quarta-feira, outubro 04, 2006

Canadá iliba acusado de ligação à Al-Qaeda

Um relatório ontem divulgado, em Otava, iliba um cidadão sírio naturalizado canadiano, Maher Arar – que passou um ano em prisões do regime de Damasco – de ligação à Al-Qaeda.

Arar e a sua mulher foram classificados como «extremistas islamitas suspeitos de ligações com a Al-Qaeda», segundo a Real Polícia Montada do Canadá (RPMC), que transmitiu a informação às autoridades dos EUA. Estas colocaram o nome de Arar na lista de suspeitos de terrorismo, o que levou à sua detenção no aeroporto novaiorquino John F. Kennedy, em Setembro de 2002, quando em trânsito para o Canadá, vindo da Tunísia, onde passara férias com a família.

O relatório de uma comissão judicial federal de inquérito conclui que «este não foi um caso em que os investigadores não puderam realizar o seu trabalho por falta de recursos ou tempo. Pelo contrário, os investigadores canadianos prosseguiram todas as pistas que pudessem implicar Arar em actividades terroristas», mas sem encontrarem disso provas tangíveis. O que não os impediu de comunicar o nome daquele e da mulher às autoridades dos EUA. «As consequências de rotular alguém como extremista islamita após o 11 de Setembro» não podiam deixar de ter implicações, refere o relatório.

O resultado da investigação – pedida por Arar após a sua libertação em Outubro de 2003 – conclui que a decisão de extraditar o cidadão canadiano para a Síria foi da exclusiva responsabilidade dos EUA, apesar «das suas declarações de que seria torturado» em Damasco.

O relatório caracteriza como irresponsável a actuação da RPMC e conclui que as autoridades canadianas, após a libertação de Arar, tentaram ainda levantar suspeitas sobre o seu passado, divulgando elementos falsos sobre as viagens daquele ao estrangeiro. O relatório estabelece «não existir qualquer facto a indicar que Maher Arar cometeu qualquer crime ou que as suas acções constituam uma ameaça à segurança do Canadá». As autoridades dos EUA recusaram colaborar com a comissão que elaborou o relatório. Este foi parcialmente censurado para não pôr em causa as fontes de informação externa e interna da RPMC.

TORTURA

Detido a 26 de Setembro de 2002, Arar permaneceu sob custódia das autoridades dos EUA durante 13 dias, sendo depois colocado algemado num avião privado. Segundo Arar, o avião passou por Washington e Roma antes de aterrar em Amã, num padrão de voo que o aproxima dos chamados “voos da CIA”.

De Amã, seguiu para as prisões de Damasco. Durante um ano foi torturado e agredido, até «confessar não importa o que fosse», disse numa das entrevistas dada a seguir à sua libertação em 2003, após intervenção do Governo canadiano.

[Para saber mais sobre este caso, ler Jane Mayer, A terceirização da tortura. A história secreta do programa de “entregas extraordinárias” dos EUA, The New Yorker, 14/02/2005.]
Abel Coelho de Morais

http://www.infoalternativa.org/mundo/mundo172.htm

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