Cupido são mitos que nutrem a fantasia e distraem o espírito. Já o anti-semitismo, a misoginia e a violência prescrita para o que as religiões consideram pecado, são manifestações demenciais que não podem ser objecto de culto e devem ser julgadas à luz do Código Penal.
Os crentes moderados não passam de pessoas sem grande convicção nos princípios da religião que professam e débil curiosidade na busca da razão.
Quem diz que os livros santos não dizem exactamente aquilo que claramente dizem é porque a vergonha, a dúvida, ou ambas, começaram a corroer os alicerces da fé.
É perigoso dar crédito à Tora, à Bíblia ou ao Corão. Convocar os livros sagrados para a elaboração das leis é espezinhar a Europa das Luzes e rasgar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
um artigo de Carlos Esperança
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Os pressupostos
Será que o pensamento científico é apenas o resultado de aceitar pressupostos científicos? Nesse caso, seria tão arbitrário aceitar os resultados do pensamento científico como aceitar os resultados do pensamento religioso. Por outro lado, o pensamento religioso emana de Deus, e não apenas do esforço humano concertado de compreender melhor o mundo, pelo que até seria digno de maior confiança.
O erro deste tipo de argumento é não compreender que o pensamento científico e filosófico inaugurado pelos gregos antigos é uma procura constante: uma interrogação aberta. Não é um conjunto dogmático de respostas fechadas e acabadas, que resta apenas interpretar e reinterpretar infinitamente. A ironia histórica é que a atitude de procura constante e de interrogação permanente produziu em escassos mil anos uma compreensão da natureza das coisas incomparável com o que as religiões todas da humanidade produziram ao longo de vários milénios.
O pensamento científico não parte deste ou daquele pressuposto para depois aceitar as suas consequências. Isso é o que faz o pensamento religioso: aceita, por exemplo, que um determinado livro tradicional, registo escrito de tradições orais anteriores, emana directamente de Deus — e raciocina a partir daí. Na ciência interroga-se tudo. Na religião aceita-se por fé mitos fundadores — que um homem nasceu de uma virgem, que esse homem depois de morto ressuscitou, no caso do cristianismo — cuja veracidade não pode ser colocada em causa sem se ser considerado blasfemo e contra a ortodoxia. Filosofar e fazer ciência é ser heterodoxo, interrogar e pôr tudo em causa. Dar respostas fechadas, que confortam os crentes, é o que faz a religião. São atitudes muito diferentes.
Mas a interrogação de tudo não é o mesmo que arbitrariedade. Sim, é possível, logicamente possível, que de cada vez que deixo cair uma pedra aconteça que um anjo a empurra para baixo; pode ser que a gravidade seja um disparate, porque há muitas explicações alternativas. Pois há. Mas não é estranho que esta criatividade na procura de explicações alternativas só se aplique aos resultados mais sólidos da ciência, como a teoria da evolução pela selecção natural, mas não se aplique, por exemplo, aos livros sagrados ou às experiências religiosas? Afinal, explicações alternativas por explicações alternativas, por que não explicar os textos religiosos como mera produção humana, fruto de alucinações motivadas por fenómenos neurológicos e não pela presença de um deus?
Um sinal segundo de ausência de seriedade intelectual é a exuberância criativa na procura de explicações alternativas às explicações científicas da realidade, mas a sua falta na procura de explicações alternativas às explicações religiosas da realidade. Isto é falta de seriedade e de amor pela verdade porque com igual arbitrariedade podemos “refutar” seja o que for e defender seja o que for. Quem pensa desta maneira pode genuinamente estar convencido que as explicações científicas são tão arbitrárias quanto as religiosas, dado que o seu pensamento religioso é arbitrário — e nunca teve a experiência da procura paciente e genuína da verdade, do levantar de hipóteses que são refutadas, da crítica dos pares, da reavaliação de explicações e teorias, enfim, da interrogação permanente. Mas não está menos enganado por isso.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/
O erro deste tipo de argumento é não compreender que o pensamento científico e filosófico inaugurado pelos gregos antigos é uma procura constante: uma interrogação aberta. Não é um conjunto dogmático de respostas fechadas e acabadas, que resta apenas interpretar e reinterpretar infinitamente. A ironia histórica é que a atitude de procura constante e de interrogação permanente produziu em escassos mil anos uma compreensão da natureza das coisas incomparável com o que as religiões todas da humanidade produziram ao longo de vários milénios.
O pensamento científico não parte deste ou daquele pressuposto para depois aceitar as suas consequências. Isso é o que faz o pensamento religioso: aceita, por exemplo, que um determinado livro tradicional, registo escrito de tradições orais anteriores, emana directamente de Deus — e raciocina a partir daí. Na ciência interroga-se tudo. Na religião aceita-se por fé mitos fundadores — que um homem nasceu de uma virgem, que esse homem depois de morto ressuscitou, no caso do cristianismo — cuja veracidade não pode ser colocada em causa sem se ser considerado blasfemo e contra a ortodoxia. Filosofar e fazer ciência é ser heterodoxo, interrogar e pôr tudo em causa. Dar respostas fechadas, que confortam os crentes, é o que faz a religião. São atitudes muito diferentes.
Mas a interrogação de tudo não é o mesmo que arbitrariedade. Sim, é possível, logicamente possível, que de cada vez que deixo cair uma pedra aconteça que um anjo a empurra para baixo; pode ser que a gravidade seja um disparate, porque há muitas explicações alternativas. Pois há. Mas não é estranho que esta criatividade na procura de explicações alternativas só se aplique aos resultados mais sólidos da ciência, como a teoria da evolução pela selecção natural, mas não se aplique, por exemplo, aos livros sagrados ou às experiências religiosas? Afinal, explicações alternativas por explicações alternativas, por que não explicar os textos religiosos como mera produção humana, fruto de alucinações motivadas por fenómenos neurológicos e não pela presença de um deus?
Um sinal segundo de ausência de seriedade intelectual é a exuberância criativa na procura de explicações alternativas às explicações científicas da realidade, mas a sua falta na procura de explicações alternativas às explicações religiosas da realidade. Isto é falta de seriedade e de amor pela verdade porque com igual arbitrariedade podemos “refutar” seja o que for e defender seja o que for. Quem pensa desta maneira pode genuinamente estar convencido que as explicações científicas são tão arbitrárias quanto as religiosas, dado que o seu pensamento religioso é arbitrário — e nunca teve a experiência da procura paciente e genuína da verdade, do levantar de hipóteses que são refutadas, da crítica dos pares, da reavaliação de explicações e teorias, enfim, da interrogação permanente. Mas não está menos enganado por isso.
Desidério Murcho
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Apaga essa chama
Já aqui tenho defendido que não será ignorando o crescente nacionalismo de direita em Portugual que lhe vamos fazer frente. Há que lhe fazer combate, desmascarando-o como um movimento fascista, retrógrado, xenófobo, anti-comunista, e contrário ao espirito da Constituição Portuguêsa. Está cada vez mais activo, organizado e ambicioso, e se não for a esquerda progressista a fazer-lhe frente, ficarão com o caminho livre e facilitado pela comunicação social. Leiam a entrevista que José Pinto Coelho, presidente do PNR, deu ao jornal SOL. E vejam como a Juventude Nacionalista irá hospedar, no próximo fim de semana, a I Conferência Internacional dedicada ao tema "Activismo Nacionalista", que irá contar com a presença de organizações de extrema-direita europeias, incluindo o NPD (Alemanha), FPO (Austria), Fiamma Tricolore (Itália), PNOS (Suiça), Noua Dreapta (Roménia), e o BNP (Grã-Bretanha), e que só não contará com a presença da Frente Nacional Francesa devido às eleições presidenciais nesse país.
http://jangada-de-pedra.blogspot.com/2007/04/apaga-essa-chama.html
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O Sucesso dos Aldrabões
John Edward é, sem dúvida, o mais famoso «psíquico» da actualidade.
Até a TV Cabo (se bem me lembro no «People & Arts»), já se rendeu aos “encantos” deste burlão, que se tornou multi-milionário a fazer crer às pessoas que comunica com o «mundo dos mortos» e que lhes transmite mensagens de familiares e amigos que estão «do outro lado».
E que não hesita em explorar despudoradamente os sentimentos das pessoas para lograr os seus únicos intentos: enriquecer como um nababo.
Já agora, diga-se em abono da verdade que a televisão portuguesa continua pródiga em dar tempo de antena e a dar cobertura a organizações mais ou menos religiosas ou a pessoas com poderes misteriosos e «paranormais» – e, sem dúvida, a tornar-se criminosamente cúmplice – de esquemas e burlas destinados unicamente a extorquir dinheiro às pessoas.
Neste pequeno filme Michael Shermer comenta e explica os truques de John Edward e comenta a certa altura:
- Falar com os mortos é fácil; difícil é ouvir as respostas deles...
Uma coisa é certa:
O sucesso dos aldrabões, seja individualmente seja organizados em associações mais ou menos reputadas, só depende de uma coisa: dos imbecis que acreditam neles.
Luis Grave Rodrigues
http://www.rprecision.blogspot.com/
Até a TV Cabo (se bem me lembro no «People & Arts»), já se rendeu aos “encantos” deste burlão, que se tornou multi-milionário a fazer crer às pessoas que comunica com o «mundo dos mortos» e que lhes transmite mensagens de familiares e amigos que estão «do outro lado».
E que não hesita em explorar despudoradamente os sentimentos das pessoas para lograr os seus únicos intentos: enriquecer como um nababo.
Já agora, diga-se em abono da verdade que a televisão portuguesa continua pródiga em dar tempo de antena e a dar cobertura a organizações mais ou menos religiosas ou a pessoas com poderes misteriosos e «paranormais» – e, sem dúvida, a tornar-se criminosamente cúmplice – de esquemas e burlas destinados unicamente a extorquir dinheiro às pessoas.
Neste pequeno filme Michael Shermer comenta e explica os truques de John Edward e comenta a certa altura:
- Falar com os mortos é fácil; difícil é ouvir as respostas deles...
Uma coisa é certa:
O sucesso dos aldrabões, seja individualmente seja organizados em associações mais ou menos reputadas, só depende de uma coisa: dos imbecis que acreditam neles.
Luis Grave Rodrigues
http://www.rprecision.blogspot.com/
É hermafrodita
Deus não é homem, nem mulher
(Bento XVI, Papa católico)
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
(Bento XVI, Papa católico)
um artigo de Carlos Esperança
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Carregal do Sal - Presidente ou sacristão?
O pio edil de Carregal do Sal é uma espécie de Mariana Cascais de calças que julga viver num Estado confessional.
Atílio Nunes dos Santos recebeu nos Paços do Concelho a visita pascal o padre José António, beijou a cruz e deu-a a beijar - ele, presidente da Câmara - aos munícipes.
A notícia é omissa, mas é natural que o padre José António receba na Igreja o Sr. Atílio com busto da República e que, depois de o beijar - ele, padre - o dê a beijar aos paroquianos.
É difícil dar a César o que é de César, quando é débil a cultura democrática e inexistente a formação cívica.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
Atílio Nunes dos Santos recebeu nos Paços do Concelho a visita pascal o padre José António, beijou a cruz e deu-a a beijar - ele, presidente da Câmara - aos munícipes.
A notícia é omissa, mas é natural que o padre José António receba na Igreja o Sr. Atílio com busto da República e que, depois de o beijar - ele, padre - o dê a beijar aos paroquianos.
É difícil dar a César o que é de César, quando é débil a cultura democrática e inexistente a formação cívica.
um artigo de Carlos Esperança
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Cada um Preocupa-se com o País como lhe Interessa
Alguns órgãos de comunicação social vivem numa situação de aparente esquizofrenia, que só os mais ingénuos acreditarão ser mera pluralidade de opiniões. A situação é mais complicada do que iso. O Expresso é o exemplo mais flagrante. Na edição de hoje, na qual se revela que José Sócrates requereu equivalências a um reitor que não o era (eu bem dizia que aquela carta surgia sem sinais que validassem qualquer entrada nos serviços de uma universidade) mesmo sendo obrigados a reconhecer que as explicações de José Sócrates têm mais buracos que um camaroeiro dos antigos, são vários os opinadores que pedem à populaça para deixar o engenheiro em paz, que é preciso governar o país: Fernando Madrinha, Miguel Sousa Tavares e Nicolau Santos parecem tirar a regra e esquadro o mesmo tipo de l ógica pífia que nunca serviu para Santana Lopes. O Primeiro-Ministro explicou-se, e pelo mero acto de explicar-se a coisa está resolvida. Não interessa nada se a explicação é congruente ou sequer verosímil. Basta enunciar a explicação e pronto, deixemos isso que o país espera por álguém que o governe.
Mesmo se o Público divulgou novos elementos, que se juntam aos anteriores, motivando novas perplexidades. Como, por exemplo, é possível que existam documentos datados de 96 com referência a códigos postais então inexistentes.
Entre todos o que desenvolve argumentação mais caricata - e olhem que a disputa é acesa entre os três concorrentes - é Nicolau Santos, o mesmo que há semanas dizia que este não era assunto de que merecesse atenção e agora levou com o tema em duas primeiras páginas seguidas no jornal que ajuda (?) a dirigir. Na última coluna da sua prosa desta semana no caderno de Economia, com o título de “Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?” lê-se o seguinte:
Há quem fale em falta de carácter ou traços de personalidade que só agora se tornam evidentes. E então? O que se faz? Sócrates não foi eleito pela personalidade, pelos cursos que tem ou não tem, mas pelas propostas que apresentou ao eleitorado e pelas quais foi sufragado. E daí lhe vem a legitimidade.
Mas este homem (Nicolau Santos) está bom da cabeça? Então as questões de falta de carácter não interessam nada - há que dar-lhe reler as suas prosas sobre Santana Lopes - e o que interessa é que Sócrates foi eleito pelas propostas que apresentou? E será que alguém acha que Sócrates está a cumprir as suas promessas mais tronitruantes? Os 150.000 empregos? O choque tecnológico? O não aumento de impostos?
Ó meu caro Nicolau Santos, eu acho que o uso prolongado de laçarote lhe terá reduzido a oxigenação do cérebro, porque se há matéria em que a legitimidade de Sócrates não está é exactamente no cumprimento das propostas apresentadas ao eleitorado. Aquelas com direito a outdoor, que ninguém foi ler as coisinhas miúdas de um programa eleitoral formulado de maneira a tudo por lá caber.
E se incumprimento das propostas eleitorais há muito que revela deficiências do carácter “político” que por cá passa por ser coisa diferente do carácter pessoal, agora percebe-se que mesmo em algo tão simples como a produção de um currículo há trapalhada sobre trapalhada e que mesmo o processo de construção desse currículo é uma peneira que não tapa Sol nenhum (então a UnI era mais prestigiada que o ISEL? e não se lembrava dos professores que teve na UnI, saendo que um já tinha sido docente no ISEL e se tornou elemento nomeado pelo governo de que fazia parte?), será que Nicolau Santos acha que esta é a pessoa certa para conduzir os destinos do país? Será que se importava de explicar exactamente no que se baseia para tal asserção? No currículo? Na frontalidade e transparência com que enfrenta as dificuldades? No rigor da sua acção?
Acredito que quem fez o possível por desbravar o caminho a Sócrates, que até ajudou na produção da imagem de alguém rigoroso e certo para o país, tenha dificuldade em admitir que ou apostou no homem errado ou foi redondamente enganado. Mas, por favor, se falta a coragem para admitir isso, ao menos que se calem, assobiem para o lado e não encubram o que é óbvio com argumentações que só desprestigiam e descredibilizam que as produz.
Nos EUA foram coisas destas que, no caso de políticos como Trent Lott e John Kerry ou de jornalistas como Dan Rather, levaram a que em 2004 a blogosfera se tornasse um meio de comunicação e informação crescentemente mais credível em relação aos meios de comunicação social e aos jornalistas ditos e tidos como sérios. Leia-se a obra Blog-Understanding the Information Reformation that’s changing your world de Hugh Hewitt e, descontando-se o alinhamento partidário e ideológico assumido, perceber-se-ão duas ou três coisas essenciais:
• O carácter dos políticos é relevante e tanto o é mais quanto as suas práticas conflituem com os princípios assumidos.
• Os meios de comunicação tradicionais perdem credibilidade ao acharem que estão acima de determinados temas e só os cavalgando quando é impossível não o fazer, pressionados pela blogosfera.
• Os jornalistas “de referência” deixam de o seu quando se refugiam em torres de marfim, reclamando-se de uma autoridade moral e superioridade de julgamento perfeitamente insubstanciadas, procurando iludir o óbvio em defesa de algo que custa a perceber e não é certamente o interesse público, esse conceito escorregadio e de uso demagógico.
http://educar.wordpress.com/
Mesmo se o Público divulgou novos elementos, que se juntam aos anteriores, motivando novas perplexidades. Como, por exemplo, é possível que existam documentos datados de 96 com referência a códigos postais então inexistentes.
Entre todos o que desenvolve argumentação mais caricata - e olhem que a disputa é acesa entre os três concorrentes - é Nicolau Santos, o mesmo que há semanas dizia que este não era assunto de que merecesse atenção e agora levou com o tema em duas primeiras páginas seguidas no jornal que ajuda (?) a dirigir. Na última coluna da sua prosa desta semana no caderno de Economia, com o título de “Por favor, podemos voltar a preocupar-nos com o país?” lê-se o seguinte:
Há quem fale em falta de carácter ou traços de personalidade que só agora se tornam evidentes. E então? O que se faz? Sócrates não foi eleito pela personalidade, pelos cursos que tem ou não tem, mas pelas propostas que apresentou ao eleitorado e pelas quais foi sufragado. E daí lhe vem a legitimidade.
Mas este homem (Nicolau Santos) está bom da cabeça? Então as questões de falta de carácter não interessam nada - há que dar-lhe reler as suas prosas sobre Santana Lopes - e o que interessa é que Sócrates foi eleito pelas propostas que apresentou? E será que alguém acha que Sócrates está a cumprir as suas promessas mais tronitruantes? Os 150.000 empregos? O choque tecnológico? O não aumento de impostos?
Ó meu caro Nicolau Santos, eu acho que o uso prolongado de laçarote lhe terá reduzido a oxigenação do cérebro, porque se há matéria em que a legitimidade de Sócrates não está é exactamente no cumprimento das propostas apresentadas ao eleitorado. Aquelas com direito a outdoor, que ninguém foi ler as coisinhas miúdas de um programa eleitoral formulado de maneira a tudo por lá caber.
E se incumprimento das propostas eleitorais há muito que revela deficiências do carácter “político” que por cá passa por ser coisa diferente do carácter pessoal, agora percebe-se que mesmo em algo tão simples como a produção de um currículo há trapalhada sobre trapalhada e que mesmo o processo de construção desse currículo é uma peneira que não tapa Sol nenhum (então a UnI era mais prestigiada que o ISEL? e não se lembrava dos professores que teve na UnI, saendo que um já tinha sido docente no ISEL e se tornou elemento nomeado pelo governo de que fazia parte?), será que Nicolau Santos acha que esta é a pessoa certa para conduzir os destinos do país? Será que se importava de explicar exactamente no que se baseia para tal asserção? No currículo? Na frontalidade e transparência com que enfrenta as dificuldades? No rigor da sua acção?
Acredito que quem fez o possível por desbravar o caminho a Sócrates, que até ajudou na produção da imagem de alguém rigoroso e certo para o país, tenha dificuldade em admitir que ou apostou no homem errado ou foi redondamente enganado. Mas, por favor, se falta a coragem para admitir isso, ao menos que se calem, assobiem para o lado e não encubram o que é óbvio com argumentações que só desprestigiam e descredibilizam que as produz.
Nos EUA foram coisas destas que, no caso de políticos como Trent Lott e John Kerry ou de jornalistas como Dan Rather, levaram a que em 2004 a blogosfera se tornasse um meio de comunicação e informação crescentemente mais credível em relação aos meios de comunicação social e aos jornalistas ditos e tidos como sérios. Leia-se a obra Blog-Understanding the Information Reformation that’s changing your world de Hugh Hewitt e, descontando-se o alinhamento partidário e ideológico assumido, perceber-se-ão duas ou três coisas essenciais:
• O carácter dos políticos é relevante e tanto o é mais quanto as suas práticas conflituem com os princípios assumidos.
• Os meios de comunicação tradicionais perdem credibilidade ao acharem que estão acima de determinados temas e só os cavalgando quando é impossível não o fazer, pressionados pela blogosfera.
• Os jornalistas “de referência” deixam de o seu quando se refugiam em torres de marfim, reclamando-se de uma autoridade moral e superioridade de julgamento perfeitamente insubstanciadas, procurando iludir o óbvio em defesa de algo que custa a perceber e não é certamente o interesse público, esse conceito escorregadio e de uso demagógico.
http://educar.wordpress.com/
Comunicado do Partido Socialista
We dont need no education.
We dont need no thought control.
No dark sarcasm in the classroom.
Teacher, leave those kids alone.
Hey, teacher, leave those kids alone!
http://www.lobi-do-cha.blogspot.com/
We dont need no thought control.
No dark sarcasm in the classroom.
Teacher, leave those kids alone.
Hey, teacher, leave those kids alone!
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Fundamentalismo e relativismo
Uma das razões que explica o recente ressurgimento de manifestações de fundamentalismo religioso, vistas por muitos crentes mais sofisticados como uma forma inaceitável de religiosidade, é o pensamento pós-modernista, multiculturalista, relativista e falsamente crítico e libertador. Wolin tem sido um dos autores que mais se tem dedicado a analisar esta plêiade de ideias que, sob a aparência de radical crítica à sociedade contemporânea, são de facto profundamente conservadoras, dando abrigo a todos os tipos de fundamentalismos obscurantistas. Ao fazer a crítica dos ideais do iluminismo, crítica muitas vezes interessante, alguns pensadores pós-modernistas acabaram por radicalizar de tal forma as coisas que hoje é de bom tom, nos meios académicos e culturais mais frágeis, declarar que o Big Bang e os mitos gregos da criação estão ao mesmo nível — são ambos mitos.
A mundividência subjacente a estas ideias permite que qualquer tolice, que há trinta anos seria considerada mero conto de fadas, seja hoje encarada com seriedade, porque é uma “manifestação cultural” — e as manifestações culturais são tão boas umas como outras. Já em 1947, aquando da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Associação Antropológica Americana se declarou contra tal declaração por ser etnocêntrica. Na altura, isto caiu em saco roto, porque estas ideias relativistas eram ainda uma coqueluche de antropólogos. Hoje, estas ideias tornaram-se comuns — e é previsível que a Declaração não seria hoje aprovada por todas as nações, como o foi na altura, sem oposição.
Uma das consequências deste estado de coisas é que o pensamento fundamentalista, tradicionalista, irracionalista e ditatorial tem o campo aberto — pois as correntes de pensamento que tradicionalmente lutavam pela libertação dos seres humanos do jugo dos preconceitos e da irracionalidade são hoje os grandes aliados desse mesmo pensamento.
É hoje mais fácil combater o obscurantismo e o irracionalismo ao lado de pessoas religiosas mas que vivem a sua religiosidade de forma sofisticada e aberta, do que ao lado de quem adoptou as ideias relativistas, multiculturalistas e pós-modernistas. Pelo menos os primeiros têm a vantagem, que não é pequena, de aceitar que o modus ponens não é uma mera ficção cultural opressora.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/
A mundividência subjacente a estas ideias permite que qualquer tolice, que há trinta anos seria considerada mero conto de fadas, seja hoje encarada com seriedade, porque é uma “manifestação cultural” — e as manifestações culturais são tão boas umas como outras. Já em 1947, aquando da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Associação Antropológica Americana se declarou contra tal declaração por ser etnocêntrica. Na altura, isto caiu em saco roto, porque estas ideias relativistas eram ainda uma coqueluche de antropólogos. Hoje, estas ideias tornaram-se comuns — e é previsível que a Declaração não seria hoje aprovada por todas as nações, como o foi na altura, sem oposição.
Uma das consequências deste estado de coisas é que o pensamento fundamentalista, tradicionalista, irracionalista e ditatorial tem o campo aberto — pois as correntes de pensamento que tradicionalmente lutavam pela libertação dos seres humanos do jugo dos preconceitos e da irracionalidade são hoje os grandes aliados desse mesmo pensamento.
É hoje mais fácil combater o obscurantismo e o irracionalismo ao lado de pessoas religiosas mas que vivem a sua religiosidade de forma sofisticada e aberta, do que ao lado de quem adoptou as ideias relativistas, multiculturalistas e pós-modernistas. Pelo menos os primeiros têm a vantagem, que não é pequena, de aceitar que o modus ponens não é uma mera ficção cultural opressora.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/
O negócio dos mercenários no Iraque
Não importa a sua origem nem de que países provêm: são uma massa de homens bem treinados no ofício de matar por dinheiro que, em número de cem mil, cumprem as mais diversas missões no Iraque.
Os chamados contratados fazem parte desse bem organizado negócio no qual a administração de George W. Bush converteu esse país árabe desde a sua invasão e posterior ocupação em Março de 2003.
As suas obrigações laborais estão concentradas na segurança pessoal de políticos iraquianos e dos EUA, de homens de negócios, de empresários, e abarcam também a segurança das instalações petrolíferas e militares ou outros serviços.
Muitas destas prestações, ainda que pouco se fale deles, estão ligados a funções antes reservadas às forças castrenses, tais como a construção de bases, logística, interrogatórios e acções de combate.
No âmbito iraquiano, são acusados de intervir em operações secretas dos organismos de informações norte americanos e noutros trabalhos sujos destinados a promover o terror, o medo, as diferenças religiosas e, inclusive, a organização de esquadrões da morte para semear o caos.
Peruanos, chilenos, colombianos, hondurenhos e equatorianos, sul-africanos, irlandeses, estadunidenses, iraquianos, russos, filipinos, turcos, nepaleses, hindus, ucranianos, entre outros, compõem a variada gama de nacionalidades desses elementos especializados nas tenebrosas artes da subversão.
A versão electrónica do jornal The Washington Post, que cita um censo do Comando Central dos EUA, revelou que pelo menos cem mil assalariados operam no país árabe contratados pelo governo dos Estados Unidos.
O número quadruplica os existentes em 2003; deles, 48.000 trabalham como soldados privados, indicou um informe do Escritório Geral de Contabilidade (GAO, em inglês).
O Departamento de Trabalho norte americano admite que 650 desses empregados morreram desde o início da guerra, a maior parte de nacionalidade desconhecida e com funções também ignoradas.
NEGÓCIOS E EMPRESAS
O chefe de Operações Militares do Ministério do Interior iraquiano, Mohamed Niama, estima em 236 o número de empresas privadas, estrangeiras e nacionais, que cumprem tarefas de segurança na nação do Golfo Pérsico.
É significativo que a maior parte, 200, sejam consideradas ilegais por se desconhecerem as suas funções e carecerem de registo legal. Niama reconhece que a maioria dos seus proprietários estão implicados em actos terroristas.
A contratação desses especialistas estende-se a todo o país, mas em Bagdade adquire especial predomínio pela falta de segurança que prevalece, a qual obriga políticos e empresários a recorrer a esses mercenários estrangeiros «para impedir infiltrações» de nacionais, comentou o porta-voz do Congresso de Deputados.
Em Janeiro passado, o presidente do Parlamento, Mahmud Mashhadani, disse que uma comissão de segurança contratará os serviços de uma empresa sul-africana para a sua protecção e a do resto dos deputados.
Outra modalidade, muito em voga entre as autoridades iraquianas, é utilizar familiares, amigos ou pessoas do mesmo grupo étnico ou confessional como guarda-costas.
Um exemplo: a ministra dos Direitos Humanos, Uichdan Salem, contratou por sua conta 20 escoltas, recomendados pelos seus familiares ou seus conhecidos.
As grandes empresas de contratadores têm sede na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos; neste último país, estima se que haja três dezenas de companhias dedicadas a esse lucrativo negócio.
Uma dessas empresas é a Blackwater Consulting Company, especializada em contra terrorismo e combates urbanos, e uma das maiores com operações no Iraque: conta com um exército multinacional calculado em três mil membros.
A empresa é considerada a maior base militar privada do mundo, com campos de treino sofisticados, dezenas de aviões, 20 mil soldados treinados e vínculos muito estreitos com as altas esferas do Pentágono e da Casa Branca.
O negócio da contratação abarca, além disso, outras empresas que se encarregam de fornecer apetrechos bélicos ao exército dos Estados Unidos e de ajudar na “reconstrução”, como as corporações Lockheed Martin, General Dynamics, Northrop Grumman e a famosa Halliburton.
Informações indicam que a imensa maioria das empresas destinadas à produção de armamentos triplicaram as acções desde o começo da ocupação do Iraque e os seus lucros cresceram em mais de 10 por cento.
Analistas consideram que o aumento dos activos destas corporações está ligado em parte ao aumento do orçamento da Secretaria da Defesa.
Desde 2001, as verbas destinadas à Defesa cresceram mais de 50%, de 300.000 milhões a 445.000 milhões em 2007.
Em 2005, responsáveis da CIA revelaram ao Washington Post que 50% do orçamento da instituição, 20 mil milhões de dólares, foi destinado a pagar contratados privados.
O livro publicado pelo Brookings Institution refere que o fenómeno da contratação gera por ano uns 100.000 milhões de dólares e há estimativas que apontam para que suba para o dobro em 2010.
ILEGALIDADES, VIOLAÇÕES E MAUS TRATOS
A total impunidade com que operam os contratados no país árabe converte esta força, a segunda maior em homens depois das tropas americanas de ocupação (140.000 homens), numa máquina de destruição e de morte.
O analista diplomático Pedrag Simic vaticina que à medida em que os aliados da coligação se retirem, mais mercenários tomarão os seus postos.
Para o Exército e para o governo dos EUA, o negócio é muito vantajoso se se tiver em conta que são simples assalariados em busca de fortuna e que ao morrer não entram na grande lista oficial de baixas, nem são envolvidos em discussões legais ou pressionados pela opinião pública.
Estes soldados da fortuna arriscam-se a morrer no Iraque por salários que ascendem aos mil dólares por dia, impossíveis de conseguir nas suas nações de origem.
Na recente visita a países latino-americanos, o Grupo de Trabalho da ONU sobre o uso de mercenários verificou que as contratações são possíveis graças a enormes irregularidades e vazios legais existentes, como é o caso do Peru.
José Luis Gómez del Prado, membro do grupo de trabalho, disse que mais de mil peruanos oferecem os seus serviços em condições incertas no país árabe, onde predomina o risco para as suas vidas, as longas jornadas de trabalho e vivem amontoados.
O especialista exprimiu a falta total de transparência nas contratações pela inexistência de controlos sobre a forma como são recrutados ou sobre as condições em que trabalham.
Um informe publicado pelo diário El Mercurio, de Lima, denunciou que a violência não é o único risco que correm os peruanos no Iraque; também sofrem maus tratos, discriminações e humilhações por parte da empresa empregadora estadunidense Triple Canopy.
Ainda que o fenómeno do mercenarismo não seja novo, este cresceu com a chegada de Bush à Casa Branca, cujo filho a fez florescer a níveis imprevistos com a sua chamada guerra ao terrorismo em 60 ou mais países, que identificava como “cantos obscuros” do mundo.
Com outros tantos regulamentos, a administração estadunidense converteu em letra morta a Convenção Internacional contra o Recrutamento, a Utilização, o Financiamento e o Treino de Mercenários, aprovada pela ONU em 1989 e assinada até agora por 28 países.
Juan Carlos Díaz Guerrero
El Corresponsal de Medio Oriente y Africa
http://www.infoalternativa.org/iraque/iraque081.htm
Os chamados contratados fazem parte desse bem organizado negócio no qual a administração de George W. Bush converteu esse país árabe desde a sua invasão e posterior ocupação em Março de 2003.
As suas obrigações laborais estão concentradas na segurança pessoal de políticos iraquianos e dos EUA, de homens de negócios, de empresários, e abarcam também a segurança das instalações petrolíferas e militares ou outros serviços.
Muitas destas prestações, ainda que pouco se fale deles, estão ligados a funções antes reservadas às forças castrenses, tais como a construção de bases, logística, interrogatórios e acções de combate.
No âmbito iraquiano, são acusados de intervir em operações secretas dos organismos de informações norte americanos e noutros trabalhos sujos destinados a promover o terror, o medo, as diferenças religiosas e, inclusive, a organização de esquadrões da morte para semear o caos.
Peruanos, chilenos, colombianos, hondurenhos e equatorianos, sul-africanos, irlandeses, estadunidenses, iraquianos, russos, filipinos, turcos, nepaleses, hindus, ucranianos, entre outros, compõem a variada gama de nacionalidades desses elementos especializados nas tenebrosas artes da subversão.
A versão electrónica do jornal The Washington Post, que cita um censo do Comando Central dos EUA, revelou que pelo menos cem mil assalariados operam no país árabe contratados pelo governo dos Estados Unidos.
O número quadruplica os existentes em 2003; deles, 48.000 trabalham como soldados privados, indicou um informe do Escritório Geral de Contabilidade (GAO, em inglês).
O Departamento de Trabalho norte americano admite que 650 desses empregados morreram desde o início da guerra, a maior parte de nacionalidade desconhecida e com funções também ignoradas.
NEGÓCIOS E EMPRESAS
O chefe de Operações Militares do Ministério do Interior iraquiano, Mohamed Niama, estima em 236 o número de empresas privadas, estrangeiras e nacionais, que cumprem tarefas de segurança na nação do Golfo Pérsico.
É significativo que a maior parte, 200, sejam consideradas ilegais por se desconhecerem as suas funções e carecerem de registo legal. Niama reconhece que a maioria dos seus proprietários estão implicados em actos terroristas.
A contratação desses especialistas estende-se a todo o país, mas em Bagdade adquire especial predomínio pela falta de segurança que prevalece, a qual obriga políticos e empresários a recorrer a esses mercenários estrangeiros «para impedir infiltrações» de nacionais, comentou o porta-voz do Congresso de Deputados.
Em Janeiro passado, o presidente do Parlamento, Mahmud Mashhadani, disse que uma comissão de segurança contratará os serviços de uma empresa sul-africana para a sua protecção e a do resto dos deputados.
Outra modalidade, muito em voga entre as autoridades iraquianas, é utilizar familiares, amigos ou pessoas do mesmo grupo étnico ou confessional como guarda-costas.
Um exemplo: a ministra dos Direitos Humanos, Uichdan Salem, contratou por sua conta 20 escoltas, recomendados pelos seus familiares ou seus conhecidos.
As grandes empresas de contratadores têm sede na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos; neste último país, estima se que haja três dezenas de companhias dedicadas a esse lucrativo negócio.
Uma dessas empresas é a Blackwater Consulting Company, especializada em contra terrorismo e combates urbanos, e uma das maiores com operações no Iraque: conta com um exército multinacional calculado em três mil membros.
A empresa é considerada a maior base militar privada do mundo, com campos de treino sofisticados, dezenas de aviões, 20 mil soldados treinados e vínculos muito estreitos com as altas esferas do Pentágono e da Casa Branca.
O negócio da contratação abarca, além disso, outras empresas que se encarregam de fornecer apetrechos bélicos ao exército dos Estados Unidos e de ajudar na “reconstrução”, como as corporações Lockheed Martin, General Dynamics, Northrop Grumman e a famosa Halliburton.
Informações indicam que a imensa maioria das empresas destinadas à produção de armamentos triplicaram as acções desde o começo da ocupação do Iraque e os seus lucros cresceram em mais de 10 por cento.
Analistas consideram que o aumento dos activos destas corporações está ligado em parte ao aumento do orçamento da Secretaria da Defesa.
Desde 2001, as verbas destinadas à Defesa cresceram mais de 50%, de 300.000 milhões a 445.000 milhões em 2007.
Em 2005, responsáveis da CIA revelaram ao Washington Post que 50% do orçamento da instituição, 20 mil milhões de dólares, foi destinado a pagar contratados privados.
O livro publicado pelo Brookings Institution refere que o fenómeno da contratação gera por ano uns 100.000 milhões de dólares e há estimativas que apontam para que suba para o dobro em 2010.
ILEGALIDADES, VIOLAÇÕES E MAUS TRATOS
A total impunidade com que operam os contratados no país árabe converte esta força, a segunda maior em homens depois das tropas americanas de ocupação (140.000 homens), numa máquina de destruição e de morte.
O analista diplomático Pedrag Simic vaticina que à medida em que os aliados da coligação se retirem, mais mercenários tomarão os seus postos.
Para o Exército e para o governo dos EUA, o negócio é muito vantajoso se se tiver em conta que são simples assalariados em busca de fortuna e que ao morrer não entram na grande lista oficial de baixas, nem são envolvidos em discussões legais ou pressionados pela opinião pública.
Estes soldados da fortuna arriscam-se a morrer no Iraque por salários que ascendem aos mil dólares por dia, impossíveis de conseguir nas suas nações de origem.
Na recente visita a países latino-americanos, o Grupo de Trabalho da ONU sobre o uso de mercenários verificou que as contratações são possíveis graças a enormes irregularidades e vazios legais existentes, como é o caso do Peru.
José Luis Gómez del Prado, membro do grupo de trabalho, disse que mais de mil peruanos oferecem os seus serviços em condições incertas no país árabe, onde predomina o risco para as suas vidas, as longas jornadas de trabalho e vivem amontoados.
O especialista exprimiu a falta total de transparência nas contratações pela inexistência de controlos sobre a forma como são recrutados ou sobre as condições em que trabalham.
Um informe publicado pelo diário El Mercurio, de Lima, denunciou que a violência não é o único risco que correm os peruanos no Iraque; também sofrem maus tratos, discriminações e humilhações por parte da empresa empregadora estadunidense Triple Canopy.
Ainda que o fenómeno do mercenarismo não seja novo, este cresceu com a chegada de Bush à Casa Branca, cujo filho a fez florescer a níveis imprevistos com a sua chamada guerra ao terrorismo em 60 ou mais países, que identificava como “cantos obscuros” do mundo.
Com outros tantos regulamentos, a administração estadunidense converteu em letra morta a Convenção Internacional contra o Recrutamento, a Utilização, o Financiamento e o Treino de Mercenários, aprovada pela ONU em 1989 e assinada até agora por 28 países.
Juan Carlos Díaz Guerrero
El Corresponsal de Medio Oriente y Africa
http://www.infoalternativa.org/iraque/iraque081.htm
Apenas mais um Truque?
Ainda não li o documento em si, ou as alterações que efectivamente irão ser feitas ao estatuto do Aluno, pois apenas acedi à versão para propaganda comunicacional.
Mas pelo que vejo comentado e pelo que ouço de quem andou pelas reuniões com a tutela, o que vai acontecer é o fim “formal”, “administrativo”, do abandono escolar porque a reprovação por faltas acaba por desaparecer graças a um malabarismo técnico que - aposto as minhas hipótese de titularização contra um bom prato de migas - irá siurgir nas próximas estatísticas oficiais.
O que vai acontecer é que, diferindo a reprovação (ou aprovação) dos alunos absentistas para um eventual exame final obrigatório, isso faz desaparecer artificialmente o abandono escolar durante o ano lectivo. E será fácil, muito fácil, transformar um malabarismo técnico-legislativo numa vitória de uma inexistente política educativa consequente.
Veremos como em 2009, a ser este sistema implementado já em 2007-08, alguém em nome do ME aparecerá a brandir gráficos, com escalas mais ou menos trabalhadas, a mostrar uma quebra na taxa de abandono escolar. Quebra essa porque, à boa e velha moda dos tempos do Estado Novo em que se afirmava que a prostituição não existia porque não era reconhecida como tal e não eram feitas estatísticas (este desvio justifica-ase em função de passadas investigações minhas nesta área, não se assustem…), o abandono escolar terá diminuído porque deixou de ser contabilizado como anteriormente.
Se tornamos impossível registar como abandono escolar o total absentismo escolar dos alunos, mantendo-os formalmente no sistema por via do tal exame no final do ano, claro que o abandono escolar deixará formalmente de existir. E o aproveitamento político e demagógico de tal ficção não se fará esperar.
Se estou errado, por favor expliquem-me, porque sinceramente espero mesmo estar errado
Porque acho que deveriam existir limites de decência quanto à manipulação dos dados sobre este tipo de fenómenos sociais, em especial aqueles que como o abandono escolar precoce são tão dramáticos e têm efeitos a longo prazo extremamente negativos para os indivíduos e toda a sociedade. E se nos preocupamos apenas com a cosmética estatística e nada com a substância, tudo isto não passa de mais hipocrisia retórica.
http://educar.wordpress.com/
Mas pelo que vejo comentado e pelo que ouço de quem andou pelas reuniões com a tutela, o que vai acontecer é o fim “formal”, “administrativo”, do abandono escolar porque a reprovação por faltas acaba por desaparecer graças a um malabarismo técnico que - aposto as minhas hipótese de titularização contra um bom prato de migas - irá siurgir nas próximas estatísticas oficiais.
O que vai acontecer é que, diferindo a reprovação (ou aprovação) dos alunos absentistas para um eventual exame final obrigatório, isso faz desaparecer artificialmente o abandono escolar durante o ano lectivo. E será fácil, muito fácil, transformar um malabarismo técnico-legislativo numa vitória de uma inexistente política educativa consequente.
Veremos como em 2009, a ser este sistema implementado já em 2007-08, alguém em nome do ME aparecerá a brandir gráficos, com escalas mais ou menos trabalhadas, a mostrar uma quebra na taxa de abandono escolar. Quebra essa porque, à boa e velha moda dos tempos do Estado Novo em que se afirmava que a prostituição não existia porque não era reconhecida como tal e não eram feitas estatísticas (este desvio justifica-ase em função de passadas investigações minhas nesta área, não se assustem…), o abandono escolar terá diminuído porque deixou de ser contabilizado como anteriormente.
Se tornamos impossível registar como abandono escolar o total absentismo escolar dos alunos, mantendo-os formalmente no sistema por via do tal exame no final do ano, claro que o abandono escolar deixará formalmente de existir. E o aproveitamento político e demagógico de tal ficção não se fará esperar.
Se estou errado, por favor expliquem-me, porque sinceramente espero mesmo estar errado
Porque acho que deveriam existir limites de decência quanto à manipulação dos dados sobre este tipo de fenómenos sociais, em especial aqueles que como o abandono escolar precoce são tão dramáticos e têm efeitos a longo prazo extremamente negativos para os indivíduos e toda a sociedade. E se nos preocupamos apenas com a cosmética estatística e nada com a substância, tudo isto não passa de mais hipocrisia retórica.
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Símbolos de fé
O Sr. Joaquim Gonçalves, bispo de Vila Real, aponta, na sua mensagem pascal, que os símbolos de fé, são também construtores da civilização. Crucifixo, sacrário e o lava-pés são ícones «cimeiros das igrejas».
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=45094&seccaoid=3&tipoid=116
Comentário:
- Para dependurar paramentos, o crucifixo foi substituído, com vantagem, pelos cabides;
- O sacrário, se guardasse algo importante, teria dado lugar aos cofres blindados, com muito maior segurança;
- E o lava-pés? É assim tão importante? É incómodo para um semicúpio e, de certo, o Sr. bispo encontra melhor quando a bexiga o apoquenta.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=45094&seccaoid=3&tipoid=116
Comentário:
- Para dependurar paramentos, o crucifixo foi substituído, com vantagem, pelos cabides;
- O sacrário, se guardasse algo importante, teria dado lugar aos cofres blindados, com muito maior segurança;
- E o lava-pés? É assim tão importante? É incómodo para um semicúpio e, de certo, o Sr. bispo encontra melhor quando a bexiga o apoquenta.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
Crimes da fé
Al-Qaeda recruta crianças para ataques no Iraque, diz ONU
http://www.estadao.com.br/ultimas/mundo/noticias/
2007/abr/11/121.htm
O islamismo é um plágio do cristianismo que se tornou uma imitação grosseira.
*
A 5.ª Cruzada ficou conhecida como «A Cruzada das Crianças». Acreditavam os cristãos que os jovens, inocentes, derrotariam os muçulmanos. Quando desembarcaram em Alexandria foram vendidos como escravos.
1218 - 5.ª CRUZADA [1219-1221], executada por Jean de Brienne, rei de Jerusalém.
*
A estupidez é a mãe de todas os crimes.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
http://www.estadao.com.br/ultimas/mundo/noticias/
2007/abr/11/121.htm
O islamismo é um plágio do cristianismo que se tornou uma imitação grosseira.
*
A 5.ª Cruzada ficou conhecida como «A Cruzada das Crianças». Acreditavam os cristãos que os jovens, inocentes, derrotariam os muçulmanos. Quando desembarcaram em Alexandria foram vendidos como escravos.
1218 - 5.ª CRUZADA [1219-1221], executada por Jean de Brienne, rei de Jerusalém.
*
A estupidez é a mãe de todas os crimes.
um artigo de Carlos Esperança
http://www.ateismo.net/diario/
segunda-feira, abril 16, 2007
TEMPO É ASSASSÍNIO
Que o tempo é dinheiro e nada mais, já o capitalismo sabia antes de Karl Marx. O tempo linear abstracto da economia empresarial corresponde ao "trabalho abstracto", ao dispêndio de "nervo, músculo e cérebro" que há que optimizar para o fim em si da valorização do capital monetário – com indiferença face ao conteúdo e face à saúde dos trabalhadores. A máquina social capitalista faz também do ser humano uma máquina. Já nos tempos do milagre económico foi observado que o ritmo do tempo de trabalho apodera-se até do "tempo livre". A corrida geral contra o tempo tornou-se precisamente o signo da sociedade pós-moderna da aceleração. O filósofo Paul Virilio falou em "pausa frenética". No Japão deu que falar o "Karoshi", a morte repentina em serviço no sagrado local de trabalho.
A crise mundial da terceira revolução industrial levou a loucura do trabalho ao paroxismo. Quanto mais o desemprego e o subemprego alastram, tanto mais descaradamente se espreme até ao tutano os orgulhosos ocupantes de postos de trabalho. Seja nas fábricas dos conglomerados ou entre o pessoal das empresas de serviços, seja nos privatizados correios e caminhos de ferro ou mesmo nos templos do capital financeiro: em toda parte uma só pessoa tem de desempenhar as tarefas que antes eram de três ou quatro. Nos EUA e na Argentina veio a público que os supermercados distribuiram fraldas às empregadas das caixas, para que elas não "roubassem tempo" à economia da empresa com as suas necessidades fisiológicas. A ocupação total vem a par da humilhação, tudo em nome das necessidades da rentabilidade.
Mas de maneira nenhuma a lufa-lufa do trabalho atinge apenas as camadas inferiores das cadeias globais de criação de valor. Uma vez que a máquina de combusão de seres humanos não se alimenta só de "músculo", mas também de "nervo e cérebro", também não são poupados os "oficiais e sub-oficiais" da muito invocada sociedade do conhecimento. Quando, no início de 2007, um jovem advogado financeiro da renomeada sociedade de advogados "Freshfields Bruckhaus" se lançou do sétimo andar do museu londrino Tate Modern, ouviu-se lamentar: "A City devora os seus filhos". Apesar da perspectiva de um salário anual de 1 milhão de libras para breve, o ambicioso elemento da elite não aguentou mais as jornadas de 16 horas, sete dias por semana, a que o imperativo "up or out" obrigava. Ao mesmo tempo foi conhecida uma série de suicídios no centro de tecnologia da Renault. Um director de informática lançou-se para a morte, um engenheiro altamente qualificado afogou-se num lago próximo, um outro enforcou-se na sua residência. Como pano de fundo está o programa de saneamento "Renault Contrat 2009", o qual acaba em psicoterror entre os trabalhadores de topo, com críticas negativas na presença dos colegas.
Tais acontecimentos, abordados mediaticamente com completa impotência, são apenas a ponta do iceberg. Tempo é dinheiro, ou seja, assassínio. Possivelmente ainda vamos ver empresários modelos a pôr fraldas de manhã cedo, para não desperdiçar, com desnecessárias idas à casa de banho, o precioso tempo do seu cérebro. Fraldas descartáveis para todos e "Karoshi" para todos, então talvez se consiga mais facilmente aguentar o estremo escachar dos rendimentos e talvez a "retoma" possa prosseguir. É preciso aceitar que entretanto as panes e as catástrofes se acumulem, pois, de todo o modo, o que conta no capitalismo virtual não é a qualidade do conteúdo. Para uma cultura de combustão universal impõe-se também a obrigação de uma corajosa autocombustão.
Robert Kurz
http://obeco.planetaclix.pt/
A crise mundial da terceira revolução industrial levou a loucura do trabalho ao paroxismo. Quanto mais o desemprego e o subemprego alastram, tanto mais descaradamente se espreme até ao tutano os orgulhosos ocupantes de postos de trabalho. Seja nas fábricas dos conglomerados ou entre o pessoal das empresas de serviços, seja nos privatizados correios e caminhos de ferro ou mesmo nos templos do capital financeiro: em toda parte uma só pessoa tem de desempenhar as tarefas que antes eram de três ou quatro. Nos EUA e na Argentina veio a público que os supermercados distribuiram fraldas às empregadas das caixas, para que elas não "roubassem tempo" à economia da empresa com as suas necessidades fisiológicas. A ocupação total vem a par da humilhação, tudo em nome das necessidades da rentabilidade.
Mas de maneira nenhuma a lufa-lufa do trabalho atinge apenas as camadas inferiores das cadeias globais de criação de valor. Uma vez que a máquina de combusão de seres humanos não se alimenta só de "músculo", mas também de "nervo e cérebro", também não são poupados os "oficiais e sub-oficiais" da muito invocada sociedade do conhecimento. Quando, no início de 2007, um jovem advogado financeiro da renomeada sociedade de advogados "Freshfields Bruckhaus" se lançou do sétimo andar do museu londrino Tate Modern, ouviu-se lamentar: "A City devora os seus filhos". Apesar da perspectiva de um salário anual de 1 milhão de libras para breve, o ambicioso elemento da elite não aguentou mais as jornadas de 16 horas, sete dias por semana, a que o imperativo "up or out" obrigava. Ao mesmo tempo foi conhecida uma série de suicídios no centro de tecnologia da Renault. Um director de informática lançou-se para a morte, um engenheiro altamente qualificado afogou-se num lago próximo, um outro enforcou-se na sua residência. Como pano de fundo está o programa de saneamento "Renault Contrat 2009", o qual acaba em psicoterror entre os trabalhadores de topo, com críticas negativas na presença dos colegas.
Tais acontecimentos, abordados mediaticamente com completa impotência, são apenas a ponta do iceberg. Tempo é dinheiro, ou seja, assassínio. Possivelmente ainda vamos ver empresários modelos a pôr fraldas de manhã cedo, para não desperdiçar, com desnecessárias idas à casa de banho, o precioso tempo do seu cérebro. Fraldas descartáveis para todos e "Karoshi" para todos, então talvez se consiga mais facilmente aguentar o estremo escachar dos rendimentos e talvez a "retoma" possa prosseguir. É preciso aceitar que entretanto as panes e as catástrofes se acumulem, pois, de todo o modo, o que conta no capitalismo virtual não é a qualidade do conteúdo. Para uma cultura de combustão universal impõe-se também a obrigação de uma corajosa autocombustão.
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Estabelecimentos de Mirandela lançam a alheira do dia seguinte
Depois do relatório que refere a presença de uma bactéria responsável por abortos espontâneos na maioria das alheiras, os estabelecimentos já estão a lucrar. A alheira do dia seguinte já está disponível gratuitamente nos Centros de Atendimento a Jovens e em Centros de Saúde ou hospitais. Este método contraceptivo de emergência só será vendido mediante a apresentação de uma receita carimbada por um merceeiro devidamente autorizado. A Organização Mundial de Saúde já considerou este meio de contraceptivo seguro e, para juntar o útil ao agradável, pondera a sua distribuição nos campos de refugiados e nos programas de saúde reprodutiva de responsabilidade das Nações Unidas.
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Governo Americano constrói Porta-aviões Liza Minelli para colocar militares voluntários gay
As Forças Formadas Americanas poderão acabar com a discriminação contra os gays devido à dificuldade em mobilizar voluntários hetero para o exército. O Congresso Americano já aprovou um reforço financeiro para a remodelação da indumentária dos militares e para a substituição das habituais garrafas de whisky, sempre presentes nos mini-bares dos militares, por sumos de maçã. “A missão do Iraque absorveu todos os psicopatas, esquizofrénicos e autistas. Muitos militares ainda estão a cumprir o ano de pena que lhes falta por terem assassinado as suas famílias, depois de terem voltado do Afeganistão e do Iraque. Enquanto esses não estão disponíveis, temos que chamar os gays, as únicas pessoas doentes que ainda não foram aproveitadas”, afirmou Bush
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Saara Ocidental: Luta sem tréguas pela independência e soberania
Proveniente de Madrid, com escala em Oran, o voo da Companhia Air Algérie aterra no pequeno aeroporto militar de Tindouf, no sudoeste da Argélia. É nesta região inóspita do Saara que se situam os campos de refugiados saarauis, o complexo político/administrativo da Frente Polisário e os órgãos de Estado da República Árabe Saaraui Democrática. Delegações de cinco continentes desembarcam e pisam com emoção aquela terra solidária com a causa saaraui, sob um sol branco e forte, ainda assim uma temperatura amena e suportável e muito longe dos cinquenta e tal graus da época de Verão. A convite da Frente Polisário vão participar na Conferência Internacional de Solidariedade com o Povo saaraui, um povo que resiste e luta, em condições verdadeiramente dramáticas, pelo direito à fundação do seu Estado nacional, independente e soberano.
As formalidades são cumpridas com eficiência pelas autoridades argelinas e as delegações, agora sob a orientação directa dos responsáveis da Frente Polisário, são alojadas nos quatro campos de refugiados (Smara, El Ayon, Dakhla e Awsard) e entregues aos cuidados das famílias saarauis de acolhimento.
Nestes campos, que adoptaram os nomes das cidades ocupadas pelo regime ditatorial marroquino, estão cerca de 200 mil refugiados que aqui procuraram abrigo quando, em 1976, fugiram aos bombardeamentos com napalm por parte dos invasores mauritano-marroquinos.
Nos campos, onde a situação sanitária e alimentar é de uma precariedade permanente, as populações saarauis vivem em casas rudimentares feitas de adobe (barro) ou em tendas.
O boicote à ajuda humanitária por parte de Marrocos, perante a passividade da ONU no terreno, tem agravado este problema e as dificuldades de vida nestes campos. A população reage e enfrenta esta realidade dramática com uma vontade, coragem e uma dignidade que impressionam. O que nos leva a interrogar sobre qual o grau de sacrifícios e privações que terá de suportar um povo para que as instâncias internacionais actuem. Apesar dos responsáveis saarauis alertarem e apelarem insistentemente à comunidade internacional no sentido de obterem uma significativa ajuda no plano alimentar e sanitário, onde está o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados?
É com o raiar do dia e com despedidas cheias de emoção que as delegações partem para os territórios da República Árabe Saaraui Democrática. O destino é Tifariti, capital dos territórios libertados, onde se desenrolarão os trabalhos da Conferência de Solidariedade, o que acontece pela primeira vez desde o eclodir do conflito em 1973. Todas as conferências têm sido realizadas no exterior.
Até lá são 340 km de jeep pelo areal imenso, ou planuras pedregosas a perder de vista, onde as estradas são trilhos e os sinais de direcção meras referências na paisagem. Pelo meio, ficou uma curta pausa para uma refeição fugaz à sombra de uma acácia, a que não faltou o famoso “tê” – o chá que é uma síntese da cultura da vida e das esperanças deste povo.
Durante o longo trajecto, aqui e acolá manchas verdes escuras das acácias, que albergam famílias nómadas com os seus rebanhos de cabras ou filas de camelos, a lembrar-nos que estamos em pleno deserto do Saara.
TIFARITI, SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA
A temperatura de 27º é suportável, mas a noite é fresca. Já no interior dos jeeps o ar é irrespirável; vale nos o turbante que actua como autêntico filtro da poeira que sufoca as vias respiratórias.
Finalmente, ao longe, entre nuvens de pó e gritos de alegria, aparece Tifariti – um promontório situado no meio dum gigantesco e profundo vale, situado a cerca de 100 km das linhas marroquinas. Edifícios coloniais tipo fortins, que albergam o hospital e outros serviços administrativos, e muitas tendas gigantes constituem aquela pequena cidadela alimentada a gerador.
À entrada, elementos do exército de libertação e polícias que fiscalizam e dão indicações para o estacionamento.
É uma cidade histórica, sede de uma das quatro regiões militares existentes nos territórios libertados. É também um símbolo de resistência tenaz ao invasor marroquino e foi aqui que, em 27 de Fevereiro de 1976, a Frente Polisário proclamou a independência da República Árabe Saaraui Democrática, logo reconhecida por dezenas de países.
Das entranhas do deserto e envoltas numa nuvem de poeira continuam a chegar os jeeps que transportam as delegações de partidos, sindicatos, cooperativas, ONG’s, associações ou representações a nível de Estado, e são muitas: Argélia, África do Sul, Cuba, Venezuela, Angola, Itália, França, Espanha, Suécia, Alemanha, Mauritânia, Bélgica, Palestina, Quénia, México, El Salvador, Etiópia, Vietname, Portugal, etc.
A presença de tão grande número de participantes na Conferência, realizada de 26 a 28 de Fevereiro, é a confirmação de que está vivo o espírito solidário e internacionalista entre os povos que lutam e resistem e, neste caso particular, o apoio de combate militante com a nobre e patriota causa do povo saaraui. É também a compreensão da importância que esta conferência poderá significar, como fórum de alerta e pressão sobre as instâncias internacionais e de mensagem de esperança para as populações, militantes e patriotas que resistem nas condições particularmente difíceis de repressão policial e militar nos territórios ocupados pela monarquia marroquina.
Mas afinal o que está em causa no Saara Ocidental? Para situar a questão importa lembrar um pouco de história.
O Saara Ocidental foi uma colónia espanhola desde 1884. O interesse de Espanha era meramente militar já que as suas costas atlânticas protegiam as Ilhas Canárias e a retaguarda de Marrocos, território na altura cobiçado por Madrid e Paris.
A ocupação contou desde sempre com a resistência dos chamados “homens azuis” do deserto, que desencadearam uma longa luta de guerrilhas contra os propósitos das potências colonialistas de dominarem o interior do território.
A TRAIÇÃO DA ESPANHA
Os ventos de independência que atravessaram a região de Magreb (a Argélia, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Tunísia) estimularam os nacionalistas saarauis que fundam, em 1967, o movimento Al Muslim e, em 1968, a Frente de Libertação do Saara. Em 1979, manifestações pró-independência foram brutal e sangrentamente reprimidas, colocando aos dirigentes saarauis a inevitabilidade da luta armada. Em Maio de 1973 foi constituída a Frente Popular de Libertação de Saguia el Hamra e Rio do Ouro (Frente Polisário). A luta armada inicia se com um ataque bem sucedido a um posto militar espanhol. Os êxitos militares da Frente Polisário, a par de sucessivas resoluções da ONU a favor da independência do Saara, obrigam a ditadura franquista a aceitar o princípio da autodeterminação. É nesta altura que se descobrem importantes jazidas de fosfatos e se suspeita da existência de ferro, petróleo, gás natural, ouro e urânio, o que, somado à riqueza pesqueira do seu mar de 150 mil km2, aguça os apetites expansionistas da monarquia marroquina que, perante a iminência da independência do território, começa a reivindicar a soberania sobre o Saara, uma alegação recusada pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia.
Negociando secretamente com a Espanha, o rei Hassan II organiza uma operação de provocação e propaganda (a “Marcha Verde”), supostamente pacífica sobre o Saara e, logo de seguida, introduz no local 11 batalhões de blindados e de infantaria, perante a impotência e desorientação do exército colonial espanhol.
Tudo se torna claro quando, dias antes da morte do ditador fascista, a 14 de Novembro de 1975, um acordo tripartido, assinado em Madrid por Arias Navarro, cede o território do Saara a Marrocos e à Mauritânia, atraiçoando desta forma as expectativas e promessas feitas ao povo saaraui.
LUTA DE LIBERTAÇÃO
À retirada das tropas espanholas, a Frente Polisário proclama em Tifariti, capital dos territórios libertados, a República Árabe Saaraui Democrática.
A resposta da Mauritânia e Marrocos foi o bombardeamento indiscriminado de populações civis com napalm, obrigando centenas de milhares de saarauis a procurar abrigo no país vizinho – a Argélia.
À Frente Polisário e ao exército de libertação saaraui não resta outra saída a não ser a de prosseguir a guerra patriótica e de libertação, desferindo os seus eficazes ataques no próprio território de Marrocos e da Mauritânia, levando este último país a uma crise profunda. Em Junho de 1978, os militares mauritanos depõem o presidente Uld Daddah, pondo fim à guerra e, em 5 de Agosto de 1979, assinam um acordo de paz com a Frente Polisário.
Com a retirada das tropas mauritanas, o regime totalitário marroquino ocupa a parte Sul do Saara deixado pela Mauritânia e, com a ajuda da França, Estados Unidos e da própria Espanha, prossegue a guerra. Mas o invasor não consegue mais do que dominar os fortins militares que ocupa. Os homens do exército de libertação saaraui são os senhores da noite e os seus ataques relâmpago infligem milhares de baixas ao exército marroquino, o que, a par da sangria económica, leva ao interior da monarquia marroquina importantes manifestações e protestos do seu próprio povo.
Entretanto, importantes vitórias no plano diplomático alcançadas pela Frente Polisário e o isolamento crescente de Marrocos acabam por impor um cessar-fogo, com base nas resoluções 658 (1990) e 690 (1991) do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que previa, para Janeiro de 1992, a realização de um referendo livre, legítimo e sem restrições administrativas nem militares, bem como a participação exclusiva da população saaraui registada no censo espanhol de 1974.
Mas a monarquia marroquina depressa esqueceu os acordos aprovados por ambas as partes em 1991. Através de manobras dilatórias e constantes provocações, tem rejeitado qualquer hipótese de referendo, a não ser um referendo determinado por Marrocos que «não ponha em causa a soberania e integridade territorial de Marrocos», onde obviamente está incluído o território do Saara Ocidental.
Mesmo os “planos de paz”, conhecidos por planos Baker I, II, III (nome do enviado especial do Secretário geral das Nações Unidas), aprovados pelo Conselho de Segurança em diversas resoluções e que previam um período de 4 a 5 anos de autonomia, seguido de um referendo aberto, tanto à população saaraui como marroquina estabelecida no território do Saara Ocidental até 31 de Dezembro de 1999, têm sido sistemática e criminosamente rejeitados pela monarquia marroquina.
É uma evidência que o cessar-fogo de 1991, cumprido escrupulosamente pela Frente Polisário e, na palavra dos seus dirigentes, através de «mil gestos de boa vontade», como a libertação de 2110 soldados de Marrocos, tem sido permanentemente torpedeado por Marrocos, numa perspectiva da continuação da guerra por outros meios, a saber: o genocídio do povo saaraui.
Esta verdade dramática encontra expressão na edificação pelo regime marroquino do chamado “muro da vergonha”, que divide o território do Saara Ocidental, numa linha longitudinal Norte-Sul, em 1700 km, e onde estão plantadas 7 milhões de minas antipessoais; na crescente militarização de Marrocos, acompanhada por uma inusitada arrogância face às decisões e resoluções da comunidade internacional, nomeadamente da OUA e da ONU; e na repressão policial e militar nos territórios ocupados, sob a forma de intimidação, detenções, tortura, desaparecimentos e assassinatos a sangue-frio da população e activistas saarauis.
É incompreensível e chocante que, perante esta realidade de ocupação e colonização, abusos e assassínios em massa de um povo, desrespeito ostensivo e provocatório pelo direito internacional, a ONU e o Conselho de Segurança se limitem a produzir resoluções (que já são 50) e a reduzir os efectivos e meios de intervenção da sua força no território (MINURSO), conformando-se e agindo em função da prática do facto consumado da política marroquina.
Daí que os trabalhos da Conferência de Solidariedade com o Povo Saaraui tenham sido marcados por uma firme condenação de Marrocos e pelo apoio incondicional à Frente Polisário e à causa saaraui, que já hoje é apoiada e reconhecida por 86 países.
NOVAS CONSPIRAÇÕES
É também hoje evidente, pelo próprio agravamento da situação mundial, que o Saara Ocidental enfrenta novas conspirações por parte da Espanha, França, União Europeia, Estados Unidos e da NATO – que o Governo português de forma subserviente acompanha (recente acordo de pescas com Marrocos) – , conspirações essas que tentam reforçar e consagrar a criminosa ocupação militar por parte de Marrocos e legalizá-la através de projectos de “autonomia alargada”, o que é liminarmente rejeitado pelo Povo Saaraui e pela Frente Polisário.
Em plena Conferência foi dado conhecimento e denunciado que o governo socialista espanhol tinha firmado novos acordos com a monarquia marroquina e se preparava para lhe entregar 1200 carros de combate e cerca de 600 viaturas de transporte de tropas, em flagrante violação do direito internacional.
Considerando as responsabilidades que Espanha tem, como antiga potência administrante, no problema do Saara Ocidental, esta aliança com o regime despótico de Marrocos é pérfida e uma ameaça para a paz e a estabilidade em toda a região do Magreb.
A história tem confirmado que a supremacia militar não é tudo. A demonstração está em inúmeros exemplos: a guerra do Vietname, as guerras de libertação em África, na América Latina e na Ásia.
A supremacia militar de Marrocos, caucionada pelas potências imperialistas, não é suficiente para sufocar a resistência civil nos territórios ocupados, assim como será insuficiente para impedir a inquebrantável coragem e vontade do Povo Saaraui de viver numa pátria livre e soberana.
A declaração final ou “Declaração de Tifariti”, que sintetiza os intensos trabalhos da Conferência Internacional de Solidariedade com o Povo Saaraui e foi aprovada por unanimidade, aclamação e muita emoção, não só confirmou a importância deste fórum como, pelas repercussões que irá ter nos domínios político, diplomático e militar, abre perspectivas e esperanças completamente novas a favor do reforço do processo de descolonização do Saara Ocidental e à fundação de um Estado independente e soberano sob a direcção da Frente Polisário.(...)
A República Árabe Saaraui Demorática, que celebrou no dia 27 de Fevereiro o 31.º aniversário da sua proclamação com uma parada militar nos territórios libertados, é já uma parte importante do país futuro que o Povo Saaraui e o seu legítimo representante, a Frente Polisário, vão construindo com dignidade, luta e sacrifícios e a solidariedade e apoio de todo o mundo revolucionário e progressista.
José Martins
http://www.infoalternativa.org/africa/sara-ocidental004.htm
As formalidades são cumpridas com eficiência pelas autoridades argelinas e as delegações, agora sob a orientação directa dos responsáveis da Frente Polisário, são alojadas nos quatro campos de refugiados (Smara, El Ayon, Dakhla e Awsard) e entregues aos cuidados das famílias saarauis de acolhimento.
Nestes campos, que adoptaram os nomes das cidades ocupadas pelo regime ditatorial marroquino, estão cerca de 200 mil refugiados que aqui procuraram abrigo quando, em 1976, fugiram aos bombardeamentos com napalm por parte dos invasores mauritano-marroquinos.
Nos campos, onde a situação sanitária e alimentar é de uma precariedade permanente, as populações saarauis vivem em casas rudimentares feitas de adobe (barro) ou em tendas.
O boicote à ajuda humanitária por parte de Marrocos, perante a passividade da ONU no terreno, tem agravado este problema e as dificuldades de vida nestes campos. A população reage e enfrenta esta realidade dramática com uma vontade, coragem e uma dignidade que impressionam. O que nos leva a interrogar sobre qual o grau de sacrifícios e privações que terá de suportar um povo para que as instâncias internacionais actuem. Apesar dos responsáveis saarauis alertarem e apelarem insistentemente à comunidade internacional no sentido de obterem uma significativa ajuda no plano alimentar e sanitário, onde está o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados?
É com o raiar do dia e com despedidas cheias de emoção que as delegações partem para os territórios da República Árabe Saaraui Democrática. O destino é Tifariti, capital dos territórios libertados, onde se desenrolarão os trabalhos da Conferência de Solidariedade, o que acontece pela primeira vez desde o eclodir do conflito em 1973. Todas as conferências têm sido realizadas no exterior.
Até lá são 340 km de jeep pelo areal imenso, ou planuras pedregosas a perder de vista, onde as estradas são trilhos e os sinais de direcção meras referências na paisagem. Pelo meio, ficou uma curta pausa para uma refeição fugaz à sombra de uma acácia, a que não faltou o famoso “tê” – o chá que é uma síntese da cultura da vida e das esperanças deste povo.
Durante o longo trajecto, aqui e acolá manchas verdes escuras das acácias, que albergam famílias nómadas com os seus rebanhos de cabras ou filas de camelos, a lembrar-nos que estamos em pleno deserto do Saara.
TIFARITI, SÍMBOLO DE RESISTÊNCIA
A temperatura de 27º é suportável, mas a noite é fresca. Já no interior dos jeeps o ar é irrespirável; vale nos o turbante que actua como autêntico filtro da poeira que sufoca as vias respiratórias.
Finalmente, ao longe, entre nuvens de pó e gritos de alegria, aparece Tifariti – um promontório situado no meio dum gigantesco e profundo vale, situado a cerca de 100 km das linhas marroquinas. Edifícios coloniais tipo fortins, que albergam o hospital e outros serviços administrativos, e muitas tendas gigantes constituem aquela pequena cidadela alimentada a gerador.
À entrada, elementos do exército de libertação e polícias que fiscalizam e dão indicações para o estacionamento.
É uma cidade histórica, sede de uma das quatro regiões militares existentes nos territórios libertados. É também um símbolo de resistência tenaz ao invasor marroquino e foi aqui que, em 27 de Fevereiro de 1976, a Frente Polisário proclamou a independência da República Árabe Saaraui Democrática, logo reconhecida por dezenas de países.
Das entranhas do deserto e envoltas numa nuvem de poeira continuam a chegar os jeeps que transportam as delegações de partidos, sindicatos, cooperativas, ONG’s, associações ou representações a nível de Estado, e são muitas: Argélia, África do Sul, Cuba, Venezuela, Angola, Itália, França, Espanha, Suécia, Alemanha, Mauritânia, Bélgica, Palestina, Quénia, México, El Salvador, Etiópia, Vietname, Portugal, etc.
A presença de tão grande número de participantes na Conferência, realizada de 26 a 28 de Fevereiro, é a confirmação de que está vivo o espírito solidário e internacionalista entre os povos que lutam e resistem e, neste caso particular, o apoio de combate militante com a nobre e patriota causa do povo saaraui. É também a compreensão da importância que esta conferência poderá significar, como fórum de alerta e pressão sobre as instâncias internacionais e de mensagem de esperança para as populações, militantes e patriotas que resistem nas condições particularmente difíceis de repressão policial e militar nos territórios ocupados pela monarquia marroquina.
Mas afinal o que está em causa no Saara Ocidental? Para situar a questão importa lembrar um pouco de história.
O Saara Ocidental foi uma colónia espanhola desde 1884. O interesse de Espanha era meramente militar já que as suas costas atlânticas protegiam as Ilhas Canárias e a retaguarda de Marrocos, território na altura cobiçado por Madrid e Paris.
A ocupação contou desde sempre com a resistência dos chamados “homens azuis” do deserto, que desencadearam uma longa luta de guerrilhas contra os propósitos das potências colonialistas de dominarem o interior do território.
A TRAIÇÃO DA ESPANHA
Os ventos de independência que atravessaram a região de Magreb (a Argélia, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Tunísia) estimularam os nacionalistas saarauis que fundam, em 1967, o movimento Al Muslim e, em 1968, a Frente de Libertação do Saara. Em 1979, manifestações pró-independência foram brutal e sangrentamente reprimidas, colocando aos dirigentes saarauis a inevitabilidade da luta armada. Em Maio de 1973 foi constituída a Frente Popular de Libertação de Saguia el Hamra e Rio do Ouro (Frente Polisário). A luta armada inicia se com um ataque bem sucedido a um posto militar espanhol. Os êxitos militares da Frente Polisário, a par de sucessivas resoluções da ONU a favor da independência do Saara, obrigam a ditadura franquista a aceitar o princípio da autodeterminação. É nesta altura que se descobrem importantes jazidas de fosfatos e se suspeita da existência de ferro, petróleo, gás natural, ouro e urânio, o que, somado à riqueza pesqueira do seu mar de 150 mil km2, aguça os apetites expansionistas da monarquia marroquina que, perante a iminência da independência do território, começa a reivindicar a soberania sobre o Saara, uma alegação recusada pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia.
Negociando secretamente com a Espanha, o rei Hassan II organiza uma operação de provocação e propaganda (a “Marcha Verde”), supostamente pacífica sobre o Saara e, logo de seguida, introduz no local 11 batalhões de blindados e de infantaria, perante a impotência e desorientação do exército colonial espanhol.
Tudo se torna claro quando, dias antes da morte do ditador fascista, a 14 de Novembro de 1975, um acordo tripartido, assinado em Madrid por Arias Navarro, cede o território do Saara a Marrocos e à Mauritânia, atraiçoando desta forma as expectativas e promessas feitas ao povo saaraui.
LUTA DE LIBERTAÇÃO
À retirada das tropas espanholas, a Frente Polisário proclama em Tifariti, capital dos territórios libertados, a República Árabe Saaraui Democrática.
A resposta da Mauritânia e Marrocos foi o bombardeamento indiscriminado de populações civis com napalm, obrigando centenas de milhares de saarauis a procurar abrigo no país vizinho – a Argélia.
À Frente Polisário e ao exército de libertação saaraui não resta outra saída a não ser a de prosseguir a guerra patriótica e de libertação, desferindo os seus eficazes ataques no próprio território de Marrocos e da Mauritânia, levando este último país a uma crise profunda. Em Junho de 1978, os militares mauritanos depõem o presidente Uld Daddah, pondo fim à guerra e, em 5 de Agosto de 1979, assinam um acordo de paz com a Frente Polisário.
Com a retirada das tropas mauritanas, o regime totalitário marroquino ocupa a parte Sul do Saara deixado pela Mauritânia e, com a ajuda da França, Estados Unidos e da própria Espanha, prossegue a guerra. Mas o invasor não consegue mais do que dominar os fortins militares que ocupa. Os homens do exército de libertação saaraui são os senhores da noite e os seus ataques relâmpago infligem milhares de baixas ao exército marroquino, o que, a par da sangria económica, leva ao interior da monarquia marroquina importantes manifestações e protestos do seu próprio povo.
Entretanto, importantes vitórias no plano diplomático alcançadas pela Frente Polisário e o isolamento crescente de Marrocos acabam por impor um cessar-fogo, com base nas resoluções 658 (1990) e 690 (1991) do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que previa, para Janeiro de 1992, a realização de um referendo livre, legítimo e sem restrições administrativas nem militares, bem como a participação exclusiva da população saaraui registada no censo espanhol de 1974.
Mas a monarquia marroquina depressa esqueceu os acordos aprovados por ambas as partes em 1991. Através de manobras dilatórias e constantes provocações, tem rejeitado qualquer hipótese de referendo, a não ser um referendo determinado por Marrocos que «não ponha em causa a soberania e integridade territorial de Marrocos», onde obviamente está incluído o território do Saara Ocidental.
Mesmo os “planos de paz”, conhecidos por planos Baker I, II, III (nome do enviado especial do Secretário geral das Nações Unidas), aprovados pelo Conselho de Segurança em diversas resoluções e que previam um período de 4 a 5 anos de autonomia, seguido de um referendo aberto, tanto à população saaraui como marroquina estabelecida no território do Saara Ocidental até 31 de Dezembro de 1999, têm sido sistemática e criminosamente rejeitados pela monarquia marroquina.
É uma evidência que o cessar-fogo de 1991, cumprido escrupulosamente pela Frente Polisário e, na palavra dos seus dirigentes, através de «mil gestos de boa vontade», como a libertação de 2110 soldados de Marrocos, tem sido permanentemente torpedeado por Marrocos, numa perspectiva da continuação da guerra por outros meios, a saber: o genocídio do povo saaraui.
Esta verdade dramática encontra expressão na edificação pelo regime marroquino do chamado “muro da vergonha”, que divide o território do Saara Ocidental, numa linha longitudinal Norte-Sul, em 1700 km, e onde estão plantadas 7 milhões de minas antipessoais; na crescente militarização de Marrocos, acompanhada por uma inusitada arrogância face às decisões e resoluções da comunidade internacional, nomeadamente da OUA e da ONU; e na repressão policial e militar nos territórios ocupados, sob a forma de intimidação, detenções, tortura, desaparecimentos e assassinatos a sangue-frio da população e activistas saarauis.
É incompreensível e chocante que, perante esta realidade de ocupação e colonização, abusos e assassínios em massa de um povo, desrespeito ostensivo e provocatório pelo direito internacional, a ONU e o Conselho de Segurança se limitem a produzir resoluções (que já são 50) e a reduzir os efectivos e meios de intervenção da sua força no território (MINURSO), conformando-se e agindo em função da prática do facto consumado da política marroquina.
Daí que os trabalhos da Conferência de Solidariedade com o Povo Saaraui tenham sido marcados por uma firme condenação de Marrocos e pelo apoio incondicional à Frente Polisário e à causa saaraui, que já hoje é apoiada e reconhecida por 86 países.
NOVAS CONSPIRAÇÕES
É também hoje evidente, pelo próprio agravamento da situação mundial, que o Saara Ocidental enfrenta novas conspirações por parte da Espanha, França, União Europeia, Estados Unidos e da NATO – que o Governo português de forma subserviente acompanha (recente acordo de pescas com Marrocos) – , conspirações essas que tentam reforçar e consagrar a criminosa ocupação militar por parte de Marrocos e legalizá-la através de projectos de “autonomia alargada”, o que é liminarmente rejeitado pelo Povo Saaraui e pela Frente Polisário.
Em plena Conferência foi dado conhecimento e denunciado que o governo socialista espanhol tinha firmado novos acordos com a monarquia marroquina e se preparava para lhe entregar 1200 carros de combate e cerca de 600 viaturas de transporte de tropas, em flagrante violação do direito internacional.
Considerando as responsabilidades que Espanha tem, como antiga potência administrante, no problema do Saara Ocidental, esta aliança com o regime despótico de Marrocos é pérfida e uma ameaça para a paz e a estabilidade em toda a região do Magreb.
A história tem confirmado que a supremacia militar não é tudo. A demonstração está em inúmeros exemplos: a guerra do Vietname, as guerras de libertação em África, na América Latina e na Ásia.
A supremacia militar de Marrocos, caucionada pelas potências imperialistas, não é suficiente para sufocar a resistência civil nos territórios ocupados, assim como será insuficiente para impedir a inquebrantável coragem e vontade do Povo Saaraui de viver numa pátria livre e soberana.
A declaração final ou “Declaração de Tifariti”, que sintetiza os intensos trabalhos da Conferência Internacional de Solidariedade com o Povo Saaraui e foi aprovada por unanimidade, aclamação e muita emoção, não só confirmou a importância deste fórum como, pelas repercussões que irá ter nos domínios político, diplomático e militar, abre perspectivas e esperanças completamente novas a favor do reforço do processo de descolonização do Saara Ocidental e à fundação de um Estado independente e soberano sob a direcção da Frente Polisário.(...)
A República Árabe Saaraui Demorática, que celebrou no dia 27 de Fevereiro o 31.º aniversário da sua proclamação com uma parada militar nos territórios libertados, é já uma parte importante do país futuro que o Povo Saaraui e o seu legítimo representante, a Frente Polisário, vão construindo com dignidade, luta e sacrifícios e a solidariedade e apoio de todo o mundo revolucionário e progressista.
José Martins
http://www.infoalternativa.org/africa/sara-ocidental004.htm
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