O relatório sobre competitividade do Fórum Económico Mundial, divulgado há dias, é um balde de água fria sobre os propagandistas do desmantelamento dos serviços públicos e da razia na administração. Portugal desceu do 31º lugar para o 34º entre 125 países – e a razão, segundo o fórum patronal de Davos, é o funcionamento do sector privado: negócios rotineiros, atraso produtivo, resistência à inovação, má gestão. Ao lado da generalidade das empresas, o sector público é elogiado. As coisas nunca são tão simples, mas, poucos dias depois da re-inauguração do Compromisso Portugal no Convento do Beato, o filme parece rodar ao contrário. Vale a pena recapitular.
Na foto de família estão vários assessores de Cavaco, o seu director de campanha, ministros de várias levas do bloco central – governos Guterres, Durão, Santana, Sócrates. Atrás da foto, a lista dos patrocínios oficiais: a banca reunida e o patronato PSI-20, o top mais da Bolsa de Lisboa. Não são apenas os crónicos do Estado mínimo e da caça ao funcionário público: é uma forte afirmação política de boa parte da burguesia portuguesa e de alguns dos seus melhores quadros governamentais em pousio.
Levadas à prática, as propostas deste think tank (a expressão norte-americana é deles) teriam efeitos devastadores. Obliterar 200 mil funcionários públicos desestruturaria a sociedade portuguesa, com a ruptura irreversível de serviços públicos essenciais e uma explosão de desemprego. Privatizar uma parte dos descontos dos trabalhadores para os tornar fundo especulativo seria o rombo definitivo numa segurança social já ameaçada. Remendar esse buraco com dívida pública – como propõe o ex-ministro PS Nogueira Leite, feroz compromissista – levá-la-ia a patamares proibidos pela União Europeia (pensávamos nós que o Pacto de Estabilidade e Crescimento era o dogma deles...).
Fica à vista que este não é um programa para hoje: o Compromisso trata da pedagogia do liberalismo selvagem como política respeitável, de dourar a apologia da privatização de tudo quanto possa ser fonte de rentabilidade. De resto, este programa radical tem outra função, não menos importante: facilitar o consenso em torno das contra‑reformas do governo, que ganham cores moderadas. Fora deste jogo de cartas marcadas, a defesa da segurança social e dos serviços públicos é mero atavismo, privilégio, “ideologia” – quem a quer ouvir?
O lugar da imprensa nesta operação é, evidentemente, fundamental. E, de facto, entre os promotores do Compromisso Portugal [1], está a fina‑flor da imprensa económica nacional: Miguel Coutinho (ex-director da Focus, do Semanário Económico, Diário Económico e Diário de Notícias) ou os actuais directores do Jornal de Negócios e do Diário Económico, Sérgio Figueiredo e Martim Avillez Figueiredo. Não admira que a convenção do Beato tenha sido um momento de êxtase nesta imprensa, obnubilada com a revelação ultraliberal. A coisa até deu polémica [2] – com alguns leitores a contestar a atitude engagé dos jornais da especialidade [3]. Na resposta, Sérgio Figueiredo ameaçou processar os críticos... Compreende-se a irritação: quando se trata do futuro da segurança social, do emprego ou do modelo de desenvolvimento do país, os liberais preferiam debater sozinhos.
[1] http://www.compromissoportugal.pt/?id_categoria=49
[2] http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=751&Itemid=28
[3] “Compre-me isso Portugal”. Carta aberta à Entidade Reguladora da Comunicação Social. Público, 27/09/2006. (n. IA)
Jorge Costa
http://infoalternativa.org/portugal/port099.htm
Na foto de família estão vários assessores de Cavaco, o seu director de campanha, ministros de várias levas do bloco central – governos Guterres, Durão, Santana, Sócrates. Atrás da foto, a lista dos patrocínios oficiais: a banca reunida e o patronato PSI-20, o top mais da Bolsa de Lisboa. Não são apenas os crónicos do Estado mínimo e da caça ao funcionário público: é uma forte afirmação política de boa parte da burguesia portuguesa e de alguns dos seus melhores quadros governamentais em pousio.
Levadas à prática, as propostas deste think tank (a expressão norte-americana é deles) teriam efeitos devastadores. Obliterar 200 mil funcionários públicos desestruturaria a sociedade portuguesa, com a ruptura irreversível de serviços públicos essenciais e uma explosão de desemprego. Privatizar uma parte dos descontos dos trabalhadores para os tornar fundo especulativo seria o rombo definitivo numa segurança social já ameaçada. Remendar esse buraco com dívida pública – como propõe o ex-ministro PS Nogueira Leite, feroz compromissista – levá-la-ia a patamares proibidos pela União Europeia (pensávamos nós que o Pacto de Estabilidade e Crescimento era o dogma deles...).
Fica à vista que este não é um programa para hoje: o Compromisso trata da pedagogia do liberalismo selvagem como política respeitável, de dourar a apologia da privatização de tudo quanto possa ser fonte de rentabilidade. De resto, este programa radical tem outra função, não menos importante: facilitar o consenso em torno das contra‑reformas do governo, que ganham cores moderadas. Fora deste jogo de cartas marcadas, a defesa da segurança social e dos serviços públicos é mero atavismo, privilégio, “ideologia” – quem a quer ouvir?
O lugar da imprensa nesta operação é, evidentemente, fundamental. E, de facto, entre os promotores do Compromisso Portugal [1], está a fina‑flor da imprensa económica nacional: Miguel Coutinho (ex-director da Focus, do Semanário Económico, Diário Económico e Diário de Notícias) ou os actuais directores do Jornal de Negócios e do Diário Económico, Sérgio Figueiredo e Martim Avillez Figueiredo. Não admira que a convenção do Beato tenha sido um momento de êxtase nesta imprensa, obnubilada com a revelação ultraliberal. A coisa até deu polémica [2] – com alguns leitores a contestar a atitude engagé dos jornais da especialidade [3]. Na resposta, Sérgio Figueiredo ameaçou processar os críticos... Compreende-se a irritação: quando se trata do futuro da segurança social, do emprego ou do modelo de desenvolvimento do país, os liberais preferiam debater sozinhos.
[1] http://www.compromissoportugal.pt/?id_categoria=49
[2] http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=751&Itemid=28
[3] “Compre-me isso Portugal”. Carta aberta à Entidade Reguladora da Comunicação Social. Público, 27/09/2006. (n. IA)
Jorge Costa
http://infoalternativa.org/portugal/port099.htm
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