domingo, novembro 20, 2005

A MORTE COMO TEMA: PROBLEMA FILOSÓFICO FUNDAMENTAL?

No passado dia 11 de março de 91, o autor destas linhas sofreu uma acidente de viação que, dadas as suas proporções e apesar de um termos físicos nada ter sofrido, o lançou numa lacinante meditação sobre o tema da morte.
Se a morte como tema de reflexão perpassa por toda a tradição filosófica é a nossa posição que não constitui, de modo algum, a questão fundamental da filosofia, senão vejamos:
O primeiro aspecto a ter em conta é que a filosofia que discute as questões da vida humana, (a morte faz parte da vida porque só por estarmos vivos é que faz sentido falarmos da morte - por muito tautológico que esta formulação aparente ser, a verdade é que a experiência que fazemos do real se apresenta como tal.) da ética, da estética, não podia recorrer aos processos em uso nas ciências para verificar as suas próprias afirmações, e se o tenta, esses processos parecem muito pouco eficazes.
Sendo as convicções a expressão de um determinado ponto de vista, de um certo juízo sobre factos precisos, não são todavia uma descrição. Deste modo, podem antagonizar-se ou excluir-se reciprocamente, mas a questão já não se coloca, propriamente falando, ao nível da verdade ou do erro, mas, mais rigorosamente na da apreciação do comportamento humano, que pode ser caracterizado como correcto ou incorrecto, racional, ou não, moral ou imoral. Porém, esta apreciação teórica de convicções filosóficas opostas está longe de ser sempre possível, sobretudo se estas reflectem situações históricas distintas e não são, portanto, exclusivas sobre o essencial, ainda que não possam ser conciliadas.
Uma confrontação deste género pode ser ilustrada pela velha questão filosófica da atitude do homem, face à realidade da sua natureza mortal. Como bom continuador da tradição do epicurismo e do estoicismo antigos, Montaigne declarava que o homem não só é capaz de gozar racionalmente os prazeres da vida senão na medida em que medita constantemente sobre a morte e ultrapassa o medo que esta lhe inspira. Montaigne partilha o pensamento de Cícero, segundo o qual filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. "Retiremos-lhe o seu mistério, diz ele, discutamo-la, habituemo-nos a ela, não pensemos senão na morte. A todo o momento, imaginemo-la sob todas as suas formas possíveis... Não sabendo onde a morte nos espera, esperemo-la em toda a parte. Meditar sobre a morte, é meditar sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer, desaprendeu a ser escravo. Estar pronto a morrer, liberta-nos de qualquer sujeição e imposição."
Compreende-se facilmente que este raciocínio de um filósofo céptico diverge radicalmente do sermão religioso medieval, que cultivou o medo da morte e a inevitável recompensa na vida de além-túmulo pelas dificuldades da virtude religiosa na vida terrena. Montaigne é assim o percursos da doutrina racionalista de uma vida em harmonia com a razão. O que não impede que Spinoza, representante clássico da ética racionalista, que continua, à semelhança de Montaigne, a tradição epicurista e estóica, se distinga notavelmente na concepção que tem da atitude racional face à morte. "A coisa do mundo na qual o homem liberto pensa menos, diz ele, é a morte e a sua sabedoria não é a meditação sobre a morte, mas sobre a vida."
Nós que comparamos estas duas convicções opostas, vimo-nos em dificuldade para dar razão a um ou a outro dos dois grandes pensadores. Num certo sentido, ambos têm um ponto de vista válido e não fazem mais, afinal, do que exprimir de maneira diferente as convicções humanas do seu tempo. É importante que a discussão entre convicções filosóficas diferentes saiba distinguir o que é a luta entre a verdade e o erro por um lado, e por outro, o que é divergência de opiniões, exprimindo uma atitude diferente, justificada pelas contingências, em relação aos factos cuja existência não é posta em dúvida. Desta maneira, a pluralidade das convicções no âmbito de um dado tema filosófico não exprime nunca senão a pluralidade das atitudes humanas face a factos universalmente reconhecidos.
E assim voltamos à nossa posição inicial de que o tema da morte não é questão de peso na delimitação do terreno filosófico porque tem unicamente a ver com relações e comportamento humanos imbuídos por vezes da maneira paradigmática do senso comum resolver factos reconhecidos universalmente.

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