À luz da posição estratégica de que goza a empresa capitalista no contexto das suas operações de controlo dos recursos económicos, a tese fundamental da teoria capitalista de que esse é apenas um dos muitos “grupos com poder de veto” na sociedade capitalista, não corresponde de forma alguma à realidade.
Desses outros grupos, é a força do trabalho organizado, como “interesse” na sociedade, que se consedera com poder capaz de igualar, senão mesmo ultrapassar, o poder do capital. Todavia, isso é considerar apenas uma potencialidade não concretizada.
O trabalho não tem nada que se compare ao poder do capital nas decisões de carácter económico da iniciativa capitalista.Aquilo que uma firma produz; se ela exporta ou não; se deve investir, em quê, e para quê; se deve absorver, ou ser absorvida, por outras firmas - estas e muitas outras decisões são questões sobre as quais o trabalho tem, na melhor das hipóteses, apenas um grau indirecto de influência e, na generalidade dos casos, nenhuma influência. Neste sentido, o trabalho é privado de uma base sólida de poder económico, desfrutando, por consequência, de um potencial de pressão mínimo face ao Estado. Esta é também uma das razões por que os governos estão muito menos interessados em obter a “confiança” do trabalho do que a “confiança” do negócio.
Além disto, o trabalho não tem nada que se assemelhe às influências internacionais que se movem em favor do capital.Não há no mundo do trabalho equivalentes do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional ou da OCDE, para fazer com que os governos desistam de tomar medidas em detrimento dos assalariados, e favoráveis ao negócio, ou para pressionar a adopção de programas que sejam mais vantajosos para os “grupos de salários mais baixos” e se oponham aos interesses das elites económicas. Para os assalariados do mundo capitalista, a solidariedade internacional é parte de uma retórica consagrada que raramente se manifesta de forma concreta e eficaz. Para o negócio, é uma realidade permanente.
A única arma importante que o trabalho tem, como “interesse”, é a greve. Nos casos em que foi usada com verdadeira firmeza como instrumento de pressão, a sua eficácia ficou sobejamente demonstrada. Os patrões e os governos têm sido forçados vezes sem conta a fazer concessões ao trabalho, devido ao recurso firme do último à arma da greve, ou mesmo à simples ameaça do seu uso. Em inúmeas ocasiões, reivindicações ditas impraticáveis porque inevitavelmente arruinariam determinada firma ou indústria, ou causariam danos irreparáveis à economia nacional, acabaram por ser aceites quando o trabalho organizado demonstrou na prática que não abdicaria delas.
O problema reside, no entanto, na firmeza. O trabalho, como grupo de pressão, é extremamente vulnerável a muitas influências internas e externas destinadas a desgastar a sua vontade e persistência. Devido à eficácia destas influências, os governos têm achado desnecessário tratar o trabalho com a deferência demonstrada para com o negócio. Os governos têm por vezes pisado os calos dos homens de negócio, mas jamais como o fazem aos trabalhadores.
Um ponto fraco que afecta o trabalho como grupo de pressão, comparado ao negócio, é que as organizações nacionais do último falam com muito mais autoridade do que as suas homólogas do trabalho.
O facto explica-se por diversas razões. Uma delas é as organizações do negócio poderem na verdade “falar pelo negócio”, visto incluírem uma elevada percentagem de unidades individuais ou então porque as firmas que representam são responsáveis por um sector crucial da actividade económica. Por outro lado, nas organizações equivalentes do trabalho em nenhuma parte figura uma maioria de assalariados. Neste sentido, as associações do negócio são mais representativas do que os sindicatos.
Em segundo lugar, em nenhuma parte o negócio está tão dividido como o trabalho. O negócio não é um monolito económico nem ideológico, que se exprima normalmente com uma só voz sobre todas as questões. Na realidade, os seus diferentes interesses encontram por toda a parte expressão nas diferentes associações nacionais que representam diferentes sectores da comunidade do negócio. Estas divisões, particularmente a divisão entre a empresa em grande escala, a média empresa e a pequena empresa, não são de modo algum insignificantes, quer em termos de específicos quer gerais. No entanto, elas não impedem um consenso ideológico básico, que é de importância fundamental para a representação e para o impacte do negócio. As diferenças verificam-se, no entanto, dentro de um espectro conservador, o que exclui conflitos de vulto.
Estará certo dizer que o negócio se encontra tacticamente dividido mas estrategicamente coeso. Em praticamente todas as questões de política económica, bem como em questões de âmbito nacional, os homens de negócio apresentam uma frente unida.
Já o mesmo não se pode dizer em relação aos movimentos sindicais, seja onde for. A sua característica mais saliente é a divisão e não a unidade; e as divisões de que sofrem, longe de serem tácticas e superficiais, são na maioria dos casos profundas e de natureza fundamental.
Sabe-se que os sindicatos têm estado sempre divididos ( chegando a ocorrer divisões dentro de um só sindicato) no contexto das funções e aptidões dos seus membros, e por vezes por factores geográficos, religiosos, étnicos ou raciais. Mas, seja devido a estes factores seja por outras razões, eles estão sobretudo divididos por questões ideológicas e por diferentes tomadas de posição.
Nalguns países, estas divisões encontram expressão institucional na existência de federações distintas e muitas vezes antagónicas - comunistas, sociais-democratas e cristãs -, cujos conflitos são um factor profundamente inibitório na sua confrontação com o patronato e com o Estado, e bem assim na sua eficiência como grupos de pressão.Em nenhuma parte existe, no mundo do negócio, algo que se assemelhe a estas divisões.
Acresce que mesmo em países onde as clivagens ideológicas não têm encontrado expressão institucional, os movimentos sindicais têm apesar de tudo estado sujeitos a profundas divisões que, mesmo quando contidas numa só organização, têm consequências marcadamente debilitantes.
As divisões ocorridas no movimento têm-se baseado em diferenças funcionais entre os sindicatos, sobre as quais muitas vezes têm recaído, conflitos e divergências entre os sindicatos mais e menos militantes. Dentro de cada sindicato, tem-se assistido a uma confrntação entre os elementos de esquerda, com maior militância, e a chefia “moderada” e “responsável”.
Esta divergência entre cúpulas e membros não tem de um modo geral afectado as associações do negócio. A causa fundamental desta divisão, reside no papel profundamente ambíguo que os dirigentes sindicais tendem a assumir nas sociedades capitalistas. Por um lado, estes dirigentes defendem os interesses “sectoriais” dos seus membros com a maior firmeza, quer contra o patronato, quer contra o Estado.Por outro lado, a “opinião pública” espera, e o Estado muitas vezes exige, que os dirigentes ajam “responsavelmente” no “interesse nacional”, o que muitas vezes implica da sua parte uma atitude de aplacação das reivindicações e de abandono da defesa das lutas travadas pelo grosso dos seus membros o que acontece nomeadamente nos casos de greve. As greves ocorrem numa atmosfera de hostilidade, muito embora sejam um fenómeno do dia a dia. São convencionalmente descritas como industrialmente subversivas, irresponsáveis, injustas, contra os interesses da comunidade, contrárias aos melhores interesses dos trabalhadores, um desperdício de recursos, agressivas, incompatíveis com a democracia, e desnecessárias.
O que é mais importante é que os próprios dirigentes sindicais, são profundamente influenciados por estas ideias. Os funcionários sindicais são particularmente vulneráveis às influências anti-greve porque frequentemente se lhes imputa responsabilidade pelo comportamento dos seus membros...Uma vez empenhados num apelo à greve, os funcionários sindicais tendem a passar à defesa...Envolvidos numa greve, são muitas vezes motivados por um desejo de lhe por fim sem demora, independentemente dos méritos da causa.
As influências do ambiente são enormes. Um delas são os orgãos de comunicação, que unanimemente denunciam a “irresponsabilidade” de qualquer greve, seja qual for o mérito da causa, e condenam os que a dirigem. Outra são os governos que, independentemente da cor política, se servem de todos os meios de influência e de poder de que dispõem para desgastar a vontade e o objectivo dos grevistas e particularmente dos dirigentes sindicais.
Nem só estas influências fazem com que os dirigentes sindicais ponham um freio à militância daqueles que lutam pelo avanço dos trabalhadores. Essa militância acarreta geralmente um escoamento dos recursos sindicais. Tem além disso o condão de fortalecer a posição dos elementos militantes dentro dos sindicatos, cujo desafio encontra a resistência dos dirigentes sindicais, preocupados com o enfraquecimento da sua autoridade. Além disto, o receio do fracasso, apesar dos grandes sacrifícios, está sempre presente, sendo agravado pelo conhecimento das forças que se congregam contra o trabalho. e se o êxito da acção militante tem muitas de depender da solidariedade e do apoio doutros sindicatos, nem sempre é fácil consegui-los. Mesmo quando é possível mobilizar outros sindicatos para a luta de determinada indústria, não há qualquer garantia de que o apoio tenha a duração necessária.
Tais fraquezas são inerentes à posição dos sindicatos na sociedade capitalista. As limitações estruturais poderão ter maior ou menor influência, consoante a ideologia e a perspectiva dos dirigentes sindicais no desempenho das suas tarefas.
Os diferentes rótulos políticos a que os dirigentes sindicais estão submetidos sugerem naturalmente diferenças apreciáveis nas atitudes para com o sistema capitalista.Se alguns dirigentes sindicais, como os americanos, aceitam de bom grado esse sistema como um facto consumado, outros tendem a subscrever uma crença na consecução última de uma ordem social diferente.E se por um lado os dirigentes sindicais dos Estados Unidos geralmente acreditam e proclamam que existe uma identidade fundamental de interesses entre o capitalismo empresarial e o trabalho, a maioria dos dirigentes sindicais dos outros países não estão menos inclinados a compartilhar tal convicção e a apregoá-la.Não é, porém, difícil exagerar a importância prática das diferenças ideológicas entre os Estados Unidos e a vasta maioria dos dirigentes e funcionários sindicais noutros países capitalistas. Isto, porquanto, se é sabido que os dirigentes sindicais americanos aceitam explicitamente, e sem contestação, as estruturas capitalistas, os seus homólogos noutros países capitalistas têm manifestado a tedência para, na prática, agirem segundo a mesma perspectiva e considerarem irrelevante para a estratégia sindical qualquer empenho que possam ter noutra ordem social.
Este facto tem facilitado consideravelmente as relações dos dirigentes sindicais com o patronato e com os governos, e proporcionado uma base firme para um processo de colaboração entre estes elementos, transformando-se esses dirigentes em parceiros da empresa capitalista.Este processo assume hoje um carácter muito mais oficial: os sindicatos são actualmente regularmente “consultados” pelos seus governos, encontrando-se representantes seus em vários organismos do sistema de Estado. Para os dirigentes sindicais, é fácil acreditar que, porque passaram a ser reconhecidos como um elemento necessário à engrenagem do capitalismo, lograram alcançar a paridade com o negócio na tomada de decisões políticas. A sua integração na vida oficial dos seus países investiu-os de responsabilidades que tiveram o condão de enfraquecer a sua posição de negociação, contribuindo ao mesmo tempo para reduzir a sua eficácia.
Há, no entanto, outras razões mais específicas que nos permitem concluir ser totalmente falsa a noção de que o trabalho é um grupo de interesses de força comparável ao negócio.
É do consenso geral que uma actividade séria dos grupos de pressão ocorre hoje mais frequentemente ao nível executivo e administrativo do que legislativo.À medida que o Estado tem vindo a assumir maiores poderes em todos os campos da actividade económica e social, “interesses” mais importantes da sociedade vão gradualmente dirigindo as suas actividades de pressão no sentido do governo e da administração. Isto não significa, porém, que o sector mais significativo da actividade dos grupos de pressão incida sobre o poder executivo. Actualmente, só os grupos mais fracos procuram exercer influência através da legislatura, precisamente porque são incapazes de influenciar seja de que maneira for o executivo. Os “interesses” mais importantes servem-se de ambos os meios, com ênfase sobre o governo e a administração.
Já foi dito que o negócio entra nesta competição em termos extremamente favoráveis, em comparação com o trabalho ou qualquer outro “interesse”. Isto porquanto os homens de negócio e os seus representantes estabelecem afinidades com os ministros, os funcionários públicos e outros elementos da élite de Estado inacessíveis ao trabalho e seus representantes. Em face das influências que afectam os detentores do poder e administradores, --
a proveniência social, laços e ligações pessoais, situação de classe, interesse individual, inclinações ideológicas, concepções do “interesse nacional” --, os grupos de pressão do mundo do negócio podem facilmente esperar que as suas opiniões e exigências deparem com um certo grau inicial de compreensão, de simpatia ou pelo menos respeito, inteiramente diferente daquele que é atribuído aos seus homólogos do mundo do trabalho. É também esta a situação que se verifica quando governos de esquerda se encontram no poder ( de quem é que me estarei a lembrar?) ou quando o trabalho tem de negociar com as administrações conservadoras.
Outra razão importante que ajuda a explicar esta diferença está em que o trabalho, como grupo de pressão, aparenta sempre ser um interesse muito mais “sectorial” do que o negócio. Por mais meritórias que sejam, as suas reivindicações são facilmente consideradas como prejudiciais à viabilidade económica e financeira, inflacionárias, inimigas da condução eficiente das questões industriais e outras, perigosas para a manutenção da “confiança”, incluindo do estrangeiro, um risco inevitável para a concorrência da iniciativa interna, como”egoístas” ou “irrealistas” ou “erradas” -- em suma, como nitidamente contra o “interesse nacional”.
Ao invés, as reivindicações do negócio são sempre no “interesse nacional”. Por um lado, a oposição do negócio às exigências do trabalho é, por definição, congruente com esse interesse. Por outro, as exigências do negócio que visam fortalecer a posição de firmas individuais ou de indústrias particulares, ou da empresa capitalista em geral, podem ser sempre apresentadas, com apreciável plausabilidade no contexto capitalista em que são feitas, como exigências coerentes com o “interesse nacional”.
Isto poderá não alcançar sempre os resultados desejados. Além disso, não se pode dizer que todas as pressões exercidas pelo negócio sejam sempre bem sucedidas, e que as pressões do trabalho sejam sempre em vão. O que se verifica é que os governos e funcionários públicos sentem à partida que ao apoiarem o negócio, estão conscientemente a promover o “interesse nacional”. Já não sentirão porém o mesmo no que respeita às reivindicações do trabalho. Os funcionários públicos superiores preferem lidar com os magnates da indústria e da finança do que com os representantes das pequenas e médias empresas ou com os pequenos agricultores. Às carências dos primeiros, acrescentam os últimos uma total falta de conhecimento da vida económica e uma preocupação exclusiva com os seus interesses particulares. Além disso, os interesses do grande patronato estão interligados com o “interesse nacional”, o que gera uma linguagem comum entre patrões e funcionários.
Esta atitude provoca uma situação que é reforçada pelos vastos recursos que os interesses do capital podem mobilizar para o avanço da sua causa. Os departamentos governamentais e as agências reguladoras que se ocupam de questões e políticas que afectam os interesses mais importantes são fortemente influenciados pela documentação que esses interesses lhes submetem, dela dependendo muitas vezes para a elaboração dos seus programas. Acresce que esses departamentos e agências são altamente susceptíveis ao peso e intensidade das pressões geradas pelos diversos interesses capitalistas.Deste ponto de vista, o negócio está infinitamente mais bem colocado do que o trabalho, ou qualquer outro interesse, dados os seus recursos esmagadoramente mais vastos. Além disso, as firmas maiores e mais poderosas não precisam de confiar em nenhum organismo intermédio que defenda os seus interesses junto dos governos - fazem-no por si mesmas, com a confiança inerente ao poder de que desfrutam. Não há qualquer outro interesse que, como o negócio, tenha igual facilidade de acesso aos orgãos mais importantes do poder executivo, e nenhum outro goza de tamanha familiaridade junto dos seus agentes. Nem tão-pouco há outro interesse capaz de exercer, sempre que necessário, o tipo de campanha de pressão que os interesses do negócio podem desenvolver, isso também, porque os homens de negócio constituem o grupo da sociedade mais consciente da sua classe. Como classe são mais facilmente mobilizados, estão melhor organizados e têm melhores meios de comunicação do que qualquer outro grupo.Isto aplica-se a todos os países capitalistas.
Vale a pena salientar de novo que não se trata de este desequilíbrio garantir automaticamente que os interesses do negócio alcancem sempre os seus objectivos e imponham necessariamente a sua vontade ao estado, em relação a qualquer das suas reivindicações. Nem tão-pouco se procura sugerir que outros grupos organizados, seja de que tipo forem, não tenham também levado a cabo frequentemente, e com grande êxito, as suas campanhas, por vezes deparando com forte oposição por parte do negócio.Se a hegemonia do negócio tivesse sido absoluta, seria absurdo falar sequer de concorrência. Há concorrência, e os poderosos interesses capitalistas tanto sofrem derrotas como conquistam vitórias. Afinal de contas, David derrotou Golias.Mas o ponto de toda a história é que David era mais pequeno do que Golias e todas as desvantagens estavam contra ele.
Desses outros grupos, é a força do trabalho organizado, como “interesse” na sociedade, que se consedera com poder capaz de igualar, senão mesmo ultrapassar, o poder do capital. Todavia, isso é considerar apenas uma potencialidade não concretizada.
O trabalho não tem nada que se compare ao poder do capital nas decisões de carácter económico da iniciativa capitalista.Aquilo que uma firma produz; se ela exporta ou não; se deve investir, em quê, e para quê; se deve absorver, ou ser absorvida, por outras firmas - estas e muitas outras decisões são questões sobre as quais o trabalho tem, na melhor das hipóteses, apenas um grau indirecto de influência e, na generalidade dos casos, nenhuma influência. Neste sentido, o trabalho é privado de uma base sólida de poder económico, desfrutando, por consequência, de um potencial de pressão mínimo face ao Estado. Esta é também uma das razões por que os governos estão muito menos interessados em obter a “confiança” do trabalho do que a “confiança” do negócio.
Além disto, o trabalho não tem nada que se assemelhe às influências internacionais que se movem em favor do capital.Não há no mundo do trabalho equivalentes do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional ou da OCDE, para fazer com que os governos desistam de tomar medidas em detrimento dos assalariados, e favoráveis ao negócio, ou para pressionar a adopção de programas que sejam mais vantajosos para os “grupos de salários mais baixos” e se oponham aos interesses das elites económicas. Para os assalariados do mundo capitalista, a solidariedade internacional é parte de uma retórica consagrada que raramente se manifesta de forma concreta e eficaz. Para o negócio, é uma realidade permanente.
A única arma importante que o trabalho tem, como “interesse”, é a greve. Nos casos em que foi usada com verdadeira firmeza como instrumento de pressão, a sua eficácia ficou sobejamente demonstrada. Os patrões e os governos têm sido forçados vezes sem conta a fazer concessões ao trabalho, devido ao recurso firme do último à arma da greve, ou mesmo à simples ameaça do seu uso. Em inúmeas ocasiões, reivindicações ditas impraticáveis porque inevitavelmente arruinariam determinada firma ou indústria, ou causariam danos irreparáveis à economia nacional, acabaram por ser aceites quando o trabalho organizado demonstrou na prática que não abdicaria delas.
O problema reside, no entanto, na firmeza. O trabalho, como grupo de pressão, é extremamente vulnerável a muitas influências internas e externas destinadas a desgastar a sua vontade e persistência. Devido à eficácia destas influências, os governos têm achado desnecessário tratar o trabalho com a deferência demonstrada para com o negócio. Os governos têm por vezes pisado os calos dos homens de negócio, mas jamais como o fazem aos trabalhadores.
Um ponto fraco que afecta o trabalho como grupo de pressão, comparado ao negócio, é que as organizações nacionais do último falam com muito mais autoridade do que as suas homólogas do trabalho.
O facto explica-se por diversas razões. Uma delas é as organizações do negócio poderem na verdade “falar pelo negócio”, visto incluírem uma elevada percentagem de unidades individuais ou então porque as firmas que representam são responsáveis por um sector crucial da actividade económica. Por outro lado, nas organizações equivalentes do trabalho em nenhuma parte figura uma maioria de assalariados. Neste sentido, as associações do negócio são mais representativas do que os sindicatos.
Em segundo lugar, em nenhuma parte o negócio está tão dividido como o trabalho. O negócio não é um monolito económico nem ideológico, que se exprima normalmente com uma só voz sobre todas as questões. Na realidade, os seus diferentes interesses encontram por toda a parte expressão nas diferentes associações nacionais que representam diferentes sectores da comunidade do negócio. Estas divisões, particularmente a divisão entre a empresa em grande escala, a média empresa e a pequena empresa, não são de modo algum insignificantes, quer em termos de específicos quer gerais. No entanto, elas não impedem um consenso ideológico básico, que é de importância fundamental para a representação e para o impacte do negócio. As diferenças verificam-se, no entanto, dentro de um espectro conservador, o que exclui conflitos de vulto.
Estará certo dizer que o negócio se encontra tacticamente dividido mas estrategicamente coeso. Em praticamente todas as questões de política económica, bem como em questões de âmbito nacional, os homens de negócio apresentam uma frente unida.
Já o mesmo não se pode dizer em relação aos movimentos sindicais, seja onde for. A sua característica mais saliente é a divisão e não a unidade; e as divisões de que sofrem, longe de serem tácticas e superficiais, são na maioria dos casos profundas e de natureza fundamental.
Sabe-se que os sindicatos têm estado sempre divididos ( chegando a ocorrer divisões dentro de um só sindicato) no contexto das funções e aptidões dos seus membros, e por vezes por factores geográficos, religiosos, étnicos ou raciais. Mas, seja devido a estes factores seja por outras razões, eles estão sobretudo divididos por questões ideológicas e por diferentes tomadas de posição.
Nalguns países, estas divisões encontram expressão institucional na existência de federações distintas e muitas vezes antagónicas - comunistas, sociais-democratas e cristãs -, cujos conflitos são um factor profundamente inibitório na sua confrontação com o patronato e com o Estado, e bem assim na sua eficiência como grupos de pressão.Em nenhuma parte existe, no mundo do negócio, algo que se assemelhe a estas divisões.
Acresce que mesmo em países onde as clivagens ideológicas não têm encontrado expressão institucional, os movimentos sindicais têm apesar de tudo estado sujeitos a profundas divisões que, mesmo quando contidas numa só organização, têm consequências marcadamente debilitantes.
As divisões ocorridas no movimento têm-se baseado em diferenças funcionais entre os sindicatos, sobre as quais muitas vezes têm recaído, conflitos e divergências entre os sindicatos mais e menos militantes. Dentro de cada sindicato, tem-se assistido a uma confrntação entre os elementos de esquerda, com maior militância, e a chefia “moderada” e “responsável”.
Esta divergência entre cúpulas e membros não tem de um modo geral afectado as associações do negócio. A causa fundamental desta divisão, reside no papel profundamente ambíguo que os dirigentes sindicais tendem a assumir nas sociedades capitalistas. Por um lado, estes dirigentes defendem os interesses “sectoriais” dos seus membros com a maior firmeza, quer contra o patronato, quer contra o Estado.Por outro lado, a “opinião pública” espera, e o Estado muitas vezes exige, que os dirigentes ajam “responsavelmente” no “interesse nacional”, o que muitas vezes implica da sua parte uma atitude de aplacação das reivindicações e de abandono da defesa das lutas travadas pelo grosso dos seus membros o que acontece nomeadamente nos casos de greve. As greves ocorrem numa atmosfera de hostilidade, muito embora sejam um fenómeno do dia a dia. São convencionalmente descritas como industrialmente subversivas, irresponsáveis, injustas, contra os interesses da comunidade, contrárias aos melhores interesses dos trabalhadores, um desperdício de recursos, agressivas, incompatíveis com a democracia, e desnecessárias.
O que é mais importante é que os próprios dirigentes sindicais, são profundamente influenciados por estas ideias. Os funcionários sindicais são particularmente vulneráveis às influências anti-greve porque frequentemente se lhes imputa responsabilidade pelo comportamento dos seus membros...Uma vez empenhados num apelo à greve, os funcionários sindicais tendem a passar à defesa...Envolvidos numa greve, são muitas vezes motivados por um desejo de lhe por fim sem demora, independentemente dos méritos da causa.
As influências do ambiente são enormes. Um delas são os orgãos de comunicação, que unanimemente denunciam a “irresponsabilidade” de qualquer greve, seja qual for o mérito da causa, e condenam os que a dirigem. Outra são os governos que, independentemente da cor política, se servem de todos os meios de influência e de poder de que dispõem para desgastar a vontade e o objectivo dos grevistas e particularmente dos dirigentes sindicais.
Nem só estas influências fazem com que os dirigentes sindicais ponham um freio à militância daqueles que lutam pelo avanço dos trabalhadores. Essa militância acarreta geralmente um escoamento dos recursos sindicais. Tem além disso o condão de fortalecer a posição dos elementos militantes dentro dos sindicatos, cujo desafio encontra a resistência dos dirigentes sindicais, preocupados com o enfraquecimento da sua autoridade. Além disto, o receio do fracasso, apesar dos grandes sacrifícios, está sempre presente, sendo agravado pelo conhecimento das forças que se congregam contra o trabalho. e se o êxito da acção militante tem muitas de depender da solidariedade e do apoio doutros sindicatos, nem sempre é fácil consegui-los. Mesmo quando é possível mobilizar outros sindicatos para a luta de determinada indústria, não há qualquer garantia de que o apoio tenha a duração necessária.
Tais fraquezas são inerentes à posição dos sindicatos na sociedade capitalista. As limitações estruturais poderão ter maior ou menor influência, consoante a ideologia e a perspectiva dos dirigentes sindicais no desempenho das suas tarefas.
Os diferentes rótulos políticos a que os dirigentes sindicais estão submetidos sugerem naturalmente diferenças apreciáveis nas atitudes para com o sistema capitalista.Se alguns dirigentes sindicais, como os americanos, aceitam de bom grado esse sistema como um facto consumado, outros tendem a subscrever uma crença na consecução última de uma ordem social diferente.E se por um lado os dirigentes sindicais dos Estados Unidos geralmente acreditam e proclamam que existe uma identidade fundamental de interesses entre o capitalismo empresarial e o trabalho, a maioria dos dirigentes sindicais dos outros países não estão menos inclinados a compartilhar tal convicção e a apregoá-la.Não é, porém, difícil exagerar a importância prática das diferenças ideológicas entre os Estados Unidos e a vasta maioria dos dirigentes e funcionários sindicais noutros países capitalistas. Isto, porquanto, se é sabido que os dirigentes sindicais americanos aceitam explicitamente, e sem contestação, as estruturas capitalistas, os seus homólogos noutros países capitalistas têm manifestado a tedência para, na prática, agirem segundo a mesma perspectiva e considerarem irrelevante para a estratégia sindical qualquer empenho que possam ter noutra ordem social.
Este facto tem facilitado consideravelmente as relações dos dirigentes sindicais com o patronato e com os governos, e proporcionado uma base firme para um processo de colaboração entre estes elementos, transformando-se esses dirigentes em parceiros da empresa capitalista.Este processo assume hoje um carácter muito mais oficial: os sindicatos são actualmente regularmente “consultados” pelos seus governos, encontrando-se representantes seus em vários organismos do sistema de Estado. Para os dirigentes sindicais, é fácil acreditar que, porque passaram a ser reconhecidos como um elemento necessário à engrenagem do capitalismo, lograram alcançar a paridade com o negócio na tomada de decisões políticas. A sua integração na vida oficial dos seus países investiu-os de responsabilidades que tiveram o condão de enfraquecer a sua posição de negociação, contribuindo ao mesmo tempo para reduzir a sua eficácia.
Há, no entanto, outras razões mais específicas que nos permitem concluir ser totalmente falsa a noção de que o trabalho é um grupo de interesses de força comparável ao negócio.
É do consenso geral que uma actividade séria dos grupos de pressão ocorre hoje mais frequentemente ao nível executivo e administrativo do que legislativo.À medida que o Estado tem vindo a assumir maiores poderes em todos os campos da actividade económica e social, “interesses” mais importantes da sociedade vão gradualmente dirigindo as suas actividades de pressão no sentido do governo e da administração. Isto não significa, porém, que o sector mais significativo da actividade dos grupos de pressão incida sobre o poder executivo. Actualmente, só os grupos mais fracos procuram exercer influência através da legislatura, precisamente porque são incapazes de influenciar seja de que maneira for o executivo. Os “interesses” mais importantes servem-se de ambos os meios, com ênfase sobre o governo e a administração.
Já foi dito que o negócio entra nesta competição em termos extremamente favoráveis, em comparação com o trabalho ou qualquer outro “interesse”. Isto porquanto os homens de negócio e os seus representantes estabelecem afinidades com os ministros, os funcionários públicos e outros elementos da élite de Estado inacessíveis ao trabalho e seus representantes. Em face das influências que afectam os detentores do poder e administradores, --
a proveniência social, laços e ligações pessoais, situação de classe, interesse individual, inclinações ideológicas, concepções do “interesse nacional” --, os grupos de pressão do mundo do negócio podem facilmente esperar que as suas opiniões e exigências deparem com um certo grau inicial de compreensão, de simpatia ou pelo menos respeito, inteiramente diferente daquele que é atribuído aos seus homólogos do mundo do trabalho. É também esta a situação que se verifica quando governos de esquerda se encontram no poder ( de quem é que me estarei a lembrar?) ou quando o trabalho tem de negociar com as administrações conservadoras.
Outra razão importante que ajuda a explicar esta diferença está em que o trabalho, como grupo de pressão, aparenta sempre ser um interesse muito mais “sectorial” do que o negócio. Por mais meritórias que sejam, as suas reivindicações são facilmente consideradas como prejudiciais à viabilidade económica e financeira, inflacionárias, inimigas da condução eficiente das questões industriais e outras, perigosas para a manutenção da “confiança”, incluindo do estrangeiro, um risco inevitável para a concorrência da iniciativa interna, como”egoístas” ou “irrealistas” ou “erradas” -- em suma, como nitidamente contra o “interesse nacional”.
Ao invés, as reivindicações do negócio são sempre no “interesse nacional”. Por um lado, a oposição do negócio às exigências do trabalho é, por definição, congruente com esse interesse. Por outro, as exigências do negócio que visam fortalecer a posição de firmas individuais ou de indústrias particulares, ou da empresa capitalista em geral, podem ser sempre apresentadas, com apreciável plausabilidade no contexto capitalista em que são feitas, como exigências coerentes com o “interesse nacional”.
Isto poderá não alcançar sempre os resultados desejados. Além disso, não se pode dizer que todas as pressões exercidas pelo negócio sejam sempre bem sucedidas, e que as pressões do trabalho sejam sempre em vão. O que se verifica é que os governos e funcionários públicos sentem à partida que ao apoiarem o negócio, estão conscientemente a promover o “interesse nacional”. Já não sentirão porém o mesmo no que respeita às reivindicações do trabalho. Os funcionários públicos superiores preferem lidar com os magnates da indústria e da finança do que com os representantes das pequenas e médias empresas ou com os pequenos agricultores. Às carências dos primeiros, acrescentam os últimos uma total falta de conhecimento da vida económica e uma preocupação exclusiva com os seus interesses particulares. Além disso, os interesses do grande patronato estão interligados com o “interesse nacional”, o que gera uma linguagem comum entre patrões e funcionários.
Esta atitude provoca uma situação que é reforçada pelos vastos recursos que os interesses do capital podem mobilizar para o avanço da sua causa. Os departamentos governamentais e as agências reguladoras que se ocupam de questões e políticas que afectam os interesses mais importantes são fortemente influenciados pela documentação que esses interesses lhes submetem, dela dependendo muitas vezes para a elaboração dos seus programas. Acresce que esses departamentos e agências são altamente susceptíveis ao peso e intensidade das pressões geradas pelos diversos interesses capitalistas.Deste ponto de vista, o negócio está infinitamente mais bem colocado do que o trabalho, ou qualquer outro interesse, dados os seus recursos esmagadoramente mais vastos. Além disso, as firmas maiores e mais poderosas não precisam de confiar em nenhum organismo intermédio que defenda os seus interesses junto dos governos - fazem-no por si mesmas, com a confiança inerente ao poder de que desfrutam. Não há qualquer outro interesse que, como o negócio, tenha igual facilidade de acesso aos orgãos mais importantes do poder executivo, e nenhum outro goza de tamanha familiaridade junto dos seus agentes. Nem tão-pouco há outro interesse capaz de exercer, sempre que necessário, o tipo de campanha de pressão que os interesses do negócio podem desenvolver, isso também, porque os homens de negócio constituem o grupo da sociedade mais consciente da sua classe. Como classe são mais facilmente mobilizados, estão melhor organizados e têm melhores meios de comunicação do que qualquer outro grupo.Isto aplica-se a todos os países capitalistas.
Vale a pena salientar de novo que não se trata de este desequilíbrio garantir automaticamente que os interesses do negócio alcancem sempre os seus objectivos e imponham necessariamente a sua vontade ao estado, em relação a qualquer das suas reivindicações. Nem tão-pouco se procura sugerir que outros grupos organizados, seja de que tipo forem, não tenham também levado a cabo frequentemente, e com grande êxito, as suas campanhas, por vezes deparando com forte oposição por parte do negócio.Se a hegemonia do negócio tivesse sido absoluta, seria absurdo falar sequer de concorrência. Há concorrência, e os poderosos interesses capitalistas tanto sofrem derrotas como conquistam vitórias. Afinal de contas, David derrotou Golias.Mas o ponto de toda a história é que David era mais pequeno do que Golias e todas as desvantagens estavam contra ele.
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