segunda-feira, outubro 23, 2006

Camacho Costa outra vez

O actor Camacho Costa morreu há três anos. Construiu uma carreira de personagem secundária em comédias “populares” (palavra que, em Portugal, é eufemismo para referir falta de qualidade). A sua morte e, antes disso, o anúncio público de padecimento de uma doença grave em fase terminal deram origem a um fenómeno curioso. A partir do momento em que Camacho Costa apareceu no canal, onde participava num programa de humor, de cabeça calva e voz rouca, admitindo estar doente (sem que alguém alguma vez lho tivesse perguntado), foi de imediato elevado à condição de “grande nome dos palcos, da televisão e do cinema.” Pouco depois, estreava-se “Não Há Pai,” tentativa falhada de repetir o sucesso de uma série de comédia brasileira gravada ao vivo (explicando-se o fracasso por ter sido feita com um quinto do talento). O programa “Levanta-te e Ri” foi idealizado para ser apresentado por ele. O seu livro, “Camacho Costa, Prazer de Viver,” escrito por terceiros, pretendeu deixar para a posteridade um pouco mais sobre o homem que um cancro elevou de besta a bestial.
Não sei se era isto que pretendia com o anúncio público da doença. Não acredito que fosse. Mas era previsível. Temos em Portugal uma qualidade ímpar que é a capacidade para a solidariedade e para o amparo a quem precisa. Essa qualidade louvável depressa se transforma em defeito quando exacerbada. Deixa de ser solidariedade e passa a ser pena. Ou “peninha.” Foi a pena (e a “peninha”) que colocou Camacho Costa num pedestal onde nunca teria chegado de outra forma.
E voltamos hoje a viver o mesmo.
Francisco Adam tinha 22 anos e fazia parte do elenco da telenovela da TVI “Morangos com Açúcar.” Desde a sua morte num acidente de viação que se têm repetido as manifestações públicas de pesar e as homenagens devidas após o que muitos descreveram como “morte de um ídolo.” Não querendo parecer insensível e respeitando todos os apreciadores dos “Morangos com Açúcar” (com votos sinceros de que ganhem juízo com a passagem dos anos e uma adolescência intelectualmente mais saudável), faço um apelo daqui do alto deste pedestal em que me coloquei a mim próprio com precioso auxílio dos Bombeiros Voluntários do Seixal e da sua escada Magirus, para que haja um pouco de bom senso. Transmitir em directo o funeral de Amália Rodrigues talvez seja justificável pela dimensão nacional e internacional que a cantora alcançou. Fazer o mesmo com o funeral de um actor dos “Morangos com Açúcar” não só banaliza como torna ridículo o gesto (e isto é dito desta forma porque não me passa sequer pela cabeça que a TVI pudesse transmitir o funeral como mais uma forma de aproveitamento da desgraça alheia em benefício próprio).
Ao longo da história, muitos foram os casos de artistas que só viram o seu talento reconhecido depois da morte (Van Gogh e Kafka, por exemplo). Em Portugal, acontece algo peculiar. Temos gente que vê o seu talento reconhecido depois da morte mesmo quando este nunca existiu em vida.
O jovem Francisco Adam perdeu a vida quando começava a vivê-la. Foi mais uma vítima trágica do campo de extermínio em que se converteram as estradas deste país. Teria sem dúvida muitas qualidades pessoais, seria um rapaz simpático, esforçado e amigo do seu amigo. Os familiares sentirão sem dúvida a sua falta.
Mas, como actor, era uma nulidade.
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