"We walked along, sometimes hand in hand, between the thin lines marking sea and sand; smiling very peacefully,We began to notice that we could be free, and we moved together to the West."
Peter Hammill, Refugges
Se há problema que sirva para caracterizar a segunda metade do nosso século é este: o dos exilados e o dos refugiados. Desde a segunda guerra mundial e não há necessidade de recuar mais no tempo, contam-se aos milhões aqueles que, pelos mais variados motivos, assumiram a condição de refugiados. Ainda hoje, e apesar do "aquecimento" das relações entre o bloco de países que constituem a NATO e os países que constituem o Ex-Pacto de Varsóvia o problema em causa não diminui de intensidade, talvez antes pelo contrário.
Ele é na ex-Jugoslávia, na Somália, em Angola, na África do Sul, em Moçambique, nalguns dos actuais países que constituem a ex-URSS, no Extremo Oriente, em Timor, e se alargarmos o conceito de refugiado, então também os encontraremos nos Estados Unidos e em Portugal.
Há mais de cem anos, Engels escreveu a Marx que "a emigração é uma instituição que deve fazer de toda a gente um louco, um burro e um vulgar tratante, a menos que consiga afastar-se totalmente dela..." No século XX, muitos intelectuais europeus lutaram com os problemas da existência de refugiado e dos seu estado psicológico resultante. Todos tentaram resolver os problemas e dilemas de maneiras diferentes, por vezes extremas. Ernst Toller, escritor, enforcou-se no seu quarto de hotel em Manhattan; Edgar Zilsel, filósofo da ciência, também se suicidou, como fizeram Kurt Tucholsky, Stefan Zweig e Walter Benjamim. Não é nosso objectivo apresentar um artigo exaustivo do problema, porque aliás, poderia tornar-se um pouco fastidioso, e além disso, não teria sentido isso acontecer nas páginas de A Batalha. Assim, apresento alguns exemplos representativos que são ilustrativos à sua maneira.
Karl Korsch, o conhecido pensador neo-marxista, ficou desorientado no seu encontro com o Novo Mundo e achou a realidade social americana intelectualmente impenetrável. No entanto, como que pressagiando a sociedade intelectualmente impenetrável. No entanto, como que pressagiando a sociedade unidimensional e o pensamento unidimensional de Marcuse, Korsch detectou pelo menos um aspecto crucial da sociedade capitalista americana: a sua imensa flexibilidade e capacidade para neutralizar toda a oposição real e para absorver todas as contra-tendências. O seu diagnóstico da sociedade americana é talvez a afirmação mais concisa sobre o assunto. Escreveu numa carta, "Na Europa, existe uma oposição legítima entre a teoria "positiva" estática racional para os problemas actuais enquanto a última expõe a irracionalidade daquelas soluções técnicas perante os problemas reais. Nos Estados Unidos, contudo, não há lugar para esta coexistência. Há muitas actividades pressupostas como a correcção contínua de factos investigados; a descoberta de novos campos científicos e a aplicação de novos métodos, é uma absorção imediata de tendências contra-culturais; uma saturação de tudo quanto é anómalo e ilegal: a institucionalização do negócio, da política, da corrupção, do poder e da criminalidade. Sob estas circunstancias, as novas ideias na ciência não precipitam conflitos ou pressões, meramente fornecem a ração diária de "carburante".
Berholt Brecht, já um dramaturgo e poeta com êxito na altura em que deixou a Alemanha, andou de país para país em virtude de avanço do nazismo. Foi de Berlim, através da Dinamarca, para a Suécia; depois da invasão da Noruega, estabeleceu-se na Finlândia até que a União Soviética invadiu este país. Depois, foi para a Califórnia via Vladivostok, sujeitando-se a uma longa viagem transiberiana. Depois de ter chegado à Costa Ocidental, decidiu "juntar-se aos vendedores", o mercado de Hollywood, "onde se compram as mentiras"; mas, por todo o lado lhe surgia o pedido, "Soletre lá o seu nome", que para ele significava a falta de Pátria e a insegurança. O seu Soneto no Exílio resume a existência intelectual do refugiado como foi experimentada por um artista sensível: "Expulso do meu país, tenho agora de ver como abrir uma nova loja, um lugar onde possa vender o que penso. Tenho de andar pelos velhos caminhos, gastos pelos passos daqueles que não têm esperança! Já no meu caminho, ainda não sei com quem vou ter. Onde quer que vá, ouço "Soletre o seu nome!" Oh, este "nome" foi outrora um dos grandes".
Em 1947, foi expulso do país pela Comissão Nacional das Actividades Não-americanas. Outro dos grandes nomes, Thomas Mann, iniciou a estadia americana positivamente; a era do New Deal inspirara-o a retratar Roosevelt e a sua política na sua tetralogia José. Contudo, no início dos anos 50, Thomas Mann foi assustado pelo McCartismo. A saudade da Europa aliada ao medo - daquilo a que chamou um "novo fascismo" na América - fê-lo regressar à Europa. Thomas Mann descreveu o seu estado de espírito numa carta de 1951: "Possuo uma espécie de medo irracional de vir a ser enterrado neste país que nada me deu e nada sabe de mim".
Também Adorno dá uma visão do estado psicológico dos "intelectuais do estrangeiro". Adorno reflecte sobre o choque das novas experiências, a vastidão assustadora de tudo, e a sua derradeira redução a uma coisa: "Tornou-se indubitavelmente claro para o intelectual do estrangeiro que ele deve erradicar-se como um ser autónomo, se espera realizar alguma coisa ou ser aceite como um empregado do super-trust em que a vida se condensou. O indivíduo refractário que não capitula nem se submete completamente à linha é abandonado ao choque que o mundo das coisas, concentrado em blocos gigantes, administra seja ao que for ou seja a quem for que não se torne uma coisa. Impotente na engrenagem da relação de mercadoria universalmente desenvolvida, que se tornou o modelo supremo, o intelectual reage ao choque com o pânico".
Horkheimer e Adorno também eles exilados enfrentaram quase todos os aspectos da civilização capitalista americana com choque e consternação. Adorno explica a questão muito bem: "Todo o intelectual no exílio, sem excepção, é ferido... Vive num ambiente que permanecerá incompreensível para ele, mesmo se se encontrar à vontade dos sindicatos ou nas ruas... A sua língua é expropriada e é privado da sua dimensão histórica da qual o seu conhecimento tirou a sua força".
Todo o aspecto mínimo da nova sociedade é um novo choque: "A tecnicização torna os gestos precisos e duros, e faz o mesmo aos homens. Assim uma pessoa esquece-se como fechar uma porta suavemente, cuidadosamente e, no entanto, firmemente. Tem de se bater com as portas dos automóveis e dos frigoríficos... " Adorno pergunta num tom reflexivo: "Que significa para o sujeito não existirem janelas com portas para abrir, mas apenas janelas para empurrar para cima e para baixo, não existirem maçanetas nas portas, mas apenas puxadores para girar... não existirem sebes à volta dos jardins". Além disso, há a luta pela existência, ou antes, a luta de vida ou de morte pela sobrevivência, em competição com os nativos e com os companheiros intelectuais exilados. Adorno observa: "A partilha do produto social em relação nos estrangeiros é escassa e leva-nos a uma segunda competição sem esperança entre eles mesmos, aquém e além da geral. Tudo isso deixa marcas em toda a gente... A relação entre os "banidos" é ainda mais envenenada do que entre os nativos".
Diz-se que tempo é dinheiro e as pessoas funcionam a partir daí. Os cumprimentos pessoais como tirar o chapéu e apertar as mãos estão a ser substituídos pelo olá indiferente tal como as cartas estão a ser substituídas por comunicações inter-gabinetes sem assinatura. Nesta total indiferença, o triunfo da objectividade nas relações humanas entre seres humanos que elimina todo o ornamento ideológico, tornou-se ele mesmo ideologia para a abordagem dos seres humanos como coisas.
Finalmente, para terminar, os problemas da existência do refugiado produzem um estado de espírito que Adorno e mais uma vez, descreve deste modo: "Os indivíduos são reduzidos a uma mera sequência de experiências instantâneas que não deixam vestígios... O que um homem era e experimentou no passado não é nada quando comparado com o que ele agora é, tem e para que pode ser usado. O bem intencionado mas ameaçador conselho frequentemente dado aos emigrantes para esquecerem todo o seu passado porque não pode ser transferido, e para começarem uma vida completamente nova, representa para o recém-chegado simplesmente uma recordação violenta de algo que há muito aprendeu para si mesmo. A história é eliminada em si e nos outros em virtude de poder recordar ao indivíduo a decadência da sua própria existência - a qual continua".
Peter Hammill, Refugges
Se há problema que sirva para caracterizar a segunda metade do nosso século é este: o dos exilados e o dos refugiados. Desde a segunda guerra mundial e não há necessidade de recuar mais no tempo, contam-se aos milhões aqueles que, pelos mais variados motivos, assumiram a condição de refugiados. Ainda hoje, e apesar do "aquecimento" das relações entre o bloco de países que constituem a NATO e os países que constituem o Ex-Pacto de Varsóvia o problema em causa não diminui de intensidade, talvez antes pelo contrário.
Ele é na ex-Jugoslávia, na Somália, em Angola, na África do Sul, em Moçambique, nalguns dos actuais países que constituem a ex-URSS, no Extremo Oriente, em Timor, e se alargarmos o conceito de refugiado, então também os encontraremos nos Estados Unidos e em Portugal.
Há mais de cem anos, Engels escreveu a Marx que "a emigração é uma instituição que deve fazer de toda a gente um louco, um burro e um vulgar tratante, a menos que consiga afastar-se totalmente dela..." No século XX, muitos intelectuais europeus lutaram com os problemas da existência de refugiado e dos seu estado psicológico resultante. Todos tentaram resolver os problemas e dilemas de maneiras diferentes, por vezes extremas. Ernst Toller, escritor, enforcou-se no seu quarto de hotel em Manhattan; Edgar Zilsel, filósofo da ciência, também se suicidou, como fizeram Kurt Tucholsky, Stefan Zweig e Walter Benjamim. Não é nosso objectivo apresentar um artigo exaustivo do problema, porque aliás, poderia tornar-se um pouco fastidioso, e além disso, não teria sentido isso acontecer nas páginas de A Batalha. Assim, apresento alguns exemplos representativos que são ilustrativos à sua maneira.
Karl Korsch, o conhecido pensador neo-marxista, ficou desorientado no seu encontro com o Novo Mundo e achou a realidade social americana intelectualmente impenetrável. No entanto, como que pressagiando a sociedade intelectualmente impenetrável. No entanto, como que pressagiando a sociedade unidimensional e o pensamento unidimensional de Marcuse, Korsch detectou pelo menos um aspecto crucial da sociedade capitalista americana: a sua imensa flexibilidade e capacidade para neutralizar toda a oposição real e para absorver todas as contra-tendências. O seu diagnóstico da sociedade americana é talvez a afirmação mais concisa sobre o assunto. Escreveu numa carta, "Na Europa, existe uma oposição legítima entre a teoria "positiva" estática racional para os problemas actuais enquanto a última expõe a irracionalidade daquelas soluções técnicas perante os problemas reais. Nos Estados Unidos, contudo, não há lugar para esta coexistência. Há muitas actividades pressupostas como a correcção contínua de factos investigados; a descoberta de novos campos científicos e a aplicação de novos métodos, é uma absorção imediata de tendências contra-culturais; uma saturação de tudo quanto é anómalo e ilegal: a institucionalização do negócio, da política, da corrupção, do poder e da criminalidade. Sob estas circunstancias, as novas ideias na ciência não precipitam conflitos ou pressões, meramente fornecem a ração diária de "carburante".
Berholt Brecht, já um dramaturgo e poeta com êxito na altura em que deixou a Alemanha, andou de país para país em virtude de avanço do nazismo. Foi de Berlim, através da Dinamarca, para a Suécia; depois da invasão da Noruega, estabeleceu-se na Finlândia até que a União Soviética invadiu este país. Depois, foi para a Califórnia via Vladivostok, sujeitando-se a uma longa viagem transiberiana. Depois de ter chegado à Costa Ocidental, decidiu "juntar-se aos vendedores", o mercado de Hollywood, "onde se compram as mentiras"; mas, por todo o lado lhe surgia o pedido, "Soletre lá o seu nome", que para ele significava a falta de Pátria e a insegurança. O seu Soneto no Exílio resume a existência intelectual do refugiado como foi experimentada por um artista sensível: "Expulso do meu país, tenho agora de ver como abrir uma nova loja, um lugar onde possa vender o que penso. Tenho de andar pelos velhos caminhos, gastos pelos passos daqueles que não têm esperança! Já no meu caminho, ainda não sei com quem vou ter. Onde quer que vá, ouço "Soletre o seu nome!" Oh, este "nome" foi outrora um dos grandes".
Em 1947, foi expulso do país pela Comissão Nacional das Actividades Não-americanas. Outro dos grandes nomes, Thomas Mann, iniciou a estadia americana positivamente; a era do New Deal inspirara-o a retratar Roosevelt e a sua política na sua tetralogia José. Contudo, no início dos anos 50, Thomas Mann foi assustado pelo McCartismo. A saudade da Europa aliada ao medo - daquilo a que chamou um "novo fascismo" na América - fê-lo regressar à Europa. Thomas Mann descreveu o seu estado de espírito numa carta de 1951: "Possuo uma espécie de medo irracional de vir a ser enterrado neste país que nada me deu e nada sabe de mim".
Também Adorno dá uma visão do estado psicológico dos "intelectuais do estrangeiro". Adorno reflecte sobre o choque das novas experiências, a vastidão assustadora de tudo, e a sua derradeira redução a uma coisa: "Tornou-se indubitavelmente claro para o intelectual do estrangeiro que ele deve erradicar-se como um ser autónomo, se espera realizar alguma coisa ou ser aceite como um empregado do super-trust em que a vida se condensou. O indivíduo refractário que não capitula nem se submete completamente à linha é abandonado ao choque que o mundo das coisas, concentrado em blocos gigantes, administra seja ao que for ou seja a quem for que não se torne uma coisa. Impotente na engrenagem da relação de mercadoria universalmente desenvolvida, que se tornou o modelo supremo, o intelectual reage ao choque com o pânico".
Horkheimer e Adorno também eles exilados enfrentaram quase todos os aspectos da civilização capitalista americana com choque e consternação. Adorno explica a questão muito bem: "Todo o intelectual no exílio, sem excepção, é ferido... Vive num ambiente que permanecerá incompreensível para ele, mesmo se se encontrar à vontade dos sindicatos ou nas ruas... A sua língua é expropriada e é privado da sua dimensão histórica da qual o seu conhecimento tirou a sua força".
Todo o aspecto mínimo da nova sociedade é um novo choque: "A tecnicização torna os gestos precisos e duros, e faz o mesmo aos homens. Assim uma pessoa esquece-se como fechar uma porta suavemente, cuidadosamente e, no entanto, firmemente. Tem de se bater com as portas dos automóveis e dos frigoríficos... " Adorno pergunta num tom reflexivo: "Que significa para o sujeito não existirem janelas com portas para abrir, mas apenas janelas para empurrar para cima e para baixo, não existirem maçanetas nas portas, mas apenas puxadores para girar... não existirem sebes à volta dos jardins". Além disso, há a luta pela existência, ou antes, a luta de vida ou de morte pela sobrevivência, em competição com os nativos e com os companheiros intelectuais exilados. Adorno observa: "A partilha do produto social em relação nos estrangeiros é escassa e leva-nos a uma segunda competição sem esperança entre eles mesmos, aquém e além da geral. Tudo isso deixa marcas em toda a gente... A relação entre os "banidos" é ainda mais envenenada do que entre os nativos".
Diz-se que tempo é dinheiro e as pessoas funcionam a partir daí. Os cumprimentos pessoais como tirar o chapéu e apertar as mãos estão a ser substituídos pelo olá indiferente tal como as cartas estão a ser substituídas por comunicações inter-gabinetes sem assinatura. Nesta total indiferença, o triunfo da objectividade nas relações humanas entre seres humanos que elimina todo o ornamento ideológico, tornou-se ele mesmo ideologia para a abordagem dos seres humanos como coisas.
Finalmente, para terminar, os problemas da existência do refugiado produzem um estado de espírito que Adorno e mais uma vez, descreve deste modo: "Os indivíduos são reduzidos a uma mera sequência de experiências instantâneas que não deixam vestígios... O que um homem era e experimentou no passado não é nada quando comparado com o que ele agora é, tem e para que pode ser usado. O bem intencionado mas ameaçador conselho frequentemente dado aos emigrantes para esquecerem todo o seu passado porque não pode ser transferido, e para começarem uma vida completamente nova, representa para o recém-chegado simplesmente uma recordação violenta de algo que há muito aprendeu para si mesmo. A história é eliminada em si e nos outros em virtude de poder recordar ao indivíduo a decadência da sua própria existência - a qual continua".
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