Há 70 anos, em Julho de 1936, desencadeava-se Guerra Civil de Espanha, o cruento conflito que ensombrou a atribulada História da Europa de entre-duas-guerras mundiais. A tragédia espanhola fez e faz correr rios de tinta, tornando-se um dos temas glosados pelos media, tanto no aspecto documental, como na ficção romanesca e poética, alargando-se a todos os campos das multimedia e do audiovisual. À semelhança do que já temos feito em trabalhos anteriores, vimos, mais uma vez, traçar umas linhas sobre a guerra que pôs a Espanha e ferro-e-fogo, nos anos 30 do século passado. Em Julho de 1936, iniciava-se o movimento militar. Nos dias 17, 18 e 19, perfilavam-se, em toda a Espanha, intentos de proclamar o estado de guerra que assegurasse o pronunciamento militar, que fracassava em Minorca, Catalunha, parte de Aragão, Valência, Múrcia, grande parte da Andaluzia, Astúrias (à excepção de Oviedo), Santander, Vizcaya e Guipúscoa. O governo republicano dominava no leste do País, excepto em Maiorca e Ibiza, quase todo o Norte fronteiriço com a França e, no Centro, estendia a sua influência até à fronteira portuguesa, cortando a zona rebelde em duas. Na parte republicana, surgiam enclaves afectos ao levantamento, como Córdova, o Santuário da Virgen de la Cabeza (Jaén), o Alcazar de Toledo e Oviedo. Os esforços "nacionales" dirigiam-se à tentativa de ligar o seu território às "ilhas" encravadas na zona republicana, e tornaram possível a conquista de Huelva e a ocupação de Badajoz, permitindo unir as forças do Norte com as do Sul da Península. Ao submeterem San Sebastián e Irún (País Basco), cortaram as possibilidades de auxílio à República, vindas de França, e estabeleceram uma via de apoio a Oviedo, semelhante àquela que haviam logrado em Córdova. Desviaram o seu ataque a Madrid, para salvar o Alcazar de Toledo. O Santuário da Virgen de la Cabeza seria o único ponto de resistência prolongada, que acabaria com o triunfo republicano, em Maio de 1937. No final de 1936, as duas zonas em conflito estão perfeitamente delimitadas. Em linhas gerais, as zonas industriais da Catalunha e Vizcaya e as três cidades mais populosas (Madrid, Barcelona e Valência) estão em poder da República. As regiões agro-pecuárias obedecem, em contrapartida, ao regime de Burgos. Politicamente, a zona republicana obedece ao governo central de Madrid e aos governos autónomos da Catalunha e de Euskadi (País Basco), que se regem pelos Estatutos outorgados, respectivamente, em 1932 e 1936. O governo central, quando estalou o alzamiento, era presidido por Casares Quiroga, que se demite e é substituído pelo socialista Largo Caballero, que transfere a capital para Valência, quando se intensifica o assédio a Madrid. Com a entrada da CNT-FAI no governo, ficam representadas as mais expressivas forças do antifascismo espanhol. O governo autónomo Catalão (Generalitat), presidido por Lluis Companys da Esquerra Republicana, passa a integrar ministros da CNT-FAI e do PSUC (Partido Socialista Unificado da Catalunha). Em Bilbao cria-se, no princípio de Agosto, a Junta de Defesa de Vizcaya que, com a promulgação do Estatuto passa a enformar o Governo Autónomo Basco, presidido pelo lendakari José António Aguirre, agrupando nacionalistas Bascos e organizações de Esquerda. Na zona rebelde, os chefes militares obedecem a uma Junta de Defesa Nacional, presidida pelo general Cabanellas (um republicano e mação), sediada em Burgos. Em Setembro a Junta proclama o general Franco, Chefe do Governo e generalíssimo dos Exércitos. A política de ambas as zonas em confronto parte das leis da República para seguir caminhos diametralmente opostos; no lado rebelde, anulam-se as leis mais características da época 1931-36: divórcio, reforma agrária, expulsão dos jesuítas; em território republicano intensifica-se a política de Esquerda, com o Comissariado político do Exército, supressão das ordens religiosas, ocupação de terras pelos trabalhadores. A França e a Grã-Bretanha iniciam consultas que conduzirão à criação do Comité de Não-Intervenção, patrocinado pela Sociedade das Nações (SDN). ANO DE 1937 Militar e politicamente, 1937 é o ano crucial da guerra. Os "nacionales" usam as suas melhores forças para liquidar a Frente, representada a Norte pela zona republicana de Vizcaya, Santander e Astúrias. Conseguirão esse objectivo, apesar da ofensiva republicana, em Brunete e Belchite. Tomarão, igualmente, Málaga que deixará a maior parte da Andaluzia em poder dos nacionalistas. Em ambas as zonas, verifica-se a intenção de unificar as diversas forças em armas. Na zona republicana, desenvolve-se o ataque político à CNT-FAI e POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), a pretexto das jornadas do Maio Sangrento de Barcelona, que conduzirão ao crescente poder do Partido Comunista de Espanha (PCE) e seu homólogo Catalão, o PSUC. Na zona nacionalista, é promulgado o Decreto de Unificação, que funde as organizações anti-republicanas num partido único do regime, a FET y de las JONS, sob o comando de Franco. A oposição de sectores mais puristas da Falange e do Carlismo é sufocada pelo militarismo dos incondicionais de Franco. Agudiza-se a importância internacional da guerra. O navio de guerra Alemão "Deutschland" é bombardeado pela aviação republicana; em represália, a armada nazi bombardeia Almeria. Os ataques a navios mercantes por submarinos do Eixo provocam a Conferência de Nyon, onde os membros do Comité de Não-Intervenção insistem na retirada de combatentes estrangeiros das Brigadas Internacionais, assim como das tropas alemãs, italianas e portuguesas, ao serviço dos ?nacionales?. ANO DE 1938 O ano de 1938 começa com a vitória republicana de Teruel e, mais tarde, com o afundamento do cruzador "Baleares" e a travessia do Ebro pelas forças leais ao governo de Barcelona, nessa altura capital do governo central e da Generalitat. Os Franquistas reagem, numa ofensiva que os levará ao Mediterrâneo, cortando o território republicano em dois, e ocupando Lleida (Lérida). No final do ano, empreendem o ataque, que culminará com a conquista total da Catalunha, em Fevereiro de 1939. A Junta Técnica cessa funções e é substituída por um Governo que anula, formalmente, os Estatutos Autonómicos. O governo republicano, presidido pelo socialista pró-comunista Negrín, alerta a opinião pública mundial para a presença de fortes destacamentos alemães e italianos, combatendo no lado nacionalista. Em ambas as zonas em confronto, começam a ouvir-se personalidades, que advogam uma paz de compromisso, solução apoiada, em especial, pela Grã-Bretanha. A imprensa e autoridades, de ambos os lados da contenda, reagem violentamente a esse intento, o que leva à demissão de Indalécio Prieto, ministro da República. Sob pressão da SDN, as Brigadas Internacionais abandonam o solo espanhol. ANO DE 1939 Com a queda da Frente Catalã e a fuga para França do presidente Azaña e do governo republicano precipitam-se os acontecimentos. Os "nacionales" sitiam Madrid e preparam uma ofensiva nos finais de Março. Contrariando as instruções de Negrín que exige a resistência à outrance parte do exército comandada por Casado com o apoio dos anarquistas e dos sectores não "negrinistas" do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) em que avulta Julián Besteiro constituem um Conselho de Defesa que intentará uma paz negociada com Burgos. Isto suscita a violenta oposição do PCE que desencadeia uma mini-guerra civil em que os comunistas são derrotados pelas tropas comandadas por Cipriano Mera. Para Franco não existiam "pazes negociadas": a rendição republicana só poderia ser incondicional. Esta tem lugar e os "nacionales" ocupam Madrid no dia 28. As últimas áreas em poder dos republicanos são ocupadas até 1 de Abril. Meio milhão de pessoas incluindo civis e militares lograram atravessar a fronteira dos Pirinéus acolhendo-se à protecção do governo francês. Já no exílio francês, Azaña demite-se, sendo substituído, na Presidência da República, por Martinez Barrio, Presidente do Congresso. No dia 1 de Abril de 1939, o Quartel-Geneneral de Bur-gos emitia a seguinte proclamação: "(?) En el dia de hoy, cautivo y desarmado el Ejército rojo, han alcanzado las tropas nacionales sus ultimos objectivos militares: la Guerra há terminado."
Fernando J. Almeida http://pt.indymedia.org/
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