sábado, outubro 17, 2009

O NEGRO E O VERMELHO

Uma Política Federalista

I
A FRANÇA E OS FRANCESES

1. - RETRATO DA NAÇÃO FRANCESA

Será verdade que sejamos a raça eleita... o povo arauto e monitor das revoluções? Livremo-nos deste nacionalismo... de que ainda hoje repartimos o ridículo com os Americanos, os Ingleses, os Alemães, os Eslavos...
A preponderância que obteve, muitas vezes seguidas, a nação francesa, foi sempre efeito duma situação forçada, nunca duma vocação misteriosa ou dum talento especial...
A nação francesa, ainda que frondosa e irrequieta, curiosa por novidades, incapaz duma disciplina rigorosa, rica em espíritos inventivas e em caracteres empreendedores, no fundo não é menos por isso, e tomada na totalidade, o representante, em tudo, do meio termo e da estabilidade.
Tendo todas as qualidades os seus defeitos, aquela tem também os seus, que não dissimularei: em suma, ela atesta a magnanimidade e a firmeza do nosso juízo. É a extrema liberdade da nossa razão, e não a inércia da nossa inteligência, que nos conduz, sem cessar, ao indiferentismo e amortece em nós a paixão, que, sozinha, é capaz de manter a von,tade fora dos caminhos vulgares...
Todos os nossos erros, todos os nossos ridículos, assim como as nossas derrotas e os nossos sucessos vêm daí.
Quantas vezes, em consequência desta desconfiança inata pela especulação e pelo desconhecido, roemos a corda ao progresso!...
Em política, fizemos uma grande revolução, é verdade, mas sem prever de forma alguma as suas consequências... Nem sequer tivemos o trabalho de fazer para nós uma Constituição nacional: copiámos a dos Ingleses...
Depois de termos querido apoderar-nos de tudo, na Ásia e na América, tudo perdemos, em grande parte, por incapacidade. Durante vinte anos, aplicámos, na Argélia, dois milhões e duzentos mil homens, sem termos podido criar raizes. As nossas obras-primas brilham nos palácios de cristal, mas não sabemos fazer a sua troca; os nossos mecânicos e os nossos engenheiros, desdenhados por nós, vão para o estrangeiro...
As inteligências superiores não faltam, certamente, na nossa raça, e Paris, local de encontro das individualidades fora do vulgar, é sempre o cérebro do globo. Mas aqui trata-se do povo, da colectividade francesa, e da sua acção unitária...
Sempre que a nação francesa se mostrou violenta, seja na reacção, seja na revolução, isso foi unicamente porque o seu bem-estar... lhe parecia comprometido, ora pela política dos príncipes, ora pelo fanatismo dos partidos e das seitas... A revolução surgiu sempre em França do meio termo ofendido...
Sim, vencemos em 89 a monarquia de direito divino, e, empurrados pelas circunstâncias, colocámo-nos à cabeça da civilização. Mas depressa nos detivemos no constitucionalismo; em vez de acabar a revolução através da organização das forças industriais, desviámo-la através duma vã reconciliação de poderes políticos...
Quem não vê que esta necessidade, tornada tão pungente, duma ponderação das forças económicas e duma distribuição mais equitativa dos bens da natureza e dos produtos da indústria é o resultado do movimento levado a cabo durante os últimos sessenta anos?...
Aceitará a nação, suportará ela, contrariamente ao seu carácter e às suas tendências, a condição anormal que a improvidência dos seus chefes lhe prepara? Consentirá ela, por medo do comunismo, em voltar ao antigo estado feudal?...
Tal é o problema que o progresso dos séculos nos manda resolver, não através de fórmulas inúteis de governo e de convenções insuficientes, mas através duma rigorosa disciplina das forças industriais...
Há duas Franças na actual França. Há a França que se conhece a ela própria, vive nas suas tradições, liga-se a elas com desespero, protesta contra uma revolução sem analogia; e a França do futuro, que ainda não se conhece, que se procura, que ja se sente, com todas as suas aspirações e objectivos, em oposição com a do passado. O contflito está ai. Todos, enquanto vivemos, devotos e cépticos, monárquicos e republicanos, enquanto racioeinamos segundo as ideias recebidas e os interesses estabelecidos, somos conservadores; enquanto obedecemos aos nossos instintos secretos, às forças ocultas que nos pressionam, aos desejos de melhoria geral que as circunstâncias nos sugerem, somos revolucionários. (Confes. dun Rév., post-scriptum.)

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