BERLIM - A Alemanha é o país dos grandes filósofos,
escritores e... analfabetos. Uma pesquisa divulgada na semana passada revela
que 7,5 milhões de alemães não sabem ler e escrever. Segundo Urda Thiessen,
professora de alfabetização para adultos entre 18 e 64 anos de idade, o sistema
alemão favorece os melhores e oferece poucas chances aos mais fracos. Quem
termina o primeiro ano escolar sem saber ler ou escrever corre o risco de ficar
analfabeto para sempre.
— No sistema de educação regular, não há nenhuma chance de
recuperação desse déficit no início do período escolar, provocado muitas vezes
por doenças ou crises familiares, como a separação dos pais — diz Thiessen.
Problema passa despercebido
Frequentemente, os analfabetos têm um QI normal ou até mais
alto do que a média da população. Quer dizer, eles não deixaram de aprender a
ler por falta de inteligência, mas sim por problemas que não foram observados
pelo professor.
— Na Alemanha, há escola gratuita para todos, mas os
professores da escola primária, em classes com 30 ou mais alunos, não têm tempo
para se ocupar com alunos problemáticos — explica.
São casos como o de Thomas S., de 21 anos. No primeiro ano
escolar, ele faltou muito à escola por motivo de doença. Como os pais não
tinham dinheiro para pagar aula particular de apoio, Thomas terminou
analfabeto.
— A vida é um estresse constante de fazer de conta que se
sabe ler — confessa Thomas.
Depois de completar 20 anos, ele resolveu contornar seu
problema. Matriculou-se em um curso de alfabetização para adultos em NeuKölln,
no Sul de Berlim, e com o método especial, que consiste em ensinar os alunos a
ler e a escrever com base na vida cotidiana, aprendeu rapidamente o que não
tinha conseguido nos quatro anos de escola primária.
Thomas acha tão divertida a sensação de superar uma
dificuldade que dedica seu tempo livre a projetos da associação, como a
“oficina escrever”, que tem um jornal escrito por ex-analfabetos.
— Os analfabetos são muitas vezes altamente criativos —
registra Urda, confirmando a teoria de que problemas escolares não estão
relacionados ao grau de inteligência.
Segundo Tim Thilo Fellner, ex-analfabeto e hoje escritor de
livros infantis, o problema surge em algum momento do período inicial escolar e
fica cada vez “mais crônico” com a completa perda da autoconfiança. Quando ele
tinha 29 anos, tentava ganhar a vida como motorista, mas tinha problema até
para ler os nomes das ruas. Aos 30, matriculou-se num curso de alfabetização, e
o resultado foi uma revolução individual. Para ele, o problema do analfabetismo
é ainda mais grave do que os dados apontados no último estudo, feito por
associações dedicadas à alfabetização para adultos e pela Universidade de
Hamburgo.
— Na verdade, uma em cada sete crianças deixa a escola sem
aprender a ler e escrever — registra.
Os analfabetos deixam a escola sem conclusão e começam a
trabalhar numa profissão em que sua deficiência é pouco notada, como ajudante
de cozinha ou na construção civil.
— É uma tortura viver como analfabeto na Alemanha.
Precisamos de muito esforço para ocultar o problema e não sermos alvo de
discriminação — revela Peggy Gaedecke, outra ex-aluna de Urda Thiessen.
Peggy começou a vida profissional trabalhando em
restaurantes. Ficava exausta com o esforço para que ninguém percebesse seu
problema: ela decorava o cardápio, mas acabava entrando em apuros quando havia
mudanças.
— O analfabeto vive de mentiras — conta ela.
Segundo o estudo da Universidade de Hamburgo, apenas 50% dos
analfabetos vivem no desemprego. Como a demanda por mão de obra de baixa
qualificação é grande na Alemanha, eles não têm grandes dificuldades em
conseguir um emprego, ao contrário de acadêmicos que se formam em disciplinas
de pouco uso prático, como Filosofia, Latim ou Grego antigo, cursos oferecidos
em quase todas as universidades alemãs.
Já o Instituto do Trabalho e Qualificação revelou que, na
disputa por emprego, 8,6% das pessoas com título acadêmico — muitos até com
doutorado — terminam aceitando ofertas que exigem baixo nível de educação
formal, competindo com os analfabetos.
Até o próximo ano, todos os estados alemães promovem uma
estratégia nacional para erradicar o analfabetismo. Mas Urda Thiessen não
acredita que o tempo previsto pelo programa seja suficiente.
— Apenas começamos a atacar o problema de frente — diz,
embora a associação onde trabalha exista há mais de 20 anos.
O estudo da Universidade de Hamburgo revela, ainda, que
muitas pessoas hoje analfabetas um dia chegaram a aprender a ler e a escrever
na escola. A falta de leitura seria a causa de elas terem voltado ao
analfabetismo.
Obrigado à B.V. pela chamada de atenção!
