terça-feira, outubro 20, 2009

O NEGRO E O VERMELHO

SEGUNDO OBSTACULO:
A DECOMPOSIÇÃO DEMOCRATICA

A. O cepticismo político e social

Em consequêneia do movimento político, económico e social, e da inevitável imperfeição da lei, já não se quer ver no Estado senão uma constituição arbitrária, vantajosa unicamente para os ambiciosos e para os intriguistas...
Admite-se um sistema de convenções, mais ou menos bem expressas e garantidas pelo Estado, que cada um se compromete a respeitar, e que respeitará, com efeito, tanto quanto o seu interesse e o risco de infracção o determinem...
As leis multiplicam-se, pois, em vão;... Cada decreto do legislador traz novos meios de se desviar da lei, in péssima republica plurimae leges.
A ditadura apodera-se do governo e tenta, como Augusto, regenerar os costumes: mas ela só servirá para pôr em relevo a dissolução universal, e acabará por ser, ela própria, dentro em breve, submersa... Foi assim que acabaram, umas após outras, todas as nações ilustres da história. Em cada morte, o desastre foi, em certa medida, reparado; e a civilização pôde continuar, ora devido à exaltarão de raças mais jovens, ora com a ajuda de imensas e espantosas revoluções. (Justice, Progrès et Décadence.)

B. As imprecisões da democracia

Tomando para ideal a utopia de Jean-Jacques, substituindo a política dos princípios pela dos instintos, decalcando o seu governo pelo do absolutismo, a democracia terminou no suicídio de 93, nas místicas atrocidades de 94, nas deserções de Thermidor e de Brumaire, nas eleições, muito esquecidas, de 1800 e 1804, nas de 1848, 1851 e 1852, que, espero, jamais serão esquecidas. Qual é o democrata de boa fé que, nesta hora, ousa testemunhar a firmeza, a elevada sabedoria, a razão infalível da multidão? Ao abandonarem a multidão, depois de a fazerem votar, haja o que houver, tapando-lhe os olhos e prendendo-lhe as mãos, colocando-a sob tutela; a partir disto, onde está a democracia? (Justice, Philos. prop.)

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