A CAPACIDADE POLITICA DA CLASSE OPERARIA
A burguesia acabou...
A plebe também acabou, o que foi bom para ela. A soberania do povo nunca foi senão um mito: é preciso que o mito fatal se desvaneça, por sua vez, diante da realidade...
Quando a indignação deita fogo aos privilégios... é preciso, por isso, descer até às bases do povo... (Justice, conscience et liberté.)
O povo, a quem a revolução de 1848 concedeu a faculdade de votar, será, ou não, capaz de intervir em política? Isto é:
º de formar sobre as questões que interessam à colectividade social uma opinião de acordo com a sua condição, o seu futuro, os seus interesses;
º por consequência, de dar sobre as mesmas questões, submetidas à sua arbitragem directa ou indirecta, um veredicto ponderado;
º enfim, de constituir um centro de acção, expressão das suas ideias, dos seus objectivos, das suas esperanças, e encarregado de proceder à execução dos seus projectos?...
Observemos, em primeiro lugar, que a palavra capacidade, falando do cidadão, é tomada sob dois pontos de vista diferentes: há a capacidade legal, e a capacidade real...
Uma vez que tratamos, como historiadores e filósofos, da capacidade política, é-nos preciso abandonar as ficções e, por isso, chegar à capacidade real; a única de que nos ocuparemos.
Para que haja, num sujeito, indivíduo, associação ou colectividade, capacidade política, são requeridos três condições fundamentais:
1.º que o sujeito tenha consciência de si próprio, da sua dignidade, do seu valor, do lugar que ocupa na sociedade, do papel que ele desempenha, das funções que ele tem o direito de pretender, dos interesses que ele representa ou personifica;
2.º como resultado dessa consciência de si próprio em todos os seus domínios, é indispensável que esse sujeito afirme a sua ideia, isto é, que saiba mostrar pela inteligência, traduzir pela palavra, explicar pelo raciocínio, no seu principio e nas suas consequências, a lei do seu ser;
3.º enfim, é necessário que, a partir dessa ideia, posta como profissão de fé, ele possa, segundo a necessidade e a diversidade das circunstâncias, deduzir sempre conclusões práticas...
Possuir a capacidade política, é ter consciência de si como membro duma colectividade, afirmar a ideia que dai resulta, e proceder à sua realização. Todo aquele que reúna estas três condições é capaz...
O problema da capacidade política, na classe operária, do mesmo modo que na classe burguesa e outrora na nobreza, equivale pois a perguntar:
a) se a classe operária, sob o ponto de vista das suas relações com a sociedade e com o Estado, adquiriu consciência de si própria; se, como ser colectivo, moral e livre, se distingue da classe burguesa; se separa desta os seus interesses, se pretende nunca se confundir com ela;
b) se possui uma ideia, isto é, se criou uma noção da sua própria constituição; se conhece as leis, condições e fórmulas da sua existência; se prevê, com base nisso, o destino, o fim; se se compreende a si própria, nas suas relações com o Estado, com a nação e a ordem universal;
c) se, a partir dessa ideia, enfim, a classe operária está em condições de deduzir, para a organização da sociedade, conclusões práticas que lhe sejam convenientes, e - no caso em que o poder, pela decadência ou pela retirada da burguesia, lhe for devolvido - de criar e de desenvolver uma nova ordem política... (Capac. Polit., liv. II, cap. II.)
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