sexta-feira, abril 13, 2007

O aspecto astrológico do "eduquês"

É estranho interpretar a notícia do Diário de Notícias como prova de que o facilitismo promovido pelo “eduquês” é o caminho a seguir, como alguns leitores defenderam nos comentários ao artigo "O "Eduquês" Desmascarado?". A notícia mostra que o facilitismo não teve o efeito que os partidários do “eduquês” dizem que teria: dar oportunidades aos estudantes culturalmente mais desfavorecidos. Em 30 anos de facilitismo educativo, os efeitos não se fizeram sentir: os cursos de maior prestígio e exigência cognitiva continuam a ser maioritariamente frequentados por “meninos finos”. Porquê? Porque o facilitismo, ao contrário do que os partidários do “eduquês” defendem (e têm toda a legitimidade para o defender, não é isso que está em causa), não favorece os meninos culturalmente carentes — pelo contrário, deixa-os ainda mais carentes. Apenas permite que não reprovem. Mas não reprovar sem saber é tão mau, ou pior, do que reprovar. O que era realmente necessário era fazer esses meninos ter aproveitamento cognitivo real, e não fingir que o têm por via do facilitismo.

O verdadeiro problema é este: a escola não sabe ensinar quem não vem ensinado de casa. Se queremos realmente dar oportunidades na escola a quem não as tem em casa, temos de estimular os estudantes culturalmente mais carenciados para o valor do conhecimento e do estudo. É esta valorização que faz a diferença e que explica que os meninos culturalmente privilegiados tenham prestações escolares muitíssimo melhores. Esses meninos trazem de casa uma valorização do estudo, dos livros, do conhecimento, que os outros não trazem. Mas como a escola também não incute tal valorização — dedicando-se ao invés a pôr ao mesmo nível a análise de regulamentos de concursos televisivos e Os Maias — os estudantes culturalmente desfavorecidos ficam cada vez mais na mesma. Os que vêm motivados de casa para valorizar Os Maias vão dar-lhe importância; os outros, não. E depois uns verificam que têm certos cursos e profissões vedadas, ao passo que os outros têm acesso aberto.

É este o igualitarismo ilusório promovido por 30 anos de facilitismo educativo. Chamemos as coisas pelos nomes: isto é elitismo, e não igualitarismo.

Daí uma das ironias deste debate de ideias: quem defende o “eduquês” surge como defensor da justiça social; parece que está muito preocupado em tornar a escola acessível aos meninos mais carenciados culturalmente. Só que os resultados práticos destas políticas são precisamente o inverso do que os seus defensores pretendem — e é por isso que a notícia do DN é tão importante. Claro, como Popper sabia, é precisa honestidade intelectual para, perante provas que refutam uma dada teoria, aceitar a refutação e mudar de ideias; nunca se viu um astrólogo a abandonar as suas teorias porque as suas previsões falham. É sempre possível distorcer as coisas e continuar a defender uma teoria que a realidade já refutou. Mas a menos que encaremos a política educativa como astrologia, os resultados do facitilismo educativo dos últimos 30 anos refutam cabalmente tais teorias: o facilitismo não tem o efeito desejado — antes tem o efeito oposto.

Por outro lado, quem defende maior exigência no ensino é visto como elitista, o que é absurdo. Quem mais ganhou ao longo de 30 anos de facilitismo foram precisamente as elites — cujos filhos não têm de competir com os filhos dos pobres, a quem não é dada qualquer hipótese de ter prestações cognitivas que os ponham a par dos outros. Os meninos que querem ser médicos só competem entre meninos cujos pais são médicos, professores ou arquitectos; não competem com meninos cujos pais são cabeleireiros, drogados indigentes, electricistas ou caixas de supermercado.

Não há distinção entre esquerda e direita no que respeita ao facilitismo educativo. Em 30 anos, não há diferença entre governos do PSD ou do PS: todos foram facilitistas. Se houve excepções, foram ministros que tentaram, em vão, e por via das suas ideias pessoais — e não por serem do PSD ou do PS —, lutar contra a imensa máquina ministerial, que é indomável. Quem realmente manda na política educativa que conta — conteúdos curriculares, desenhos curriculares, graus de exigência — não são os políticos, mas sim os pedagogos do ministério. São estes pedagogos que têm destruído os conteúdos curriculares a pouco e pouco, muitas vezes sem conhecimento público — só os professores das respectivas disciplinas se apercebem da ausência progressiva dos conteúdos centrais das mesmas, substituídas por conversa fiada, para que os filhos dos pobres possam ter um aproveitamento de fantasia, já que, coitados, não podem realmente interessar-se por Descartes nem Einstein.

Há aqui aspectos de “classismo”, e até racismo, envolvidos. A ideia é que os filhos dos pobres só querem ser cabeleireiras ou electricistas, mas não pianistas ou biólogos. E a ideia até parece muito igualitária e muito de esquerda, porque se faz acompanhar da posição de que não há maior prestígio em ser cabeleireiro do que pianista. Há aqui um novelo de confusões no pensamento da esquerda que levará algum tempo a desfazer, mas podemos começar por notar já algumas coisas.

Em primeiro lugar, quem defende isto geralmente está a ser hipócrita e “classista”, porque põe os seus filhos nos melhores colégios, e não quer que eles sejam cabeleireiros, mas sim biólogos ou pianistas.

Em segundo lugar, e mais grave, quem defende isto parte do princípio de que os filhos das cabeleireiras não podem interessar-se por teoria da literatura ou por filosofia. Mas porquê? Porque não têm os genes adequados? Isto é “classismo” cognitivo do mais repugnante e inaceitável. É falso que os filhos dos pobres tenham menos capacidades cognitivas do que os outros.

Em terceiro lugar, quem defende esta ideia está a fazer tábua rasa do facto de que, na realidade, tem muito mais prestígio social ser biólogo do que cabeleireiro, e portanto ao defender o que defende está a ser “classista”, pois defende que não vale a pena ter uma escola que dê aos filhos dos pobres a possibilidade de ser qualquer coisa de diferente do que são os seus pais. Por outras palavras, a hipocrisia disto é alarmante, dado que estas pessoas ao mesmo tempo dizem-se preocupadas com o facto de a escola reproduzir as diferenças sociais — mas o que defendem aprofunda ainda mais essas diferenças sociais, como a notícia do DN, correctamente entendida, prova claramente.
Desidério Murcho
http://dererummundi.blogspot.com/

Sem comentários: