Até à revolução científica dos séculos XVII e XVIII, muitas pessoas pensavam na Europa que Deus tinha criado o universo para os seres humanos, tendo colocado a Terra no centro, em torno da qual todo o Universo girava. Mas com o desenvolvimento da ciência redescobriu-se que a Terra não está no centro do universo. A Terra orbita o Sol, que por sua vez é apenas mais uma estrela modesta numa galáxia que tem biliões de outras estrelas; e a nossa galáxia é apenas uma de entre cerca de cem biliões de galáxias. Além disso, descobriu-se que os seres humanos evoluíram a partir de outros animais: não foram directamente criados por Deus. Algumas pessoas religiosas defendem que se aceitarmos esta perspectiva científica, a nossa existência não terá sentido — porque, nesse caso, não foi planeada por Deus, com um determinado propósito.
Esses religiosos podem argumentar que se Deus não nos criou com um propósito, então a nossa vida não tem sentido. Apenas existimos. Não há algo importante, de importância cósmica e universal, na nossa vida. Vivemos e morremos, e é tudo. Claro que podemos ser razoavelmente felizes, se tivermos sorte; podemos ter um bom emprego, amigos e família que nos apoiem; podemos sentir-nos realizados como músicos, físicos ou empresários. Mas se não há um deus que nos tenha criado com um propósito, a nossa vida não tem sentido — somos apenas fruto do acaso.
Contudo, os críticos desta perspectiva religiosa, como o filósofo Kurt Baier, defendem que é precisamente porque não fomos criados por um Deus com um determinado propósito que a nossa vida pode ter sentido. Se tivéssemos sido criados por Deus com um propósito qualquer, seríamos como crianças que foram geradas pelos seus pais exclusivamente para combater num exército, por exemplo, ou para trabalhar na fábrica da família. Por mais importante que essas coisas sejam, tais crianças estariam a ser tratadas como meros meios e não como fins. Claro que isso dá um propósito à sua vida; mas é o tipo errado de propósito. É o tipo de propósito que não dá qualquer valor intrínseco à sua vida. Se fomos criados por Deus com um propósito qualquer em vista, somos como essas crianças: esse propósito não dá qualquer sentido à nossa vida. Se a nossa vida não tiver um propósito em si e só tiver um propósito exterior que Deus nos deu, a nossa vida terá um valor meramente instrumental; estaremos a ser usados como instrumentos, como meios para os propósitos de Deus, e não como fins em si.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/
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