As manifestações nas ruas de São Paulo apontam para um distanciamento da forma tradicional de se fazer política. A retumbante vaia, na última segunda-feira, dirigida a um pequeno grupo que portava bandeira de um determinado partido de esquerda, é a expressão de um sentimento de descrédito em relação aos partidos e repúdio a política, sentimento que vai além dos que estavam na manifestação. A percepção de que os partidos, não importa a cor, quando no poder abandonam suas bandeiras transformadoras ou não, e passam a síndicos da burguesia e administradores da crise socioeconômica, girando e manipulando em torno de seus interesses excludentes em relação ao conjunto da sociedade, difunde-se rapidamente principalmente entre os jovens. O movimento que se articula em claro confronto com as formas ardilosas das políticas partidárias, deve estar pondo a velha esquerda em pavorosa ao sentir o mar, que antes navegava e manipulava a vontade, revolto e sem controle.
A credibilidade dos políticos e seus partidos, em baixa há muito tempo, não mais se sustenta com a crise que escancara a impossibilidade desta forma de organização enfrentar novos desafios que exijam respostas fora das fronteiras da sociedade produtora de mercadorias. O jogo jogado no espectro direita/esquerda sempre se deu nos limites da sociedade capitalista, mesmo considerando as diferenças de atuação. Quando a margem de manobra se estreitou, por ter a lógica interna do capitalismo atingido o limite absoluto, os partidos, que nasceram umbilicalmente ligados a essa forma de produção, com ela entraram em crise. O que observamos nos movimentos sociais que ressurgem, é uma salutar desconfiança em relação a esse tipo de organização e a contestação da sua legitimidade enquanto meio de expressão dos desejos de transformação que assolam o mundo.