O PROGRESSO, DESENVOLVIMENTO DA JUSTIÇA,
A. O progresso, movimento da justiça e da liberdade
O progresso é a mesma coisa que a justiça e a liberdade, consideradas no seu movimento através dos séculos... Uma teoria do progresso, para ser completa e verdadeira, deve... tomar como ponto de partida a liberdade e a justiça e dai propagar-se a todas as faculdades do homem colectivo e individual...
Mostrar o progresso libertado de toda a fatalidade, como o livre arbítrio e a justiça...
Enfim, dar a explicação de todas as decadências e retrogradações sociais. (Justice, Progrès et Décadence.)
O vulgo, a maior parte dos sábios ou dos ignorantes, entende o progresso num sentido completamente utilitário e material. Acumulação de descobertas, multiplicação de máquinas, crescimento do bem-estar geral, a máxima extensão do ensino e melhoramento dos métodos... numa palavra: aumento da riqueza material e moral e participação de um número de homens cada vez maior nos prazeres da fortuna e do espírito: tal é para eles, pouco mais ou menos, o progresso. Infalivelmente, isso também é progresso... mas do progresso tudo isso só nos dá uma expressão restrita ... como direi? Um produto... (Philos. du Progrès.)
O progresso é, antes de tudo, um fenômeno de ordem moral, cujo movimento irradia em seguida, quer para o bem, quer para o mal, sobre todas as faculdades do ser humano, colectivo e individual. Esta irradiação da consciência pode ser levada a cabo de duas maneiras, conforme seguir a via da virtude ou a do pecado. No primeiro caso, chamo-lhe justificação ou aprefeiçoamento da humanidade por si própria; tem c:omo efeito fazer crescer indefinidamente a humanidade em liberdade e em justiça; consequentemente, desenvolver cada vez mais a sua força, as suas faculdades e os seus meios, e consequentemente elevá-la acima do que nela há de fatal: é nisto que consiste o progresso. No segundo caso, chamo ao movimento da consciência corrupção ou dissolução da humanidade por si própria, manifestada pela perda sucessiva dos costumes, da liberdade, do gênio, pela diminuição da coragem, da fé, pelo empobrecimento das raças, ete. É a decadência. Nos dois casos, digo que a humanidade se aperfeiçoa ou se destrói a si própria, porque neste caso tudo depende, exclusivamente, da consciência e da liberdade de modo que o movimento, tendo na justiça a sua base de operação e na liberdade a sua força motriz, já não pode conservar nada de fatal...
Sendo a justiça, como disse, o pacto da liberdade, consiste o seu movimento numa série de mudanças, sucessivamente produzidas ou anuladas, entre um número maior ou menor de pessoas e relativamente a um maior ou menor número de objectos. É claro que este movimento, livre no seu principio, livre nos seus motivos, é independente das leis orgânicas ou fatalidades da natureza. Ele é ad libitum totalmente facultativo, podendo, à medida do livre arbítrio, precipitar-se, retardar-se, interromper-se, retrogradar, renascer. No momento em que uma necessidade se deixe perceber no movimento social, pode dizer-se, a priori, que ela é estranha ao progresso.
Esta concepção geral da marcha da justiça permitir-nos-á ter em conta a multiplicidade dos acidentes, hesitações, atrasos e decadências que abundam na história da humanidade, diante dos quais, os teóricos vulgares do progresso fecham bravamente os olhos, a exemplo de Hegel, que só olhava para o conjunto e negligenciava o pormenor, um pormenor que afecta milhares de gerações e milhares de milhões de homens!...
Fixado deste modo o problema... nada de mais fácil de conceber que o seu avanço; a dificuldade real, a única dificuldade, reside no recuo. (Justice, Progrès et Décadence.)
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