sexta-feira, novembro 10, 2006

China: Do analfabeto rural ao licenciado urbano

Banguecoque – A vida não é fácil para muitos estudantes na China, especialmente se voltam a falhar os exames de entrada para as universidades mais prestigiadas. Para aqueles sem conhecimentos, um curso superior numa universidade de topo é a única esperança de entrar num mercado de trabalho já saturado de licenciados.
Estatísticas governamentais indicam que este ano haverá cerca de 4.1 milhões de licenciados a perseguir 1.4 milhões de empregos que não requerem uma instrução muito qualificada. Razão pela qual existem tantos cientistas e engenheiros preparados para exercerem as suas funções por menores remunerações na China, um factor que os investidores estrangeiros consideram bastante atractivo.
Certamente não seria o que Pequim tinha em mente quando em 1998 houve a preocupação da economia estar a ultrapassar a oferta do número de contabilistas, banqueiros, engenheiros e investigadores. Para aumentar o número de qualificados, Pequim abriu portas para que o sector privado pudesse abrir mais faculdades.
Contudo, Pequim ou não estimou correctamente a procura para as licenciaturas ou falhou no controlo das licenças das novas escolas, especialmente no mundo rural onde muitos estariam ansiosos por novas oportunidades e pudessem conseguir algum dinheiro extra.
Para facilitar a carga de regulamentação sobre o Ministério da Educação, as novas faculdades seriam apenas reconhecidas se fizessem parceria com uma universidade de renome. Embora a nível burocrático parecesse correcto e fizesse sentido, na prática esta medida estava destinada ao abuso.
As escolas privadas de custos mais elevados cresceram rapidamente enquanto empresários e universidades se uniram para conseguir o dinheiro dos milhões desesperados por um diploma de uma escola superior. Certamente nem todas as faculdades privadas e universidades abusaram do sistema ou permitiram deliberadamente o baixar dos padrões da qualidade de ensino para que o dinheiro entrasse, no entanto foram as suficientes para causar problemas.
A educação mais qualificada tornava-se algo comercial, podendo qualquer um ter acesso a ela desde que pudesse pagar por isso. Quem contratava, interessava saber a reputação da instituição que o empregado em questão frequentara. Para aqueles que se empenharam para serem aprovados nos exames de acesso à universidade, foi bastante desencorajador ver o bom nome da sua escola ser banalizado desta forma.
Em 2003, Pequim declarou que as faculdades privadas teriam que utilizar não só o nome da universidade a elas afiliada nos seus prémios mas também deixar isto claro aos seus futuros alunos. Algumas fizeram-no, outras não.
Este “deslize” tornado público o ano passado não foi bem aceite pelos estudantes, que exigem pelo menos o reembolso de parte das altas propinas que tiveram que pagar, visto que para muitos o pagamento de um diploma numa destas universidades é o significado de um grande endividamento por parte dos pais.
Como reflexo deste descontentamento tem havido mobilizações ilegais, manifestações e alguns conflitos de menor dimensão em faculdades por todo o país envolvendo até 10.000 estudantes, incluindo duas escolas em Nanchang, capital da província de Jiangxi no sul da China, a 23 de Outubro.
A televisão estatal acusou a Universidade, “Clothing Vocational College” de Nanchang de oferecer diplomas a mais de 20,000 alunos. No entanto, esta notícia não evitou o “Diário da China” de publicar um artigo acerca dos distúrbios, sublinhando a sensibilidade das autoridades pelo protesto estudantil. Pequim teme assim que os estudantes indignados possam ser a faísca intelectual que incendeie o descontentamento das restantes massas menos qualificadas.
Foram também relatados movimentos semelhantes em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China Central, decorrendo um Junho abrasador enquanto muitos estudantes assistiam avidamente ao campeonato do Mundo de Futebol, um evento que muito atrai o jogo de apostas. Também em Dalian na província de Liaoning, em Dezembro, os estudantes emergiram em fúria quando lhes foi comunicado que os seus certificados seriam alterados para que pudessem ser distinguidos daqueles concedidos pela universidade.
No entanto também outros motivos causaram o descontentamento e manifestação dos estudantes, como a morte suspeita de um professor, movimentos étnicos, abuso policial, e cortes de energia durante a Taça do Mundo de Futebol. Para além destes, também outros casos que não são relatados terão sucedido visto que a comunicação social está proibida de informar sobre violência dentro dos campus Universitários.
A polícia e os órgãos oficiais das universidades acusam os estudantes de actos de vandalismo nos seus dormitórios e faculdades, e de tumultos nas ruas locais. Os estudantes por sua vez defendem-se apontando o dedo aos mais desfavorecidos que aproveitam a decorrente situação para pilhar e vandalizar. Haverá em ambos os lados um fundo de verdade.
No entanto o descontentamento continua a fervilhar pois as pessoas vêem escassa a perspectiva das coisas se alterarem através dos tribunais ou das autoridades locais. A enorme corrupção que existe é uma das razões pela qual os órgãos de justiça não funcionam, outra é a lenta transição da China de uma sociedade governada por uma ditadura para um estado de direito. O que é perceptível pois a criação de novas leis e de pessoas que as executem exige o seu tempo. No entanto as pessoas encontram-se cada vez mais saturadas com a longa espera.
Os estudantes, no entanto são também um grupo bastante exigente. São na maioria “filhos únicos”. Muitos seriam, sem dúvida, mimados por pais e avós protectores. Por alguma razão são chamados de “pequenos imperadores”. Além disso, foram educados num período de constantes transformações e de perspectivas de vida rapidamente satisfeitas.
À situação decorrente, Pequim reagiu apontando às autoridades que indicassem melhor as regras estabelecidas aos estudantes. Em Maio foi anunciado que os certificados das escolas técnicas e das escolas secundárias teriam uma maior importância, para aliviar a pressão que se sentia para entrar na universidade e cortar as inscrições nas faculdades privadas.
Um diploma de uma universidade é uma fonte de orgulho e respeito dentro das famílias chinesas, especialmente aquelas da classe trabalhadora, que desejam que os seus “pequenos imperadores” se tornem em “pequenos mandarins”. Além disso, nos dias que correm, o valor das qualificações de cada um já não é decidido pelo Partido Comunista, mas sim, pelas exigências do mercado de trabalho.
A economia da China não vai, apesar do rápido crescimento, conseguir criar suficientes empregos que requerem uma educação pouco qualificada. Entretanto, muitos licenciados terão que se contentar com um simples emprego no Starbucks* local, com as suas expectativas fracassadas a serem a dor de cabeça da “harmoniosa sociedade” de Hu Jintao.

* Starbucks é a empresa multinacional com a maior cadeia de cafeterias do mundo.
David Fullbrook
Tradução de Bernardo Trindade
http://www.atimes.com/atimes/China/HK04Ad01.html

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