quarta-feira, outubro 11, 2006

Gaza está a morrer

Gaza está a morrer. O assédio israelense ao enclave palestiniano é tão intenso que a sua população se encontra à beira da inanição. Aqui, na costa do Mediterrâneo, está a ter lugar uma enorme tragédia que está a ser ignorada porque a atenção do mundo tem sido desviada pelas guerras do Líbano e do Iraque.

Toda uma sociedade está a ser destruída. Há 1,5 milhões de palestinianos aprisionados na área mais densamente povoada do mundo. Israel paralisou todo o comércio. Proibiu até os pescadores de se afastarem da costa, por isso eles metem­‑se às ondas na tentativa inútil de capturar peixe com redes lançadas à mão.

Muitas pessoas estão a ser mortas pelas incursões israelenses que ocorrem diariamente por terra e por ar. Desde 25 de Junho, um total de 262 pessoas foram mortas e 1200 feridas, das quais 60 tiveram os braços ou as pernas amputados, diz o doutor Juma Al Saqa, director do hospital Al Shifa na cidade de Gaza, que está a ficar rapidamente sem medicamentos. Destas, 64 eram crianças e 26 mulheres. Até agora, este sangrento conflito em Gaza recebeu apenas uma fracção da atenção reservada pelos meios de comunicação internacionais à guerra do Líbano.

Foi no dia 25 de Junho que o soldado israelense Gilad Shalit foi capturado e dois outros soldados foram mortos por militantes palestinianos que utilizaram um túnel para sair da Faixa de Gaza. Na sequência disso, escreve Gideon Levy no diário Haaretz, o exército israelense «tem vindo a arrasar Gaza – não há outra palavra para o descrever – matando e demolindo, bombardeando e lançando projécteis, indiscriminadamente». Para todos os efeitos, Gaza foi reocupada, pois os soldados e os tanques israelenses entram e saem a seu bel­‑prazer. Na semana passada, ocuparam várias casas no distrito de Shajhayeh, na região norte, e ficaram nelas durante cinco dias. Quando se retiraram, 22 palestinianos tinham sido mortos, três casas estavam destruídas e olivais, árvores de citrinos e de amêndoas tinham sido destruídos com bulldozers.

Fuad Al Tuba, agricultor de 61 anos que possuía aqui uma quinta, disse: «Até destruíram 22 das minhas colmeias e mataram 4 ovelhas». Apontou tristemente para um campo, com a sua terra arenosa acastanhada revolvida pelas correntes dos bulldozers, onde havia pilhas de troncos e ramos destroçados das quais pendiam folhas secas. Perto, um carro amarelo erguia­‑se sobre a dianteira no meio de uma pilha de blocos de cimento que antes haviam sido uma pequena casa.

O filho dele, Baher Al Tuba, descreveu como, durante cinco dias, os soldados israelenses o confinaram a ele e à sua família numa sala da sua casa onde sobreviveram bebendo água de um aquário. «Os franco­‑atiradores tomaram posições nas janelas e atiravam contra qualquer um que se aproximasse», disse. «Mataram um dos meus vizinhos que se chamava Fathi Abu Gumbuz, que tinha 56 anos e que só saiu para ir buscar água».

Às vezes, o exército israelense avisa antes de uma casa ser destruída. O som que os palestinianos mais temem é o de uma voz desconhecida no seu telemóvel dizendo que têm meia hora para deixarem a sua casa antes de ser atingida por bombas ou mísseis. Não há apelação possível.

Mas não são só as incursões israelenses que estão a destruir Gaza e o seu povo. Na redacção eufemística de um relatório do Banco Mundial publicado no mês passado, Cisjordânia e Gaza enfrentam «um ano de recessão económica sem precedentes. Os rendimentos reais podem diminuir em pelo menos um terço em 2006 e a pobreza afectar perto de dois terços da população». Pobreza, neste caso, significa um rendimento per capita inferior a dois dólares por dia.

Há sinais de desespero por todo o lado. A criminalidade está a aumentar. As pessoas fazem de tudo para alimentarem as suas famílias. O exército israelense entrou na zona industrial de Gaza para procurar túneis e expulsou a polícia palestiniana. Quando os israelenses se retiraram, foram substituídos, não pela polícia, mas por saqueadores. Num dia desta semana, havia três carros puxados por burros a remover pedaços de metal retorcido dos restos de fábricas que antes empregaram milhares.

«É o pior ano para nós desde 1948 [quando refugiados palestinianos entraram de enxurrada em Gaza]», diz o doutor Maged Abu-Ramadan, antigo oftalmologista que é presidente de Gaza. «Gaza é uma prisão. Nem as pessoas nem as mercadorias podem sair daqui. As pessoas já estão a passar fome. Tentam sobreviver à base de pão e falafel, e alguns tomates e pepinos que elas mesmas cultivam».

As poucas vias que os moradores de Gaza tinham de ganhar a vida desapareceram. O doutor Abu­‑Ramadan afirma que os israelenses «destruíram 70% dos nossos laranjais para criar áreas de segurança». Cravos e morangos, dois dos principais produtos de exportação de Gaza, foram deitados fora ou deixados a apodrecer. Um ataque aéreo israelense destruiu a central de energia eléctrica, pelo que 55% da energia se perdeu. O fornecimento de energia eléctrica está a tornar­‑se agora quase tão intermitente como em Bagdade.

O assalto israelense ao longo dos últimos dois meses golpeou uma sociedade já atingida pela retirada dos subsídios da UE depois da eleição do Hamas para o governo palestiniano em Março. Israel está a reter impostos correspondentes à entrada de mercadorias em Gaza. Sob pressão dos EUA, os bancos árabes no estrangeiro não transferem fundos para o governo [palestiniano].

Dois terços das pessoas estão desempregados e o terço restante, que na sua maioria trabalha para o Estado, não está a ser pago. Gaza é actualmente a região mais pobre do Mediterrâneo. O rendimento anual per capita é de 700 dólares, comparados com 20.000 dólares em Israel. As condições são muito piores do que no Líbano, onde o Hezbollah compensa liberalmente as vítimas da guerra pela perda das suas casas. Se Gaza já não tivesse problemas suficientes, esta semana houve greves de protesto e marchas de soldados, polícias e agentes de segurança não pagos. Foram organizados pela Fatah, o movimento do presidente palestiniano Mahmoud Abbas, também conhecido como Abu Mazen, que perdeu as eleições para o Hamas em Janeiro. Os seus partidários marcharam pelas ruas agitando as suas Kalashnikovs no ar. «Abu Mazen, és valente», gritavam. «Salva-nos deste desastre». Homens armados do Hamas, de rosto carrancudo, mantiveram um perfil discreto durante a manifestação, mas os dois lados não estão muito longe de se digladiarem nas ruas.

O assédio israelense e o boicote europeu são um castigo colectivo para todos em Gaza. É improvável que os homens armados sejam dissuadidos. Num leito do Hospital de Shifa, estava um jovem robusto chamado Ala Hejairi com feridas no pescoço, pernas, peito e estômago. «Estava a colocar uma mina anti­tanque na semana passada em Shajhayeh quando fui atingido por disparos de um avião israelense não tripulado», disse. «Regressarei à resistência quando melhorar. Por que deveria preocupar­‑me? Se morrer, morrerei como mártir e irei para o paraíso».

O pai dele, Adel, afirmou que estava orgulhoso do que o seu filho tinha feito, acrescentando que três sobrinhos seus já eram mártires. Apoiava o governo do Hamas: «os países árabes e ocidentais querem destruir este governo porque é o governo da resistência».

À medida que a economia sucumbe, haverá muitos mais jovens em Gaza dispostos a tomar o lugar de Ala Hejairi. Sem treinamento e mal armados, na maioria vão ser mortos. Mas a destruição de Gaza, actualmente em curso, assegurará que a paz no Oriente Médio não seja possível por várias gerações vindouras.
Patrick Cockburn

http://infoalternativa.org/moriente/mo072.htm

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