sábado, abril 14, 2007

O primeiro mês do resto da ocupação

Março foi rico em balanços. Revendo nos media quatro anos de guerra e a evolução dantesca do Iraque ocupado, um sentimento de impotência assalta qualquer pessoa de bem. Mas Março não foi só mês de retrospectiva: foi um dos mais trágicos da aventura sangrenta de Bush. O mês terminou com a declaração lapidar de um criminoso encartado: como refere Michael Moore, «sabes que perdeste uma guerra quando Henry Kissinger diz que a perdeste».

Num livro acabado de publicar em Portugal, Identidade e Violência (ed. Tinta da China), uma voz moderada denuncia radicalmente o fundo da guerra civil aberta no Iraque. Trata-se de Amartya Sen, economista indiano e prémio Nobel: «a integridade do Iraque é dificultada por muitos factores históricos, incluindo o carácter arbitrário das suas fronteiras, determinadas por colonialistas ocidentais, e o carácter inevitavelmente divisor de uma intervenção militar arbitrária e mal informada. Mas, para além disso, a abordagem política dos líderes da ocupação, baseada nas seitas, tem alimentado um fogo que já existia anteriormente». De facto, a libertação imperial do Iraque cedo assumiu as práticas de sempre – dividir para reinar – e esse foi o caminho para um lento mas seguro agravamento das tensões étnicas e religiosas, exploradas e favorecidas por Washington.

Em Março, esse processo teve momentos extremos, com o atentado de Tal-Anfar (mais de 150 mortos) e mais de dois mil mortos, sobretudo civis, ao longo do mês. Os números da “vivissecção do Iraque”, como lhe chama Amartya Sen, são objecto de um estudo recente da revista científica britânica The Lancet, que aponta para 600 mil pessoas (7% da população adulta do país) mortas pela violência que a ocupação instalou. Os governos inglês e norte americano começaram por recusar esta estatística, mas em Março foi o próprio conselheiro científico de Tony Blair a reconhecer [1] que o método usado pela universidade John Hopkins e pela Lancet é «próprio das melhores práticas» e «amplamente testado na medição da mortalidade em conflitos». Em suma, os ocupantes conhecem a dimensão do seu crime. Bush e Blair sabem que os aguarda um lugar na galeria dos monstros que marcaram o século passado.

Com a situação no Iraque no pior cenário, a indústria militar tem razões para festejar: também em Março, foi conhecido o orçamento do Pentágono para 2008, nada menos que metade da despesa militar mundial (não chegava a 30% há duas décadas atrás). Mesmo a braços com as dívidas gémeas da economia norte americana, Bush não pára de gastar em morte e destruição. No Iraque, os contribuintes norte-americanos esbanjam hoje mais do que no pico da guerra do Vietname, dados ajustados à inflação. Dinheiro não falta, mas degrada se o consenso político interno sobre estas opções. Tomam a palavra o movimento contra a guerra, as famílias dos soldados, e mesmo o Partido Democrata, hoje maioritário na Câmara de Representantes e no Senado, incluiu na aprovação do orçamento para o Iraque uma data indicativa para a retirada – Agosto de 2008. O léxico da derrota está cada vez mais presente nos discursos em Washington: depois dos conselhos cépticos de James Baker, é agora o próprio Henry Kissinger que anuncia que a guerra está perdida. Em Março, o número de soldados norte-americanos mortos no Iraque atingiu os 3200. Não é um número redondo. Mas acaba de superar, no conflito iraquiano, o número de vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001, momento fundador da narrativa do “choque de civilizações” e da guerra infinita em que o império está a lançar o mundo.

Março foi um retrato forte da guerra. Na capital da super-potência, o embaraço militar pode não evitar a irracionalidade total. No Iraque, a ocupação recolhe a violência que ajudou a semear. Mas, na descida aos infernos, é o povo pobre que dá o sangue e lá fica. As tropas de ocupação são... vítimas colaterais, esperando a ordem de voltar para casa.

[1] Jill Lawless, British backtrack on Iraq death toll, The Independent, 27/02/2007.
Jorge Costa
Esquerda
http://www.infoalternativa.org/iraque/iraque080.htm

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