O poeta espanhol António Machado escrevia, uns anos antes da
Guerra Civil, que havia uma Espanha que morria, enquanto outra Espanha
bocejava. E acrescentava, profético: "Españolito que vienes/al mundo,
te guarde Dios/Una de las dos Españas/ha de helarte el corazón."
Também eu sinto que há um Portugal que morre, enquanto o
resto de Portugal boceja. Ou cachecoleja com o Mundial. Ou se mobiliza para o
duelo no PS, trocando dichotes. Ou faz contas aos votos das próximas eleições e
aos lugares que ficarão sujeitos a licitação. Ou esfrega as mãos de satisfação
ao ver como se conseguiu “reduzir os custos unitários do trabalho”,
“flexibilizar a legislação laboral e agilizar os licenciamentos” e “promover a
requalificação e mobilidade na função pública”.
O bocejo não é um desinteresse de tudo. É apenas um
desinteresse por quem morre, pela outra Espanha, pelo outro Portugal, pelos
outros, um enorme tédio e desinteresse por quem não aparece na televisão e nas
revistas e por quem não contribui para o seu embrutecimento. Por quem é pobre e
doente e velho e ignorante e desempregado e por quem quer que seja que pertença
às minorias que toleramos.
Há no discurso político uma tal preocupação com a peleja
partidária para a mera conquista de terreno e uma tal indiferença pelas coisas
verdadeiramente importantes que “o Portugal que morre” morre anónimo e
esquecido, calado e cansado. Se retirássemos a retórica e a dissimulação, o que
restaria ao discurso político que ouvimos? E quem sobraria no panorama
político? Dez pessoas? Três?
Encontrei ontem no Facebook um link para um sketch do
humorista britânico John Oliver, que muitos conhecem da sua participação no
Daily Show de Jon Stewart. O sketch é sobre o Mundial do
Brasil e a FIFA, a corrupção na FIFA, o Mundial de 2022 no Qatar, o egotismo e a
boçalidade do seu presidente, Sepp Blatter, a imensíssimamente descomunal lata
do seu secretário-geral, Jérôme Valcke, os estádios monstruosos e inúteis no
Brasil, o estatuto de “Estado dentro do estádio” que a FIFA possui, ditando as
suas leis, criando os seus tribunais especiais, fugindo a todos os impostos,
absorvendo fundos que os países podiam e deviam dedicar ao desenvolvimento e ao
combate à pobreza, acumulando uma fortuna colossal que foge a todos os
escrutínios, como organização internacional e “sem fins lucrativos” que finge
ser.
Curiosamente, no link que encontrei no
Facebook, John Oliver era apresentado como “jornalista” e os comentários
cumprimentavam a qualidade do seu “jornalismo”. O facto não é apenas fruto da
ignorância: de facto, havia no seu humor mais jornalismo (mais investigação,
mais preocupação em aprofundar e contextualizar a história, mais isenção no
relato, mais preocupação social, mais urgência de denunciar) do que em muitas
peças realmente jornalísticas. O que é espantoso é que a peça era singularmente
objectiva. O grosso do “humor” era apenas uma colagem inteligente de notícias
sobre a FIFA. O humor nascia do absurdo da prática da FIFA, do gigantesco
sem-sentido da sua actuação, do despropósito das declarações dos seus dirigentes,
da insensatez da sua existência, da arrogância da sua relação com os Estados. É
tudo cómico na FIFA porque o que todos nós permitimos que esta organização faça
é totalmente absurdo e sem sentido. The joke is on us! É tudo
cómico na FIFA porque todos os dias a FIFA nos espeta com uma tarte de creme na
cara e, como sabemos, isso é sempre cómico.
Oliver é humorista e não jornalista, mas é interessante
verificar como é cada vez mais frequente que as verdades surjam nos programas
de humor e a propaganda nos programas jornalísticos. Sim, eu sei que já foram
publicados trabalhos jornalísticos sobre o lado negro da FIFA. O problema é que
são infinitamente minoritários e, depois disso, toda a comunidade jornalística
continua a tratar a FIFA como uma organização idónea e os seus campeonatos como
os mais benignos eventos do mundo e todos os poderosos do mundo continuam a
apertar a mão a Sepp Blatter e a Jérôme Valcke.
O que torna a informação sobre a FIFA imensamente divertida
é a colagem que Oliver fez e que os media em geral não fazem,
apesar da disponibilidade da informação que a Web permite. Porque é que os
jornalistas não fazem a mesma coisa? Porque é não nos fazem rir à custa dos
poderosos? Porque alguém os convenceu de que devem ter como critério o
interesse do público e não o interesse público. E, para metade da população
(mundial, portuguesa, brasileira), as preocupações com a corrupção e com as
isenções fiscais da FIFA fazem-nos bocejar. E talvez seja mais do que metade.
Há brasileiros que pedem menos bola e mais escola? Educação padrão FIFA?
Transportes gratuitos? Os adeptos bocejam, enquanto esperam a hora do desafio.