Na sua concorrência política com os partidos de esquerda, os partidos conservadores têm sempre desfrutado de apreciável apoio, directo ou indirecto, e contado com a força das Igrejas. É verdade que as sociedades industriais avançadas têm sofrido um acentuado processo de secularização, e a influência religiosa é um factor que vai tendo cada vez menos importância na determinação das opções políticas e morais das populações. No entanto ninguém que nestes países escreva sobre socialização política e clerical, que varia de intensidade de cultura para cultura, mas que em nenhuma parte é insignificante e em todo o lado funciona a favor das forças conservadoras. Há quem observe, e com razão, que o voto da classe trabalhadora a favor dos partidos não-socialistas é muitas vezes motivado pelo sentimento religioso. Facto que tem sido observado em toda a Europa.
Este ponto é de particular importância em relação aos países predominantemente católicos (mas não só - não esquecer a Alemanha), onde os principais partidos conservadores têm estado estreitamente associados à Igreja Católica e são por ela apoiados. Os partidos democratas-cristãos, como partidos conservadores que são, teriam em qualquer caso atraído um apoio eleitoral em larga escala. No entanto, eles têm adquirido uma grande dose de força através do apoio que lhes é dado pela Igreja, ou, pelo menos, do antagonismo que esta tem manifestado para com os partidos de esquerda, particularmente em relação aos partidos comunistas, como na Itália e na França.
Deste modo, um observador notou que nas eleições decisivas realizadas em Itália em 1948, e geralmente aceite que só o extraordinário esforço do catolicismo organizado, - a criação de um slogan "Ou Cristo ou o Comunismo" -, impediu a extrema-esquerda de chegar legalmente ao poder nas eleições desse ano. De notar também que em Julho de 1949 em decreto do Vaticano excomungou todos os católicos que professavam "a doutrina materialista e anti-cristã dos comunistas".
Quanto à Alemanha, vários autores chamaram a atenção para o facto de que a posição da Igreja Católica a tornou uma grande força governamental, quer no espaço de tempo entre eleições, quer durante a campanha eleitoral de 1957.
Além disso, há que notar que esta influência clerical e conservadora é propagada não só pelas próprias Igrejas como por uma vasta rede de poderosas organizações, que agrupam patrões e assalariados, jovens e mulheres, médicos e advogados, e cujo impacto se faz sentir em todas a s esferas da vida.
As mulheres, em particular, são um sector da população susceptível de sentir este impacto e influência. Também neste caso, o preconceito conservador que caracteriza o voto feminino não pode ser atribuído exclusivamente ao factor religioso - embora ajude, Assim, para os milhões de mulheres italianas que seguem os conselhos políticos dos seus membros de associações católicas secundárias, o processo básico de associação política serve para consiliar o tipo de cognição, de valores e atitudes. Seja como for em relação às instituições democráticas, pode assumir-se, a posteriori, que é ainda menos provável que este processo de socialização política reforce os partidos de esquerda.
Há que modificar o panorama das filiações directamente políticas, no sentido literal do termo, no tocante a países como a Grã-bretanha e Estados Unidos - embora menos do que geralmente se diz. Já não é tão verdade como dantes, que a Igreja de Inglaterra seja o Partido Conservador no púlpito, e a observação de um antigo Arcebispo de York de que ao longo do século dezanove a influência do clero paroquial se exercia a favor dos conservadores, só dificilmente poderia ser aplicada a este século, sem as necessárias rectificações. A alteração manifesta-se no facto de a Igreja de Inglaterra, como aliás todas as Igrejas britânicas, com a ascensão do Partido Trabalhista a uma posição política explícita com qualquer dos dois partidos de grande implantação. As Igrejas, tal como os funcionários públicos superiores, os militares e os Juízes, são oficialmente neutras, não partidárias. O mesmo se poderá dizer das Igrejas nos Estados Unidos, onde elas têm procurado de um modo geral evitar identificar-se quer com o Partido Republicano quer com o Partido Democrático. Há sem dúvida em ambos os países muitos exemplos de prelados que se afastaram desta posição neutra, mas a regra manteve-se intacta.
Todavia, seria um erro pensar, por via disto, que nestes países as Igrejas não têm desempenhado, e não continuam a desempenhar, um importante papel, geralmente conservador. Em relação às sociedades capitalistas contemporâneas temos por tese o facto incontestável e importante de que a religião organizada, na maior parte das sua manifestações, tem desempenhado um papel funcional e integrador quanto ao sistema económico e social vigente e - com algumas excepções marcadas por conflitos político-religiosos - ao Estado que tem defendido essa ordem social.
Na época das guerras napoleónicas, Arthur Young escreveu que o verdadeiro cristão nunca será um nivelador social, nunca dará ouvidos à política francesa, nem à filosofia francesa. Desde então, as Igrejas têm-se esforçado denodamente por tornar os seus fiéis verdadeiros cristãos, neste sentido, e, além disso, por os pôr de sobreaviso quanto aos paralelos contemporâneos da política francesa e da filosofia francesa.
Têm-se afirmado que a voz da Igreja dissidente na Inglaterra, ao contrário da Igreja Estabelecida, tem sido de radicalismo e protesto. Um secretário geral do partido Trabalhista fora a Metodismo e não a Marxismo. Esta proposição não é historicamente verdadeira, porque embora o Metodismo esteja secular e religiosamente fora da Igreja Estabelecida, na sua história há pouco que indique que a sua doutrina se preocupava com pregar a rebelião aos seus seguidores. Pelo contrário, há muitas coisas que nos levam a crer que a sua mensagem era a adaptação e a submissão à ordem política e económica, não o desafio - e muito menos a rebelião - e que desempenhou um papel considerável na reconciliação daqueles que influenciava com o sistema de denominação da nova ordem industrial.
O mesmo se poderá dizer ao Socialismo Cristão dentro da Igreja Estabelecida. É significativo que o movimento tenha nascido como uma alternativa consciente ao Cartismo e que o seu fundador, F.D. Maurice, tenha como primeira preocupação interpor o Cristianismo entre os trabalhadores e a sua ira, ajudando assim a reduzir o protesto militante das classes trabalhadoras. Isto não anula a sinceridade de certos socialistas cristãos, tanto na altura como mais tarde, na sua vontade de melhorara a situação dos pobres, de elevar a questão social na ordem de preocupações da sociedade, e mesmo de ajudar a criar ou a fortalecer as organizações de defesa da classe operária. Isto, no entanto, representa apenas uma forma mais acentuada da preocupação caricativa pelos pobres, que tem sido característica da maioria das Igrejas. Tal preocupação não é, contudo, disfuncional e não integradora. Salvo algumas excepções, também não foi esse o objectivo da maioria dos movimentos inspirados pela religião. Se, por um lado, muitos destes movimentos têm sido uma visão mais ou menos clara de uma sociedade de cooperação, em que as relações dos homens entre si não deveriam ser dominadas pela "ideia de dinheiro", eles têm também considerado a sia conciliação com a perpetuação da ordem social existente. Neste sentido, uma das suas preocupações tem sido persuadir as classes trabalhadoras de que a ideia de militância não pertence ao verdadeiro Cristianismo.
Trata-se de uma manifesta injustiça para com uma linha de prelados perseverantes, católicos e protestantes, cuja hostilidade para com uma ordem social injusta e "não-cristã" não se tem inserido na perspectiva confortável de um gradualismo intemporal, e cujo objectivo tem sido frequentemente disfuncional. Esta tendência para um protesto cristão militante ocupa um lugar honroso na história de diferentes movimentos de trabalhadores. Continua a ser uma fonte de desafio político e moral que, por exemplo no que diz respeito ao movimento de protesto nos Estados Unidos contra a agressão americana no Vietname, não deve de modo algum ser minimizado.
Apesar de tudo, o anti-conservantismo clerical, seja militante ou moderado, tem sido nos países capitalistas uma atitude de uma minoria, a qual tem de ser vista contra um pano de fundo de um pronunciado conservantismo, por vezes de um tipo extremamente reaccionário, em relação às questões políticas e morais da sociedade.
Em países como os Estados Unidos e mesmo a Grã-bretanha, isto tem sido compatível com a neutralidade politica em relação aos partidos políticos mais importantes. Não há afinal qualquer razão para a Igreja Católica, nos Estados Unidos por exemplo, correr o risco de alienar um grande número de católicos que apoiam o Partido Democrático, exprimindo hostilidade contra ele. Afinal, os objectivos daquele partido não ofendem as susceptibilidades conservadoras da Igreja. Na Grã-Bretanha, também não tem valido a pena as Igrejas incorrerem no mesmo risco em relação ao Partido Trabalhista, dada a comprovada moderação dos seus dirigentes. Na verdade, a neutralidade e a benevolência têm a vantagem de permitirem que a Igreja e as suas organizações auxiliares exerçam a sua influência no sentido de fortalecer os elementos moderados do partido, contra os elementos de esquerda. Em suma, a influência que a religião organizada possa ter será, nuns países, posta ao serviço dos partidos conservadores contra a Esquerda e, noutros, ao serviço dos elementos de direita contra os de esquerda dentro de um partido da classe operária. Essa influência poderá ser mais significativa nuns países do que noutros. Mas em nenhuma parte é de somenos importância.
Num contexto mais lato, tem-se notado também que, nos países capitalistas avançados, as Igrejas têm neste século oferecido um útil elemento de reforço à autoridade do Estado e seus objectivos, através de uma enfática atitude de lealdade. Citando um Arcebispo: "duvido que haja qualquer outra religião, além da Igreja de Inglaterra, onde se ofereçam tantas oportunidades de rezar pelo monarca. A nossa Igreja nunca se envergonhou da sua lealdade "Do mesmo modo, "todos os prelados têm de prestar juramento de fidelidade ao rei e aos seus sucessores antes de serem ordenados." Deste ponto de vista, a distinção entre a Igreja Estabelecida e outras denominações, ou entre diferentes Igrejas doutros países, não tem grande significado. Por toda a parte, e se exceptuarmos períodos de tensão sobre questões específicas que as preocupam particularmente, as Igrejas têm mantido harmoniosas relações com o Estado, estando mais do que prontas a dar a César o que é de César. Seria grato pensar que isto se ficou a dever ao facto de o Estado que apoiam ser "democrático". Infelizmente, não se pode esquecer que muitas Igrejas não têm tido dificuldade em dar o seu apoio a regimes que eram tudo menos democráticos, como por exemplo ao regime fascista de Itália, ao regime nazi na Alemanha e ao regime de Vichy na França. Havia nesses países muitos prelados e leigos que encontravam nas suas convicções religiosas a inspiração para resistir às ordens de regimes que eles achavam odiosos, e por isso lhes concedemos todas as honras. Porém, eles não eram representativos das suas Igrejas, que não só se opuseram a esses regimes com lhes deram a benção. Bem diferentes teria sido o quadro se nesses países tivessem assumido o poder regimes comunistas. As suas Igrejas teriam então redescoberto um dever apostólico de desobediência. Talvez nalguns países a religião organizada, ou pelo menos certos sectores da mesma, tivesse cumprido esse dever em oposição a regimes de tipo fascista. A questão terá que ficar em suspenso. Mas não será injusto sugerir que a razão por que as Igrejas nos países capitalistas avançados têm sido tanta vontade de servir e apoiar o Estado, não é tanto pelo carácter "democrático" desse Estado, mas antes porque os governos que o têm representado têm revelado um preconceito ideológico e político coerente com o das próprias Igrejas. Dada esta coerência, as Igrejas não têm tido dificuldade em identificar obediência à ordem do Estado com dever religioso e, com excepção dos raros casos em que as suas hierarquias têm sido levadas a exprimir uma suave discordância, as Igrejas têm dado a sua benção aos empreendimentos do Estado, incluindo as guerras, os preparativos de guerra, as expedições coloniais e a repressão interna.
Em troca, o Estado, dentro dos limites estabelecidos pelas tradições nacionais e pelos conflitos do passado, tem alargado o seu apoio às Igrejas e recebido de braços abertos todo o apoio que estas possam dar ao fortalecimento da textura social e à autoridade do próprio Estado. Os governos dos países capitalistas avançados rejeitam hoje em dia o anti clericalismo e procuram identificar as Igrejas com o Estado, fundamentando a sua atitude na convicção de que tal identificação, bem como a religiosidade que caracteriza a vida oficial e o ritual oficial, constituem um modesto mas útil contributo para os hábitos de obediência que tanto o Estado como as Igrejas procuram fomentar.
Este ponto é de particular importância em relação aos países predominantemente católicos (mas não só - não esquecer a Alemanha), onde os principais partidos conservadores têm estado estreitamente associados à Igreja Católica e são por ela apoiados. Os partidos democratas-cristãos, como partidos conservadores que são, teriam em qualquer caso atraído um apoio eleitoral em larga escala. No entanto, eles têm adquirido uma grande dose de força através do apoio que lhes é dado pela Igreja, ou, pelo menos, do antagonismo que esta tem manifestado para com os partidos de esquerda, particularmente em relação aos partidos comunistas, como na Itália e na França.
Deste modo, um observador notou que nas eleições decisivas realizadas em Itália em 1948, e geralmente aceite que só o extraordinário esforço do catolicismo organizado, - a criação de um slogan "Ou Cristo ou o Comunismo" -, impediu a extrema-esquerda de chegar legalmente ao poder nas eleições desse ano. De notar também que em Julho de 1949 em decreto do Vaticano excomungou todos os católicos que professavam "a doutrina materialista e anti-cristã dos comunistas".
Quanto à Alemanha, vários autores chamaram a atenção para o facto de que a posição da Igreja Católica a tornou uma grande força governamental, quer no espaço de tempo entre eleições, quer durante a campanha eleitoral de 1957.
Além disso, há que notar que esta influência clerical e conservadora é propagada não só pelas próprias Igrejas como por uma vasta rede de poderosas organizações, que agrupam patrões e assalariados, jovens e mulheres, médicos e advogados, e cujo impacto se faz sentir em todas a s esferas da vida.
As mulheres, em particular, são um sector da população susceptível de sentir este impacto e influência. Também neste caso, o preconceito conservador que caracteriza o voto feminino não pode ser atribuído exclusivamente ao factor religioso - embora ajude, Assim, para os milhões de mulheres italianas que seguem os conselhos políticos dos seus membros de associações católicas secundárias, o processo básico de associação política serve para consiliar o tipo de cognição, de valores e atitudes. Seja como for em relação às instituições democráticas, pode assumir-se, a posteriori, que é ainda menos provável que este processo de socialização política reforce os partidos de esquerda.
Há que modificar o panorama das filiações directamente políticas, no sentido literal do termo, no tocante a países como a Grã-bretanha e Estados Unidos - embora menos do que geralmente se diz. Já não é tão verdade como dantes, que a Igreja de Inglaterra seja o Partido Conservador no púlpito, e a observação de um antigo Arcebispo de York de que ao longo do século dezanove a influência do clero paroquial se exercia a favor dos conservadores, só dificilmente poderia ser aplicada a este século, sem as necessárias rectificações. A alteração manifesta-se no facto de a Igreja de Inglaterra, como aliás todas as Igrejas britânicas, com a ascensão do Partido Trabalhista a uma posição política explícita com qualquer dos dois partidos de grande implantação. As Igrejas, tal como os funcionários públicos superiores, os militares e os Juízes, são oficialmente neutras, não partidárias. O mesmo se poderá dizer das Igrejas nos Estados Unidos, onde elas têm procurado de um modo geral evitar identificar-se quer com o Partido Republicano quer com o Partido Democrático. Há sem dúvida em ambos os países muitos exemplos de prelados que se afastaram desta posição neutra, mas a regra manteve-se intacta.
Todavia, seria um erro pensar, por via disto, que nestes países as Igrejas não têm desempenhado, e não continuam a desempenhar, um importante papel, geralmente conservador. Em relação às sociedades capitalistas contemporâneas temos por tese o facto incontestável e importante de que a religião organizada, na maior parte das sua manifestações, tem desempenhado um papel funcional e integrador quanto ao sistema económico e social vigente e - com algumas excepções marcadas por conflitos político-religiosos - ao Estado que tem defendido essa ordem social.
Na época das guerras napoleónicas, Arthur Young escreveu que o verdadeiro cristão nunca será um nivelador social, nunca dará ouvidos à política francesa, nem à filosofia francesa. Desde então, as Igrejas têm-se esforçado denodamente por tornar os seus fiéis verdadeiros cristãos, neste sentido, e, além disso, por os pôr de sobreaviso quanto aos paralelos contemporâneos da política francesa e da filosofia francesa.
Têm-se afirmado que a voz da Igreja dissidente na Inglaterra, ao contrário da Igreja Estabelecida, tem sido de radicalismo e protesto. Um secretário geral do partido Trabalhista fora a Metodismo e não a Marxismo. Esta proposição não é historicamente verdadeira, porque embora o Metodismo esteja secular e religiosamente fora da Igreja Estabelecida, na sua história há pouco que indique que a sua doutrina se preocupava com pregar a rebelião aos seus seguidores. Pelo contrário, há muitas coisas que nos levam a crer que a sua mensagem era a adaptação e a submissão à ordem política e económica, não o desafio - e muito menos a rebelião - e que desempenhou um papel considerável na reconciliação daqueles que influenciava com o sistema de denominação da nova ordem industrial.
O mesmo se poderá dizer ao Socialismo Cristão dentro da Igreja Estabelecida. É significativo que o movimento tenha nascido como uma alternativa consciente ao Cartismo e que o seu fundador, F.D. Maurice, tenha como primeira preocupação interpor o Cristianismo entre os trabalhadores e a sua ira, ajudando assim a reduzir o protesto militante das classes trabalhadoras. Isto não anula a sinceridade de certos socialistas cristãos, tanto na altura como mais tarde, na sua vontade de melhorara a situação dos pobres, de elevar a questão social na ordem de preocupações da sociedade, e mesmo de ajudar a criar ou a fortalecer as organizações de defesa da classe operária. Isto, no entanto, representa apenas uma forma mais acentuada da preocupação caricativa pelos pobres, que tem sido característica da maioria das Igrejas. Tal preocupação não é, contudo, disfuncional e não integradora. Salvo algumas excepções, também não foi esse o objectivo da maioria dos movimentos inspirados pela religião. Se, por um lado, muitos destes movimentos têm sido uma visão mais ou menos clara de uma sociedade de cooperação, em que as relações dos homens entre si não deveriam ser dominadas pela "ideia de dinheiro", eles têm também considerado a sia conciliação com a perpetuação da ordem social existente. Neste sentido, uma das suas preocupações tem sido persuadir as classes trabalhadoras de que a ideia de militância não pertence ao verdadeiro Cristianismo.
Trata-se de uma manifesta injustiça para com uma linha de prelados perseverantes, católicos e protestantes, cuja hostilidade para com uma ordem social injusta e "não-cristã" não se tem inserido na perspectiva confortável de um gradualismo intemporal, e cujo objectivo tem sido frequentemente disfuncional. Esta tendência para um protesto cristão militante ocupa um lugar honroso na história de diferentes movimentos de trabalhadores. Continua a ser uma fonte de desafio político e moral que, por exemplo no que diz respeito ao movimento de protesto nos Estados Unidos contra a agressão americana no Vietname, não deve de modo algum ser minimizado.
Apesar de tudo, o anti-conservantismo clerical, seja militante ou moderado, tem sido nos países capitalistas uma atitude de uma minoria, a qual tem de ser vista contra um pano de fundo de um pronunciado conservantismo, por vezes de um tipo extremamente reaccionário, em relação às questões políticas e morais da sociedade.
Em países como os Estados Unidos e mesmo a Grã-bretanha, isto tem sido compatível com a neutralidade politica em relação aos partidos políticos mais importantes. Não há afinal qualquer razão para a Igreja Católica, nos Estados Unidos por exemplo, correr o risco de alienar um grande número de católicos que apoiam o Partido Democrático, exprimindo hostilidade contra ele. Afinal, os objectivos daquele partido não ofendem as susceptibilidades conservadoras da Igreja. Na Grã-Bretanha, também não tem valido a pena as Igrejas incorrerem no mesmo risco em relação ao Partido Trabalhista, dada a comprovada moderação dos seus dirigentes. Na verdade, a neutralidade e a benevolência têm a vantagem de permitirem que a Igreja e as suas organizações auxiliares exerçam a sua influência no sentido de fortalecer os elementos moderados do partido, contra os elementos de esquerda. Em suma, a influência que a religião organizada possa ter será, nuns países, posta ao serviço dos partidos conservadores contra a Esquerda e, noutros, ao serviço dos elementos de direita contra os de esquerda dentro de um partido da classe operária. Essa influência poderá ser mais significativa nuns países do que noutros. Mas em nenhuma parte é de somenos importância.
Num contexto mais lato, tem-se notado também que, nos países capitalistas avançados, as Igrejas têm neste século oferecido um útil elemento de reforço à autoridade do Estado e seus objectivos, através de uma enfática atitude de lealdade. Citando um Arcebispo: "duvido que haja qualquer outra religião, além da Igreja de Inglaterra, onde se ofereçam tantas oportunidades de rezar pelo monarca. A nossa Igreja nunca se envergonhou da sua lealdade "Do mesmo modo, "todos os prelados têm de prestar juramento de fidelidade ao rei e aos seus sucessores antes de serem ordenados." Deste ponto de vista, a distinção entre a Igreja Estabelecida e outras denominações, ou entre diferentes Igrejas doutros países, não tem grande significado. Por toda a parte, e se exceptuarmos períodos de tensão sobre questões específicas que as preocupam particularmente, as Igrejas têm mantido harmoniosas relações com o Estado, estando mais do que prontas a dar a César o que é de César. Seria grato pensar que isto se ficou a dever ao facto de o Estado que apoiam ser "democrático". Infelizmente, não se pode esquecer que muitas Igrejas não têm tido dificuldade em dar o seu apoio a regimes que eram tudo menos democráticos, como por exemplo ao regime fascista de Itália, ao regime nazi na Alemanha e ao regime de Vichy na França. Havia nesses países muitos prelados e leigos que encontravam nas suas convicções religiosas a inspiração para resistir às ordens de regimes que eles achavam odiosos, e por isso lhes concedemos todas as honras. Porém, eles não eram representativos das suas Igrejas, que não só se opuseram a esses regimes com lhes deram a benção. Bem diferentes teria sido o quadro se nesses países tivessem assumido o poder regimes comunistas. As suas Igrejas teriam então redescoberto um dever apostólico de desobediência. Talvez nalguns países a religião organizada, ou pelo menos certos sectores da mesma, tivesse cumprido esse dever em oposição a regimes de tipo fascista. A questão terá que ficar em suspenso. Mas não será injusto sugerir que a razão por que as Igrejas nos países capitalistas avançados têm sido tanta vontade de servir e apoiar o Estado, não é tanto pelo carácter "democrático" desse Estado, mas antes porque os governos que o têm representado têm revelado um preconceito ideológico e político coerente com o das próprias Igrejas. Dada esta coerência, as Igrejas não têm tido dificuldade em identificar obediência à ordem do Estado com dever religioso e, com excepção dos raros casos em que as suas hierarquias têm sido levadas a exprimir uma suave discordância, as Igrejas têm dado a sua benção aos empreendimentos do Estado, incluindo as guerras, os preparativos de guerra, as expedições coloniais e a repressão interna.
Em troca, o Estado, dentro dos limites estabelecidos pelas tradições nacionais e pelos conflitos do passado, tem alargado o seu apoio às Igrejas e recebido de braços abertos todo o apoio que estas possam dar ao fortalecimento da textura social e à autoridade do próprio Estado. Os governos dos países capitalistas avançados rejeitam hoje em dia o anti clericalismo e procuram identificar as Igrejas com o Estado, fundamentando a sua atitude na convicção de que tal identificação, bem como a religiosidade que caracteriza a vida oficial e o ritual oficial, constituem um modesto mas útil contributo para os hábitos de obediência que tanto o Estado como as Igrejas procuram fomentar.
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