sexta-feira, outubro 27, 2006

A nova guerra israelense contra o Líbano

Introdução:
A nova guerra israelense contra o Líbano (12 de Julho a 14 de Agosto de 2006) constituiu um ponto de viragem na política de guerra adoptada pelos Estados Unidos no seguimento do 11 de Setembro de 2001 e chamada de "política das guerras preventivas"; essa política teve por ponto de partida o Afeganistão, seguido do Iraque e depois a Palestina, o Líbano e, enfim, o Sudão… Sem esquecer as ameaças sérias proferidas contra a Síria e o Irão. Apesar das guerras "preventivas" dos Estados Unidos terem a "supressão do terrorismo" por palavra de ordem e apesar de os seus instigadores terem sempre utilizado o "lobby" sionista americano e o sectarismo religioso, que exprime na realidade uma posição ultra-direitista, os objectivos reais das novas tendências agressivas da administração americana (que alguns chamam de "mundialização militar") residem, na verdade, na vontade de dominar uma região de uma grande importância estratégica, o mundo árabe: esse mundo é o ponto de junção de três continentes; o seu solo esconde riquezas naturais sem precedentes (petróleo e gás), além de imensa água e sol, que, como se diz, são as duas fontes de energia do futuro… A isso acrescenta-se um trunfo ainda maior: essa região é facilmente "controlável" por conter, segundo os teóricos americanos dos anos 60 do século passado, todos os elementos que permitem a sua implosão em dezenas de pequenos Estados antagónicos, seja por contradições étnicas e tribais, sempre prontas a excitarem-se, seja por divisões confessionais que, desde o século VII, continuam a causar estragos e dividem a região em dois "crescentes" partindo do Afeganistão para acabar na Palestina e no Líbano: o "crescente" xiita, que começa no leste do Afeganistão, atravessa o Irão, o sul do Iraque e as regiões "alauítas" da Síria antes de acabar no Líbano, e o "crescente" sunita, quase completamente de frente para o primeiro. I. O "Novo Médio Oriente" Esta imagem, mesmo que apenas esquemática, põe no entanto em evidência os elementos essenciais que levaram os Estados Unidos, durante as duas administrações de George W. Bush, a voltar ao projecto do ministro dos Negócios Estrangeiros dos anos 70, o republicano Henry Kissinger. Esse projecto baseava-se na reorganização do Médio Oriente em geral, e dos países árabes em particular, na base de novos pequenos Estados antagónicos, reunidos apenas à volta do seu protector americano e do seu braço armado na região, Israel. Principalmente que este último teria podido nos anos sessenta e setenta do século passado enfraquecer e vencer os árabes utilizando o regime árabe oficial e as suas posições hesitantes quanto aos direitos do povo palestiniano ao regresso e a construir um Estado independente no seu território nacional. É preciso dizer também que o projecto do "Grande Médio Oriente" (ou do Novo Médio Oriente) era, desde o início, baseado na política do "passo a passo", refinada por Henry Kissinger, e que dera já provas da sua eficácia na divisão do mundo árabe, sobretudo quando levou o presidente egípcio Anuar Sadate a assinar uma paz separada com os israelenses. Ajunte-se a isso que os bons sucessos de tal política induziram os Estados Unidos em erro, quando, após terem neutralizado o Egipto, conseguiram no início empurrar o Iraque para uma guerra feroz com o Irão e mais tarde dividir os Estados árabes que envolvem Israel (a Jordânia, a Síria, o Líbano e a Palestina): com efeito, na sequência do congresso de Madrid, a OLP (Organização de Libertação da Palestina) foi encaminhada para uma outra via, que nós chamámos "Gaza-Jericó: o começo e o fim". Os conflitos arabo-árabes puseram-se também na frente da cena, enquanto que os poderes árabes instituídos praticavam uma repressão exagerada contra os povos, os quais, uma vez mais, ficaram impossibilitados de participar no combate contra as agressões israelenses. Também à "Frente da Resistência Nacional Libanesa" contra a ocupação israelense (criada em 1982) tentou-se-lhe dar uma imagem confessional que facilitaria, pensava-se, o seu cerco. Tudo isso se passava com o Líbano abatido por uma guerra civil mortífera que durou mais de quinze anos e na qual os Estados Unidos, mesmo após a partida da OLP em 1982, tiveram um papel de primeiro plano, muito bem explicado por Henry Kissinger no último volume das suas memórias. Tais são as medidas preliminares tomadas com o objectivo de realizar o projecto qualificado mais tarde por vários adjectivos diferentes, tais como: o "grande" Médio Oriente, "alargado" e "novo", enfim… Quanto ao seu mapa geopolítico, não difere muito do planeado por Kissinger, sobretudo porque, desta vez também, as duas condições que guiaram o seu traçado foram as divisões étnicas e confessionais. Esse mapa começa pelas divisões das repúblicas islâmicas da ex União Soviética. Em seguida divide o Iraque em três pequenos Estados e duas regiões "independentes" (o primeiro passo já está dado com a nova constituição e na atitude "independentista" tomada pelos curdos). A etapa seguinte deveria, segundo o plano, passar-se no Líbano, depois na Síria, no Egipto e no Sudão; os Estados do golfo arábico são também ameaçados por uma retraçagem das suas fronteiras… Tudo isto prepara-se ao mesmo tempo que os Estados Unidos concluem o seu "papel" na região dos Balcãs por eles dividida e cujos novos Estados criados foram postos debaixo da batuta da OTAN. Podemos portanto afirmar que os Estados Unidos, desde a queda da União Soviética e o fim da "bipolaridade", têm-se aproveitado da sua nova situação para levar os seus aliados europeus em aventuras militares que não dão a ganhar economicamente senão a Washington, e estender a presença das suas tropas e das suas bases militares no mundo inteiro, fazendo da administração americana, e sobretudo as dos Bush, pai e filho, a dona incontestada do planeta, diante da qual todos dobram a espinha, inclusivé o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Aliás, este último já não tem qualquer eficácia, uma vez que o seu novo papel não consiste senão em ratificar os ditados e as decisões dos Estados Unidos, o que lhes permite dirigir melhor o seu domínio incontestado sobre os pontos de tomada de decisões, os mercados, as fontes de energia e todas as riquezas naturais que o nosso planeta esconde. Tudo isto é bem visível nas resoluções e decisões tomadas pelo Conselho de Segurança, ou mesmo pelas Nações Unidas, mas também nas formas que tomou cada intervenção, nos meios utilizados e no número de cada uma das forças de intervenção (ou outra) a operar no terreno. Chamamos a atenção, a título de exemplo neste assunto, para algumas das resoluções tomadas desde 1993 e relativas às intervenções na Somália, Bósnia, Afeganistão, Líbano e Iraque, e, há alguns dias atrás, no Darfour (Sudão), e às tentativas de cercar o Irão (sobre esse plano referimo-nos à resolução que os Estado Unidos preparam conjuntamente com as outras grandes potências e também ao que foi dito sobre os raides aéreos alargados sobre alvos essenciais e nem todos de carácter militar). É preciso notar neste caso que, com a excepção da guerra na Bósnia, todas as intervenções das Nações Unidas foram elaboradas na sequência de campanhas políticas intensas (acompanhadas de outras feitas pela CIA e por outros serviços de segurança ocidentais "aliados") cuja palavra de ordem foi a "luta contra o Eixo do Mal", representado, como afirma a nova terminologia, pelo "terrorismo islâmico", ou ainda "o fascismo islâmico", a que George W. Bush acrescentou nos últimos tempos o "comunismo", termo em desuso desde o princípio dos anos noventa. II. A guerra americano-israelense contra o Líbano Estas razões e objectivos, essenciais para os Estados Unidos, sobretudo a supressão de todas as formas de resistência (armada, em particular) contra o novo regime mundial e o seu homólogo sobre o plano árabe, o "Grande Médio Oriente", estão na base da agressão levada a cabo pela administração de George Bush contra o Líbano, por intermédio de Israel. Dizemos "por intermédio", porque, de tudo o que se disse e se escreveu, conclui-se que o governo presidido por Ehud Olmert limitou-se a executar um projecto planeado há mais de três anos pelos responsáveis da "segurança nacional" americana sob a direcção de Donald Rumsfeld e do vice-presidente dos Estados Unidos. Aliás, o governo israelense afirmou abertamente que foi a administração americana, representada pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Condoleeza Rice, que impôs a continuação das hostilidades, mesmo após as derrotas dolorosas do exército israelense. Mais, foi a mesma administração que fixou o cessar-fogo, depois de ter imposto ao Conselho de Segurança o seu ponto de vista relativo ao conteúdo e execução da resolução 1701, a qual aceitou a continuação do bloqueio aéreo e marítimo do Líbano… até aplicação, por parte deste, do conteúdo dos parágrafos 11 e 14 relativos à instalação de novas forças internacionais nos portos e aeroporto internacional de Beirute. E estamos convencidos que os Estados Unidos continuariam a criar problemas ao Líbano até que o governo libanês cedesse na questão da "necessidade de instalar forças multinacionais na fronteira com a Síria", assim como a sua participação no desarmamento do Hezbollah. Por isso, John Bolton, representante dos Estados Unidos na ONU, pôde afirmar: ganhámos com a diplomacia o que perdêramos em combate… Quanto às causas da agressão contra o Líbano, elas são numerosas. Algumas têm relação com a situação libanesa interna; outras estão ligadas ao que se passa na Palestina e em alguns países árabes, no Iraque, em particular, ou então causas regionais, como o Irão. 1. Pode-se resumir as "causas libanesas" da maneira seguinte: • Destruir a Resistência Islâmica (e requisitar as armas na sua posse) e, sobretudo, pôr fim a qualquer acto de resistência no presente e no futuro… Sem esquecer o objectivo de deitar a mão às armas dos palestinianos residentes no Líbano (não apenas no exterior, mas também no interior dos campos). • "Limpar" a região libanesa ao sul do Litani de todas as armas pesadas e de longo alcance. Isto deve de ser acompanhado por um regresso ao Armistício (1949), que especificava a presença, nessa região, de um efectivo militar reduzido e de posse de armas ligeiras apenas; o que permitiria a Israel executar raides e incursões no Líbano sem se ter que se preocupar com a situação das "colónias" do norte. É preciso dizer que o que achamos estranho nisto tudo é o facto de algumas facções do reagrupamento chamado "14 de Fevereiro" insistam sobre o mesmo ponto… • Acabar com a reivindicação relativa à "libanidade" das quintas de Chebaa e dos picos de Kfarchuba, visto que são zonas de importância estratégica e economicamente vitais para os israelenses que, para se assegurarem a ocupação, aproveitam-se, duma parte, da posição ambígua da Síria e, doutra parte, das alegações de algumas figuras políticas da "maioria" que afirmam que essas quintas são sírias. • Trasfegar novamente a água dos rios libaneses que se encontram a sul do Litani, visto ela ser vital para o desenvolvimento da agricultura israelense, em particular a das árvores de fruto. E podemos mesmo acrescentar que é a competição entre produtos agrícolas libaneses e israelenses em certos mercados que levou Israel a queimar grandes superfícies de terras cultivadas, não apenas no sul e em Bekaa Oeste, mas também nas regiões de Bekaa do centro e do norte (onde teve lugar o massacre de Al-Qaa)… Mais, a aviação israelense fez raides contra os canais de irrigação ao longo do rio Litani, destruindo mesmo as canalizações no interior dos campos irrigados, sobretudo em Bekaa Oeste. O objectivo: destruir as colheitas e, também, impedir os libaneses de, durante um certo tempo, utilizar a água do Litani, o que reforçaria as "justificações" avançadas segundo as quais: Israel trasfega água do Líbano porque ela não é utilizada e despeja-se… no mar. • Ajudar certas forças "aliadas" de Israel no meio político libanês a fim de que possam levar a cabo as alterações que não foram capazes aquando da guerra de 1982; o que permitiria o regresso do Líbano ao regaço norte-americano, do qual saíra nos anos sessenta do século XX na sequência de vários acontecimentos árabes e internacionais, entre outros, os mais importantes: o papel representado por Jamal Abdul-Nasser, após a Revolução de 4 de Julho de 1952, a Resistência palestiniana e também a mudança positiva que se deu nas relações entre o movimento nacionalista árabe e o movimento comunista, seja por causa do papel do Partido Comunista Libanês na Resistência contra a ocupação (a criação da "Guarda Nacional" em 1969 e a participação activa na criação das "Forças Guerrilheiras" em 1970), seja pelo apoio dado pela União Soviética à causa dos povos árabes… • Levar o Líbano a assinar acordos com Israel segundo os quais aceitaria à sua guarda uma parte dos palestinianos que vivem no seu território… Sobretudo quando o projecto americano, acordado pelos responsáveis da segunda administração de George W. Bush, consiste em aplicar a política de "transferência" de 70 mil famílias palestinianas para a Jordânia e para o Iraque, à razão de 7000 famílias por ano durante dez anos, pondo em prática um novo "Plano Marshall" para efectuar essa "transferência" com toda a tranquilidade. 2. Quanto às causas "regionais" da agressão, pode-se resumi-las da seguinte maneira: • A causa mais importante é a relacionada com a situação na Palestina. Com efeito, a tentativa israelense de pôr fim a qualquer resistência armada no Líbano, e à do Hezbollah em particular, poderia ter repercussões "positivas" na realização do plano israelense relativo à liquidação a ferro e fogo da Intifada. Note-se que a guerra contra o Líbano atraiu todas as atenções (os media, em particular); o que facilitou ao governo israelense as suas acções mortíferas contra o povo palestiniano, sobretudo em Gaza, onde centenas de pessoas foram mortas ou feridas, casas destruídas e personalidades políticas aprisionadas sem que isso levantasse quaisquer reacções no plano internacional. • A segunda causa reside na guerra levada a cabo no Iraque, onde a escalada no Líbano foi acompanhada da recrudescência das violências em todas as regiões, mas sobretudo nas regiões "xiitas", tomando cada vez mais o aspecto duma guerra civil. Sem esquecer as práticas violentas dos soldados americanos e as prisões aos centos de pessoas civis que se fazem pelos pretextos mais fúteis. • A isso acrescenta-se todas as razões dadas por George Bush nos seus discursos, e também as declarações dos membros da sua equipa, sobre que a guerra contra o Líbano é o prefácio de uma outra, mais generalizada, contra aqueles que na região "ajudam o terrorismo". Dois Estados foram nomeados mais que uma vez: o Irão e a Síria. Nessa perspectiva a equipa de Bush e os seus apoiantes no Líbano argumentaram, para explicar o ataque contra o Líbano, com uma "agenda" do Irão, usando da sua influência sobre o Hezbollah, para desestabilizar a região. Pensavam assim matar dois coelhos duma só cajadada: o primeiro, a Resistência, à qual se dá, não a imagem de um movimento de libertação, mas duma tropa mercenária a soldo duma potência regional; o segundo, demonstrar que o Irão é um país que apoia o "terrorismo" e que portanto seria perigoso não lhe cortar as pernas que o levem à bomba atómica, já possuída por Israel. À luz destas evidências internas e externas, podemos apercebermo-nos melhor como o Líbano foi campo de experiências do objectivo maior de lançar a segunda fase do projecto do "Grande Médio Oriente", correspondente ao prosseguimento da primeira, e que se deverá expandir para fora do Iraque em direcção à Arábia Saudita e ao Irão. Assim compreende-se as palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos, Condoleeza Rice, que afirmou, respondendo àqueles que lhe referiam os sofrimentos do povo libanês e os massacres perpetrados contra civis, sobretudo crianças: São as dores de parto dum novo Médio Oriente… Uma posição como esta não precisa duma longa explicação para se lhe ver o conteúdo criminoso. III. Os resultados e as conclusões A agressão israelense falhou nos seus objectivos "libaneses", com o reagrupamento do povo à volta da Resistência. Mesmo que tenham sido feitas tentativas políticas de tornar essa Resistência responsável por todos os males causados a Israel. Essas tentativas foram principalmente resumidas em "declarações" que faziam da agressão uma "reacção" em resposta a "acções", sendo a última o rapto de dois soldados israelenses, cujo objectivo era de facto libertar alguns dos libaneses presos em prisões israelenses… É certo que numerosos jornais americanos falaram da preparação dessa guerra como sendo um preparação de longa duração, devido à escolha dos seus objectivos e ao seu desenrolar (fixado em três semanas). O que alterou a situação foi o fracasso do exército israelense em aplicar o plano e a sua derrota diante de algumas centenas de resistentes… Não falaremos aqui dos bombardeamentos (que fizeram lembrar o que se passou na Bósnia), nem das bombas proibidas, nem mesmo da morte de mais de 1300 pessoas, entre as quais 900 mulheres e crianças que os aviões israelenses perseguiram até ao interior dos abrigos e também nas ambulâncias e todos os meios de transporte. Contentar-nos-emos em dizer que esse pesado preço pago pelo Líbano acabou também, pela resistência do seu povo, por desestabilizar a sociedade israelense, que se encontrou, pela primeira vez, no olho do furacão com a resposta do Hezbollah. Da mesma forma essa resistência fez fracassar os planos americanos de abrir uma nova frente além do Iraque no seu Projecto do Novo Médio Oriente (mesmo se a intenção dos separatistas curdos de declarar a "independência" ameaça novas hostilidades na região). Essa frente é claramente o Líbano, que no projecto de Kissinger adoptado pela equipa de Bush seria dividido em quatro cantões, após se lhe acrescentar alguns territórios roubados à Síria e uma pequena parte do norte da Palestina ocupada. Afirmamos portanto que a guerra americano-israelense contra o Líbano não atingiu os seus objectivos. No entanto, esse fracasso não constitui obstáculo diante das pretensões dos Estados Unidos e de Israel que procurarão todos os meios de executar o seu projecto já com mais de trinta anos. Sobretudo porque têm o apoio total e incondicional de todas as grandes potências ocidentais que são unânimes quanto à ajuda que se deve dar ao agressor (Israel) contra a vítima (o Líbano). Essa ajuda transparece no conteúdo da resolução 1701 que torna o Hezbollah responsável por tudo quanto se passou entre 12 de Julho e 13 de Agosto de 2006, e que, pela ambiguidade do seu conteúdo, permite a Israel recorrer ao bloqueio e levar a cabo "acções defensivas" (o parágrafo 1 da resolução estipula a cessação das acções "ofensivas"), o que é entendido pelo seu governo como a possibilidade de "novos raides contra o Líbano" até que o governo libanês aceite, à custa da sua soberania, a instalação de forças internacionais em todo o seu território, que controlem, não só a fronteira com a Síria, mas também o resto do Líbano, contrariamente ao mandato que lhes foi dado. Pensamos que o futuro próximo, após a apresentação do relatório do secretário geral da ONU sobre a aplicação da resolução 1701 e as quintas de Chebaa trará novas tentativas de desferir um golpe sobre a resistência e todas as forças anti-americanas. Para fazê-lo os Estados Unidos apoiar-se-ão em duas bases • A primeira, libanesa interna, aumentar a pressão sobre a Resistência, para que entregue as armas e retorne à posição "política". • A segunda, internacional, através de forças internacionais no Líbano, às quais seria "pedido" que executassem tarefas não estipuladas na resolução 1701, a qual poderia ser emendada, ou até mesmo alterada, na sequência do relatório do senhor Kofi Anan, no sentido dos interesses israelenses apenas. Conclusão O Líbano e a região árabe (e médio-oriental) encontram-se perante novos desenvolvimentos que, segundo o fracasso ou sucesso do projecto americano, poderão trazer mudanças qualitativas às próximas décadas. É portanto necessário, senão mesmo obrigatório, para todas as forças políticas libanesas que fazem frente desde 1982 ao projecto americano, aproveitar o actual período de tréguas para estudar a situação vindoura e preparar um plano que lhe possa fazer frente. O primeiro passo nesse sentido consiste em fazer uma análise de todo o período precedente, sobretudo a seguir à libertação da faixa fronteiriça sul em 25 de Maio de 2000, e fazê-lo em todos os planos: a situação socio-económica, a participação das forças políticas na resolução desses problemas, a oposição aos projectos de reatar ao movimento popular as poucas conquistas que já alcançou e, sobretudo, as ideias sobre a mudança democrática e o plano que permita a sua realização. Esta revisão precisa de um estudo rigoroso dos planos político e socio-económico aplicados pelo governo de Fuad Saniura, e, em primeiro lugar, das eleições legislativas e de todos os projectos apresentados com o objectivo de alterar a lei eleitoral em vigor no Líbano e de levar a cabo verdadeiras (para não dizer radicais) reformas no seio do regime político libanês. Porque, o que nós exigimos, é fazer avançar os "entendimentos" que tiveram lugar até agora entre as diversas forças da oposição no sentido dum programa comum que possa lucrar da vitória da Resistência e de todos os sacrifícios do povo libanês e construir a "pátria" libanesa libertada de todas as facções e divisões, sobretudo no plano confessional; divisões que, após 1975 (para não dizer: após a Comuna de Antelias, em meados do século XIX), enfraqueceram o Líbano e permitiram todo o tipo de tutelas sobre o seu povo. O que buscamos é um Líbano independente e soberano, livre de todas as tutelas, recentes ou antigas. Um Líbano árabe, e não apenas em palavras. Um Líbano para as massas trabalhadoras, tanto das cidades como dos campos. Um Líbano dos Direitos do Homem, onde a discriminação esteja ausente, sobretudo em relação às mulheres. Enfim, um Líbano onde os jovens, os intelectuais e os criadores possam produzir com toda a liberdade… É assim que nós vemos a Resistência contra Israel e os seus protectores nos Estados Unidos… É assim que nós aprendemos a resistir, tanto na Resistência nacional como na islâmica. E se usamos tais qualificações, não é para diferenciar entre as resistências. Para nós não há nenhuma diferença entre todos os que lutam pela liberdade, qualquer que seja a ideologia que perfilhem.
Marie Nassif-Debs
http://resistir.info/

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