segunda-feira, janeiro 25, 2010

O NEGRO E O VERMELHO

Não se quer compreender que esse período afortunado serviu precisamente para desenvolver o princípio do mal que a sociedade encerrava; acusam-se os homens e os deuses, os poderosos da terra e as forças da natureza. Em vez de procurar a causa do mal na sua razão e no seu coração, o homem acusa os mestres, os rivais, os vizinhos, ele próprio; as nações armam-se, atacam-se, exterminam-se, até que o equilíbrio se restabeleça e a paz renasça das cinzas dos combatentes. De tal maneira repugna à humanidade tocar nos costumes dos antepassados, modificar as leis dadas pelos fundadores das abades e confirmadas pela fidelidade dos séculos.
Nihll motum ex antlquo probablle est: Desconfiem de toda a inovação, exclamava Tito Lívio. Sem dúvida seria melhor para o homem nunca ter de mudar: Mas quê! se nasceu ignorante, se a sua condição é instruir-se por escalões, precisará renegar à luz, abdicar da razão e abandonar-se ao acaso? Saúde perfeita é preferível à convalescença; será motivo para o doente recusar curar-se? Reforma! reforma! gritaram outrora João Baptista e Jesus Cristo; reforma! reforma! gritavam os nosso pais há cinquenta anos, e gritá-lo-emos ainda por muito tempo: reforma! reforma!
Testemunha das dores do meu século, disse para comigo: Entre os princípios sobre os quais a sociedade assenta, há um que ela não compreende, que a sua ignorância viciou e causa todo o mal. Este princípio é o mais antigo de todos, porque está na essência das revoluções banir os mais modenos e respeitar os mais antigos; ora o mal que nos aflige é anterior a todas as revoluções. Este princípio, tal como a nossa ignorância o imaginou, é desejado e honrado, porque se o não fosse não se apossaria de ninguém, não teria influência.
Mas este princípio, verdadeiro nos seus fins, falso quanto à maneira de o entenderem, este princípio, velho como a humanidade, qual será? Será a religião?
Todos os homens acreditam em Deus: esse dogma pertence à consciência e à razão. Deus é, para a humanidade, um facto tão primitivo, uma ideia tão fatal, um princípio tão necessário, como o são, para o nosso entendimento, as ideias categoriais de causa, substância, tempo e espaço. Deus é-nos revelado pela consciência, anteriormente a qualquer indução do espírito, como o Sol nos é provado pelo testemunho dos sentidos, antes de todas as deduções da física.
A observação e a experiência revelam-nos os fenômenos e as leis, só o sentido íntimo nos revela as existências. A humanidade crê que existe Deus; mas no que crê ela, acreditando em Deus? Numa palavra, o que é Deus?
Esta noção da Divindade, primitiva, unânime, inata na nossa espécie, ainda não foi determinada pela razão humana. A cada passo que nos elevamos no conhecimento da natureza e das causas, a ideia de Deus expande-se e exalta-se: quanto mais a ciência avança, mais parece Deus crescer e recuar. O antropomorfismo e a idolatria foram uma consequência necessária da juventude dos espíritos, uma teologia de crianças e poetas. Erro inocente, se não se tivesse querido fazer dele um princípio de conduta e se se tivesse sabido respeitar a liberdade de opiniões. Mas, depois de haver feito Deus à nossa imagem, o homem quis ainda apropriar-se dele; não contente em desfigurar o grande Ser, tratou-o como património seu, coisa sua: Deus, representado sob formas monstruosas, tornou-se, por toda a parte, propriedade do homem e do Estado. Isto deu a origem à corrupção dos costumes pela religião e à fonte de raivas piedosas e guerras sagradas. Graças ao céu, aprendemos a respeitar em cada um a sua crença; procuramos a regra dos costumes fora do culto; aguardamos ajuizadamente. para estatuir sobre a natureza e atributos de Deus sobre os dogmas da teologia, sobre o destino das almas, que a ciência nos ensine o que devemos rejeitar e o que devemos aceitar. Deus, alma, religião, objectos eternos das nossas meditações incansáveis e dos nossos erros mais funestos, problemas terríveis cuja solução, sempre tentada, fica incompleta: em todas essas coisas ainda é possível enganar-nos, mas, pelo menos, o nosso erro não terá consequências graves. Com a liberdade de cultos e a separação do espiritual e do temporais a influência das ideias religiosas no progresso da sociedade é puramente negativas não nascendo da religião nenhuma lei, nenhuma instituição política e civil. O esquecimento dos deveres que a religião impõe pode favorecer a corrupção geral; não é uma causa necessária, sendo apenas uma causa secundária ou o efeito dela. Sobretudo, e na questão que nos ocupa, esta observação é decisiva, não devendo ser imputada à religião a causa da desigualdade de condições entre os homens, da miséria, do sofrimento universal, dos problemas dos govemos: é preciso uma perspectiva mais alta e mais profunda.

Sem comentários: