A algumas semanas da eleição presidencial de 2 de Julho, Andrés Manuel López Obrador, o candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD), é alvo de um dilúvio de ataques mediáticos que o acusam de ser um perigo para o México. Sem pertencer a uma esquerda radical, poderia, no caso de vitória, inscrever-se na corrente latino-americana que toma as suas distâncias com Washington.
Chegado à presidência do México, a 2 de Julho de 2000, Vicente Fox, do Partido de Acção Nacional (PAN), teve o mérito de quebrar a hegemonia de um partido – o Partido Revolucionário Institucional (PRI) – que monopolizou o poder durante setenta e um anos. No entanto, o seu capital político tem sido gradualmente dilapidado pela falta de rigor na política interna: sobrexposição da sua esposa na vida política, e negócios do seu entorno familiar; ausência de uma direcção forte, que se traduziu num “gabinete cinzento” com poucas figuras importantes; ineficácia das soluções trazidas aos conflitos sociais; dificuldades para estabelecer pontes com os partidos da oposição; Congresso demasiado polarizado e com poucas possibilidades de acordos, frequentemente mergulhado em querelas com o executivo federal.
Com mais de 106 milhões de habitantes, a décima primeira economia mundial prepara-se para a renovação da presidência, da Câmara de deputados, do Senado e doutros postos regionais em vários Estados da federação, aquando de eleições que terão lugar a 2 de Julho próximo. O país conhece uma situação macro‑económica estável: um cambio de paridade com o dólar sem perturbações notórias, uma inflação controlada, uma economia que beneficia dos aumentos do preço do petróleo, primeiro recurso de exportação. Além disso, o montante das remessas dos mexicanos emigrados nos Estados Unidos atingiu 20,34 mil milhões de dólares no final de 2005 [1], passando a ser assim o recurso mais importante depois do petróleo.
No entanto, os progressos na cobrança dos impostos, a negociação com os insurgentes zapatistas (muito críticos em relação ao processo eleitoral em curso [2]) e a justiça social foram remetidos para mais tarde. Os limites da luta contra os grupos ligados ao tráfego de droga desembocaram num clima de insegurança pública asfixiante: raptos, ajustamentos de contas, contrabando de armas, explosão do uso de estupefacientes [3].
Nas vésperas da eleição presidencial, dois candidatos surgem como favoritos: Felipe Calderón, do PAN, o partido no poder, e, chamando a atenção devido à subida exponencial da esquerda na América Latina [4], Andrés Manual López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD) [5], apoiado pela Coligação Para o Bem de Todos (que agrupa o PRD, o Partido do Trabalho e Convergência Democrática).
Constituído formalmente a 26 de Maio de 1989, o PRD emergiu como partido político no movimento de diversos actores em procura de mudança: organização cívica da cidade do México (a Assembleia dos bairros), experiências de mobilização noutros lugares do país como a Coligação Operária, Campesina e Estudantil do Istmo, a Associação Cívica Nacional Revolucionária, a Corrente Democrática – surgida do interior do PRI, do qual procurava a democratização –, as bases do antigo Partido Comunista (o Partido Mexicano Socialista [PMS]), e a mobilização, em 1988, da Frente Democrática Nacional (FDN) em torno de Cuauhtémoc Cárdenas, também ele dissidente do PRI.
Aquando da eleição presidencial de 1988, Cárdenas reuniu 31,12% dos votos e, tendo em conta as fraudes, ninguém saberá jamais quem ganhou realmente, ele ou o candidato do PRI, Carlos Salinas de Gortari. Defendendo o respeito do voto, os direitos civis, e – embora aceitando a economia de mercado – a presença do Estado nos sectores-chave, o PRD obtém 7,91% dos votos nas eleições federais, em 1991. É pouco, mas isso é‑lhe suficiente para tomar posição face às eleições seguintes. É assim que em 1994 participa nas eleições federais e presidencial, onde Cárdenas obtém 16,18% dos votos, num contexto difícil: o levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) provoca um “voto do medo” em prol do candidato do PRI. O PRD sente simpatia pela causa dos neozapatistas, mas o subcomandante Marcos mostra-se crítico em relação a certos PRD-istas.
De 1996 a 1999, López Obrador dirige o PRD (membro da Internacional Socialista desde 1996). A sua estratégia de penetração em todo o país através das Brigadas do Sol Asteca permite ao partido progredir de forma muito nítida: em 1997, Cárdenas torna-se chefe de governo da Cidade do México [6].
Todos contra o PRI! Em 2000, oito partidos da Aliança pelo México, entre eles o PRD e o PAN, estabelecem uma aliança para garantir a derrota que o historiador conservador mexicano Enrique Krauze qualificou de «presidência imperial», e o escritor Mario Vargas Llosa, de «ditadura perfeita». A tentativa encalha na escolha de um candidato único. Enquanto Cárdenas preconiza uma “primária”, Fox recusa, preferindo a fórmula de uma “sondagem massiva”! Apesar da incongruência da proposta, tem trunfos para justificá‑la: fraudes e pagamentos indevidos conduziram à anulação da eleição da nova direcção nacional do PRD, a 14 de Março de 1999. No funcionamento interno, as práticas dos dirigentes do PRD não são ainda diferentes das dos líderes do PRI, do qual muitos procedem...
Outros sentem o vento mudar, e juntam-se ao PAN, como o universitário Jorge Castañeda, que se torna conselheiro de Fox durante a campanha: «É certo que Vicente Fox não é um político de esquerda, mas assumiu posições em matéria económica e social, como em política internacional, que me permitem e deveriam permitir a numerosos pensadores e militantes de esquerda na América Latina aproximar-se dele sem abdicar das nossas convicções» [7]. O futuro dará outras tonalidades a estas afirmações.
Nesta eleição, e nestas condições, Cárdenas obtém apenas 16,54% dos votos [8]. O episódio cai muito mal, provocando enormes divisões no PRD. No entanto, facto notável, conserva a Cidade do México, com López Obrador. Este apresenta um gabinete ministerial composto de várias mulheres e, gradualmente, à medida que a acção do seu governo produz os seus frutos, mantém-se a um bom nível de popularidade [9].
O PRD conhecerá uma ligeira melhoria durante as eleições de 2003: ganha ou conserva os Estados de Michoacán, de Zacatecas, Baixa de Califórnia do Sul e Guerrero, obtém uma presença importante nos Estados de Tabasco, Morelos, Tlaxcala e no Estado do México, bem como em vários municípios nos Estados de Chiapas, de Oaxaca e Veracruz.
O actual período eleitoral é marcado pelas dificuldades atravessadas pelo todo‑poderoso mas obsoleto PRI. A candidatura de Roberto Madrazo não chega a convencer os seus próprios militantes. Como consequência, pelo menos dois mil quadros de nível médio e elevado [10] desertaram, em grande parte recuperados pelo PRD. Alguns conseguiram integrar postos de candidato com vista às eleições de Julho. Mas isso não foi bem percebido pelos militantes e simpatizantes do PRD. De facto, a descida de López Obrador nas sondagens durante do mês de Abril – até aí ele estava à frente – está provavelmente ligada a este fenómeno. Vozes no partido, como a do seu antigo dirigente e fundador Cárdenas, vão igualmente nesta direcção. Vários dos colaboradores de López Obrador na campanha eleitoral foram militantes do PRI, por exemplo o antigo governador de Zacatecas, Ricardo Monreal, o antigo deputado Socorro Díaz, o regente [11] da Cidade do México Manuel Camacho Solís. Outras personalidades aderiram ao projecto de López Obrador, nomeadamente o antigo porta-voz do presidente Fox, Arturo Durazo.
A crítica mais severa veio do subcomandante Marcos, em Julho de 2005, quando fez notar que alguns destes políticos tinham feito parte do “salinismo” (corrente do antigo presidente Salinas), e tinham à época atacado os neozapatistas. Censura ao PRD a contra‑reforma da lei dos povos indígenas, que desnaturou os acordos de San Andrés [12].
Em qualquer caso, a eleição está prestes a polarizar‑se em torno de Calderón e López Obrador. Certamente, falta o debate televisivo do mês de Junho, elemento importante para o voto dos eleitores hesitantes. Poderia aliás revelar-se decisivo; é pelo menos o que deixa pensar a curta experiência das três últimas eleições presidenciais. E, actualmente, uma verdadeira «guerra suja» foi declarada tanto pelo PAN como pelo PRI para suscitar novamente um “voto do medo”.
Homem de esquerda, López Obrador começou a sua carreira no PRI, que deixou em 1988 para fundar o PRD. Foi no Estado de Tabasco, vizinho do de Chiapas, que criou as suas primeiras armas políticas lançando um programa de criação de empregos para os indígenas e a construção de habitação social. Uma das suas primeiras acções foi a defesa de um pescador morto sob tortura. Ignorando as autoridades, que afirmavam que o homem se tinha afogado, levou o seu combate até ao fim, apresentando o caso à Direcção Geral dos Direitos Humanos (o ombudsman federal), o que constituiu uma das primeiras intervenções [13]. Candidato em 1994 ao posto de governador de Tabasco, não foi eleito. Qualificando o escrutínio de fraudulento, conduziu uma série de mobilizações sociais que incluíram a ocupação de poços de petróleo e uma marcha de Tabasco até à Cidade do México.
López Obrador chega a esta campanha eleitoral com o capital político acumulado pela sua administração da Cidade do México: austeridade do seu estilo de vida, redução dos salários nos principais postos de governo da cidade, racionalização das despesas e das compras da administração, criação da universidade da Cidade do México, acções diversas em prol das pessoas de terceira idade e das mães solteiras, apoio resoluto à cultura, ordenamento de novas vias de circulação – principalmente a segunda etapa do periférico, o metro‑autocarro –, construção de habitação, prática constante de prestação de contas e de referendos populares.
A QUESTÃO INDÍGENA
Acresce o facto de ter saído vencedor da maquinação lançada pelo governo federal, pelo PAN e pelo PRI, em Abril de 2005, para destituí-lo do seu posto de presidente de câmara e impedir a sua candidatura à presidência [14]. Perto de um milhão de pessoas desceram à rua para apoiá‑lo. Mesmo se aquele que se propõe acabar com os privilégios e a corrupção não foi poupado por este tipo de negócios, quando, em 2004, uma vídeo rodado clandestinamente mostrou René Bejarano, o seu braço direito, a receber de um homem de negócios mexicano uma maleta contendo uma importante soma de dinheiro. Ou quando o seu ex‑secretário das finanças na capital federal foi filmado prestes a jogar milhares de dólares num casino de Las Vegas...
Os bastiões do PRD não cobrem toda a geografia nacional, o que explica uma campanha maratoniana e as alianças de López Obrador com outros sectores. No entanto, a sua plataforma eleitoral situa‑se, indubitavelmente, num movimento de esquerda. Ainda que não tenha relações directas com os principais protagonistas da região, como são Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales ou Hugo Chávez, várias das suas propostas marcam uma viragem na política externa e interna. Não é por acaso que o seu primeiro compromisso parte da problemática indígena: «Começaremos a pagar a dívida histórica que temos para com as comunidades indígenas... Reconheceremos os direitos dos povos indígenas, e os acordos de San Andrés Larráizar serão aplicados». Neste sentido, proporia pois a anulação da contra‑reforma de 2001. Paralelamente, propõe‑se reforçar os sistemas públicos de saúde, assegurar a educação a todos os níveis, com a criação de novos liceus e universidades, e de maiores espaços para a cultura, prestar uma forte atenção ao campo, atacar a deterioração do ambiente, sobretudo no sudeste do país.
Antes de 1994, López Obrador militou com energia contra a integração do seu país no Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (NAFTA: Canadá, Estados Unidos, México). Sem o pôr em causa, mas pretendendo utilizar melhor os seus mecanismos, encara actualmente de forma diferente a relação com o vizinho do Norte: «Desejaríamos que a relação com os Estados Unidos e o Canadá fosse para além do tratado de livre comércio e incluísse a cooperação para o desenvolvimento. Na agenda com o governo dos Estados Unidos, o tema principal será a imigração e os direitos humanos e de trabalho dos mexicanos que, para sobreviverem, atravessam a fronteira para ir trabalhar nos Estados Unidos» (“compromisso 37”) [15]. Um tema muito sensível e uma margem de manobra muito reduzida, como mostra a decisão de George W. Bush de militarizar o lado americano da fronteira comum. Do igual modo, López Obrador propõe recompor as relações com a América Latina, onde o México perdeu influência e presença.
O dinheiro investido pelo Estado para salvar o sistema bancário, em 1999, é outra das suas preocupações, com uma dívida de grandes proporções. O seu montante inicial era avaliado em mais de 47 mil milhões de euros. Mas, cada ano, o país compromete 4 mil milhões de euros do tesouro público para financiar os custos deste resgate bancário. É por isso que López Obrador deseja esclarecer e rever este processo perverso. Por fim, um ponto que tem toda a sua importância: a redução do salário de presidente (viveria no Palácio Nacional) e dos seus colaboradores.
O candidato do PRD evolui num ambiente político que vê, em graus diversos, vários presidentes latino‑americanos voltar as costas às políticas neoliberais: Morales na Bolívia, Tabaré Vázquez no Uruguai, René Preval no Haiti, Oscar Arias na Costa Rica, Nestor Kirchner na Argentina, da Silva no Brasil, Chávez na Venezuela, bem como Michelle Bachelet no Chile.
Para o editorialista Edelberto Torres Rivas, a situação é muito clara: «Há governos de esquerda em nove países que englobam 65% da população regional; partidos políticos de esquerda no México, em El Salvador, na Nicarágua e no Peru progridem nas sondagens mais recentes; a esquerda está no poder em cidades importantes, como Bogotá, Cidade do México, Manágua, San Salvador, Rosario e muitas outras» [16]. As eleições mexicanas representam por conseguinte elemento chave na relação de forças da região latino‑americana com os Estados Unidos e o resto do mundo. Uma vitória da esquerda faria apenas reforçar a posta em marcha de políticas económicas e sociais que alteram mais de duas décadas de neoliberalismo.
[1] Inter-American Development Bank, Remittances 2005, Washington, DC, Março de 2006, p. 6 e 39.
[2] Fernando Matamoros Ponce, A “outra campanha” dos zapatistas, Le Monde diplomatique, Fevereiro de 2006.
[3] Jean-François Boyer, Resultados mitigados da luta contra a droga, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
[4] Bernard Cassen, Uma nova América Latina em Viena, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
[5] Apresentam-se igualmente Roberto Madrazo (PRI), apoiado pelo Partido Verde Ecologista do México (PVEM); Patricia Mercado, do Partido Alternativa Social-democrata e Campesina; Roberto Campa, da Nova Aliança (saída de uma cisão recente do PRI).
[6] O PRD obtém igualmente 24,98% dos votos nas eleições federais.
[7] El País, Madrid, 31 de Maio de 2000.
[8] O PRD cai de cento e vinte e três lugares para cinquenta e três numa Câmara de deputados de quinhentos membros.
[9] Ler Ixchel Delaporte, Le maire qui change modestement la ville de Mexico [ed. brasileira: O prefeito que está a mudar a capital mexicana], Le Monde diplomatique, Janeiro de 2004.
[10] Frances Relea, “El PRI mexicano hace aguas”, El País, Madrid, 11 de Abril de 2006.
[11] Espécie de governador nomeado pelo presidente da República.
[12] Assinados a 16 de Fevereiro de 1996 pelos representantes do poder executivo, uma comissão do poder legislativo (Cocopa) que contava entre os seus membros deputados e senadores dos partidos políticos, e pelos representantes do EZLN, os acordos de San Andrés propunham-se, através de um pacto social, criar uma nova relação entre o Estado mexicano e os povos indígenas.
[13] Recomendação 14/90, em Gaceta de la CNDH, 90-3, México, Setembro de 1990, p. 15-19.
[14] Anne Vigna, Golpe baixo falhado na Cidade do México, Le Monde diplomatique, Junho de 2005.
[15] http://www.lopezobrador.org.mx/50compromisos/index
[16] Edelberto Torres Rivas, “América Latina. Reflexión desde la izquierda”, El Periódico (Guatemala), 12 de Março de 2006.
Erasmo Sáenz Carrete
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/amlatina/mexico009.htm
Chegado à presidência do México, a 2 de Julho de 2000, Vicente Fox, do Partido de Acção Nacional (PAN), teve o mérito de quebrar a hegemonia de um partido – o Partido Revolucionário Institucional (PRI) – que monopolizou o poder durante setenta e um anos. No entanto, o seu capital político tem sido gradualmente dilapidado pela falta de rigor na política interna: sobrexposição da sua esposa na vida política, e negócios do seu entorno familiar; ausência de uma direcção forte, que se traduziu num “gabinete cinzento” com poucas figuras importantes; ineficácia das soluções trazidas aos conflitos sociais; dificuldades para estabelecer pontes com os partidos da oposição; Congresso demasiado polarizado e com poucas possibilidades de acordos, frequentemente mergulhado em querelas com o executivo federal.
Com mais de 106 milhões de habitantes, a décima primeira economia mundial prepara-se para a renovação da presidência, da Câmara de deputados, do Senado e doutros postos regionais em vários Estados da federação, aquando de eleições que terão lugar a 2 de Julho próximo. O país conhece uma situação macro‑económica estável: um cambio de paridade com o dólar sem perturbações notórias, uma inflação controlada, uma economia que beneficia dos aumentos do preço do petróleo, primeiro recurso de exportação. Além disso, o montante das remessas dos mexicanos emigrados nos Estados Unidos atingiu 20,34 mil milhões de dólares no final de 2005 [1], passando a ser assim o recurso mais importante depois do petróleo.
No entanto, os progressos na cobrança dos impostos, a negociação com os insurgentes zapatistas (muito críticos em relação ao processo eleitoral em curso [2]) e a justiça social foram remetidos para mais tarde. Os limites da luta contra os grupos ligados ao tráfego de droga desembocaram num clima de insegurança pública asfixiante: raptos, ajustamentos de contas, contrabando de armas, explosão do uso de estupefacientes [3].
Nas vésperas da eleição presidencial, dois candidatos surgem como favoritos: Felipe Calderón, do PAN, o partido no poder, e, chamando a atenção devido à subida exponencial da esquerda na América Latina [4], Andrés Manual López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD) [5], apoiado pela Coligação Para o Bem de Todos (que agrupa o PRD, o Partido do Trabalho e Convergência Democrática).
Constituído formalmente a 26 de Maio de 1989, o PRD emergiu como partido político no movimento de diversos actores em procura de mudança: organização cívica da cidade do México (a Assembleia dos bairros), experiências de mobilização noutros lugares do país como a Coligação Operária, Campesina e Estudantil do Istmo, a Associação Cívica Nacional Revolucionária, a Corrente Democrática – surgida do interior do PRI, do qual procurava a democratização –, as bases do antigo Partido Comunista (o Partido Mexicano Socialista [PMS]), e a mobilização, em 1988, da Frente Democrática Nacional (FDN) em torno de Cuauhtémoc Cárdenas, também ele dissidente do PRI.
Aquando da eleição presidencial de 1988, Cárdenas reuniu 31,12% dos votos e, tendo em conta as fraudes, ninguém saberá jamais quem ganhou realmente, ele ou o candidato do PRI, Carlos Salinas de Gortari. Defendendo o respeito do voto, os direitos civis, e – embora aceitando a economia de mercado – a presença do Estado nos sectores-chave, o PRD obtém 7,91% dos votos nas eleições federais, em 1991. É pouco, mas isso é‑lhe suficiente para tomar posição face às eleições seguintes. É assim que em 1994 participa nas eleições federais e presidencial, onde Cárdenas obtém 16,18% dos votos, num contexto difícil: o levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) provoca um “voto do medo” em prol do candidato do PRI. O PRD sente simpatia pela causa dos neozapatistas, mas o subcomandante Marcos mostra-se crítico em relação a certos PRD-istas.
De 1996 a 1999, López Obrador dirige o PRD (membro da Internacional Socialista desde 1996). A sua estratégia de penetração em todo o país através das Brigadas do Sol Asteca permite ao partido progredir de forma muito nítida: em 1997, Cárdenas torna-se chefe de governo da Cidade do México [6].
Todos contra o PRI! Em 2000, oito partidos da Aliança pelo México, entre eles o PRD e o PAN, estabelecem uma aliança para garantir a derrota que o historiador conservador mexicano Enrique Krauze qualificou de «presidência imperial», e o escritor Mario Vargas Llosa, de «ditadura perfeita». A tentativa encalha na escolha de um candidato único. Enquanto Cárdenas preconiza uma “primária”, Fox recusa, preferindo a fórmula de uma “sondagem massiva”! Apesar da incongruência da proposta, tem trunfos para justificá‑la: fraudes e pagamentos indevidos conduziram à anulação da eleição da nova direcção nacional do PRD, a 14 de Março de 1999. No funcionamento interno, as práticas dos dirigentes do PRD não são ainda diferentes das dos líderes do PRI, do qual muitos procedem...
Outros sentem o vento mudar, e juntam-se ao PAN, como o universitário Jorge Castañeda, que se torna conselheiro de Fox durante a campanha: «É certo que Vicente Fox não é um político de esquerda, mas assumiu posições em matéria económica e social, como em política internacional, que me permitem e deveriam permitir a numerosos pensadores e militantes de esquerda na América Latina aproximar-se dele sem abdicar das nossas convicções» [7]. O futuro dará outras tonalidades a estas afirmações.
Nesta eleição, e nestas condições, Cárdenas obtém apenas 16,54% dos votos [8]. O episódio cai muito mal, provocando enormes divisões no PRD. No entanto, facto notável, conserva a Cidade do México, com López Obrador. Este apresenta um gabinete ministerial composto de várias mulheres e, gradualmente, à medida que a acção do seu governo produz os seus frutos, mantém-se a um bom nível de popularidade [9].
O PRD conhecerá uma ligeira melhoria durante as eleições de 2003: ganha ou conserva os Estados de Michoacán, de Zacatecas, Baixa de Califórnia do Sul e Guerrero, obtém uma presença importante nos Estados de Tabasco, Morelos, Tlaxcala e no Estado do México, bem como em vários municípios nos Estados de Chiapas, de Oaxaca e Veracruz.
O actual período eleitoral é marcado pelas dificuldades atravessadas pelo todo‑poderoso mas obsoleto PRI. A candidatura de Roberto Madrazo não chega a convencer os seus próprios militantes. Como consequência, pelo menos dois mil quadros de nível médio e elevado [10] desertaram, em grande parte recuperados pelo PRD. Alguns conseguiram integrar postos de candidato com vista às eleições de Julho. Mas isso não foi bem percebido pelos militantes e simpatizantes do PRD. De facto, a descida de López Obrador nas sondagens durante do mês de Abril – até aí ele estava à frente – está provavelmente ligada a este fenómeno. Vozes no partido, como a do seu antigo dirigente e fundador Cárdenas, vão igualmente nesta direcção. Vários dos colaboradores de López Obrador na campanha eleitoral foram militantes do PRI, por exemplo o antigo governador de Zacatecas, Ricardo Monreal, o antigo deputado Socorro Díaz, o regente [11] da Cidade do México Manuel Camacho Solís. Outras personalidades aderiram ao projecto de López Obrador, nomeadamente o antigo porta-voz do presidente Fox, Arturo Durazo.
A crítica mais severa veio do subcomandante Marcos, em Julho de 2005, quando fez notar que alguns destes políticos tinham feito parte do “salinismo” (corrente do antigo presidente Salinas), e tinham à época atacado os neozapatistas. Censura ao PRD a contra‑reforma da lei dos povos indígenas, que desnaturou os acordos de San Andrés [12].
Em qualquer caso, a eleição está prestes a polarizar‑se em torno de Calderón e López Obrador. Certamente, falta o debate televisivo do mês de Junho, elemento importante para o voto dos eleitores hesitantes. Poderia aliás revelar-se decisivo; é pelo menos o que deixa pensar a curta experiência das três últimas eleições presidenciais. E, actualmente, uma verdadeira «guerra suja» foi declarada tanto pelo PAN como pelo PRI para suscitar novamente um “voto do medo”.
Homem de esquerda, López Obrador começou a sua carreira no PRI, que deixou em 1988 para fundar o PRD. Foi no Estado de Tabasco, vizinho do de Chiapas, que criou as suas primeiras armas políticas lançando um programa de criação de empregos para os indígenas e a construção de habitação social. Uma das suas primeiras acções foi a defesa de um pescador morto sob tortura. Ignorando as autoridades, que afirmavam que o homem se tinha afogado, levou o seu combate até ao fim, apresentando o caso à Direcção Geral dos Direitos Humanos (o ombudsman federal), o que constituiu uma das primeiras intervenções [13]. Candidato em 1994 ao posto de governador de Tabasco, não foi eleito. Qualificando o escrutínio de fraudulento, conduziu uma série de mobilizações sociais que incluíram a ocupação de poços de petróleo e uma marcha de Tabasco até à Cidade do México.
López Obrador chega a esta campanha eleitoral com o capital político acumulado pela sua administração da Cidade do México: austeridade do seu estilo de vida, redução dos salários nos principais postos de governo da cidade, racionalização das despesas e das compras da administração, criação da universidade da Cidade do México, acções diversas em prol das pessoas de terceira idade e das mães solteiras, apoio resoluto à cultura, ordenamento de novas vias de circulação – principalmente a segunda etapa do periférico, o metro‑autocarro –, construção de habitação, prática constante de prestação de contas e de referendos populares.
A QUESTÃO INDÍGENA
Acresce o facto de ter saído vencedor da maquinação lançada pelo governo federal, pelo PAN e pelo PRI, em Abril de 2005, para destituí-lo do seu posto de presidente de câmara e impedir a sua candidatura à presidência [14]. Perto de um milhão de pessoas desceram à rua para apoiá‑lo. Mesmo se aquele que se propõe acabar com os privilégios e a corrupção não foi poupado por este tipo de negócios, quando, em 2004, uma vídeo rodado clandestinamente mostrou René Bejarano, o seu braço direito, a receber de um homem de negócios mexicano uma maleta contendo uma importante soma de dinheiro. Ou quando o seu ex‑secretário das finanças na capital federal foi filmado prestes a jogar milhares de dólares num casino de Las Vegas...
Os bastiões do PRD não cobrem toda a geografia nacional, o que explica uma campanha maratoniana e as alianças de López Obrador com outros sectores. No entanto, a sua plataforma eleitoral situa‑se, indubitavelmente, num movimento de esquerda. Ainda que não tenha relações directas com os principais protagonistas da região, como são Luiz Inácio Lula da Silva, Evo Morales ou Hugo Chávez, várias das suas propostas marcam uma viragem na política externa e interna. Não é por acaso que o seu primeiro compromisso parte da problemática indígena: «Começaremos a pagar a dívida histórica que temos para com as comunidades indígenas... Reconheceremos os direitos dos povos indígenas, e os acordos de San Andrés Larráizar serão aplicados». Neste sentido, proporia pois a anulação da contra‑reforma de 2001. Paralelamente, propõe‑se reforçar os sistemas públicos de saúde, assegurar a educação a todos os níveis, com a criação de novos liceus e universidades, e de maiores espaços para a cultura, prestar uma forte atenção ao campo, atacar a deterioração do ambiente, sobretudo no sudeste do país.
Antes de 1994, López Obrador militou com energia contra a integração do seu país no Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (NAFTA: Canadá, Estados Unidos, México). Sem o pôr em causa, mas pretendendo utilizar melhor os seus mecanismos, encara actualmente de forma diferente a relação com o vizinho do Norte: «Desejaríamos que a relação com os Estados Unidos e o Canadá fosse para além do tratado de livre comércio e incluísse a cooperação para o desenvolvimento. Na agenda com o governo dos Estados Unidos, o tema principal será a imigração e os direitos humanos e de trabalho dos mexicanos que, para sobreviverem, atravessam a fronteira para ir trabalhar nos Estados Unidos» (“compromisso 37”) [15]. Um tema muito sensível e uma margem de manobra muito reduzida, como mostra a decisão de George W. Bush de militarizar o lado americano da fronteira comum. Do igual modo, López Obrador propõe recompor as relações com a América Latina, onde o México perdeu influência e presença.
O dinheiro investido pelo Estado para salvar o sistema bancário, em 1999, é outra das suas preocupações, com uma dívida de grandes proporções. O seu montante inicial era avaliado em mais de 47 mil milhões de euros. Mas, cada ano, o país compromete 4 mil milhões de euros do tesouro público para financiar os custos deste resgate bancário. É por isso que López Obrador deseja esclarecer e rever este processo perverso. Por fim, um ponto que tem toda a sua importância: a redução do salário de presidente (viveria no Palácio Nacional) e dos seus colaboradores.
O candidato do PRD evolui num ambiente político que vê, em graus diversos, vários presidentes latino‑americanos voltar as costas às políticas neoliberais: Morales na Bolívia, Tabaré Vázquez no Uruguai, René Preval no Haiti, Oscar Arias na Costa Rica, Nestor Kirchner na Argentina, da Silva no Brasil, Chávez na Venezuela, bem como Michelle Bachelet no Chile.
Para o editorialista Edelberto Torres Rivas, a situação é muito clara: «Há governos de esquerda em nove países que englobam 65% da população regional; partidos políticos de esquerda no México, em El Salvador, na Nicarágua e no Peru progridem nas sondagens mais recentes; a esquerda está no poder em cidades importantes, como Bogotá, Cidade do México, Manágua, San Salvador, Rosario e muitas outras» [16]. As eleições mexicanas representam por conseguinte elemento chave na relação de forças da região latino‑americana com os Estados Unidos e o resto do mundo. Uma vitória da esquerda faria apenas reforçar a posta em marcha de políticas económicas e sociais que alteram mais de duas décadas de neoliberalismo.
[1] Inter-American Development Bank, Remittances 2005, Washington, DC, Março de 2006, p. 6 e 39.
[2] Fernando Matamoros Ponce, A “outra campanha” dos zapatistas, Le Monde diplomatique, Fevereiro de 2006.
[3] Jean-François Boyer, Resultados mitigados da luta contra a droga, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
[4] Bernard Cassen, Uma nova América Latina em Viena, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.
[5] Apresentam-se igualmente Roberto Madrazo (PRI), apoiado pelo Partido Verde Ecologista do México (PVEM); Patricia Mercado, do Partido Alternativa Social-democrata e Campesina; Roberto Campa, da Nova Aliança (saída de uma cisão recente do PRI).
[6] O PRD obtém igualmente 24,98% dos votos nas eleições federais.
[7] El País, Madrid, 31 de Maio de 2000.
[8] O PRD cai de cento e vinte e três lugares para cinquenta e três numa Câmara de deputados de quinhentos membros.
[9] Ler Ixchel Delaporte, Le maire qui change modestement la ville de Mexico [ed. brasileira: O prefeito que está a mudar a capital mexicana], Le Monde diplomatique, Janeiro de 2004.
[10] Frances Relea, “El PRI mexicano hace aguas”, El País, Madrid, 11 de Abril de 2006.
[11] Espécie de governador nomeado pelo presidente da República.
[12] Assinados a 16 de Fevereiro de 1996 pelos representantes do poder executivo, uma comissão do poder legislativo (Cocopa) que contava entre os seus membros deputados e senadores dos partidos políticos, e pelos representantes do EZLN, os acordos de San Andrés propunham-se, através de um pacto social, criar uma nova relação entre o Estado mexicano e os povos indígenas.
[13] Recomendação 14/90, em Gaceta de la CNDH, 90-3, México, Setembro de 1990, p. 15-19.
[14] Anne Vigna, Golpe baixo falhado na Cidade do México, Le Monde diplomatique, Junho de 2005.
[15] http://www.lopezobrador.org.mx/50compromisos/index
[16] Edelberto Torres Rivas, “América Latina. Reflexión desde la izquierda”, El Periódico (Guatemala), 12 de Março de 2006.
Erasmo Sáenz Carrete
Le Monde diplomatique
http://www.infoalternativa.org/amlatina/mexico009.htm
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