Características: uma socialização liberal anti-estadual
a) O caso: a necessidade da produção colectiva
O que se passa debaixo dos nossos olhos, nos caminhos de ferro, na navegação, nas instituições de crédito, etc., prova que o futuro, isto é, a força, a liberdade, a segurança, a riqueza, pertencem aos grandes capitais. Como grandes capitais, não referimos precisamente as grandes riquezas, o que não mudaria em nada o regime da sociedade antiga e só indicaria uma retrogradação social. Referimo-nos às grandes empresas, às coisas feitas em grande escala, por massas, e que requerem a comandita, a associação.
Certamente que a iniciativa individual não deve, nem pode, ser eliminada... Mas chegamos a uma época em que a própria acção individual, para se desenvolver, tem necessidade de se apoiar no grupo, na solidariedade dos interesses; e, até certo ponto, na sua centralização: servimo-nos destas palavras, à falta de outras, para designar uma situação até aqui sem exemplo.
Deste modo, em consideração às necessidades que o prazer do bem-estar criou e que desenvolveu a cada dia, dizemos que a produção individualista é fraca, pouco frutificante; nao aumenta de volume; não pode criar a abundância, o preço baixo, a vida cómoda.
É pois preciso que pelo menos uma parte das forças individuais seja agrupada, que estas formem, pela sua união, organismos poderosos, ligados entre si. Está aqui um princípio, doravante compreendido por toda a gente, tanto pelo povo como pela burguesia, pelo camponês e operário como pelo capitalista.
... A agitação socialista, presentemente reprimida, não revela, no fundo, outra coisa. Dela resulta, necessariamente, uma reorganização da indústria, do comércio e da agricultura. (Réfor. à opérer, cap. V.)
b) A consequência: um colectivismo liberal
Uma mudança de regime é necessária.
O que constitui a base de toda a empresa industrial, de toda a especulação mercantil ou financeira, é a divisão do trabalho, o grupo operário, a solidariedade entre a produção e o consumo, tudo coisas que indicam uma acção ou função colectiva. Que a colectividade adquira, pois, a sua própria consciência, e em vez de servir a exploração individual, não mais queira produzir a não ser para si; então, as instituições de crédito, os serviços públicos, as associações operárias, em lugar de agirem em proveito de alguns, trabalharão para todos; e a propriedade, tal como o Estado, será revolucionada... O que é, por exemplo, um caminho de ferro? Uma indústria, servida por um grupo de trabalhadores de diversos graus e espécies...
O que são uma mina, uma fundição, uma vidraria, uma fábrica de gás ou de produtos químicos, um serviço de autocarros, unia empresa de navegações? Outras tantas indústrias diferentes, servidas por grupos distintos de operários e empregados.
O mesmo quanto ao Banco de França e outras instituições de crédito, estaleiros, portos e todos os estabelecimentos que servem para recepção, depósito, carga e descarga de mercadorias: sempre serviços prestados por grupos de homens...
Sem esgotar a lista dos factos recentes, e para só falar do que há de mais antigo à face da terra, no fundo, o que é a comuna rural? Um grupo de traba lhadores...
É possível admitir que este movimento societário, resultante, não de teorias utopistas, mas das necessidades económicas, e que invade todos os canos da produção, permaneça eternamente fechado ao operário?... Será pois que o assalariado, o antigo escravo, excluído, desde a origem do mundo, da Propriedade, deverá sê-lo agora, até à consumação dos séculos, da Sociedade?...
A economia, que tem a pretensão de ser uma ciência positiva, não pode recusar-se a admitir a generalização segundo a qual o trabalho deve amortizar todos os capitais... Assim, a criação dessas inumeráveis companhias que tentam subjugar para todo o sempre a humanidade trabalhadora - e que tantas pessoas são tentadas a considerar como um movimento atrasado - é, em última análise, uma transição regeneradora. É através dela que toda a subalternização do homem ao homem deve desaparecer e que as classes que apelidamos de superiora e inferiora, nascidas da anarquia económica e do individualismo especulativo, devem voltar à homogeneidade e converterem-se numa única e mesma associação de produtores ... (Man. dun Spéc., conclusão.)
Se pussuis a ciência social, sabeis que o problema da organização consiste... em organizar os produtores e, por esta organização, submeter o capital e subalternizar o poder. Tal é a guerra que tendes de sustentar: guerra do trabalho contra o capital; guerra da liberdade contra a autoridade... Não serve para nada mudar os detentores do poder... é preciso encontrar uma combinação agrícola e industrial por meio da qual o poder, hoje dominador da sociedade, se torne escravo desta...
Para as classes trabalhadoras, o problema consiste pois, não em conquistar, mas em vencer, ao mesmo tempo, o poder e o monopólio. (Contr. Écon., cap. VII.)
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