quarta-feira, outubro 18, 2006

Terrorismo

Estava escrito que o terror havia de voltar. Não havia volta a dar-lhe. E voltou, cumprindo-se a profecia dos inúmeros profetas modernos a quem é de bom-tom chamar “especialistas.” Sempre lhes confere uma aura mais credível. Especialista é alguém impecavelmente vestido e sisudo q.b. a debitar opiniões num noticiário televisivo. Profeta invoca imagens de velhos barbudos e andrajosos a vociferar ameaças crípticas do alto de penedos. Estamos melhor com os especialistas.
E ponham-se de parte as desconfianças. É verdade que o mundo foi aprendendo ao longo dos últimos anos a não confiar cegamente em nada do que emana dos governos dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha. Tivemos já várias ocasiões concretas em que ficou provado que não podemos fazê-lo (lembre-se quando fomos informados de que a guerra no Iraque tinha acabado ou, ainda antes, quando Colin Powell foi à ONU mostrar as armas de destruição maciça de Saddam Hussein). Isso é bom senso. O mesmo bom senso que nos leva a pensar que George Bush, Tony Blair e companhia talvez (sublinhe-se o “talvez”) tenham motivos mais ou menos escondidos para manter o mundo num clima de medo e em alerta para uma ameaça global cuja existência ou inexistência não pode ser provada por ninguém, à espera de um inimigo que está, simultaneamente, em todo o lado e em parte alguma.
Mas até o bom senso tem limites. Vamos a uma metáfora campestre. Se, na capoeira, uma das galinhas se põe a cacarejar porque viu uma raposa, as outras desatam numa correria desvairada, fazendo os possíveis para subirem aos poleiros mais altos. Mesmo que a raposa fosse apenas uma sombra inofensiva. Ou que a galinha que deu o alerta quisesse subir nas sondagens ou tivesse negócios multimilionários com fabricantes de armas e companhias petrolíferas. E nós, tal como as galinhas, temos uma grande capacidade para esquecer o bom senso quando o que está em causa é a integridade física da nossa crista.
Além disso, trata-se da Scotland Yard e não de uma ave de capoeira, o que confere confiança acrescida. E a polícia britânica não costuma cometer erros (exceptuando o abate ocasional de fundamentalistas islâmicos que, afinal, eram brasileiros atrasados para o trabalho). Se foi desmantelada uma conspiração internacional que provocaria milhares de mortos e se foram presos 24 suspeitos, o mundo aplaude, agradecido. Continuem a zelar por nós e protejam-nos das sombras malvadas.
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Com tudo isto, veio a necessária alteração nas regras dos voos comerciais. A partir de agora, de forma temporária, as autoridades britânicas restringiram severamente os itens que podem ser incluídos na bagagem de mão. Mas talvez não tenham ido tão longe quanto deveriam. A saber:
-Os objectos têm de ser transportados em sacos de plástico (de preferência transparentes). As malas e mochilas são proibidas. Muito sensato. É relativamente fácil enfiar a cabeça de alguém dentro de uma mochila, selá-la com adesivo e esperar algumas horas até que morra por asfixia. Os sacos transparentes permitem a identificação do assassino o que dificulta as coisas aos malfeitores que procurem usá-los para o mesmo fim.
-Os líquidos passam a ser proibidos para evitar o transporte para a cabine de explosivos líquidos ou ingredientes que permitam fabricá-los. Pelo mesmo motivo, não é permitido trazer para bordo conjuntos de química para crianças e os passageiros que forem apanhados a manusear tubos de ensaio e bicos de gás poderão ser detidos. As soluções para lentes de contacto estão proibidas e o leite para bebés tem de ser provado por um adulto. Mas não se pode ficar por aqui. As mães em aleitamento deverão ser submetidas a um processo de ordenha preventiva para assegurar que não transportam nitroglicerina. Os diabéticos podem levar a sua insulina mas é preciso cuidado. Devem ser vigiados constantemente para assegurar que não a injectam em alguém, podendo provocar morte por hipoglicemia.
-Os medicamentos receitados são permitidos mas apenas depois de se confirmar que são reais. Por exemplo, os comprimidos terão de ser tomados um a um antes do embarque para garantir que não são explosivos disfarçados.
-É permitido levar óculos graduados ou de sol. E não devia ser. Custa a crer que algo tão óbvio tenha escapado aos especialistas em segurança aérea porque as lentes poderão ser usadas em conjunção com a luz solar para provocar pequenos incêndios.
-Os itens de higiene feminina como tampões e pensos higiénicos poderão ser levados para bordo mas fora das caixas respectivas e apenas em quantidade suficiente para a duração do voo. É bom ver que não se esqueceu o incidente de Islamabad em 2004, quando um passageiro tentou accionar um engenho explosivo fabricado com vários tampões e detonado pela bateria de um telemóvel. E acrescente-se que os tampões eram de grande absorção.
-Passa a ser proibido levar aparelhos electrónicos para bordo, já que a bateria dos mesmos pode ser facilmente convertida em detonador. Tão facilmente como uma lesma pode ser convertida em arma ofensiva, bastando apenas secá-la ao sol, revesti-la com aço e afiar as extremidades.
Mas não podemos ficar por aqui. Porque qualquer coisa é passível de ser usada para fins nefastos e porque nunca se sabe quando o passageiro do lado está a misturar sub-repticiamente os ingredientes de um explosivo líquido e a aplicar-lhes um detonador, o melhor é mesmo transportar apenas passageiros nus e adormecidos por tranquilizantes.É para o bem comum.
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