sábado, abril 14, 2007

Einstein e a autoridade científica

Já escrevi aqui sobre a ideia da ciência ser um dogma e o cientista o sacerdote que o defende (1). Mas quero mostrar com um exemplo de autoridade científica como esta difere da autoridade dogmática da religião. Todos conhecem este senhor, especialmente a fotografia da esquerda. É fácil ver nesta um sábio sacerdote da ciência.A da direita mostra Einstein como era em 1905, com um ar bastante menos sacerdotal. O jovem Albert de 26 anos trabalhava no gabinete de patentes em Berna enquanto concluía o seu doutoramento, e nesse ano publicou quatro artigos na revista Annalen der Physik. O primeiro foi sobre o efeito fotoeléctrico e a natureza quântica da luz, mostrando que os quanta introduzidos por Max Planck eram mais que um mero formalismo matemático, e que revelavam algo fundamental acerca da realidade.

O segundo artigo foi sobre o movimento Browniano, o deambular das partículas microscópicas em solução. Einstein explicou-o pelo impacto de átomos e moléculas, dando evidência directa à teoria atómica e um modelo matemático que descrevia este movimento.

O terceiro foi sobre a electrodinâmica de corpos em movimento, onde formalizou a teoria especial da relatividade (para referenciais em movimento uniforme), abrindo um dos principais campos da física moderna e eliminando de vez o incómodo éter luminífero em relação ao qual se mediria a velocidade da luz.

Finalmente, publicou um artigo sobre a equivalência entre matéria e energia, a famosa equação E=mc2. Qualquer um destes artigos seria o excelente culminar de uma carreira científica. O jovem assistente de inspector de patentes publicou os quatro no mesmo ano, com 26 anos de idade e a tinta ainda a secar no diploma de doutoramento. E foi só o inicio.

Muitos cientistas liam o que Einstein publicava, como muitos católicos lêem o que o Papa escreve. Mas a autoridade do Papa ou de outros sacerdotes vem do cargo que ocupam. A mesma coisa escrita por um inspector assistente de um gabinete de patentes teria pouco impacto na comunidade católica.

A diferença fundamental é que uma religião é um conjunto rígido de crenças e tradições e a ciência é um método para gerar e aperfeiçoar descrições da realidade. As religiões têm que ser fechadas, auto-contidas, e resistentes à inovação. A ciência tem que ser aberta a ideias novas, e procurá-las onde quer que apareçam. Enquanto a autoridade do sacerdote é uma autoridade institucional, a autoridade do cientista vem do seu mérito, das suas ideias, seja quem ele for, e é-lhe concedida pelas provas que deu de ter algo interessante para contribuir.

1- Eu, 2-3-07, Dogma e ciência.
2- Wikipedia, Albert Einstein
Ludwig Krippahl
http://ktreta.blogspot.com/

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