Com o gabinete de ministros de Fouad Siniora escondido no Grande Serralho, por trás de quilómetros de arame farpado e milhares de soldados – uma verdadeira “zona verde” no coração de Beirute –, a oposição largamente muçulmana xiita, secundada pelos seus aliados cristãos, levou ontem mais de 2 milhões de apoiantes ao centro da capital para anunciar a criação próxima de uma segunda administração no Líbano. Um governo de transição, foi como o ex-general Michel Aoun o chamou, enquanto Naeem Qassem, vice‑presidente do Hezbolá, falou agoirentamente das demonstrações de massas como «o dia do separatismo».
Assim, estará a milícia do Hezbolá, que conteve o desastroso bombardeamento do Líbano por parte de Israel no Verão passado, realmente a planear um golpe em benefício dos seus apoiantes iranianos e sírios, como Siniora suspeita? Ou estão Siniora e os seus colegas de gabinete – muçulmanos sunitas, cristãos e drusos – a trabalhar em benefício dos norte‑americanos e israelenses, como proclama o líder do Hezbolá, Hassan Nasrallah?
A administração Siniora é já mencionada na imprensa norte‑americana como “o governo apoiado pelos EUA”, na prática o beijo da morte para qualquer líder árabe actualmente, enquanto o rompimento do general Aoun com os seus correligionários cristãos poderá vir a ser fatal para ele. Só devido à sua estranha aliança com o Hezbolá pode o último proclamar que a sua oposição representa tanto cristãos como muçulmanos. Fiel às ironias da política libanesa, foi o mesmo ex general Aoun que travou uma “guerra de independência” com os amigos sírios do Hezbolá, em 1990, um conflito que ele perdeu ao custo de 1000 vidas.
Mas até os apoiantes do governo Siniora foram apanhados de surpresa pelo enorme número de libaneses que o Hezbolá conseguiu mobilizar ontem, homens e mulheres que, em muitos casos, vieram das aldeias e dos bairros pobres urbanos que sofreram uma destruição quase total na guerra deste Verão.
Os seus porta-vozes desempenharam o papel de representantes dos pobres – “o povo da rua” foi como um estouvado clérigo sunita lhes chamou na sexta-feira – que não tiveram tempo a perder com as classes privilegiadas ou as pretensões feudais dos apoiantes do governo: Amin Gemayel, pai do ministro da Indústria assassinado, Nayla Moawad, viúva de um presidente libanês assassinado, Saad Hariri, filho do ex‑primeiro ministro assassinado Rafik Hariri, e Walid Jumblatt, filho do líder druso assassinado Kamal Jumblatt.
Se a política e a história do Líbano não fossem tão trágicas, haveria nisso um toque de Gilbert e Sullivan [1]. Hoje em dia visitado regularmente pelo atarefado embaixadorzinho dos Estados Unidos Jeffrey Feltman, Siniora ouviu há apenas alguns anos de um dos predecessores do senhor Feltman que o seu visto de entradas múltiplas para os Estados Unidos era inválido, pois acreditava-se que ele, Siniora, tinha doado dinheiro para uma entidade beneficiente associada com – sim – o Hezbolá. E houve mais do que uma insinuação de sarcasmo ontem quando Qassem anunciou que Siniora trabalhava para os norte‑americanos e israelenses.
“Morte aos EUA – Morte a Israel”, bradou ele e, evidentemente, a massa de manifestantes repetiu esta gastada retórica. Para as nações árabes que apoiaram o governo Siniora, Qassem tinha uma mensagem simples: «Nós estamos nos corações dos sunitas do mundo árabe – não vocês!».
E o perigo para Siniora é que a convicção de Qassem está provavelmente correcta. De facto, havia ontem um quê de revolução no ar, quando os pobres, os jovens das aldeias e o povo dos bairros pobres de Beirute convergiram para a Praça dos Mártires, onde o túmulo de Hariri se encontrava isolada por um cordão. Leila Tueni, a filha de outro líder político libanês assassinado, o jornalista Jibran Tueli (como todas as vítimas, anti‑sírio), declarou numa sala situada a apenas algumas centenas de metros dos protestos que a verdadeira razão pela qual Nasrallah queria derrubar o governo Siniora, do qual todos os ministros xiitas se demitiram, era impedi‑lo de dar a sua aprovação ao tribunal da ONU destinado a processar os assassinos de Hariri, que Tueni e os apoiantes de Siniora acreditam incluir alguns dos funcionários de alto nível do serviço de inteligência da Síria.
Mas algo ainda mais perigoso estava a soltar-se ontem. O tamanho da multidão aparentemente permitiram que Qassem e Aoun reclamassem um governo diferente – ou rival. Porém, não foram os xiitas, mas os simpatizantes de Siniora que venceram as últimas eleições no Líbano. Se esse resultado eleitoral já não fosse válido, o que é que isso indicaria sobre o respeito do Hezbolá pela política eleitoral e a Constituição do Líbano?
E as crescentes divisões xiitas-sunitas reflectem aqui, de forma frouxa, pálida mas assustadora, a tragédia das duas confissões religiosas na Mesopotâmia. Xiitas atacaram duas vezes o subúrbio sunita de Tarek al-Jdeide, em Beirute, um xiita foi assassinado e convertido num “mártir” da oposição, e o mufti da mesquita sunita de Qoreitem é acusado de atacar os imãs históricos xiitas, Ali e Hussein.
Jumblatt acabou de apelar aos estudantes da Universidade Libanesa que estudassem em casa, após um confronto entre alunos xiitas e sunitas. «Esta universidade é para todos os libaneses», insistiu Jumblatt. Mas o Líbano é?
[1] Referência a uma parceria de autores de óperas cómicas da Inglaterra vitoriana.
Robert Fisk
The Independent
http://infoalternativa.org/autores/fisk/fisk099.htm
Assim, estará a milícia do Hezbolá, que conteve o desastroso bombardeamento do Líbano por parte de Israel no Verão passado, realmente a planear um golpe em benefício dos seus apoiantes iranianos e sírios, como Siniora suspeita? Ou estão Siniora e os seus colegas de gabinete – muçulmanos sunitas, cristãos e drusos – a trabalhar em benefício dos norte‑americanos e israelenses, como proclama o líder do Hezbolá, Hassan Nasrallah?
A administração Siniora é já mencionada na imprensa norte‑americana como “o governo apoiado pelos EUA”, na prática o beijo da morte para qualquer líder árabe actualmente, enquanto o rompimento do general Aoun com os seus correligionários cristãos poderá vir a ser fatal para ele. Só devido à sua estranha aliança com o Hezbolá pode o último proclamar que a sua oposição representa tanto cristãos como muçulmanos. Fiel às ironias da política libanesa, foi o mesmo ex general Aoun que travou uma “guerra de independência” com os amigos sírios do Hezbolá, em 1990, um conflito que ele perdeu ao custo de 1000 vidas.
Mas até os apoiantes do governo Siniora foram apanhados de surpresa pelo enorme número de libaneses que o Hezbolá conseguiu mobilizar ontem, homens e mulheres que, em muitos casos, vieram das aldeias e dos bairros pobres urbanos que sofreram uma destruição quase total na guerra deste Verão.
Os seus porta-vozes desempenharam o papel de representantes dos pobres – “o povo da rua” foi como um estouvado clérigo sunita lhes chamou na sexta-feira – que não tiveram tempo a perder com as classes privilegiadas ou as pretensões feudais dos apoiantes do governo: Amin Gemayel, pai do ministro da Indústria assassinado, Nayla Moawad, viúva de um presidente libanês assassinado, Saad Hariri, filho do ex‑primeiro ministro assassinado Rafik Hariri, e Walid Jumblatt, filho do líder druso assassinado Kamal Jumblatt.
Se a política e a história do Líbano não fossem tão trágicas, haveria nisso um toque de Gilbert e Sullivan [1]. Hoje em dia visitado regularmente pelo atarefado embaixadorzinho dos Estados Unidos Jeffrey Feltman, Siniora ouviu há apenas alguns anos de um dos predecessores do senhor Feltman que o seu visto de entradas múltiplas para os Estados Unidos era inválido, pois acreditava-se que ele, Siniora, tinha doado dinheiro para uma entidade beneficiente associada com – sim – o Hezbolá. E houve mais do que uma insinuação de sarcasmo ontem quando Qassem anunciou que Siniora trabalhava para os norte‑americanos e israelenses.
“Morte aos EUA – Morte a Israel”, bradou ele e, evidentemente, a massa de manifestantes repetiu esta gastada retórica. Para as nações árabes que apoiaram o governo Siniora, Qassem tinha uma mensagem simples: «Nós estamos nos corações dos sunitas do mundo árabe – não vocês!».
E o perigo para Siniora é que a convicção de Qassem está provavelmente correcta. De facto, havia ontem um quê de revolução no ar, quando os pobres, os jovens das aldeias e o povo dos bairros pobres de Beirute convergiram para a Praça dos Mártires, onde o túmulo de Hariri se encontrava isolada por um cordão. Leila Tueni, a filha de outro líder político libanês assassinado, o jornalista Jibran Tueli (como todas as vítimas, anti‑sírio), declarou numa sala situada a apenas algumas centenas de metros dos protestos que a verdadeira razão pela qual Nasrallah queria derrubar o governo Siniora, do qual todos os ministros xiitas se demitiram, era impedi‑lo de dar a sua aprovação ao tribunal da ONU destinado a processar os assassinos de Hariri, que Tueni e os apoiantes de Siniora acreditam incluir alguns dos funcionários de alto nível do serviço de inteligência da Síria.
Mas algo ainda mais perigoso estava a soltar-se ontem. O tamanho da multidão aparentemente permitiram que Qassem e Aoun reclamassem um governo diferente – ou rival. Porém, não foram os xiitas, mas os simpatizantes de Siniora que venceram as últimas eleições no Líbano. Se esse resultado eleitoral já não fosse válido, o que é que isso indicaria sobre o respeito do Hezbolá pela política eleitoral e a Constituição do Líbano?
E as crescentes divisões xiitas-sunitas reflectem aqui, de forma frouxa, pálida mas assustadora, a tragédia das duas confissões religiosas na Mesopotâmia. Xiitas atacaram duas vezes o subúrbio sunita de Tarek al-Jdeide, em Beirute, um xiita foi assassinado e convertido num “mártir” da oposição, e o mufti da mesquita sunita de Qoreitem é acusado de atacar os imãs históricos xiitas, Ali e Hussein.
Jumblatt acabou de apelar aos estudantes da Universidade Libanesa que estudassem em casa, após um confronto entre alunos xiitas e sunitas. «Esta universidade é para todos os libaneses», insistiu Jumblatt. Mas o Líbano é?
[1] Referência a uma parceria de autores de óperas cómicas da Inglaterra vitoriana.
Robert Fisk
The Independent
http://infoalternativa.org/autores/fisk/fisk099.htm
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