sábado, dezembro 26, 2009

O NEGRO E O VERMELHO

A liberdade motor de progresso ou de decadência

O que é então que, por momentos, entrava a justiça ?
Em duas palavras: como é que a humanidade, capaz, pela energia da sua consciência, de se engrandecer, em certas alturas, no bem, pode, em seguida, sucumbir voluntariamente no mal?...
Acusar aqui as instituições, o governo, seria pueril. Por que razão são estabelecidos as instituições e as leis? Pela razão do direito, sem dúvida. Então como é que a mesma razão não basta para corrigir os costumes, logo que seja reconhecido o defeito latente? Como é que o poder, cada vez mais prevaricador, é consentido? A justiça é a primeira lei do homem, ora, nenhum animal desrespeita o seu instinto: como é que o homem pode não cumprir a sua lei?...
O progresso... conforme a noção da justiça e conforme os factos, não é só possível: ele é o estado natural da humanidade. Donde, é preciso concluir que, se apesar disso, o progresso for suspenso, se ele próprio mudar para retrogradação, a causa não pode vir senão dum principio capaz de provocar violência ou ilusão à consciência.
Qual é essa causa?
A natureza? Perante a consciência, a natureza é positiva; ainda mais: vimos que, tratando-se da justiça distributiva e das leis naturais da economia, a natureza está de acordo com a justiça...
A única força capaz de pôr em situação critica a justiça é a liberdade. De que maneira? É o que vamos investigar imediatamente. Deste modo, depois de termos apresentado a liberdade como a força motriz do direito, somos conduzidos, por uma rigorosa indução, a assinalá-la perante o seu obstáculo...
Que a liberdade possa resistir ao apelo da consciência, tal como às influências da fatalidade, nada há nisso que nos deva escandalizar, porque, doutro modo, a liberdade deixaria de o ser, e a nossa moralidade desvanecer-se-ia...
A questão está, neste caso, em perguntar como é que a liberdade, que só persegue o seu proveito, chega a separar-se da justiça, que é o seu pacto... que não é outra coisa senão a liberdade, mas a liberdade dualizada, socializada, multiplicada ao infinito pela força do grupo social. (Justice, Progrès et Décadence.)

C. O progresso, pela justiça idealizada

Para compreender bem de que maneira o homem é inclinado para o mal... é preciso, antes de tudo, ter compreendido bem por qual influência ele é inclinado para o bem e impelido para a justificação...
No caso... em que o homem é colocado entre um interesse puramente pessoal, mas imediato e considerável, e a justiça - isto é, o interesse colectivo, que é, ao mesmo tempo, o seu interesse habitual e bem compreendido - como preferirá este, se ele não é determinado por outras considerações senão as do cálculo?...
É pois preciso um novo appoint... Qual será então esta influência determinante, capaz de dar superioridade à justiça... Quanto a nós... é o ideal, que já anteriormente reconhecemos... como sendo o carácter, a prerrogativa, a função e o produto da liberdade...
A própria justiça está submetida a esta acção da liberdade.
A justiça sem ideal parece defeituosa e falsa...
Esta idealidade... enquanto que em nada a obscurece, assegura o seu triunfo. De modo que a consciência, no homem, obedece a um triplo impulso: ao interesse geral, que é, ao mesmo tempo, o nosso, mas que não se mostra sempre de acordo com o egoísmo; ao sentimento de sociabilidade, a mais constante das nossas afecções, ainda que não seja sempre a mais vemente; à justiça idealizada pelo livre arbítrio enfim, o homem em posse do belo moral pela justiça, deve sair vencedor da tentação. (Justice, Progrès et Décadence.)

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