quinta-feira, junho 19, 2014

O dia da ‘raça’ e a exibição circense na Guarda

1 - Salazar, a presença de um ausente

No passado dia 10 de junho, excepcionalmente os nossos olhos cruzaram-se com uma emissão televisiva; e, por acaso, na transmissão das celebrações daquela data a que em tempos, Cavaco, numa sua emanação salazarista, designou por dia da ‘raça’. O homem andava nessa época assoberbado com o magno problema da identidade nacional, mostrando-se muito preocupado com o afluxo de imigrantes que poderiam vir a suplantar (!!), em número… os tugas de gema.

Há já algum tempo que encontramos muitas semelhanças entre Cavaco e Salazar. São os dois entes mais nocivos na História portuguesa do último século, com Salazar no degrau mais alto do pódio. Embora haja, entre outras, uma diferença visível entre os dois; Salazar era um intelectual e Cavaco um ignorante de alto gabarito.

No dia 10 observámos uma curiosa semelhança. Salazar, em 1967 caiu da cadeira (ou melhor, enganou-se quando julgava que se ia deixar cair na cadeira) e isso foi considerado como o início da última fase do regime fascista, um marcador da sua queda próxima. Cavaco no dia da sua ‘raça’, caiu do palanque, num claro símbolo da putrefação do regime cleptocrático atual, ainda que tivesse voltado ao púlpito, pouco depois e continuado com mais uma das suas vazias arengas. Em matéria de arengas, Cavaco aproxima-se mais dos discursos do seu antecessor Américo Tomás, inspirador do anedotário nacional da sua época.

Outro símbolo interessante é a queda do presidente nos braços do grande ayatollah castrense. Aliás, a centralização das comemorações do dia da ‘raça’ nas forças armadas sugere que a fragilidade do regime cleptocrático exige que o mesmo seja levado ao colo das forças armadas, papel que estas não recusarão para valorizar o seu papel e o quinhão do orçamento. Poderá considerar-se o folclore da Guarda como exibição dessa simbiose, da sintonia entre o poder civil e o militar, com os dez milhões de portugueses a assistir, desejavelmente anestesiados pelo brilho da cerimónia.

Minutos após o presidencial chelique surgiu no écran o emplumado general que comanda toda a tropa lusa; pensámos, por momentos, que iria anunciar estar Cavaco definitivamente para lá de Bagdad e assegurar que o poder não cairia nas ruas. Não há general que não goste da lei e da ordem nas ruas e de abastança nas messes.

A cinzenta figura estava tão preocupada com as ruas que logo admoestou os manifestantes anti-governo, colocando a parada em sentido, com um “tenham respeito por Portugal e pelas forças armadas!” Terá sido a necessidade de Cavaco elevar a voz para fazer ouvir o seu tosco bosquejo - sobre a presença na Flandres da tropa lusitana na I grande guerra - acima do coro dos manifestantes, que terá motivado o chelique. Uma fragilidade confrangedora!