sábado, abril 14, 2007

Teoria e Observação

Ocorreu-me que as discussões que tenho tido com o Santiago (1), o Desidério Murcho (2) e o Bernardo Motta (3) têm em comum a ideia que se pode separar claramente a teoria da observação. Vem-se a arrastar desde Platão mas, finalmente, penso que podemos enterrá-la de vez.

No último século percebemos que a percepção e o pensamento fazem parte do mesmo mecanismo neurológico, e que a própria consciência é uma forma de percepção. A lógica, matemática e computação mostraram que a razão pura se limita ao que o computador faz: manipular símbolos ou os seus equivalentes sem lhes atribuir significado. São zeros e uns, electrões no circuito, ou contas no ábaco, e mais nada. E fomos forçados a rever até conceitos que pareciam imutáveis e transcendentes, como o espaço e o tempo.

No conhecimento não há uma distinção clara entre empírico e ideal, entre a teoria e a observação. Ver o vidro partir não é uma observação pura, mas uma inferência dependente duma teoria que relaciona a percepção com o acontecimento. O vidro parte, a luz incide na retina, os impulsos nervosos chegam ao cérebro, e isso gera a percepção de ver o vidro partir. É desta teoria que infiro que vi o vidro partir mesmo.

Mais importante, também não há teoria pura. Se o acontecimento A ocorre antes de B, então ocorre antes de B para qualquer observador. Se é antes, não pode ser nem ao mesmo tempo nem depois. Isto seria aceite como conhecimento puramente teórico, ideal, a priori, até 1905. Mas a relatividade mostrou que esses conceitos de antes e depois não são adequados. Se A ocorre em Marte, e B ocorre na Terra cinco minutos depois no referencial da Terra, há outros referenciais nos quais B ocorre uns minutos antes de A, ou ao mesmo tempo. O tempo, o antes, e o depois, não são iguais para todos. Mudando os conceitos, muda a teoria, e torna-se evidente que tanto os conceitos como a teoria dependiam de algo empírico.

Para que a teoria seja acerca de algo temos que dar significado aos conceitos e isto mistura a teoria com a observação. A teoria passa a depender de resultados empíricos, e todo o conhecimento que dela deriva é conhecimento empírico: provisório, refutável por observações contraditórias, e adequado conforme corresponde ao observável.

O supra-empírico é treta porque não pode haver nada puramente ideal que seja mais que mera manipulação de símbolos sem significado. O a priori não pode ser conhecimento sem assentar no empírico, deixar de ser a priori, e adoptar todas as características do conhecimento empírico. E a premissa naturalista não passa de uma conveniência, pois nem sequer há uma forma platónica da ciência para conter essa premissa. É útil, mas sujeita a revisão como qualquer outra hipótese científica.

Eu proponho que todas estas confusões, e provavelmente outras, se resolvem compreendendo que não se pode separar o empírico do ideal. Não há percepção sem ideias e não há ideias sem percepção. São dois aspectos indissociáveis do conhecimento.

1- 27-3-07, Os Limites da Ciência.
2- 30-3-07, Imaginação e Conhecimento.
3- 1-4-07. O Supra-Empírico.
Por Ludwig Krippahl
http://ktreta.blogspot.com/

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